CONCEPÇÃO, CONTO EM PROGRESSO

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Concepção é um conto de ficção científica de pouco mais de 4 mil palavras. É sobre um casal que terá um wonder, um criança superdotada, em um nível nunca antes testemunhado pela humanidade. É um tema batido, quase desisti de terminar a história, mas acho que encontrei uma maneira de torná-la interessante. A narrativa já está solucionada, desenvolvimento de trama e de personagens. Agora estou cuidando da parte científica, pesquisando e perguntando a pessoas de determinadas áreas. Quero especular, inventar, a partir do que se já conhece sobre tópicos como desenvolvimento do cérebro, bioinformática, hackativismo e outros.

Leiam um trecho do conto:

Sua mãe deu um grito.
Fui correndo socorrê-la.
Ela tinha batido o joelho na porta da suíte.
Levei-a de volta para a cama e me deitei também. Enfiei minha mão por dentro de sua blusa. Comecei a acariciar a barriga já saliente.
“Quando é que a gente vai contar às pessoas, aos meus pais, aos seus?”, perguntou sua mãe, num tom manso, quase inaudível.
Respirei fundo.
“Acho que a gente não deve dizer nada por enquanto.”
“Não contar a ninguém?”, ela elevou um pouco a voz.
“Isso.”
“Até quando?”
“Não sei.”
Ficamos em silêncio por algum tempo.
Então eu perguntei:
“E como você está, de verdade?”
“Com medo…”
Resolvemos sair de casa. Sua mãe queria muito isso. Ela queria se distrair, talvez até dar algumas risadas. Principalmente, ela queria deixar o resto da conversa para depois.
Enquanto nos arrumávamos, eu a vi trocar de roupa, pentear o cabelo, passar uma maquiagem leve. Tentei me colocar no lugar dela. Ela achava que existia o que dentro de sua barriga? Uma bênção além de suas forças? Um projeto de monstro?
Desculpe se falo nestes termos, mas quero ser o mais sincero possível. Acho que você seria o primeiro a entender.

ELA NÃO DANÇA

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Passava das duas da madrugada e Max estava atento. Mesmo na escuridão da boate, ele não tinha como fechar os olhos, pegar no sono. O barulho, as luzes coloridas e a movimentação ao redor o mantinham desperto.

A loira seminua dançando no palco não lhe interessava. Assim como nenhuma das outras garotas espalhadas pelo lugar, usando shortinhos, tops, microssaias e vestidos curtíssimos. Max sempre observava os clientes.

Max não o tinha visto chegar à boate. Mas logo notou sua presença. Caminhou do lado mais escuro do palco até o bar. Queria observar melhor aquele homem de cara fechada.

Era um homem branco de idade indefinida. Seu cabelo grisalho era comprido o bastante para esconder as orelhas. O rosto barbeado era estreito, o queixo saliente. Ele usava uma camisa branca de botões e mangas curtas, calça branca e mocassins amarelos.

Max parou num ponto recuado entre o bar e os banheiros.

O homem de branco estava distante, atrás de uma mesinha redonda de vidro. Ele estava sentado num longo sofá de couro, colado à parede espelhada. O braço esquerdo permanecia estendido na parte alta do sofá. A mão direita pousada na perna.

Um garçom foi até a mesa. O homem de branco fez seu pedido. Max tinha certeza de que as palavras saídas da sua boca foram whiskey e ice.

Não havia dúvida: o cara era gringo. Mas de qual nacionalidade?

Max já vira por ali todo tipo de estrangeiro. Geralmente apareciam americanos, alemães, espanhóis, argentinos, italianos. Às vezes, algo mais raro como israelenses, sul-africanos, chineses. Nem sempre Max conseguia acertar a nacionalidade pela fisionomia, sotaque ou jeito de se comportar dos clientes. A maioria falava num inglês carregado, confundindo-o. E as aparências enganavam. Certa vez, só no olho, Max tomou um jovem inglês de ascendência paquistanesa por indiano. Nestes casos, ele recorria às informações das garotas, numa conversa fiada ou com perguntas mais diretas, antes, durante ou depois do expediente.

Em relação à nacionalidade do homem de branco, Max não podia dizer muita coisa. Talvez ele fosse do Leste Europeu.

O garçom retornou à mesa, tirando da bandeja que carregava um copo de uísque. O homem de branco falou o que pareceu a Max ser um obrigado em português.

Max notou também outros dois clientes. Eram bem mais jovens. Brancos. Caras de gringo. Um estava sentado em outra mesa, mais próximo do homem de branco. Vestia calça social e uma camisa estampada de botões para fora da cintura. O outro sujeito estava sentado numa mesa mais longe do homem de branco. Vestia calça jeans preta e uma camisa polo preta para fora da cintura.

O cara de preto estava de costas para Max. Mas Max podia ver o rosto do gringo pela parede espelhada. Já o cara de camisa estampada, ele podia ver frente a frente. Os dois gringos varriam a boate com a cabeça e os olhos. Com certeza, eram guarda-costas do homem de branco. Num curto espaço de tempo, o olhar de Max e o do cara de camisa estampada se encontraram duas vezes. Antipatia à primeira e à segunda vista.

Nenhum dos três gringos podia estar armado. A revista na portaria era rigorosa, com detector de metais e tudo. Armas de fogo e armas brancas eram totalmente proibidas dentro da boate. A mesma regra valia para funcionários e clientes. Até mesmo Jonas, um dos seguranças, precisava guardar sua arma de policial no cofre da gerência.

A boate não era grande. Sempre ficavam dois seguranças no lado de dentro e dois na portaria.

Max viu uma garota parada na frente do homem de branco. O nome dela era Kátia. Ela era negra e usava megahair. O sorriso dela derrubava qualquer um. Ainda mais os gringos. Brasileiro ia à boate atrás de garotas brancas. Os gringos procuravam garotas negras.

O homem de branco abriu um sorriso discreto com os lábios apertados. Convidou Kátia para sentar com um gesto. Ela sentou ao lado dele.

Os outros dois gringos assistiam a tudo. O cara de camisa estampada tinha pedido refrigerante. O cara de preto, água mineral. Os dois recusavam qualquer aproximação das garotas.

Max viu uma garota negra de cabelo curto entrar na boate. Ela usava um vestidinho verde apertado. Calçava sapatos baixos. Carregava nas costas uma mochila de náilon, parecendo um saco. Usava luvas cirúrgicas… E segurava uma pistola com silenciador, colada à coxa.

Ela apontou a arma para o homem de branco. Ele fez cara de bobo. Ela deu um tiro em seu peito, sujando a camisa branca de sangue.

Kátia gritou.

Depois a garota de vestido verde apontou a arma para o peito do cara de camisa estampada. Ele também fez cara de bobo. Ela atirou.

Ela se virou à procura do cara de preto. Ele não estava à vista.

Caos total. Gritos e mais gritos. Correria. Gente se jogando no chão. Indo para os banheiros. Saindo pela porta da boate.

A música alta e as luzes piscando só pioravam as coisas.

Max ficou paralisado. Assim como Jonas, do outro lado da boate.

A garota de vestido verde foi até um cliente, um homem negro que estava deitado no chão. Deu um tiro em sua cabeça. A garota que estava deitada ao lado dele deu um grito, mas continuou com o rosto voltado para o chão.

A garota de vestido verde tirou a mochila das costas, guardou a arma e recolocou a mochila. Saiu da boate empurrando quem estava pelo caminho.

Naquela madrugada, ela tinha matado cinco homens. Os primeiros foram os dois seguranças da portaria. Tiro no peito. No momento, os gritos lá fora não tinham sido ouvidos dentro da boate.

Horas depois, o caso apareceu nos telejornais e na internet. O homem de branco era um empresário francês procurado pela Interpol. Ele estava envolvido em esquemas contra o sistema financeiro europeu. O cliente negro era dono de uma loja de celulares na Avenida Sete com uma longa ficha criminal. A polícia suspeitava de que o cliente negro era parceiro da atiradora, sendo eliminado como queima de arquivo. Não havia pistas sobre o paradeiro dela.

Max sonhou com a garota de vestido verde por noites e noites.

VALE PELA ARTE INCRÍVEL

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Adaptação para os quadrinhos do anti-herói Elric, criado por Michael Moorcock. O mérito da obra fica para a arte, com certeza, a melhor representação visual desse universo, onde magia, crueldade, beleza e o bizarro se misturam, em imagens de cair o queixo, inclusive para quem é acostumado a ler quadrinhos de fantasia. Já o roteiro é fraquinho, seguindo quase fielmente os primeiros capítulos do romance Elric of Melniboné.

Infelizmente, é uma adaptação curta e apressada, cortando muita coisa do material de origem. Nem sempre a versão em quadrinhos de um universo literário deve ser óbvio, sem surpresas para quem já conhece a fonte. Por exemplo, o roteirista Roy Thomas fez um belíssimo trabalho adaptando os contos de Conan, de Robert E. Howard, passando o vigor e a crueza do mundo do bárbaro, deleitando os fãs dos contos por ver seu herói em carne e osso.

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O mesmo não acontece com este Elric. Visualmente, ele é magnífico, mas está aquém de fazer justiça como representação do texto de Moorcock. Não passa o clima de fantasia subversiva, que inverte vários tropos do subgênero Espada e Magia.

Mesmo que seja o primeiro volume de uma série, ficou a sensação de obra incompleta além da conta, sem criar muita expectativa para o próximo número.

Elric, The Ruby Throne, de Julien Blondel, Robin Recht e Didier Poli, 64 págs., Titan.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

ANTES DE JOGOS VORAZES

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Depois de ler os 15 volumes deste mangá já clássico, posso dizer que o investimento de tempo e de grana valeram a pena. A obra satisfaz mais do que decepciona.

É uma narrativa longa, mas que desperdiça poucas páginas com material ruim. Os elementos que de fato prendem o leitor são o desenvolvimento dos personagens, por meio de vários pontos de vistas e flashbacks, e o suspense, cheio de reviravoltas e ganchos muito eficientes.

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O casamento entre ilustrações e texto é impressionante, principalmente, nas cenas de ação, numa dinâmica de cinema, quadro a quadro, podendo se estender por páginas e páginas até uma conclusão impactante.

Muitos podem reconhecer uma estrutura narrativa semelhante a de séries de TV americanas, como Lost. Além do tom distópico de batalha até a morte entre adolescentes dos romances e filmes da franquia Jogos Vorazes. Mas Battle Royale veio antes de tudo isso. Foi publicado no Japão, no início dos anos 2000, baseado num romance escrito pelo roteirista do mangá, nos anos 90.

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A decepção fica por conta do machismo que sexualiza e coloca em segundo plano várias personagens femininas, até as mais fortes física e emocionalmente. E há o melodrama típico de muitas produções da cultura pop japonesa, um romantismo bem conservador.

Apesar desses problemas, Battle Royale é uma das mais incríveis narrativas de suspense e ação que já li.

Battle Royale, de  Koushun Takami e Masayuki Taguchi, 15 volumes, Conrad e TokyoPop.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

FILME DE FANTASIA COM SAMURAIS

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Conto de fantasia, inspirado na cultura japonesa. Seu maior mérito é o ritmo. Mesmo que pareça alucinado em certas passagens, a prosa ágil cabe bem num texto curto como este. Mas existem momentos de calmaria, em que os personagens tomam fôlego para recuperar-se das batalhas e refletir melhor sobre suas motivações.

O maior problema do conto é a dispersão, os muitos pontos de vista, que confundem o leitor e tiram força do desenvolvimento dos personagens. Se os mesmos eventos fossem contados pelo ótica de um ou dois deles, no máximo, traria mais foco à trama. Faria com que o leitor se importasse mais com os protagonistas.

É uma leitura que vale a pena para conhecermos um autor com potencial para contar histórias empolgantes.

O filho de Kobyo, de Rodrigo van Kampen, 25 págs., Draco.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

A TERRÍVEL VERDADE

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Este é um suspense muito tenso. É um daqueles livros que você não consegue parar de ler. O autor é muito competente na maneira como elabora sua narrativa.

O protagonista é bem desenvolvido, com uma profundidade psicológica satisfatória. Mesmo sendo alguém imperfeito, queremos acompanhá-lo nessa trama estranha e ambígua. O agente Ethan Burke sofre horrores, mas mostra muita determinação para descobrir o que está acontecendo. Os outros personagens são decentes, cada um cumpre sua função na trama.

O ritmo do texto é geralmente ágil, mas os detalhes que dão verossimilhança a este mundo estão lá. A cada página, os mistérios e as bizarrices se acumulam. Você tenta adivinhar do que se trata, mas nunca tem certeza. Quando chegamos ao último capítulo, tudo é revelado. E faz sentido dentro da lógica interna do romance. Eu adivinhei o grande segredo da trama algumas páginas antes. Porém tive que ler quase o livro inteiro para tirar minhas próprias conclusões.

O romance é uma mistura de referências  a séries de TV, como Lost, Arquivo X e, principalmente, Twin Peaks, com alguma originalidade do autor. Se você não levar o desfecho muito a sério, se considerar a coisa toda mais como uma metáfora da condição humana, do que ciência propriamente dita, Pines é uma leitura divertida, uma aula de como escrever um suspense.

E fujam da série da Fox, Wayward Pines. É uma produção bem fraquinha, chocantemente amadora para os padrões americanos. Trata o material de origem de maneira muito rasa, sem a sutileza e o ritmo acertado do livro.

Pines faz parte de uma trilogia, seguido de Wayward e The Last Town. Vamos ver se teremos, nos próximos volumes, algumas explicações importantes que ficaram faltando a respeito da infraestrutura da cidade, de como ela funciona pela perspectiva dos moradores.

Pines, de Blake Crouch, 340 págs., Planeta.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

O TERROR NA INTIMIDADE

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Livro de contos para quem busca uma abordagem menos convencional do terror. É notório que a autora é fã do gênero. Inclusive, já traduziu e organizou antologias de Ambrose Bierce e Algernon Blackwood.

Os leitores acostumados a muito sangue, violência explícita e explicações no desfecho podem ficar decepcionados. O terror aqui pode ou não ser fruto do sobrenatural. A loucura, o delírio, o sonho, o pesadelo, a doença, o medo são mostrados, muitas vezes, de maneira oblíqua, por meio de impressões e incertezas.

No geral, o efeito das histórias é irregular. Algumas são conduzidas numa tensão de tirar o fôlego, terminando de forma sublime. Outras histórias são mais como exercícios de estilo e voz, que perdem muito da força pela narrativa ser arrastada ou frágil demais.

A poesia da prosa é, em geral, marcante, mas, em alguns momentos, a linha fica tênue entre o lírico e o rebuscado. Recomendo a leitura por ser um livro nacional muito bem escrito e corajoso por tentar quebrar a barreira entre a chamada alta literatura e o terror.

Pente de Vênus e novas histórias do amor assombrado, de Heloisa Seixas, 364 págs., Record.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE