MAIS UMA COLETÂNEA CHEGANDO

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Mais uma coletânea chegando, galera! Em meu conto Óculos escuros, um dia de sol, de praia, torna-se cenário de uma história sinistra.  Muito orgulho de fazer parte desse time fantástico de autores. Para ler a edição em e-book, com essa capa belíssima e uma diagramação cheia de mimos, é só clicar na imagem.

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UM ALERTA URGENTE A FAVOR DA DEMOCRACIA

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Nesses tempos de ameaça à democracia (e mesmo que o sempre afiado Vladimir Safatle diga que vivemos, na verdade, numa república oligárquica), O Ódio como Política é um livro que convida para uma reflexão urgente. Composto de textos curtos, introdutórios para obras de maior fôlego, o livro serve muito bem como um alerta sobre quem comanda de fato o destino do país.

A esquerda errou, o PT errou. Mas o que os neoliberais e protofascistas sempre pretenderam foi criar uma manada de consumidores ávidos e eleitores confusos. Em nome da ordem e do progresso investem numa visão de mundo excludente e rasa, na qual o livre pensamento tem limite e os preconceitos são combustível para a prática de barbaridades institucionais, psicológicas e físicas.

O Ódio como Política não trata os conservadores de maneira simplista. A simplicação apenas joga uma cortina de fumaça que retarda uma melhor compreensão de quem são os eleitores de Bolsonaro, por exemplo. Há os extremistas que estão fechados com seu líder, dispostos a derramar sangue nas ruas por uma ideologia nefasta. Há os oportunistas, que buscam ganhar dinheiro, cargos em empresas e eleitores. Mas há também muita gente frustrada com os rumos da política tradicional, que perdeu o emprego, o poder de compra, o status social, inclusive petistas de carteirinha, convertidos ao bolsonarismo. O eleitor protofascista do Coiso é coerente em seu discurso do ódio. O eleitor médio dele, não, tornando-se uma contradição ambulante. Há gay, negros e mulheres que o apoiam. Porém há evangélicos que o desprezam.

Bolsonaro é um avatar de forças econômicas maiores. Institutos neoliberais com um verniz democrático, de livre mercado, como Mises e Ethos, promovem sistematicamente uma doutrina falaciosa, enaltecendo a meritocracia e o esforço individual, contrários à organização coletiva da sociedade. Ao mesmo tempo, políticas governamentais de austeridade fragilizam os serviços públicos, levando a população, acuada, a recorrer às alternativas oferecidas pela iniciativa privada. As estruturas judiciárias mantêm, desde a escravidão, seu ranço histórico de “naturalização da desigualdade e da hierarquização das pessoas”, produzindo decisões midiáticas e populistas, geralmente, contra o direito do cidadão “comum”.

O problema não é só Bolsonaro. Ele é um sintoma de nossas injustiças e mazelas jogadas para debaixo do tapete por décadas e que agora veio cobrar o preço pelo o que não fizemos, não corrigimos, sob a forma de uma espécie de “ditadura voluntária”. A versão em e-book de O Ódio como Política pode ser lida gratuitamente até o fim do 2º turno.

O Ódio como Política, org. Esther Solano, 180 págs., Boitempo.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

ENTRE A BELEZA E A BRUTALIDADE

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Se você vai assistir a You Were Never Really Here pensando em se divertir com mais um filme de ação, pode dar meia volta. A diretora e roteirista escocesa Lynne Ramsay pega todos os clichês dos filmes policiais e joga pela janela. Ela evita glamourizar o derramamento de sangue e mostra que outros tipos de violência podem ser mais cruéis.

Mais do que qualquer outra coisa, esse filme curto e tenso é um estudo da personalidade perturbada de seu protagonista, o ex-soldado, ex-agente do FBI e agora matador de aluguel Joe, numa interpretação soberba de Joaquin Phoenix. Contudo, You Were Never Really Here não é uma daquelas produções independentes preguiçosas que se concentram apenas na performance de um grande ator ou atriz. O filme é tecnicamente perfeito e as soluções narrativas, visuais e sonoras orquestradas por Ramsay são a outra força dessa espécie de conto de fadas, ao mesmo tempo, tocante e brutal.

A todo momento há uma variação entre cenas delicadas, de interações humanas afetuosas, com a mais pura violência, seja física, psicológica ou simbólica. A narrativa é um quebra-cabeça, um jogo proposto pela diretora para fazer o espectador pensar. Há peças faltando e cabe a nós preenchê-las.

Montagem e fotografia são elusivas, sugerem mais do que mostram. O som é outro personagem. A trilha sonora do guitarrista do Radiohead Jonny Greewood soube captar muito bem a atmosfera oscilante com cordas, percussão e batidas eletrônicas, compondo uma música ora suave, onírica, ora nervosa, em clima de pesadelo. A edição de som é incrível ao transformar cada som captado (programas de televisão, pessoas falando, veículos passando, a natureza, barulhos da cidade, tiros) em mais um elemento dramático.

Para quem se apaixonar pelo filme, recomendo a leitura da novela de mesmo nome, escrita por Jonathan Ames. É um interessante complemento para conhecer melhor o passado e as motivações dos personagens. O filme não é adaptação tão fiel. Inclusive, considero este mais um raro caso em que o filme é melhor do que o livro. O final elaborado por Ramsay é o último tampa na cara dessa obra-prima.

You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay, 90 min., Film4 e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

You Were Never Really Here, de Jonathan Ames, 100 págs., Vintage.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

 

IT´S ALIVE! IT´S ALIVE!

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Este livro é uma apaixonada defesa do romance realista. Com muita elegância e propriedade, num texto acessível, mas rigoroso, Wood rebate a ideia de que o realismo na ficção vai mal das pernas já há algum tempo. Ele tenta provar isso, analisando a origem do realismo moderno, com a revolução literária promovida por Flaubert, até os dias atuais, separando o que ele considera o joio do trigo, ou seja, os autores que evoluíram o conceito de realismo na literatura e os que se tornaram meros mimetizadores da realidade.

Para Wood, o realismo literário não é uma cópia da vida real, mas uma recriação, uma seleção de detalhes e modos de dizer que estimulam o leitor a (re)imaginar essa realidade. Por isso, para ele, a musicalidade da prosa, a profundidade dos personagens e a maneira de o escritor-narrador se inserir no texto, enfim, a atmosfera ficcional, são mais importantes do que a trama. Nesse sentido, a melhor literatura é aquela que discorre sobre o mundo real de uma forma arrojada e viva, dando-lhe outro significado.

Wood defende sua tese muito bem. Há reflexões essenciais sobre o discurso indireto livre (um dos pontos altos do livro), onisciência do narrador, cuidado com a linguagem, funções do diálogo e a importância do detalhe. Pensamentos úteis para qualquer um aprimorar sua escrita, inclusive, autores de terror, fantasia, ficção científica e policial. Contudo, o problema na visão de mundo de Wood é a falta de generosidade.

Ao terminar Como Funciona a Ficção, fica claro, mesmo que Wood não diga isso explicitamente, que ler literatura de gênero é uma perda de tempo. Porque há autores mais interessantes para o leitor se dedicar. Autores mais exigentes , que proporcionam uma recompensa estética e filosófica mais enriquecedora. Mesmo que, por exemplo, Wood reconheça John le Carré como um autor de suspense acima da média, ainda assim seus romances de espionagem, com personagens e tramas complexas, ficariam devendo em relação à linguagem, considerada convencional.

Essa má vontade de Wood tira um pouco do brilho de Como Funciona a Ficção. Mas naquilo em que autor se propõe, ou seja, provar ao leitor a importância da ficção realista, ele é tão bem sucedido que transformou seu livro numa leitura obrigatória.

Como Funciona a Ficção, de James Wood, 232 págs., SESI-SP.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE

O PREÇO DO FIM DO NAZISMO

1945

Radiografia da vida privada e pública logo após a 2ª Guerra Mundial. Acompanhamos as implicações políticas, administrativas e econômicas que afetaram o rumo de países vitoriosos e derrotados por meio do cotidiano de sua gente. Em muitas passagens, acompanhamos um retrato mais íntimo desses personagens históricos. Então temos contato com comportamentos tanto nobres como sórdidos. Estupros, racismo, xenofobia, mas também a redefinição do papel da mulher, no ocidente e no oriente.

Este livro mostra como de fato a 2ª Guerra Mundial afetou praticamente todos os povos do planeta, uns mais diretamente do que outros. E reforça o drama vivido não só pela Europa, palco principal do conflito, mas em outras regiões, como o Oriente Médio e o Sudeste Asiático. A 2ª Guerra foi o ápice de uma série de disputas políticas e econômicas, de há pelo menos um século, envolvendo potências europeias e suas colônias. No fim da Guerra, houve um sentimento de alívio, tanto das autoridades internacionais como de populações massacradas, mas também foi o começo de um período conturbado.

A Guerra Fria entre EUA e União Soviética se tornou evidente. As colônicas europeias gritavam por independência. Aconteceram vinganças e retaliações, nem sempre justificáveis. A vida ainda era difícil para muita gente, e cada um se virava como podia, inclusive por meio da prostituição e do contrabando. Heróis de guerra foram traídos, presos e executados. Militares japoneses e nazistas, assim como empresários simpatizantes do Eixo, foram poupados para ajudar a reerguer a economia e a infra-estrutura da Europa e do Japão. A triste ironia da derrota do nazismo foi que abriram uma caixa de Pandora, que resultou na Guerra da Coreia e na divisão do país em Norte e Sul, na Guerra do Vietnã, na Guerra da Síria etc.

Buruma avalia que houve uma sincera vontade de muitos líderes, principalmente, americanos e europeus, em aproveitar o fim da 2ª Guerra para também promover uma “reconstrução moral”, com a criação da ONU, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, do estado de bem-estar social, de instituições mais sólidas que garantisse uma nova era de prosperidade e fraternidade. Mas tudo isso acabou disputando espaço com a realidade, com o que há de pior no ser humano, tanto em relação aos poderosos quanto ao chamado cidadão comum. A partir de 1945, houve conquistas significativas, e não só os europeus e americanos as usufruíram, num sentindo amplo. Mas, como podemos perceber no contexto atual, essas conquistas foram constantemente ameaçadas, ao longo dos anos.

Ano Zero – uma história de 1945, de Ian Buruma, 472 páginas, Cia das Letras.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE

UMA BELA JORNADA, MAS INCOMPLETA

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Minha expectativa era enorme em relação ao Caçador Cibernético da Rua 13. Eu já tinha lido contos do autor Fábio Kabral, inclusive, um passado no universo do livro. Terminada a leitura, cheguei à conclusão de que a jornada valeu a pena, mas ela podia ter sido bem mais completa.

O Caçador foi lançado meses antes da estreia do filme Pantera Negra. Depois de ver a produção da Marvel, muita gente ficou entusiasmada com o afrofuturismo, a mistura de tecnologia não-branca com ancestralidade africana. E o romance de Kabral estava ali pronto para saciar essa vontade do público.

Quem acompanha Kabral nas redes sociais sabe como ele é fã de quadrinhos, RPGs, filmes, séries e literatura, principalmente, de autores negros, que falam com orgulho de sua negritude e denunciam o racismo histórico até os dias de hoje. Portanto, as referências são muitas. Mas O Caçador mostra originalidade ao criar o mundo de Ketu Três. E essa é a grande força do livro.

O tom é mais leve, a violência não é tão gráfica, porém acompanhamos as terríveis maquinações dos poderosos. Elas existem até mesmo em um lugar onde a promessa da utopia é palpável.

Kabral é um pioneiro ao levar para um número maior de leitores o conceito do afrofuturismo, torná-lo presente na literatura brasileira, uma referência pop por aqui. Apesar de já existir exemplos do movimento em nosso cinema (Branco Sai, Preto Fica), artes plásticas (Dúdús) e música (Senzala Hi-Tech), antes do lançamento de O Caçador.

Contudo, no que o livro tem de fascinante em seu worldbuilding, com o uso de uma imaginação vibrante para valorizar a diversidade e transformar mulheres e homens negros em protagonistas de suas próprias histórias, ele não preenche todas as expectativas em termos narrativos.

Mesmo com a agilidade do texto cinematográfico, em certos capítulos, o leitor pode se aborrecer com as digressões do protagonista, que não fazem a história avançar. Os longos flashbacks quebram o ritmo da trama. E o texto poderia ter uma melhor revisão, principalmente, em relação à pontuação e à repetição de palavras que não tem nenhuma função estilística.

O Caçador Cibernético da Rua 13 mistura referências do candomblé com tecnologias inovadoras, fantasia e ficção científica. É um livro que reflete sobre o pesadelo do passado, a transformação do presente e as possibilidades para o futuro de quem que ainda luta por igualdade.

O romance de Fábio Kabral deve ser celebrado como algo novo na literatura brasileira, um aviso do que estar por vir.

O Caçador Cibernético da Rua 13, de Fábio Kabral, 208 págs., Malê.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

RICK AND MORTY

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O Universo é indiferente
que nem o arroto de Rick.
Mas a gente se importa.
Somos todos o Morty C-137
mostrando o dedo médio
para outro Morty de
um universo paralelo
qualquer.
A crise existencial de Rick
gerou o Big Bang.
Quando ele encarar seus demônios
lamberá as bolas de quem?
O episódio acaba
a música do Evil Morty ataca
não Marte.

(Ricardo Santos)

 

OUÇAM MINHA PARTICIPAÇÃO NA ODISSEIA

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Andriolli Costa é um saciólogo. Explico. Na verdade, ele é escritor e acadêmico, especialista em folclore nacional. Eu tive a honra de fazer parte do bate-papo Órixás e o Folclore em Ação, na V Odisseia de Literatura Fantástica, com ele e os escritores Lauro Kociuba e Nikelen Witter. Foi uma conversa cheia de informações, numa tentativa de quebrar barreiras, em defesa da compreensão do outro. Para ver aquilo que nos é estranho ou familiar com olhos mais afetuosos. Claro que não podia faltar uma polêmica. Mas a elegância dos participantes da mesa tornou a coisa toda um momento de celebração e enriquecimento sobre o que é mito, folclore e religião. Clicando na imagem, você pode ouvir a versão em áudio desse debate, graças ao incrível projeto O Colecionador de Sacis, capitaneado pelo Andriolli. Bom programa!

MINHA V ODISSEIA DE LITERATURA FANTÁSTICA

blog

foto: Renata Cezimbra

O que dizer da minha experiência nessa V Odisseia? Baita lugar comum, mas vou falar sem medo de ser brega: FOI FANTÁSTICO! Pela primeira vez, testemunhei que, sim, existe uma cena de literatura fantástica no Brasil, criativa e batalhadora. E que, de alguma maneira, eu faço parte disso. Encontrei escritores em vários níveis: desde quem ainda pensa em escrever o primeiro livro ao autor consagrado. Além de conhecer editores, pesquisadores, capistas, diagramadores, ilustradores, artistas gráficos em geral e produtores culturais. Gente que já eram amigos virtuais e novas pessoas. Fiz contatos para futuros projetos meus, para prestação de serviços de uma galera muito talentosa.

Tive a honra (e a cara de pau de leitor fascinado pelo tema) de participar de uma mesa sobre Orixás e o Folclore Nacional, dividindo a fala com gente que preza muito a cultura popular: Nikelen WitterAndriolli Costa e Lauro Kociuba. Foi um grande aprendizado.

A Odisseia também foi uma correria danada. Muita gente pra ver em tão pouco tempo. Reencontrei amigos. Finalmente abracei e bati um papo ao vivo com amigos virtuais de anos. E troquei ideias com autores que eu admiro. Comprei livros, mas não consegui o autógrafo de todos, nem consegui tirar foto com todos. Fiquei feliz pelas boas conversas que tive com Artur VecchiDuda FalcãoAlex MandarinoMarcelo Augusto GalvãoRoberta SpindlerIan Fraser, Samir Machado de Machado, Thomas Olde Heuvelt, Andre Zanki Cordenonsi e Ana Cristina Rodrigues. E triste por ter apenas dito oi ou nem isso a Marco Antonio Santos FreitasJanayna Bianchi PinCristina LasaitisEvelyn PostaliChristopher KastensmidtKátia Regina SouzaKyanja LeeCesar Alcázar e Adri Amaral. Com certeza, a V Odisseia de Literatura Fantástica se tornou pra mim um marco. A minha Batalha de Yavin.

Quero agradecer ao Artur Vecchi pela generosidade e por realmente acreditar nos novos autores e tratá-los com tanto profissionalismo. Seu convite para a Odisseia foi aceito na hora, porque eu sabia que só tinha a ganhar. E minhas expectativas foram superadas. Obrigado também ao César Alcázar por fechar os detalhes da minha participação. E claro, agradeço ao Duda Falcão, Cristiane Marçal e Christian David por também terem proporcionado mais um momento de vitória da lit fan nacional.