MINHAS ENTREVISTAS

Para a coletânea The King vol.2 (2013)

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Para a coletânea Estranha Bahia (2016)

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Para a revista Trasgo n°15 (2017)

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Para o programa de rádio O Marco de Hoje (2017)

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REALIDADE E SONHO, DOIS LADOS DA MESMA ARMADILHA

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Virei fanboy do mangaká Inio Asano ao ler Solanin, publicado em dois volumes no Brasil pela L&PM, em edições de bolso muito bem cuidadas. Solanin é uma slice of life, gênero de mangá que trata do cotidiano. Não tem nada de sobrenatural ou heroico. É a vida que segue. E Asano mostra jovens cheios de sonhos, mas paralisados por uma existência sem sentido. As exigências da vida adulta aprofundam essa crise. É triste pra caramba. E também muito sincero. Os personagens não são melancólicos para fazer pose, ser cool. Há uma angústia os devorando por dentro. Esse embate entre a vontade de realizar algo e o sentimento de vazio é o tema central em Solanin.

Em Nijigahara Holograph, temos uma luta mais feroz, entre manter ou perder a sanidade. Aqui Asano leva o leitor a uma jornada, ao mesmo tempo, bela e desumana, num tom muito mais sombrio. É como se David Lynch tivesse resolvido fazer um mangá. Pega-se o cotidiano, banal e repetitivo, e o viram pela avesso, expondo os demônios que carregamos dentro de nós. Há uma alternância entre imagens e sentimentos harmoniosos com cenas de pura violência e degradação. Parece que a todo momento Asano faz sempre a mesma pergunta: como pode haver tanta beleza e brutalidade no mundo? Os personagens de Nijigahara Holograph ou são vítimas, ou algozes. Às vezes, ambas as coisas. Os jovens angustiados estão lá. Mas agora tudo é bem mais sinistro.

Asano é um artista completo. Roteirista de mão cheia e ilustrador genial. Ele sabe a importância do silêncio na página como poucos. Seus personagens não falam muito. O resto é dito por imagens poderosas, seja pela delicadeza ou pela crueldade. Suas tramas são mínimas. O desenvolvimento de personagens é o grande charme do trabalho de Asano. Em Nijigahara Holograph, ele viaja, delira, numa mistura de conto de fadas e história de terror. Como se apenas fosse possível falar dos horrores, bastante humanos, praticados ao longo da narrativa, fragmentada e não-linear, por meio de metáforas. Por isso, as imagens nunca dizem uma única coisa, nunca têm um só sentido, nunca chegam a uma conclusão de fato. Cabe ao leitor interpretá-las, preencher suas próprias lacunas.

A JBC fez um ótimo trabalho nesse volume único. É uma edição gostosa de ter nas mãos. Bonita, prática e com acabamento de primeira. As próximas leituras da obra de Asano já estão engatilhadas: A Girl on the Shore (Vertical Comics) e A Cidade da Luz, que acaba de sair no Brasil pela Panini. Enquanto isso, fico na torcida para a série Goodnight Punpun ganhar uma versão digital gringa com preço acessível ou ser publicada por alguma editora brazuca.

Nijigahara Holograph, de Inio Asano, 296 págs., JBC.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE

VALERIAN: UM FILME RUIM, MAS IMPERDÍVEL

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Tinha tudo para ser um filmaço, mas a promessa ficou no meio do caminho. Luc Besson apostou alto e perdeu, tanto do ponto de vista criativo quanto financeiro. Teve ambição. Produziu, dirigiu e escreveu. Só que se aproximou mais do George Lucas dos prequels de Star Wars do que do James Cameron de Titanic e Avatar. Besson estava apaixonado demais pelo seu projeto dos sonhos para perceber as falhas. Resultado: o espectador, com bastante paciência, tem que garimpar para ver o que há de melhor em Valerian. Apesar de seus graves problemas, o filme deve ser visto no cinema. Traz conceitos e visuais que você só verá nele, de maneira deslumbrante.

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Luc Besson é um diretor brega e piegas, mas já mostrou que sabe criar mundos fora dos padrões e personagens imprevisíveis e cativantes. Nikita ainda é seu melhor trabalho. Um filme de ação francês dos anos 90, cruel, punk, que chamou a atenção de Hollywood pela maneira nada moralista de fazer entretenimento à maneira americana. O Profissional já mostra um Besson mais domesticado. Mas ainda assim, o filme é perverso. Uma história de amor violenta e pra lá de controversa, nas entrelinhas. Em O Quinto Elemento, seu projeto mais ambicioso até então, acompanhamos uma divertida homenagem à ficção científica europeia.

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Visualmente, Valerian é seu filme mais maduro e sofisticado. A abertura, ao som de David Bowie, mostrando a origem de Alpha, a Cidade dos Mil Planetas, é empolgante. E o primeiro terço do filme mostra mais qualidades do que defeitos. Apesar da falta de carisma da dupla protagonista e dos diálogos ruins, o espectador compra a ideia com sua trama basicona e ágil e a estranheza da visão europeia do que é ficção científica no cinema, em seus cenários e criaturas. A sequência do deserto, em que a ação acontece em universos paralelos simultaneamente, é original e muito bem executada.

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A todo momento, assistindo ao filme, pensamos: isso é Star Wars, aquilo é Star Wars. Além de outras referências, como Matrix e Avatar. Mas, na verdade, devemos lembrar que Valerian é inspirado nos quadrinhos clássicos de mesmo nome, da dupla Pierre Christin e Jean Claude Mézières. Referências do próprio George Lucas para a criação do seu universo (alguns dizem que foi roubo de conceitos descarado). Com a adaptação de Valérian, agent spatio-temporel (mais tarde rebatizada de Valérian et Laureline), Luc Besson finalmente pôde realizar um sonho de infância.

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Valerian apresenta uma visão mais ingênua e otimista de uma FC cheia de raças alienígenas e conflitos de interesses. O clima é de sessão da tarde. Mas, no geral, o filme se torna mais ousado do que Star Wars. Primeiro, no visual mais pirado e lisérgico. Segundo, ao dar maior relevância aos personagens aliens. Aqui eles são parte importante da trama e muitas vezes superam a performance dos personagens humanos.

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Os maiores problemas de Valerian são o roteiro, cheio de furos, diálogos terríveis, humor pouco eficiente, subtramas confusas ou desinteressantes, e exposição desnecessária ou repetitiva. O elenco mal escalado ou mal dirigido. E a duração do filme, 137 minutos. Podiam ter cortado uns 30 minutos. Era para ser um ser um filme mais ágil. Assim seu subtexto anti-guerra ganharia maior relevância. Porque o espectador sai meio esgotado da experiência. Parece que Luc Besson teve pena de cortar aquelas cenas deletadas que vão para o Blue-Ray.

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Afinal, vale o ingresso? Para fãs de FC, o filme é obrigatório. Não saí do cinema puto da vida. Já sabia mais ou menos o que esperar. Mesmo assim, fui surpreendido com os melhores momentos.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valerian and the City of a Thousand Planets), de Luc Besson, 137 min., EuropaCorp e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO, EXCELENTE

ESTRANHA BAHIA NO RÁDIO

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Participei, na Rádio Showtime, do programa O Marco de Hoje, comandado por Marco Antonio Santos Freitas. Falei um pouco sobre minhas origens como viciado em cultura pop, referências literárias, novos autores e a coletânea Estranha Bahia. Na primeira metade do programa, há uma deliciosa seleção de canções dos anos 50 a 80, que tinham tudo para fazer sucesso, mas não decolaram. Minha entrevista começa em 35:10. Para ouvir o programa é só clicar na imagem.

AULAS DE UM MESTRE REBELDE

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Luiz Bras é um provocador. Em seu manual de escrita, ele propõe o seguinte: não dê tanta bola para regras. Na verdade, ele propõe que a gente aprenda a construir para depois desconstruir. Seu discurso rebelde não é vazio. Bras mostra muito conhecimento de causa, muita leitura. O pulo do gato é o que ele faz com toda essa bagagem. Segundo ele, devemos ler muito, de tudo, para nos tornamos leitores mais completos, e, por tabela, escritores menos convencionais, avessos a preconceitos. O melhor leitor/escritor é aquele que não coloca hierarquias, por exemplo, em Thomas Pynchon e Stephen King, reconhecendo o valor de cada um. Seu Ateliê de Criação não segue a estrutura de outros manuais. É uma colagem de textos que cabe de tudo: propostas para uma oficina literária, com sugestões de leitura e exercícios práticos; reflexões teóricas na forma de poesia; artigos e crônicas sobre vários temas pertinentes da literatura. O livro está repleto daqueles insights sobre escrever que tanto adoramos nesse tipo de obra. Eu mesmo marquei várias passagens. É uma leitura curta, prazerosa e sábia.

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MEU CONTO NA TRASGO

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Acaba de sair a revista Trasgo n°15. Principal publicação de ficção científica e fantasia no Brasil, ela foi idealizada pelo editor Rodrigo van Kampen. Ele se inspirou em publicações estrangeiras que valorizam a produção de contos de novos autores e nomes consagrados. Por aqui, a iniciativa é ainda mais necessária pelo menor espaço que a literatura de gênero (policial, ficção científica, terror…) tem na mídia e no meio editorial.

Nesta edição, vocês podem ler meu conto de ficção científica Wonder. Num futuro próximo, um casal descobre que seu bebê em gestação será uma criança com superinteligência, muito acima dos atuais superdotados. Wonders são celebridades, gerando fascínio e medo nos adultos.

A Trasgo pode ser lida de graça, em vários formatos. É só clicar na capa.

5 LIVROS IMPORTANTES DA FC BRASILEIRA

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O mestre Luiz Bras/Nelson de Oliveira me convidou para participar da enquete sobre os 5 livros mais importantes da FC nacional, do blog Ficção Científica Brasileira. O bacana do blog é resgatar clássicos do gênero no Brasil e dar visibilidade a autores contemporâneos menos conhecidos do grande público. Vale muito a pena conferir as resenhas. Você também pode mandar suas resenhas e participar da enquete. Eis minha lista:

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1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
[Primeiro livraço da FC nacional que li. Só então percebi que era possível fazer FC no Brasil. Merece uma reedição urgente.]

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2. Método prático da guerrilha, de Marcelo Ferroni (2010)
[O autor pode achar que não fez FC, mas pra mim é. Uma história alternativa da campanha de Che Guevara na Bolívia. Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, categoria estreante, de 2011.]

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3. Encruzilhada, de Lúcio Manfredi (2015)
[O caçula da lista. Mas com porte de gente grande. Mistura impecável de FC, terror e o fantástico. Ler apenas uma vez é pouco.]

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4. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyolla Brandão (1981) [O autor é um dos grandes da literatura brasileira. Tem talento e ousadia para escrever romances que tiram o leitor da zona de conforto da estrutura muitas vezes certinha do realismo. Anda meio esquecido. Um absurdo.]

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5. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008) [São contos sábios, escritos com conhecimento de causa, afinal, a autora é/foi uma cientista. Esperando pelo próximo livro há alguns anos.]

BALANÇO DAS MINHAS SUBMISSÕES DE CONTOS EM 2017

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Até agora, em 2017, foram 6 submissões de contos. Enviei histórias para 2 revistas, 2 sites e 2 coletâneas (uma física e outra em e-book). Tive aprovação em 5 delas e estou aguardando o resultado da sexta.

Já tive aprovações em anos anteriores. Mas este está sendo o mais produtivo. Tanto pela quantidade quanto pela qualidade de quem está aprovando minhas histórias. E detalhe importante: não paguei para enviar os contos e não pagarei para vê-los publicados.

Como consegui esse fazer isso?

1) Muita leitura, muita (re)escrita e muito estudo. Não adianta apenas ler e escrever. É preciso fazer essas atividades de maneira crítica. Leia um conto ou romance a primeira vez para se divertir. Depois leia novamente com uma caneta na mão e com o suporte dos melhores livros sobre escrita (a internet também é uma ótima ferramenta, cheia de textos, entrevistas, vídeos, podcasts). Você não precisa reler cada livro que passa por sua mão. Mas faça isso com aquelas obras que te deixaram boquiaberto.

2) Aprenda com seus erros. Contos meus foram rejeitados antes. Depois eu entendi os motivos. Faltava alguma coisa neles, uma melhor abertura, foco, coesão. Ou havia algo demais, muitos personagens, estrutura confusa, infodump. Reescrevi ou joguei fora os contos rejeitados.

3) Ouça as pessoas. Forme um grupo de leitores beta, pequeno, mas confiável, de amigos de verdade, que seja leitores, se forem escritores melhor ainda, que critiquem sua escrita com propriedade e justiça. Além disso, valorize a opinião ou análise mais aprofundada de qualquer pessoa fora de seu círculo de convivência disposta a ler seus textos. Retorne o favor, seja um leitor beta. Você também aprenderá analisando a obra dos outros.

4) Seja paciente com feedbacks, resultados e datas de lançamento. Ninguém está louco para ler seu conto. Apenas você mesmo. Só depois é que os leitores vão chegando, devagarzinho.

5) Fuja dos picaretas. Participe de concursos, sites, revistas e coletâneas que valorizem seu trabalho e não seu dinheiro. Há gente séria e profissional realmente interessada em revelar talentos. Basta procurar. O esforço vale a pena.

6) E por último, há o fator sorte. A loteria do acaso que te coloca no lugar certo na hora certa. Mas sorte apenas não transforma ninguém em escritor. Antes vem o trabalho duro.

ESTOU NA COLETÂNEA CYBERPUNK DA DRACO

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Minha noveleta Caos Tranquilo foi selecionada para a coletânea Cyberpunk da Draco!!!

O cenário é uma Salvador dos anos 80, numa linha temporal alternativa. Depois da Segunda Guerra Mundial, uma tentativa de levante comunista fracassa no Brasil. Os EUA aproveitam a oportunidade para salvar o país, com o Apoio Decisivo. Então se estabelece um estado policial disfarçado de democracia, onde o atraso e o hi-tech vivem em guerra.

Acompanhamos duas histórias em paralelo. Zima é uma ex-militar que roubou dados de um escândalo industrial da megacorporação Omega. Ela conta com um hacker para divulgar as informações. Edmo é um jornalista que trabalha para uma revista semanal popular e medíocre. Mas secretamente ele é Deom, autor de livros incendiários, publicados nas brechas da Rede. É preciso saber em quem confiar. Zima e Edmo correm risco de vida.

APOSTANDO NA NOVELA DE FC, FANTASIA E TERROR

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Alguma editora nacional devia apostar num selo de novelas contemporâneas de ficção científica, fantasia e terror, de autores estrangeiros e, principalmente, brazucas. Apenas no formato em e-book, com edições simples, mas profissionais.

A ficção curta ganhou novo fôlego na era digital. As pessoas estão mais dispostas a ler histórias mais rápidas, em diversas plataformas.

Muitas vezes queremos uma leitura que nos engaje enquanto estamos no ônibus, no metrô, na fila do banco, do supermercado, no intervalo da aula. Deixando os romances para ler na poltrona, na cama. E a novela vem mostrando ser um formato interessante para suprir essa necessidade de leitura fora de casa.

Não tenho uma pesquisa científica para comprovar essa tese, mas é algo que concluo a partir de minha própria experiência, de amigos e de gente que fala sobre isso na internet.

Muitos torcem o nariz para o conto por achar que não há material suficiente para um investimento emocional (o que pra mim é uma bobagem). Mas com a novela é diferente. Os viciados em romances estão mais abertos a ler romances menores. Ainda mais se fizerem parte de uma série.

Se fossem novelas bem editadas e com preços acessíveis, poderiam ser até um novo filão do mercado. Um sucesso que nem mesmo a pirataria pudesse prejudicar. Se o selo tivesse uma identidade, uma cara própria, poderia conquistar os leitores. E eles fariam de tudo para apoiar a iniciativa, principalmente, comprando os e-books.

As novelas da Tor são um sucesso. Claro que estamos falando do mercado americano, que atende uma audiência mundial. E muitos dizem que é um caso isolado. Mas a Tor apostou e agora está colhendo os frutos em vendas e prêmios.

Também dizem que o e-book no Brasil não decolou etc. etc. Não sei. Quem está dentro do mercado sabe mais do que eu. Só acho que seria interessante a gente ver novelas de FC, terror e fantasia sendo lançadas regularmente e criando uma expectativa no leitor, gerando buzz. É um formato que agrada a gregos e troianos. E talvez mais de acordo com a disponibilidade de tempo dos autores nacionais.

Prova do potencial do formato são novelas lançadas recentemente apenas em e-book. Tenho lidos ficções curtas independentes e de pequenas editoras bem editadas, de autores talentosos e com boa repercussão. Algumas superando expectativas.

No mercado editorial, a palavra aposta é o que move esse negócio meio louco que é publicar e vender livros. Há muita frustração, mas também há resultados surpreendentes.