ANTOLOGIA MORTO ANTES DO AMANHECER

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A Corvus é uma editora baiana que aposta no fantástico nacional. Na antologia Morto antes do amanhecer, participo com o conto Banho de ódio, uma mistura de slasher e crítica social. Clique na imagem para saber mais informações sobre o livro. Na hora da compra, use o cupom RSANTOS.

CHEGOU A ANTOLOGIA FARRAS FANTÁSTICAS!

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Desde o dia 15 de janeiro está aberto o edital da antologia Farras Fantásticas, organizada por mim Ricardo Santos, Ian Fraser, João Mendes e Pedro Duarte. Juntamos nossa vontade e nossas experiências para publicar um puta livro, em parceria com a editora Corvus, para valorizar os autores do fantástico do Nordeste. Ainda não revelamos nosso time de autores convidados, mas está sensacional. É uma galera que traz muito talento e representatividade pro Farras. Porque o Nordeste também é diversidade. Quer fazer parte desse projeto lindo, 100% nordestino e 100% brasileiro? Clique na imagem para saber mais.

CONCURSO DE RESENHAS ESTRANHA BAHIA

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Você quer ganhar um monte de livros? Então é muito fácil. Em parceira com o canal Passos Entre Linhas, estamos promovendo um concurso de resenhas. Para concorrer, você deve ter lido ou correr para ler a coletânea Estranha Bahia. Depois você vai lá na Amazon e faz uma resenha do livro. As resenhas postadas entre os dias 08 de dezembro e 15 de janeiro estarão concorrendo a três kits de livros. No dia 20 de janeiro, Lorena Ribeiro do canal Passos Entre Linhas vai anunciar quais foram, na avaliação dela, as três melhores resenhas. Para conhecer os livros dos kits, é só clicar na imagem. A versão física da Estranha Bahia está à venda na livraria LDM.

OS 6 MELHORES LIVROS QUE LI EM 2019

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6 – A telepatia são os outros, de Ana Rüsche: Irene, uma fisioterapeuta brasileira de meia-idade, vai para o Chile de férias e acaba no meio de uma trama tensa e intensa, envolvendo a indústria farmacêutica, um misterioso grupo de pesquisadores e um chá que possibilita a conexão de mentes. Essa novela traz algo novo para a ficção científica nacional e é uma ótima porta de entrada para conhecer o gênero. Em suas poucas páginas, há um mar de informações, mas nada é jogado aleatoriamente. Há rigor na pesquisa da autora. E leveza em sua imaginação, ao criar personagens e situações que se vinculam com a obra de uma Ursula K. Le Guin, por exemplo, outra autora de ideias questionadoras do estado das coisas, imbuída de uma criatividade “ecológica”, digamos assim, de busca do melhor entendimento entre ser humano e natureza. Ana Rüsche também é poeta, o que fica evidente em algumas passagens, elevando a beleza e os significados de sua prosa.

5 – The Pisces, de Melissa Broder: Certa noite, sozinha na praia, Lucy, uma acadêmica de quase quarenta anos, conhece Theo, um nadador deslumbrante de vinte e poucos. Para espanto e admiração dela, ele acaba se revelando um sereio. O que faz desse romance uma leitura envolvente é a voz narrativa. Lucy conta sua história em primeira pessoa, revelando com muita honestidade e ironia seu caos emocional. Fala-se de amor, sexo, carreira, maternidade, expectativa social e outros temas caros às mulheres, sob a perspectiva de alguém que questiona tudo e todos. The Pisces fala sobre uma mulher no limite justamente por não saber direito seu lugar no mundo.

4 – Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior: Itamar é o mais importante autor baiano da atualidade. Vencedor da última edição do Prêmio Leya, seu romance teve extensa cobertura da mídia portuguesa. Lançado no Brasil pela editora Todavia, a carreira de sucesso do livro continuou. Com certeza, em 2020, será um forte concorrente aos principais prêmios literários do país. Itamar segue a tradição dos grandes autores baianos em aliar inquietação política e filosófica com apuro literário. Em Torto Arado, o foco é a gente sofrida, os desassistidos, as minorias, os invisíveis sociais. Mas o autor descarta naturalismos fáceis. Numa prosa fluente e ritmada, cheia de uma poesia dura e contundente, acompanhamos a histórias de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, mulheres negras, da zona rural. O triunfo literário do romance é construção da visão de mundo das protagonistas. Apesar das enormes dificuldades da vida, das explorações e humilhações, ambas são pessoas de “carne e osso”, conscientes de suas limitações e possibilidades. Essa atmosfera lembra muito o cinema e a literatura italiana dos anos 1960 e 1970, que representava a tomada de consciência política do proletariado. Em Torto Arado, vemos uma perspectiva “de dentro”, o protagonismo do povo negro rural, sem intermediários, digamos assim. Fruto de primorosa pesquisa, e mais do que isso, fruto da sensibilidade do autor, que faz um resgate de parte das origens do Brasil, ligando passado e presente.

3 – A Parábola do Semeador, de Octavia E. Butler: Acompanhamos os Estados Unidos no futuro, após uma crise ambiental e econômica, em que comunidades com melhores recursos se fecham por trás de muros. Há uma tentativa de levar uma vida normal num mundo em convulsão, com escolas, empregos e relações sociais e familiares, mas a tensão é constante. Por meio do olhar afiado da jovem Lauren Olamina, acompanhamos pessoas tendo de fazer escolhas difíceis, passando por dilemas para manter sua humanidade. A própria Lauren sofre bastante com os acontecimentos. Ela tem um poder de hipersensibilidade, que a faz absorver a dor física alheia. Em meio a tanta violência, incerteza e desesperança, Lauren resolve criar uma nova religião, que promove a comunhão entre o ser humano e a natureza. A tradução preserva o ritmo e a força do texto original.

2 – Use of Weapons, de Iain M. Banks: A série de ficção científica The Culture é composta por livros independentes (com alguns pontos de ligação) dentro de um mesmo universo. The Culture é uma sociedade no futuro, numa galáxia distante, em que humanos aprimorados e inteligências artificiais convivem numa espécie de sociedade utópica. Mas isso não quer dizer que não existam relações complexas, disputas entre pessoas e máquinas. Em Use of Weapons, considerado o terceiro livro da série, acompanhamos uma trama de espionagem política. O romance é conhecido por sua estrutura narrativa de cair o queixo, com duas linhas temporais, uma que avança no tempo e outra que recua até a infância do protagonista. E pela chocante revelação final. Melhor dizendo, pelas duas revelações finais. E uma delas tem a ver com uma cadeira. Use of Weapons é uma meditação brutal, cheia de uma poesia melancólica e uma ironia afiada, sobre a vontade de subjugar, seja no âmbito pessoal ou coletivo.

1 – As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez: A autora argentina apresenta ao leitor brasileiro um dos livros de ficção mais impactantes da última década. Os seus contos investem no terror de forma visceral. É assustador porque os horrores do cotidiano da classe média e da periferia de Buenos Aires e da história recente da Argentina são transformados numa literatura claustrofóbica, ampliando significados e efeitos do comportamento humano e de mazelas sociais e políticas. Aqui o foco são meninas e mulheres. As protagonistas estão à vontade na posição de gente branca com algum dinheiro, mesmo que meio decadente. Mas Enriquez nunca é leviana. Aliás, é por meio de sua consciência de classe e de gênero que ela aperta os botões certos para nos apavorar. Estas protagonistas geralmente se colocam em situações perturbadoras, testemunhas do que há de pior na sociedade. Em ritmo de suspense, cada conto nos envolve e desestabiliza, à medida que avançamos em atmosferas pesadas, em lugares sujos, sombrios e abandonados, habitados por personagens trágicos. A bela edição da editora Intrínseca, com tradução e revisão impecáveis, não nos distrai, não nos deixa sair desse mundo. Leitura para estômagos fortes.

 

OS 6 MELHORES FILMES QUE VI EM 2019

 

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6 – Nós (2019), de Jordan Peele: Jordan Peele conseguiu de novo. Entregou ao espectador mais um filme de impacto, tanto do ponto de vista estético quanto reflexivo. Corra! é mais coeso, mas mesmo assim Nós mostra uma evolução de Peele como cineasta. O primeiro terço do filme tem um ritmo impressionante. Praticamente nada acontece, mas o que vemos tem uma fotografia tão elaborada, uma montagem tão cadenciada e diálogos e atuações tão marcantes, que não importa. Acompanhamos o cotidiano da família protagonista com um sorriso besta na cara, sem desejar que nada se apresse. A influência de Hitchcock é evidente, o diretor que construía seus suspenses sofisticados para o público médio como um reflexo apavorante desse mesmo público. E quando a violência começa, nos deparamos com um dos filmes de terror mais criativos e perturbadores dos últimos tempos. Uma mistura de homenagem e subversão ao cinema de horror dos anos 70 e 80. Nós é algo inédito no cinema em geral, por trazer uma nova perspectiva, uma nova voz para Hollywood, confirmando o talento de Jordan Peele como um mestre do terror.

5 – Homem-Aranha no Aranhaverso (2018), de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman:  Saí chocado do cinema depois de ver esse filme. Achei isso no calor do momento e reafirmo quase um ano depois: é o melhor filme de super-herói de todos os tempos. A técnica de animação é incrível, praticamente uma HQ em movimento. O arco de Miles Morales é vibrante e emocionante. Peter B. Parker é uma maravilhosa desconstrução do Homem-Aranha. E ainda de quebra tivemos um dos grandes super-vilões da telona: Prowler. Que tema musical é aquele! E a cena pós-crédito é hilária, abrindo possibilidade para uma baita continuação. Oscar merecidíssimo.

4 – Suspiria (2018), de Luca Guadagnino: Nem sempre um remake é uma perda de tempo, um crime contra a obra original. Suspiria, de 1977, é um clássico do terror italiano, do giallo, o filme mais celebrado do mestre Dario Argento. Em 2018, o também italiano Luca Guadagnino, diretor do aclamado “Me chame pelo seu nome”, lançou uma nova versão de Suspiria. No final das contas, Guadagnino se saiu muito bem da enrascada em que se meteu. Justamente por ter sido infiel à obra original. A premissa é a mesma. Uma estudante de balé americana vai para uma prestigiada academia na Alemanha Ocidental dos anos 1970 e coisas bizarras começam a acontecer. Mas Guadagnino opta por fazer um filme feminista e político (uma espécie de resposta contemporânea ao giallo, um subgênero bastante machista), com um gore mais “realista” e visceral. Mostra uma crueldade feminina implacável. Porque, mesmo no grotesco, há sabedoria, beleza e libertação.

3 – Em Chamas (2018), de Lee Chang-dong : É um suspense perturbador justamente porque nos colocar para pensar, para preencher as lacunas deixadas pelo caminho. É um filme lento, mas com uma tensão crescente, que nos desestabiliza ao acrescentar mais e mais mistérios ao invés de solucioná-los. Nas entrelinhas, Em Chamas diz muito sobre o estado das coisas do capitalismo. De um lado, há as incertezas do jovem pobre e sem emprego, alguém praticamente descartável. Do outro, a total falta de empatia das classes mais abastadas. A produção é primorosa em sua simplicidade. A montagem é precisa, a fotografia eleva o cotidiano, e os personagens falam o estritamente necessário.

2 – Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles: Bacurau é um filmaço. Irregular, mas feito com muito tesão. Cheio de consciência estética e política. Os diretores reconhecem e enaltecem a influência do cinema de gênero (terror, western, thriller, ficção científica). Citam mestres como John Carpenter, George Romero, Sergio Leoni, Sergio Corbucci e Sam Peckinpah. Mendonça e Dornelles bebem de todas essas fontes para apresentar um filme vibrante em seus melhores momentos. É divertido, tenso, movimentado e reflexivo. A verdadeira protagonista é a cidade de Bacurau, com seu povo, sua história, seu senso de comunidade, escassa de recursos (onde falta água, mas há internet), politicamente madura, em prol da diversidade. Uma utopia possível encravada no sertão pernambucano, ameaçada por um poder vil que recusa a dizer seu nome.

1 – Parasita (2019), de Bong Joon-ho:  Os filmes de Bong Joon-ho são obras de arte, de reflexão numa roupagem de entretenimento. Ele quebra as barreiras do cinema de autor e do cinema comercial. Para ele, se divertir e pensar são dois lados da mesma moeda. Parasita é seu filme mais maduro por ser o mais paciente em nos envolver em suas ideias. A tensão é pontual. Mas quando surge nos desarma por completo. Na verdade, a grande sacada de Parasita é a quebra de nossas expectativas. Há vários filmes em um só. Comédia, suspense, drama, terror. O diretor alterna a condução da trama entre esses gêneros com extrema habilidade e nunca de forma gratuita. Temos aqui mais um exemplo de filme sul-coreano que faz uma crítica devastadora da desumanização do capitalismo.

AS 6 MELHORES SÉRIES QUE VI EM 2019

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6 – The Boys, 1ª temporada (2019): O Watchmen de Alan Moore mostrou os super-heróis como figuras melancólicas, com um senso de justiça distorcido e deprimente. Na série The Boys, os super-heróis são um pesadelo camuflado em camadas de marketing. São psicopatas vaidosos a serviço de grandes corporações. Mesmo considerando que a série foi produzida pelo serviço de streaming de um cara com a maior pinta de vilão de quadrinhos, Jeff Bezos, o dono da Amazon, The Boys é divertido e faz um retrato brutal do mundo das celebridades.

5 – Devilman Crybaby, 1ª temporada (2018): Anime definitivamente para adultos. Há exageros em sua violência tão gráfica, mas a escatologia desse universo se encaixa muito bem na reflexão sobre os “demônios” da condição humana. A técnica de animação, psicodélica e de traços imprecisos, mostra a instabilidade emocional dos personagens, acompanhada por uma trilha sonora tecno vibrante. O finale da série nos pega de surpresa. É, ao mesmo tempo, tão bonito e tão triste.

4 – The Mandalorian, 1ª temporada (2019): Lobo Solitário no espaço, com pitadas de Sérgio Leone. Tinha tudo para dar errado, mas deu muito certo. A série mistura elementos consagrados da franquia com novos personagens e uma história distante dos Skywalkers. Resgata o clima de aventura e simplicidade da trilogia original, mas acaba apresentando a versão mais violenta de um produto live-action de Star Wars. Personagens cativantes, efeitos especiais insanos para uma “série de TV”, fan service bem feito e uma trilha sonora que evoca Ennio Morricone.

3 – Undone, 1ª temporada (2019): Essa série deixaria Philip K. Dick orgulhoso. Trata-se de um mergulho profundo na mente da protagonista. Após um acidente de carro, Alma descobre que pode se comunicar com seu pai morto, um cientista, e viajar no espaço-tempo. Ou não? O humor de Alma é afiado, o que incomoda muita gente. E ela mesma sofre com sua instabilidade emocional. A técnica de rotoscopia, de animação dos movimentos dos atores, dá muita liberdade para os criadores da série pirarem, em mudanças inusitadas de cenários e ritmos de edição. Outro triunfo de Undone é a representatividade. O elenco é diverso. E a surdez e a ascendência mexicana de Alma são elementos centrais da trama.

2 – Fleabag, 2ª temporada (2019): Eu sou fanboy de Phoebe Waller-Bridge. E é em Fleabag que a vimos no seu auge. Na 2ª temporada, a protagonista, que adora se sabotar, mete o pé na jaca de vez. A franqueza da personagem é cativante e divertidíssima. Ao mesmo tempo, a série é triste pra burro. Porque nos identificamos com os problemas de Fleabag: a dificuldade de conexão com os outros, o alto preço pago por quem desafia as convenções sociais e as dúvidas de nosso lugar no mundo. Fleabag não quer ser um exemplo de mulher para ninguém, só quer ser ela mesma. Estou na torcida para que Waller-Brigde mude de ideia e faça uma 3ª temporada. De qualquer maneira, a personagem teve um final arrebatador em sua simplicidade e significado.

1 – Atlanta, 2ª temporada (2018): Donald Glover é um artista multitalentoso, ator, cantor, produtor, roteirista, diretor. Mas é como o criador de Atlanta que ele mostra todo o seu potencial. Ele quebra paradigmas ao apresentar uma série escrita, produzida e protagonizada por pessoas negras. Uma série tão sofisticada quanto os melhores exemplos da era de ouro da televisão, ocorrida nos últimos vinte anos. A verdade é que a excelência da televisão americana sempre foi dominada por produtores e roteiristas brancos. Atlanta alia ousadia narrativa ao flertar com o surrealismo e o terror e maturidade temática ao tratar de questões sociais, particularmente da condição do negro americano, desconhecido ou famoso, conectando tudo com a autorreflexão, dando profundidade aos personagens. Além de existir um aprimoramento na produção (fotografia, montagem, estrutura de roteiro etc.). Cada vez mais, Atlanta merece uma posição ao lado de séries icônicas como Madmen, Sopranos, The Wire e Breaking Bad.

COLETÂNEAS E ANTOLOGIAS

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Com o fácil acesso à leitura de textos curtos por celulares, leitores digitais, tablets e outros aparelhos, o conto nacional, particularmente, o de ficção científica, terror e fantasia, ganhou um novo fôlego. As pessoas estão lendo mais contos (apesar do gênero ainda ser um dos patinhos feios do mercado editorial, com apelo bem menor do que o do romance e das HQs, por exemplo). Prova é o sucesso de financiamentos coletivos de coletâneas de literatura fantástica independentes ou de pequenas editoras. Além de indicações e vitórias em prêmios literários importantes. O podcast Suposta Leitura, comandado por Lucas Mota e Ana Raíssa, convidou a mim, André Caniato e Lídia Zuin para entrar nessa discussão sobre valorização do conto e profissionalização do mercado. Para ter acesso ao podcast é só clicar na imagem. Para saber mais sobre a diferença entre coletânea e antologia, é só clicar aqui.

SORTEIO – CONCORRA A DOIS LIVROS!

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Exemplares das coletâneas Estranha Bahia, na qual sou organizador e autor de um dos contos, e Cyberpunk, que também tem um conto meu, podem ir para a estante da sua casa. Em parceria com o site de notícias Avoador, está rolando um sorteio muito fácil de participar. É só ir no feed do instagram do @siteavoador, seguir o regulamento e concorrer. No dia 10 de novembro, sairá o nome do(a) vencedor(a). Os livros serão enviados para qualquer parte do Brasil. Boa sorte!

A EDIÇÃO FÍSICA DA ESTRANHA BAHIA CHEGOU!!!

Estranha Bahia é uma coletânea de contos de terror, fantasia e ficção científica. Publicada originalmente em 2016, foi finalista do prêmio Argos, em 2017. Agora em 2019, o livro ganha uma 2ª edição. Os contos foram revistos pelos autores. E houve uma nova revisão. O nosso projeto gráfico emulando as revistas pulp continua. O acabamento da edição ficou melhor, com capa cartão (antes era papel couchê) e papel de maior gramatura. O livro agora tem 196 páginas, no formato 14cm x 21cm.

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QUEM PODE IMAGINAR O NORDESTE?

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Nas últimas semanas, a escritora e pesquisadora Lidia Zuin publicou, em sua coluna no UOL, um texto com o título Amazofuturismo e Cyberagreste: por uma nova ficção científica brasileira. A proposta sugere um interesse em mapear e refletir sobre os novos rumos da nossa produção de ficção científica.

Alguns dias depois, o escritor e jornalista baiano Alan de Sá publicou um texto no Medium, Estão inventando o Nordeste. De novo. Alan se mostrou indignado com o que ele chamou de “interpretação equivocada de símbolos regionais”, referindo-se ao Cyberagreste. Em seguida, publicou um segundo texto, Por que fazer o Nordeste sertãopunk?, no qual detalha a proposta dele e dos autores Alec Silva e Gabriele Diniz de um movimento literário feito “por mãos nordestinas” e que valorize a pluralidade etnocultural da região.

A discussão Sertãopunk contra Cyberagreste ganhou corpo e esquentou os ânimos. Surgiram outras análises, memes e todo tipo de comentários nas redes sociais.

Chego junto nesse debate, como baiano, organizador da coletânea Estranha Bahia, citada por Alan de Sá, e participante da coletânea Cyberpunk, recentemente lançada pela editora Draco. Vou tentar ser o mais breve e objetivo possível, procurando não repetir o que já foi exposto.

Vamo vê colé de mermo dessa polêmica.

Afinal, quem pode imaginar o Nordeste? Essa pergunta é fácil de responder: todo mundo. Todo mundo mesmo. Agora o difícil é saber como.

Ninguém é dono da verdade. O que é diferente de ter convicções. Nenhum nordestino, por mais vivência que tenha, por mais pesquisas que faça, nunca vai conseguir compreender tudo o que o Nordeste é de fato e representa. Mas, por outro lado, o ser nordestino traz uma percepção única dessa experiência de pertencimento. Eu não consigo desligar meu ser baiano. Em nenhuma parte do mundo, seja por meio de falas, comportamentos e ideias. Mas também não existe fórmula para ser isso ou aquilo. Qualquer ser humano sofre influências culturais, e, ao mesmo tempo, não abre mão de sua individualidade. O que inclusive acaba contrariando estereótipos.

Portanto, esse como imaginar o Nordeste é um processo de construção, de troca de experiências e de conhecimentos, de saber quando ouvir e quando falar. E quem vem de fora da região, até de outros países, está convidado a saber o que é ser baiano, pernambucano, potiguar, maranhense, alagoano, piauiense, sergipano, paraibano e cearense, desde que tenha o coração aberto e a mente atenta. Querer conhecer e valorizar o Nordeste, com a melhor das intenções, não basta. É preciso que haja também leitura sensível para imaginá-lo.

Num primeiro momento, as ilustrações do universo Cyberagreste, do gaúcho Vitor Wiedergrün, me impressionaram, sim, pela estranha mistura de cangaço e cyberpunk. Pelo casamento perfeito entre o traço detalhista e as cores chapadas, lembrando bastante a obra de Moebius. Esses cangaceiros ciborgues tinham uma presença. Eram bonitos de ver. Mas num segundo momento, comecei a refletir sobre o sentido daquelas imagens, que narrativa contavam. Porque toda imagem conta uma história, mesmo uma imagem isolada. Seja o punho fechado erguido no ar de um Pantera Negra ou uma saudação nazista.

O próprio Vitor afirmou em entrevista a Lídia Zuin: “Eu sempre gostei da cultura brasileira e achava estranho não ver nada dessa cultura em obras de ficção e fantasia. Com o tempo, comecei a pensar e imaginar algumas fusões e, logo de cara, pensei como seria o Brasil em um futuro cyberpunk. Fiz algumas pesquisas e uns esboços de vestimentas do sul e do nordeste, mas acabei optando por iniciar os desenhos voltados para o sertão cyberpunk, daí o surgimento da série Cyberagreste”. Andriolli Costa, em seu podcast Poranduba, contou mais sobre os bastidores da criação de Vitor.

No final das contas, aquelas imagens se mostraram para mim como uma obra limitadora, por apresentar um futuro ironicamente parado no tempo, como se não tivesse existido um Nordeste do século 20 e do século 21. Deu-se mais relevância à iconografia de uma tradição popular, deixando de lado seus desdobramentos sociais e políticos. É uma arte bonita, mas vazia de sentido, de algo plenamente consciente do seu lugar no mundo. É o que vejo como nordestino, nascido e criado em Salvador, alguém que morou muitos anos no interior da Bahia e já rodou o Nordeste. E é esse vazio que pode gerar indignação, revolta de quem está inserido nesse contexto. De quem é filho da terra. Ainda mais quando se dá protagonismo a essa representação que nos fala tão pouco.

No grupo do Facebook do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), a escritora Cláudia Dugim falou sobre a distinção entre agenciamento e representatividade: “Qualquer autor pode ser inclusivo e proporcionar representatividade a uma minoria, sendo ele parte ou não dessa minoria, mas o agenciamento é diferente. O peso identitário e o lugar de fala, fazem do protagonismo um ponto crucial na narrativa, sem ambos os protagonismos, de autoria e personagem, não há Afrofuturismo, assim como não há Sertãopunk”.

De fato, o agenciamento é mais urgente, seja para autores negros, nordestinos, LGBTQ+ e de outras minorias. Mesmo porque pode haver convergência entre esses agenciamentos. Afinal, ninguém nunca é uma coisa só.

A representatividade também é importante, “é a habilidade de ver o outro, de reconhecer o outro”, como fala Ian Fraser, em seu texto Um bicho complicado. Ele bate muito na tecla da empatia. Porque realmente sem empatia não há conversa. E essa conversa precisa acontecer. É angustiante demais não tê-la, viver num estado permanente de incompreensão e de violência física e simbólica. Essa angústia pode se tornar algo extremamente nocivo para todos. Um caminho sem volta para a cultura de um país, inclusive para a convivência no dia a dia.

A coisa que mais abomino é injustiça. O texto de Lídia Zuin é equivocado ao dar protagonismo ao Cyberagreste, mas o texto dela não se trata de um discurso de ódio. Por isso, não devia ser retaliado como tal. Ao mesmo tempo, a revolta de Alan de Sá é legítima. O tom do seu primeiro texto foi acertado? Como disse um amigo meu, sem a agrestia de Alan esse debate necessário talvez nem tivesse começado. Vale ressaltar que, quatro meses atrás, o professor Alexander Meireles da Silva já tinha feito uma análise sobre Amazofuturismo e Cyberagreste em seu canal Fantasticursos, tornando-se uma das referências do texto de Lídia.

Acredito na radicalidade política como uma forma de ter clareza de pensamento. Definir o que é direita e esquerda ainda é fundamental para sabermos que atores e ideias buscam de fato uma transformação social. “Diálogo não é conciliação”, como fala a escritora, socióloga e youtuber Sabrina Fernandes, no seu canal Teze Onze. Diálogo é, por exemplo, ouvir, debater e dividir espaço com as minorias, promovendo-se uma relação de igualdade para todos. Conciliar é apenas ocupar os espaços cedidos por aqueles que detêm o poder e querem mantê-lo. Foi a conciliação que nos colocou nesse buraco político atual.

Os escritores nordestinos de ficção científica, terror e fantasia precisam marcar território como um ato de afirmação. Contudo, também devem estar abertos a uma vontade de agregar. Sabemos que, para muita gente no Sudeste, nordestino é tudo baiano. Mas não devemos, por isso, achar que só há inimigos fora do Nordeste. Trata-se também de um processo pedagógico para aqueles dispostos a nos ouvir. Porque queremos falar. E vamos falar independente da permissão de quem quer que seja.

Crédito da imagem: Juarez Paraíso