QUEM PODE IMAGINAR O NORDESTE?

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Nas últimas semanas, a escritora e pesquisadora Lidia Zuin publicou, em sua coluna no UOL, um texto com o título Amazofuturismo e Cyberagreste: por uma nova ficção científica brasileira. A proposta sugere um interesse em mapear e refletir sobre os novos rumos da nossa produção de ficção científica.

Alguns dias depois, o escritor e jornalista baiano Alan de Sá publicou um texto no Medium, Estão inventando o Nordeste. De novo. Alan se mostrou indignado com o que ele chamou de “interpretação equivocada de símbolos regionais”, referindo-se ao Cyberagreste. Em seguida, publicou um segundo texto, Por que fazer o Nordeste sertãopunk?, no qual detalha a proposta dele e dos autores Alec Silva e Gabriele Diniz de um movimento literário feito “por mãos nordestinas” e que valorize a pluralidade etnocultural da região.

A discussão Sertãopunk contra Cyberagreste ganhou corpo e esquentou os ânimos. Surgiram outras análises, memes e todo tipo de comentários nas redes sociais.

Chego junto nesse debate, como baiano, organizador da coletânea Estranha Bahia, citada por Alan de Sá, e participante da coletânea Cyberpunk, recentemente lançada pela editora Draco. Vou tentar ser o mais breve e objetivo possível, procurando não repetir o que já foi exposto.

Vamo vê colé de mermo dessa polêmica.

Afinal, quem pode imaginar o Nordeste? Essa pergunta é fácil de responder: todo mundo. Todo mundo mesmo. Agora o difícil é saber como.

Ninguém é dono da verdade. O que é diferente de ter convicções. Nenhum nordestino, por mais vivência que tenha, por mais pesquisas que faça, nunca vai conseguir compreender tudo o que o Nordeste é de fato e representa. Mas, por outro lado, o ser nordestino traz uma percepção única dessa experiência de pertencimento. Eu não consigo desligar meu ser baiano. Em nenhuma parte do mundo, seja por meio de falas, comportamentos e ideias. Mas também não existe fórmula para ser isso ou aquilo. Qualquer ser humano sofre influências culturais, e, ao mesmo tempo, não abre mão de sua individualidade. O que inclusive acaba contrariando estereótipos.

Portanto, esse como imaginar o Nordeste é um processo de construção, de troca de experiências e de conhecimentos, de saber quando ouvir e quando falar. E quem vem de fora da região, até de outros países, está convidado a saber o que é ser baiano, pernambucano, potiguar, maranhense, alagoano, piauiense, sergipano, paraibano e cearense, desde que tenha o coração aberto e a mente atenta. Querer conhecer e valorizar o Nordeste, com a melhor das intenções, não basta. É preciso que haja também leitura sensível para imaginá-lo.

Num primeiro momento, as ilustrações do universo Cyberagreste, do gaúcho Vitor Wiedergrün, me impressionaram, sim, pela estranha mistura de cangaço e cyberpunk. Pelo casamento perfeito entre o traço detalhista e as cores chapadas, lembrando bastante a obra de Moebius. Esses cangaceiros ciborgues tinham uma presença. Eram bonitos de ver. Mas num segundo momento, comecei a refletir sobre o sentido daquelas imagens, que narrativa contavam. Porque toda imagem conta uma história, mesmo uma imagem isolada. Seja o punho fechado erguido no ar de um Pantera Negra ou uma saudação nazista.

O próprio Vitor afirmou em entrevista a Lídia Zuin: “Eu sempre gostei da cultura brasileira e achava estranho não ver nada dessa cultura em obras de ficção e fantasia. Com o tempo, comecei a pensar e imaginar algumas fusões e, logo de cara, pensei como seria o Brasil em um futuro cyberpunk. Fiz algumas pesquisas e uns esboços de vestimentas do sul e do nordeste, mas acabei optando por iniciar os desenhos voltados para o sertão cyberpunk, daí o surgimento da série Cyberagreste”. Andriolli Costa, em seu podcast Poranduba, contou mais sobre os bastidores da criação de Vitor.

No final das contas, aquelas imagens se mostraram para mim como uma obra limitadora, por apresentar um futuro ironicamente parado no tempo, como se não tivesse existido um Nordeste do século 20 e do século 21. Deu-se mais relevância à iconografia de uma tradição popular, deixando de lado seus desdobramentos sociais e políticos. É uma arte bonita, mas vazia de sentido, de algo plenamente consciente do seu lugar no mundo. É o que vejo como nordestino, nascido e criado em Salvador, alguém que morou muitos anos no interior da Bahia e já rodou o Nordeste. E é esse vazio que pode gerar indignação, revolta de quem está inserido nesse contexto. De quem é filho da terra. Ainda mais quando se dá protagonismo a essa representação que nos fala tão pouco.

No grupo do Facebook do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), a escritora Cláudia Dugim falou sobre a distinção entre agenciamento e representatividade: “Qualquer autor pode ser inclusivo e proporcionar representatividade a uma minoria, sendo ele parte ou não dessa minoria, mas o agenciamento é diferente. O peso identitário e o lugar de fala, fazem do protagonismo um ponto crucial na narrativa, sem ambos os protagonismos, de autoria e personagem, não há Afrofuturismo, assim como não há Sertãopunk”.

De fato, o agenciamento é mais urgente, seja para autores negros, nordestinos, LGBTQ+ e de outras minorias. Mesmo porque pode haver convergência entre esses agenciamentos. Afinal, ninguém nunca é uma coisa só.

A representatividade também é importante, “é a habilidade de ver o outro, de reconhecer o outro”, como fala Ian Fraser, em seu texto Um bicho complicado. Ele bate muito na tecla da empatia. Porque realmente sem empatia não há conversa. E essa conversa precisa acontecer. É angustiante demais não tê-la, viver num estado permanente de incompreensão e de violência física e simbólica. Essa angústia pode se tornar algo extremamente nocivo para todos. Um caminho sem volta para a cultura de um país, inclusive para a convivência no dia a dia.

A coisa que mais abomino é injustiça. O texto de Lídia Zuin é equivocado ao dar protagonismo ao Cyberagreste, mas o texto dela não se trata de um discurso de ódio. Por isso, não devia ser retaliado como tal. Ao mesmo tempo, a revolta de Alan de Sá é legítima. O tom do seu primeiro texto foi acertado? Como disse um amigo meu, sem a agrestia de Alan esse debate necessário talvez nem tivesse começado. Vale ressaltar que, quatro meses atrás, o professor Alexander Meireles da Silva já tinha feito uma análise sobre Amazofuturismo e Cyberagreste em seu canal Fantasticursos, tornando-se uma das referências do texto de Lídia.

Acredito na radicalidade política como uma forma de ter clareza de pensamento. Definir o que é direita e esquerda ainda é fundamental para sabermos que atores e ideias buscam de fato uma transformação social. “Diálogo não é conciliação”, como fala a escritora, socióloga e youtuber Sabrina Fernandes, no seu canal Teze Onze. Diálogo é, por exemplo, ouvir, debater e dividir espaço com as minorias, promovendo-se uma relação de igualdade para todos. Conciliar é apenas ocupar os espaços cedidos por aqueles que detêm o poder e querem mantê-lo. Foi a conciliação que nos colocou nesse buraco político atual.

Os escritores nordestinos de ficção científica, terror e fantasia precisam marcar território como um ato de afirmação. Contudo, também devem estar abertos a uma vontade de agregar. Sabemos que, para muita gente no Sudeste, nordestino é tudo baiano. Mas não devemos, por isso, achar que só há inimigos fora do Nordeste. Trata-se também de um processo pedagógico para aqueles dispostos a nos ouvir. Porque queremos falar. E vamos falar independente da permissão de quem quer que seja.

Crédito da imagem: Juarez Paraíso

 

 

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BACURAU, UM MANIFESTO DE RESISTÊNCIA

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Bacurau é um filmaço. Irregular, mas feito com muito tesão. Cheio de consciência estética e política. Porém, para surpresa geral, os diretores afirmam que a violenta trama de resistência não foi pensada como uma metáfora para os atuais tempos sombrios. De fato, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles tiveram a ideia de fazer Bacurau há dez anos, com o roteiro sendo trabalhado nos últimos três.

Os diretores reconhecem e enaltecem a influência do cinema de gênero (terror, western, thriller, ficção científica). Citam mestres como John Carpenter, George Romero, Sergio Leoni, Sergio Corbucci e Sam Peckinpah. Uma intenção evidente de Mendonça e Dornelles é fazer um filme de gênero como metáfora política, mesmo que não que seja colada à indigência vigente, pensando na crise da sociedade brasileira como um processo histórico em andamento. (Mas, no fim das contas, os significados e interpretações fogem do controle de seus autores, como em qualquer obra artística, e, sim, Bacurau é uma manifesto de resistência do povo nordestino contra os fascistas locais, do sul maravilha e estrangeiros.)

Carpenter refletiu sobre a crise capitalista nos EUA dos anos 70 e 80, em Assalto ao 13º Distrito e Eles Vivem. Romero refletiu sobre a tensão social gerada pelo movimento dos direitos civis nos anos 60, em A Noite dos Mortos Vivos. Peckinpah fez algo semelhante com as consequências da guerra do Vietnã, em seu western tardio Meu Ódio Será Sua Herança. E Corbucci, membro do partido comunista italiano, pensou nos movimentos revolucionários espalhados pelo mundo dos anos 60 e 70 ao criar seus Zapata westerns.

Mendonça e Dornelles bebem de todas essas fontes para apresentar um filme vibrante em seus melhores momentos. Bacurau está em cartaz em várias salas pelo Brasil, ganhando espaço no circuito comercial, não se restringindo ao circuito de arte. Pode ser visto por qualquer pessoa. É divertido, tenso, movimentado e reflexivo. O que pode afastar muitos espectadores é a opção, totalmente válida dos diretores, de quebrar expectativas. Bacurau é ação, mas não é. É suspense, mas não é. É gore, mas não é. Há uma constante mudança de propostas. O que para uns pode ser irritante, para outros pode ser desafiador.

É uma obra aberta que estimula diversas interpretações. Contudo, certas inconsistências no roteiro e os rumos tomados no ato final criam um sentimento conflitante na gente. Adoramos o clímax por sua potência, mas, em paralelo, o odiamos pelo ritmo canhestro, pela cinematografia mais pobre. Mesmo que o embate final seja um jogo metalinguístico, carece de mais esmero, algo que foi melhor executado em filmes de John Woo, por exemplo.

A população de Bacurau é marcante (Lunga, Domingas, Pacote, Teresa, Plínio, Damiano, Maciel, Flávio, Sandra, o violeiro gaiato…), só que não espere muito desenvolvimento de nenhum personagem. Isso fica pelo caminho. Mas o que é mostrado se torna suficiente para nos conquistar. Torcer por eles. Sofrer com eles. A verdadeira protagonista é a cidade de Bacurau, com seu povo, sua história, seu senso de comunidade, escassa de recursos (onde falta água, mas há internet), politicamente madura, em prol da diversidade. Uma utopia possível encravada no sertão pernambucano, ameaçada por um poder vil que recusa a dizer seu nome.

Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 132 min., SBS, Cinemascópio, Globo Filmes

AVALIAÇÃO:
RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

SUSPIRIA, FAZER DE NOVO NEM SEMPRE É REPETIR

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Nem sempre um remake é uma perda de tempo, um crime contra a obra original. Suspiria, de 1977, é um clássico do terror italiano, do giallo, o filme mais celebrado do mestre Dario Argento. Em 2018, o também italiano Luca Guadagnino, diretor do aclamado Me chame pelo seu nome, lançou uma nova versão de Suspiria. No final das contas, Guadagnino se saiu muito bem da enrascada em que se meteu. Justamente por ter sido infiel à obra original.

A premissa é a mesma. Uma estudante de balé americana vai para uma prestigiada academia na Alemanha e coisas bizarras começam a acontecer.

O filme de Argento é famoso por sua atmosfera arrepiante e estilosa. Pelo uso de cores primárias, principalmente o vermelho, na direção de arte e fotografia e pela trilha sonora com um rock progressivo, ao mesmo tempo, feérico e macabro. O roteiro é bastante básico e as atuações apenas satisfatórias.

A maior crítica que se pode fazer ao filme (e ao giallo em geral) é o seu sadismo contra as mulheres, pela maneira como morrem, assassinadas violentamente por mãos masculinas, além de mostrá-las como frágeis ou megeras, de maneira bidimensional. E tudo isso mesmo tendo uma protagonista feminina.

Já no remake, há um feminismo muito presente, inclusive, sem a preocupação de mostrar as mulheres como simpáticas. As personagens do novo filme metem medo porque elas têm plena consciência de seu poder. Aqui os homens são os inimigos, os fracos.

Guadagnino foi ambicioso ao ampliar o contexto desse remake. Assim como no original, ele se passa na Alemanha Ocidental da década 1970. Mas Guadagnino procura discutir traumas políticos do passado, relacionados à Segunda Guerra Mundial, e daquele presente, por meio da tensão social causada pelas ações da organização Fração do Exército Vermelho (RAF), mais conhecida como Grupo Baader-Meinhof. Ao invés de tirar o espectador da trama, essas preocupações extras aprofundam a experiência, porque o passado das mulheres da academia de balé tem a ver com repressão e perseguição ao longo da História, contra a plena liberdade delas.

Esteticamente, o remake envolve e assusta. Não se parece em nada com a ambientação estilizada do Suspiria de Argento, artificial, criada em estúdio. E sim com os filmes alemães do período, de cineastas como Fassbinder, Wenders, Herzog, von Trotta e outros. As cores são lavadas e os cenários, sóbrios, realistas.

O Suspiria de Argento fascina pelo clima de delírio, pelo simbólico sobre o subterrâneo da condição humana. E o remake seduz pelo grotesco mais visceral, uma metáfora da condição da mulher contemporânea. Mostra uma crueldade feminina implacável. Porque, mesmo no grotesco, há sabedoria, beleza e libertação.

Como bônus, Tilda Swinton arrasa em dois papeis completamente diferentes, pelo menos.

Suspiria (1977), de Dario Argento, 98 min., Seda Spettacoli 

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

Suspiria (2018), de Luca Guadagnino, 153 min., K Period Media e outros

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

LEIA O 1º CAPÍTULO DA NOVELETA “CAOS TRANQUILO”

cyberpunk-livro

Participo da coletânea Cyberpunk com a noveleta Caos Tranquilo. Uma história que mistura perseguição em carros velozes pelas ruas de Salvador e momentos introspectivos da protagonista, uma ex-militar, com seus dilemas morais. É uma trama ágil, mas que também faz pensar sobre o estado das coisas. Para saber mais, clique na imagem.

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Zima queria tirar logo as informações de sua cabeça e incendiar a Rede.

O bunker de MC costumava ficar pouco iluminado. O foco de luz voltado para a mesa larga de escritório. Os três monitores pareciam pequenas TVs quadradas, um do lado do outro. O teclado era todo remendado com adesivos coloridos. A mesa estava cheia de papéis, livros técnicos, manuais, canetas, disquetes e embalagens de comida.

MC estava sentado numa cadeira giratória sebenta. Fazia frio, o ar-condicionado ruidoso operava bem. Mas ele não estava nem aí. Devidamente agasalhado e ouvindo heavy metal nas alturas em seu walkman.

A maior parte do cômodo estava vazia, na escuridão. MC só ocupava metade do espaço, como se fosse obrigado a respeitar algum tipo de fronteira. Os equipamentos ficavam bem próximos à parede do fundo. Em outro cômodo, havia várias CPUs espalhadas pelo chão. Cabos atravessavam a parede, por buracos mínimos, para chegar aos monitores. Do outro lado, fazia ainda mais frio. Zima já tinha ido até lá uma vez. O bunker era alimentado por um gato na rede elétrica. Um gerador ficava junto das CPUs, em caso de emergência.

Zima estava de pé, mais recuada, na penumbra, observando MC trabalhar. Qualquer um que o visse na rua nunca ia imaginar que aquele sujeito, com cara de garçom de churrascaria, era uma porra de gênio. Quando estava ali, ela nunca se cansava de pensar nisso, de rir disso.

MC pendurou os fones fininhos no pescoço, a música tocando. Afastou-se da mesa e girou a cadeira para encará-la.

“Pronta?”

“Sim.”

MC balançou a cabeça e apertou os lábios.

“Ok.”

Então se levantou. O walkman estava num bolso dianteiro do agasalho.

Ele foi até o frigobar e pegou uma garrafinha de Crush de laranja.

Virou-se para Zima.

“Aceita?”

“Vamos logo com isso, cara.”

Ele sorriu.

“Calma, Zi. A gente vai fazer História. Preciso tomar alguma coisa refrescante primeiro.”

“Nada de pílulas. Você não vai viajar hoje.”

“Sem problema.”

MC pegou um abridor de garrafa em cima do frigobar. A tampinha caiu no chão. Ele deu goladas generosas.

Depois voltou para sua cadeira e colocou a garrafinha pela metade na mesa.

“Vai deitar no chão mesmo?”

“Como sempre.”

“Desta vez, vai doer mais.”

“Não importa.”

MC torceu o rosto.

“Você é quem manda.”

Ele girou a cadeira e começou a teclar.

Zima tirou uma Glock, escondida sob a blusa, da frente da calça. Agachou-se. Colocou a arma no chão e se deitou. Usava uma blusa sem mangas. A pele negra dos braços e das mãos sentiu o frio do piso de concreto.

Ela poderia muito bem sentar em outra cadeira giratória que tinha ali no canto. Mas preferia o piso duro e desconfortável.

Enquanto MC fazia os últimos preparativos para a conexão, ela levou a mão ao seu chip de acesso, atrás da orelha. Seu cabelo sempre estava muito curto. O chip ficava visível o tempo todo. Certas pessoas achavam aquilo prático. Outras ficavam incomodadas.

“Let´s go”, MC disse.

Zima olhava para o teto.

Ela ouviu a cadeira girar, MC se levantar e pegar suas coisas. Estava acostumada. Nas mãos dele, com certeza, havia o cabo conector e a caixinha do mordedor de boxe com um Z escrito na tampa.

“Esse treco está limpo, certo?”

“Dei uma lavadinha.”

Ele riu, aproximando-se.

Ela não falou mais nada.

Então veio uma explosão.

Tudo ficou numa escuridão total. Os aparelhos pararam de funcionar.

Poeira e fumaça contaminaram o ambiente.

Zima ouviu um grito de MC.

Mesmo atordoada, ela se sentou no chão, ligeira. Procurou a Glock ao lado e apontou para frente.

Seu olho biônico foi automaticamente acionado.

O olho bom começou a lacrimejar.

Ela prendeu a respiração.

Tinham derrubado a porta. Ela ouvira o som de metal batendo no concreto.

Entraram. Passos apressados de botas.

Três leituras térmicas em preto e branco. Os invasores carregavam fuzis à altura do rosto, provavelmente, M4.

Zima não perdeu tempo. Deu três tiros. Todos na cabeça.

Gritos de dor. Corpos brancos no chão. Nenhum tiro disparado pelo inimigo.

Ela soltou o ar. Tossiu. Passou a mão no olho lacrimejante.

Ainda apontando a Glock, virou a cabeça para trás.

Captou a leitura do corpo branco de MC, deitado no chão. Além de manchas brancas ao redor, fontes de energia dos aparelhos ainda quentes.

Ele estava vivo, mas quase não se mexia. Ela não tinha como saber seu estado. Ele se mantinha em silêncio.

Ela voltou a encarar o que estava adiante.

Da parte dos invasores, nenhum movimento, nenhum gemido.

Ninguém mais surgiu na porta.

Zima foi precisa nos disparos, mas também teve sorte. A posição dos invasores ao entrar era desfavorável. A porta se encontrava do mesmo lado onde ela estava deitada. Executaram uma manobra maior, perdendo segundos na abordagem. Segundos preciosos.

Eles sabiam que ela tinha reativado seu olho biônico?

Pela eficiência dos tiros, ela imaginou que os invasores estavam sem qualquer proteção ou aparelho na cabeça. O ataque no escuro aumentou as suspeitas de que também tivessem olhos biônicos.

“Merda.”

Começava a fazer calor ali dentro. Mas para o ar-condicionado funcionar de novo, o gerador precisava ser ligado manualmente.

Até que ponto os desgraçados conheciam os detalhes do bunker?

A ansiedade deu lugar à fúria.

Zima procurava entender qual tinha sido seu erro, qual foi a besteira que fizera para conseguirem achá-la antes do previsto.

A NOVA EDIÇÃO DA ESTRANHA BAHIA

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A nova edição da Estranha Bahia está mais gostosa de pegar e de ler. O formato 14cm x 21cm, mais compacto e robusto, com capa cartão e papel de maior gramatura, deixa o livro mais resistente e mais prático para o leitor levar aonde quiser. E agora Estranha Bahia vem com shrink, a embalagem plástica protegendo o livro. Lançamento em agosto. Serão disponibilizados a versão em e-book, na Amazon, e o livro físico, em loja virtual, com entrega para todo o Brasil.

ESTRANHA BAHIA FOI PARA A GRÁFICA

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Estranha Bahia finalmente foi para a gráfica!!! Na verdade, serão impressos 20 exemplares iniciais, que servirão como ARCs (Advanced Reader Copies) de luxo para distribuição entre blogueiros e booktubers. Já notei algumas pequenas correções a fazer. Os contos foram revistos pelos autores e houve nova revisão. Essa 2ª edição terá 196 páginas, no formato 14cm x 21cm. Em breve, Estranha Bahia estará disponível em e-book na Amazon e o livro físico poderá ser adquirido em loja virtual, com entrega para todo o Brasil.

UHURA (POEMA FANTÁSTICO 4)

uhura

Uhura

Olorum encarregou Oxalá
de fazer o mundo

um espetáculo tão estranho
que qualquer um
que olhasse, pensaria

sequenciadores
samplers
sintetizadores

componentes de um código
uma tecnologia secreta
para modelar o ser humano

incorporar
o não narrado
os buracos

orixá tentou fazer o homem
de ar
como ele

um fragmento narrativo,
o homem logo de desvaneceu

a empreitada de criar
uma distorção significativa do presente

a maior empresa de tecnologia
do mundo
que controla boa parte
de nosso tráfego na web
absorve empresas de robótica
e inteligência artificial
especula-se
por que

o orixá tentou
vários caminhos
fez de fogo
o homem se consumiu

tentou azeite
água
até vinho de palma

uma nova geração
de sistemas autônomos
o marketing indireto
de produzir realidades
informações circulam
como uma commodity

foi então
que Nanã Burucu veio
apontou com seu ibiri centro e arma –
Para o fundo lago onde morava
e de lá retirou
todos os restos, os pedaços
que não foram apagados
uma memória coletiva
e individual
que nunca irá compor
um discurso

Oxalá modelou o homem do barro,
e com o sopro de Olorum,
ele caminhou

descendente direto
de alienígenas sequestrados
levado de uma cultura para outra
nessa nova sociedade híbrida

enquanto isso, no Japão
as pessoas já fazem
rituais funerários budistas
para seu cães-robôs
que podem fazer qualquer coisa
de trabalhar em depósitos
a cuidar de idosas
o mundo caminha à passos largos

mas chega o dia
que seu corpo precisa voltar

Nanã Burucu
espera os descendentes
despossuídos
abduzidos para o novo mundo

ela deu a matéria no começo
mas quer de volta
no fim
tudo o que é seu
a lama, frágeis arquivos
a chave
para o futuro na diáspora

(Stephanie Borges)

TRILOGIA BINTI: UMA JORNADA NOTÁVEL

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A autora estadunidense, de ascendência nigeriana, Nnedi Okorafor disse, certa vez, que, como não havia ficção para ela ler sobre a África no futuro, ela resolveu escrever suas próprias histórias. A trilogia Binti é um excelente exemplo desse projeto.

Na primeira novela, somos apresentados a Binti, uma garota muito curiosa, matemática brilhante e filha de um fabricante de astrolábios. Ela faz parte do povo Himba, na Terra. Um povo que dá valor ao conhecimento, mas muito fechado em si, bastante apegado às tradições. Quando Binti decide viajar para outro planeta, onde se encontra a universidade mais prestigiosa da galáxia, gera-se uma crise familiar. Os poucos Himba que deixam sua comunidade se tornam párias.

Na nave que a leva, Binti é a única pessoa do povo Himba a bordo, com otjize espalhada pelo rosto e tranças, uma espécie de argila vermelho-alaranjada, símbolo fundamental em sua cultura.

Binti se sente novamente dividida com o acolhimento de um grupo de estudantes, futuros colegas de universidade (depois de um estranhamento inicial) e a curiosidade espantada e racista de tripulantes e passageiros, gente Koush, um povo humano dominante. Então acontece uma reviravolta sanguinolenta. A viagem espacial se torna cenário de uma eletrizante história de terror, com a chegada do povo alien Meduse, inimigos mortais dos Koush.

Binti é uma adolescente muito decidida, mas também frágil na incerteza do que o futuro lhe reserva longe de casa, na universidade, e em seu contato com o povo Meduse. Contato esse que fica mais complexo e tenso à medida que o tempo vai passando na nave, e que vai transformar a vida de Binti para sempre.

Em Binti: Home, segunda novela da trilogia, ela já frequenta a universidade de Umza Ooni. Depois do trauma vivenciado no livro anterior, Binti volta para Terra, a fim de se explicar à sua família por ter fugido. Esse retorno não é fácil. Binti não é mais a mesma pessoa, algo que tanto seus familiares como a própria Binti têm dificuldade em entender.

A expansão desse universo é o maior mérito do segundo volume. Conhecemos mais o povo Himba e a família de Binti, com seus afetos e conflitos. Agora Binti enfrentará mais uma etapa decisiva em seu caminho de autodescoberta, após revelações sobre seus ancestrais e poderes que ela desconhecia. Ao mesmo tempo, há um grande perigo no ar. A rivalidade entre os Meduse e os Koush chega à Terra, ao povo Himba e coloca a vida de Binti em risco.

Na terceira novela, The Night Masquerade, temos uma conclusão épica à jornada de Binti, colocando-a no epicentro de uma guerra iminente entre Meduse e Koush, após anos de trégua. Binti precisa buscar a paz a fim de preservar sua cultura e a vida de seu povo. Além de tentar entender as habilidades que carrega consigo.

A primeira novela é tão empolgante que você consegue terminá-la de um só fôlego. O texto de Okorafor é simples, fluido, muito gostoso de ler. É uma prosa cheia de sabedoria, calorosa, mas que não deixa de lado o aspecto sombrio da natureza humana… e de alienígenas. Isso continua em Binti: Home, mas aqui algo fica faltando, um maior investimento na trama. Não acontece muita coisa, mesmo com um elenco de personagens fascinantes.

Contudo, em The Night Masquerade, Okorafor consegue aproveitar muito bem o fato de escrever a novela mais extensa para, finalmente, entregar ao leitor o cenário completo de toda a saga. É no terceiro livro que temos os melhores momentos de Binti, tanto na interação com os demais personagens, como em suas reflexões sobre seu lugar no mundo (e no universo) e outros temas caros, como os papéis da mulher, sede de conhecimento, estado de guerra, tradição, modernidade e negritude. Himba, Meduse e Koush não são retratados como mocinhos e vilões, mas como gente e seres complexos numa situação-limite, que precisam fazer escolhas difíceis, vencer barreiras e preconceitos. O desfecho é positivo, mas longe de ser ingênuo.

Com a trilogia Binti, Nnedi Okorafor subverte as convenções da ficção científica para tornar o gênero mais vibrante. Ela continua os passos de Octavia Butler e apresenta uma obra de afrofuturismo notável. A primeira novela ganhou o Nebula e o Hugo.

 

Binti, 98 págs, Tor. AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

Binti: Home, 168 págs., Tor. AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

Binti: The Night Masquerade, 202 págs., Tor. AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE