VALERIAN: UM FILME RUIM, MAS IMPERDÍVEL

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Tinha tudo para ser um filmaço, mas a promessa ficou no meio do caminho. Luc Besson apostou alto e perdeu, tanto do ponto de vista criativo quanto financeiro. Teve ambição. Produziu, dirigiu e escreveu. Só que se aproximou mais do George Lucas dos prequels de Star Wars do que do James Cameron de Titanic e Avatar. Besson estava apaixonado demais pelo seu projeto dos sonhos para perceber as falhas. Resultado: o espectador, com bastante paciência, tem que garimpar para ver o que há de melhor em Valerian. Apesar de seus graves problemas, o filme deve ser visto no cinema. Traz conceitos e visuais que você só verá nele, de maneira deslumbrante.

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Luc Besson é um diretor brega e piegas, mas já mostrou que sabe criar mundos fora dos padrões e personagens imprevisíveis e cativantes. Nikita ainda é seu melhor trabalho. Um filme de ação francês dos anos 90, cruel, punk, que chamou a atenção de Hollywood pela maneira nada moralista de fazer entretenimento à maneira americana. O Profissional já mostra um Besson mais domesticado. Mas ainda assim, o filme é perverso. Uma história de amor violenta e pra lá de controversa, nas entrelinhas. Em O Quinto Elemento, seu projeto mais ambicioso até então, acompanhamos uma divertida homenagem à ficção científica europeia.

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Visualmente, Valerian é seu filme mais maduro e sofisticado. A abertura, ao som de David Bowie, mostrando a origem de Alpha, a Cidade dos Mil Planetas, é empolgante. E o primeiro terço do filme mostra mais qualidades do que defeitos. Apesar da falta de carisma da dupla protagonista e dos diálogos ruins, o espectador compra a ideia com sua trama basicona e ágil e a estranheza da visão europeia do que é ficção científica no cinema, em seus cenários e criaturas. A sequência do deserto, em que a ação acontece em universos paralelos simultaneamente, é original e muito bem executada.

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A todo momento, assistindo ao filme, pensamos: isso é Star Wars, aquilo é Star Wars. Além de outras referências, como Matrix e Avatar. Mas, na verdade, devemos lembrar que Valerian é inspirado nos quadrinhos clássicos de mesmo nome, da dupla Pierre Christin e Jean Claude Mézières. Referências do próprio George Lucas para a criação do seu universo (alguns dizem que foi roubo de conceitos descarado). Com a adaptação de Valérian, agent spatio-temporel (mais tarde rebatizada de Valérian et Laureline), Luc Besson finalmente pôde realizar um sonho de infância.

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Valerian apresenta uma visão mais ingênua e otimista de uma FC cheia de raças alienígenas e conflitos de interesses. O clima é de sessão da tarde. Mas, no geral, o filme se torna mais ousado do que Star Wars. Primeiro, no visual mais pirado e lisérgico. Segundo, ao dar maior relevância aos personagens aliens. Aqui eles são parte importante da trama e muitas vezes superam a performance dos personagens humanos.

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Os maiores problemas de Valerian são o roteiro, cheio de furos, diálogos terríveis, humor pouco eficiente, subtramas confusas ou desinteressantes, e exposição desnecessária ou repetitiva. O elenco mal escalado ou mal dirigido. E a duração do filme, 137 minutos. Podiam ter cortado uns 30 minutos. Era para ser um ser um filme mais ágil. Assim seu subtexto anti-guerra ganharia maior relevância. Porque o espectador sai meio esgotado da experiência. Parece que Luc Besson teve pena de cortar aquelas cenas deletadas que vão para o Blue-Ray.

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Afinal, vale o ingresso? Para fãs de FC, o filme é obrigatório. Não saí do cinema puto da vida. Já sabia mais ou menos o que esperar. Mesmo assim, fui surpreendido com os melhores momentos.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valerian and the City of a Thousand Planets), de Luc Besson, 137 min., EuropaCorp e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO, EXCELENTE

ESTRANHA BAHIA NO RÁDIO

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Participei, na Rádio Showtime, do programa O Marco de Hoje, comandado por Marco Antonio Santos Freitas. Falei um pouco sobre minhas origens como viciado em cultura pop, referências literárias, novos autores e a coletânea Estranha Bahia. Na primeira metade do programa, há uma deliciosa seleção de canções dos anos 50 a 80, que tinham tudo para fazer sucesso, mas não decolaram. Minha entrevista começa em 35:10. Para ouvir o programa é só clicar na imagem.

AULAS DE UM MESTRE REBELDE

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Luiz Bras é um provocador. Em seu manual de escrita, ele propõe o seguinte: não dê tanta bola para regras. Na verdade, ele propõe que a gente aprenda a construir para depois desconstruir. Seu discurso rebelde não é vazio. Bras mostra muito conhecimento de causa, muita leitura. O pulo do gato é o que ele faz com toda essa bagagem. Segundo ele, devemos ler muito, de tudo, para nos tornamos leitores mais completos, e, por tabela, escritores menos convencionais, avessos a preconceitos. O melhor leitor/escritor é aquele que não coloca hierarquias, por exemplo, em Thomas Pynchon e Stephen King, reconhecendo o valor de cada um. Seu Ateliê de Criação não segue a estrutura de outros manuais. É uma colagem de textos que cabe de tudo: propostas para uma oficina literária, com sugestões de leitura e exercícios práticos; reflexões teóricas na forma de poesia; artigos e crônicas sobre vários temas pertinentes da literatura. O livro está repleto daqueles insights sobre escrever que tanto adoramos nesse tipo de obra. Eu mesmo marquei várias passagens. É uma leitura curta, prazerosa e sábia.

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MEU CONTO NA TRASGO

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Acaba de sair a revista Trasgo n°15. Principal publicação de ficção científica e fantasia no Brasil, ela foi idealizada pelo editor Rodrigo van Kampen. Ele se inspirou em publicações estrangeiras que valorizam a produção de contos de novos autores e nomes consagrados. Por aqui, a iniciativa é ainda mais necessária pelo menor espaço que a literatura de gênero (policial, ficção científica, terror…) tem na mídia e no meio editorial.

Nesta edição, vocês podem ler meu conto de ficção científica Wonder. Num futuro próximo, um casal descobre que seu bebê em gestação será uma criança com superinteligência, muito acima dos atuais superdotados. Wonders são celebridades, gerando fascínio e medo nos adultos.

A Trasgo pode ser lida de graça, em vários formatos. É só clicar na capa.

5 LIVROS IMPORTANTES DA FC BRASILEIRA

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O mestre Luiz Bras/Nelson de Oliveira me convidou para participar da enquete sobre os 5 livros mais importantes da FC nacional, do blog Ficção Científica Brasileira. O bacana do blog é resgatar clássicos do gênero no Brasil e dar visibilidade a autores contemporâneos menos conhecidos do grande público. Vale muito a pena conferir as resenhas. Você também pode mandar suas resenhas e participar da enquete. Eis minha lista:

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1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
[Primeiro livraço da FC nacional que li. Só então percebi que era possível fazer FC no Brasil. Merece uma reedição urgente.]

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2. Método prático da guerrilha, de Marcelo Ferroni (2010)
[O autor pode achar que não fez FC, mas pra mim é. Uma história alternativa da campanha de Che Guevara na Bolívia. Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, categoria estreante, de 2011.]

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3. Encruzilhada, de Lúcio Manfredi (2015)
[O caçula da lista. Mas com porte de gente grande. Mistura impecável de FC, terror e o fantástico. Ler apenas uma vez é pouco.]

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4. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyolla Brandão (1981) [O autor é um dos grandes da literatura brasileira. Tem talento e ousadia para escrever romances que tiram o leitor da zona de conforto da estrutura muitas vezes certinha do realismo. Anda meio esquecido. Um absurdo.]

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5. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008) [São contos sábios, escritos com conhecimento de causa, afinal, a autora é/foi uma cientista. Esperando pelo próximo livro há alguns anos.]

BALANÇO DAS MINHAS SUBMISSÕES DE CONTOS EM 2017

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Até agora, em 2017, foram 6 submissões de contos. Enviei histórias para 2 revistas, 2 sites e 2 coletâneas (uma física e outra em e-book). Tive aprovação em 5 delas e estou aguardando o resultado da sexta.

Já tive aprovações em anos anteriores. Mas este está sendo o mais produtivo. Tanto pela quantidade quanto pela qualidade de quem está aprovando minhas histórias. E detalhe importante: não paguei para enviar os contos e não pagarei para vê-los publicados.

Como consegui esse fazer isso?

1) Muita leitura, muita (re)escrita e muito estudo. Não adianta apenas ler e escrever. É preciso fazer essas atividades de maneira crítica. Leia um conto ou romance a primeira vez para se divertir. Depois leia novamente com uma caneta na mão e com o suporte dos melhores livros sobre escrita (a internet também é uma ótima ferramenta, cheia de textos, entrevistas, vídeos, podcasts). Você não precisa reler cada livro que passa por sua mão. Mas faça isso com aquelas obras que te deixaram boquiaberto.

2) Aprenda com seus erros. Contos meus foram rejeitados antes. Depois eu entendi os motivos. Faltava alguma coisa neles, uma melhor abertura, foco, coesão. Ou havia algo demais, muitos personagens, estrutura confusa, infodump. Reescrevi ou joguei fora os contos rejeitados.

3) Ouça as pessoas. Forme um grupo de leitores beta, pequeno, mas confiável, de amigos de verdade, que seja leitores, se forem escritores melhor ainda, que critiquem sua escrita com propriedade e justiça. Além disso, valorize a opinião ou análise mais aprofundada de qualquer pessoa fora de seu círculo de convivência disposta a ler seus textos. Retorne o favor, seja um leitor beta. Você também aprenderá analisando a obra dos outros.

4) Seja paciente com feedbacks, resultados e datas de lançamento. Ninguém está louco para ler seu conto. Apenas você mesmo. Só depois é que os leitores vão chegando, devagarzinho.

5) Fuja dos picaretas. Participe de concursos, sites, revistas e coletâneas que valorizem seu trabalho e não seu dinheiro. Há gente séria e profissional realmente interessada em revelar talentos. Basta procurar. O esforço vale a pena.

6) E por último, há o fator sorte. A loteria do acaso que te coloca no lugar certo na hora certa. Mas sorte apenas não transforma ninguém em escritor. Antes vem o trabalho duro.

ESTOU NA COLETÂNEA CYBERPUNK DA DRACO

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Minha noveleta Caos Tranquilo foi selecionada para a coletânea Cyberpunk da Draco!!!

O cenário é uma Salvador dos anos 80, numa linha temporal alternativa. Depois da Segunda Guerra Mundial, uma tentativa de levante comunista fracassa no Brasil. Os EUA aproveitam a oportunidade para salvar o país, com o Apoio Decisivo. Então se estabelece um estado policial disfarçado de democracia, onde o atraso e o hi-tech vivem em guerra.

Acompanhamos duas histórias em paralelo. Zima é uma ex-militar que roubou dados de um escândalo industrial da megacorporação Omega. Ela conta com um hacker para divulgar as informações. Edmo é um jornalista que trabalha para uma revista semanal popular e medíocre. Mas secretamente ele é Deom, autor de livros incendiários, publicados nas brechas da Rede. É preciso saber em quem confiar. Zima e Edmo correm risco de vida.

APOSTANDO NA NOVELA DE FC, FANTASIA E TERROR

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Alguma editora nacional devia apostar num selo de novelas contemporâneas de ficção científica, fantasia e terror, de autores estrangeiros e, principalmente, brazucas. Apenas no formato em e-book, com edições simples, mas profissionais.

A ficção curta ganhou novo fôlego na era digital. As pessoas estão mais dispostas a ler histórias mais rápidas, em diversas plataformas.

Muitas vezes queremos uma leitura que nos engaje enquanto estamos no ônibus, no metrô, na fila do banco, do supermercado, no intervalo da aula. Deixando os romances para ler na poltrona, na cama. E a novela vem mostrando ser um formato interessante para suprir essa necessidade de leitura fora de casa.

Não tenho uma pesquisa científica para comprovar essa tese, mas é algo que concluo a partir de minha própria experiência, de amigos e de gente que fala sobre isso na internet.

Muitos torcem o nariz para o conto por achar que não há material suficiente para um investimento emocional (o que pra mim é uma bobagem). Mas com a novela é diferente. Os viciados em romances estão mais abertos a ler romances menores. Ainda mais se fizerem parte de uma série.

Se fossem novelas bem editadas e com preços acessíveis, poderiam ser até um novo filão do mercado. Um sucesso que nem mesmo a pirataria pudesse prejudicar. Se o selo tivesse uma identidade, uma cara própria, poderia conquistar os leitores. E eles fariam de tudo para apoiar a iniciativa, principalmente, comprando os e-books.

As novelas da Tor são um sucesso. Claro que estamos falando do mercado americano, que atende uma audiência mundial. E muitos dizem que é um caso isolado. Mas a Tor apostou e agora está colhendo os frutos em vendas e prêmios.

Também dizem que o e-book no Brasil não decolou etc. etc. Não sei. Quem está dentro do mercado sabe mais do que eu. Só acho que seria interessante a gente ver novelas de FC, terror e fantasia sendo lançadas regularmente e criando uma expectativa no leitor, gerando buzz. É um formato que agrada a gregos e troianos. E talvez mais de acordo com a disponibilidade de tempo dos autores nacionais.

Prova do potencial do formato são novelas lançadas recentemente apenas em e-book. Tenho lidos ficções curtas independentes e de pequenas editoras bem editadas, de autores talentosos e com boa repercussão. Algumas superando expectativas.

No mercado editorial, a palavra aposta é o que move esse negócio meio louco que é publicar e vender livros. Há muita frustração, mas também há resultados surpreendentes.

A HISTÓRIA SECRETA DA MULHER MARAVILHA

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O surgimento da Mulher Maravilha nos quadrinhos é uma mistura de contexto social e vida pessoal. Seu criador, William Moulton Marston, era um entusiasta sincero do movimento feminista, nas primeiras décadas do século 20, nos EUA. Mas também era alguém polêmico e contraditório. E a figura de sua heroína, corpo e mente, foi inspirada em três importantes mulheres de sua vida. O livro de Jill Lepore mostra que a Mulher Maravilha é fruto direto da longa e difícil luta de uma era marcante do feminismo.

Marston nasceu em 1893. Atlético, carismático e multitalentoso, desde garoto, muita gente e, mais do que ninguém, o próprio Marston acreditavam que ele estava destinado a realizar grandes feitos. Aluno de destaque em Harvard, foi líder em várias atividades universitárias. Escritor prodígio de roteiros de cinema, venceu um importante concurso da época. O filme Jack Kennard, Coward foi produzido em 1915, mas teve uma exibição limitada. Anos depois, Marston se tornou consultor do estúdio Universal durante a transição do cinema mudo para o sonoro.

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William Moulton Marston

Em Harvard, estudou Direito e Psicologia. Sua ambição era se dedicar a uma vida acadêmica de prestígio. Mas, ao se formar, as coisas não saíram como planejado. Marston exerceu várias profissões e tocou alguns negócios, fracassando na maioria dos seus projetos. Advogado, pesquisador, professor, romancista, escritor de livros teóricos, publicitário, dentre outras atividades. Também foi processado por credores e investigado pelo FBI por um caso de fraude. Praticamente, por onde ele passava gerava controvérsias por suas ideias nada convencionais sobre a natureza humana (ele não via o homosexualismo e travestismo como desvios) e a relação entre homens e mulheres (para ele, os homens teriam muito mais a ganhar num mundo dominado pelas mulheres). Seus estudos eram considerados pouco científicos. Ele se tornou persona non grata no mundo acadêmico.

Marston advogava a superioridade das mulheres. Ele acreditava que elas tinham uma moral mais elevada por serem mais atentas e honestas. Mas também afirmava que elas possuíam uma docilidade natural, uma tendência para o amor e a submissão, principalmente, no sexo, em práticas como o bondage, em que pessoas são amarradas e imobilizadas.

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A visão que Marston tinha das mulheres estava relacionada com sua criação, cercada por várias tias. E também pelo interesse intelectual despertado pelo aguerrido feminismo, nos EUA e Europa, do início do século 20. Mulheres iam às ruas, levantavam cartazes, enfrentavam a polícia, proferiam discursos, acorrentavam-se em lugares públicos, faziam greve de fome contra as opressões do patriarcado. Era um movimento fortemente influenciado pela mitologia grega, por mitos, como a Ilha de Lesbos, e poemas de Safo, nos quais as mulheres viviam com paz e progresso apenas entre elas. O que influenciou, na literatura, a criação de obras feministas importantes, como o romance Angel Island, de Inez Haynes Gillmore. O universitário Marston acompanhava toda essa revolução social de perto. Tão de perto que ele acabou se envolvendo amorosamente com duas mulheres à frente do seu tempo, de uma só vez.

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Os três acabaram formando uma família fora dos padrões. Uma casa com um marido, duas esposas e vários filhos. Um arranjo mantido em segredo a todo custo. Elizabeth Holloway, amiga de infância de Marston, trabalhou por muitos anos como editora de periódicos científicos e da Enciclopédia Britânica. Olive Byrne era uma estudante universitária quando conheceu o professor Marston. Ela abandonou os estudos para cuidar da casa. Holloway era conhecida por sua sabedoria e firmeza. Byrne por sua inteligência e vivacidade, além de sempre usar braceletes. Byrne era sobrinha de Margaret Sanger, uma pioneira do controle da natalidade. Para Sanger, a mulher devia ter todos os direitos sobre seu corpo, tornando-se mãe quando desejasse, e não encarando a maternidade como uma prisão inevitável. Sanger era uma personalidade reconhecida internacionalmente, com trânsito entre políticos e a elite. Ela não gostava de Marston, por considerá-lo uma fraude e alguém prejudicial à sua sobrinha. Mesmo assim, Marston tomou Sanger como uma das referências para criar a personalidade da Mulher Maravilha.

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Elizabeth Holloway, Olive Byrne, com seus braceletes, e Margaret Sanger

A primeira tentativa de Marston de marcar seu nome na História foi com a invenção do detector de mentiras. Na verdade, com o teste de detecção de mentiras, no qual se media a pressão sanguínea para avaliar alterações de humor. O teste nunca foi levado a sério por autoridades do judiciário e pela polícia, parte por preconceito pela novidade, parte pelas dúvidas de sua eficácia. Em 1921, um concorrente, John Augustus Larson, teve mais sorte. Seu polígrafo utilizava um conjunto de fatores (pressão sanguínea, pulsação, respiração e condutividade da pele) para saber se alguém estava mentindo. Em pouco tempo, Marston viu o polígrafo de Larson ser adotado por vários departamentos de polícia pelos EUA, enquanto seu teste era desacreditado. Anos depois, ao criar a Mulher Maravilha, ele usuraria o Laço da Verdade como uma metáfora ao seu teste. Marston nunca desistiu de promover a eficácia do teste, o que gerou grande repercussão na mídia, mas quase nenhum reconhecimento de fato e pouco retorno financeiro.

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Marston aplicando o teste de detecção de mentiras

Em 1940, já na meia-idade, frustrado profissionalmente, havia anos com a família sendo sustentada pelos empregos mais estáveis de Elizabeth Holloway, Marston deu uma entrevista para a revista Family Circle. O título era Don’t Laugh at the Comics (Não riam dos quadrinhos). Marston enaltecia o potencial educador dos quadrinhos, um fenômeno recente na cultura de massa, que conquistou as crianças (e adultos) e se tornou a maior preocupação de professores e pais. Para muitos, os quadrinhos era violentos, estimulavam a delinquência juvenil e estavam repletos de mensagens subliminares pervertidas. Havia quem considerasse a figura do Superman uma ode ao fascismo. O publisher da All-American Publications (que depois se fundiria com outras editoras para formar a DC Comics) Max Gaines ficou tão impressionado com as palavras de Marston que o contratou como consultor.

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Não demorou muito, Marston sugeriu a Gaines a criação de uma super-heroína. A partir de conversas em casa, Marston surgiu com a ideia de um contraponto aos heróis masculinos, um exemplo para as mulheres de todo o mundo. Alguém que pudesse vencer a guerra com o amor. Seria uma maneira de calar os críticos que achavam os quadrinhos violentos. Mesmo relutante, Gaines aprovou a ideia. Marston convidou Harry G. Peter, veterano ilustrador de revistas feministas, para dar vida a Suprema, the Wonder Woman (o editor da revista do Superman, Sheldon Mayer, achou melhor chamar a nova super-heroína apenas de Wonder Woman). Depois de alguns testes, Marston ficou satisfeito com o visual da Mulher Maravilha, inspirado no Capitão América, lançado um ano antes, e em protagonistas femininas de outros quadrinhos. A princesa amazona estreou em All Star Comics #8, em 1941, e logo se tornou um enorme sucesso. Finalmente, Marston conseguiu a fama e o dinheiro que tanto tinha perseguido ao longo da vida.

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A Mulher Maravilha se tornou tão querida pelos fãs quanto Superman e Batman. Apesar do sucesso da heroína, Gaines estava preocupado. Provavelmente, a revista da Mulher Maravilha foi a mais atacada na era de ouro dos quadrinhos. Autoridades e especialistas, em nome da moral e dos bons costumes, travaram uma guerra contra Marston e sua controversa criação. Para esses críticos, a Mulher Maravilha era um símbolo contra o casamento (a heroína era independente e nunca aceitava os pedidos do galã Steve Trevor) e uma apologia ao lesbianismo e a perversões sexuais. Gaines ficou realmente preocupado quando um homem, leitor entusiasmado da Mulher Maravilha, enviou uma carta elogiando o trabalho de Marston. O leitor era adepto de fetichismos. Marston rebateu todas as críticas, com argumentos pertinentes ou não, e com ajuda de especialistas simpáticos aos quadrinhos. Gaines tentava contornar o problema. Afinal, não podia perder um sucesso de vendas como a Mulher Maravilha. Sucesso resultante de uma mistura da figura determinada e altruísta da Mulher Maravilha com sua imagem, ao mesmo tempo, doce e sensual, inspirada nas pin-ups.

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À esquerda, pin-up desenhada pelo peruano Alberto Vargas (Esquire, 1942). Marston escrevia roteiros detalhados, principalmente, as maneiras de amarrar seus personagens.

Assim como outros super-heróis, a Mulher Maravilha participou dos esforços da 2ª Guerra Mundial contra o Eixo. Qualquer um que leia hoje os quadrinhos escritos por Marston vai notar como a Mulher Maravilha era uma personagem à frente do seu tempo. Infelizmente, ao redor dela, não havia muito do que Marston se orgulhar. As histórias da Mulher Maravilha promoviam um feminismo muito particular, no qual apenas a heroína era uma mulher independente, bela, forte e de bom coração. Nenhuma outra personagem feminina chegava aos seus pés, nem Etta Candy, a melhor amiga, gorda e devoradora de doces, muito menos as vilãs sensuais. Nem mesmo seu alter ego, Diana Prince, uma versão edulcorada da princesa amazona. Para piorar, os roteiros de Marston traziam o mesmo racismo e xenofobia de outros quadrinhos da época. Pessoas negras eram retratadas como bonecos de piche, de fala caipira. Assim como mexicanos eram quase selvagens. Na grande maioria, os vilões eram estrangeiros, principalmente alemães, representando o nazismo, e chineses e japoneses, o perigo amarelo.

Apesar dos ataques e críticas, Marston ficou à frente de sua criação até a morte, em 1947. Depois disso, a princesa amazona deixou a controvérsia de lado. O editor Robert Kanigher, que não gostava da personagem, ficou responsável pela revista. A Mulher Maravilha se tornou uma garota comportada. Nas décadas de 50 e 60, o conceito original de Marston foi bastante descaracterizado. O que só foi recuperado, de certa maneira, nos anos 1970, quando a Mulher Maravilha estampou a primeira capa da revista feminista Ms., as histórias de Marston  foram reeditadas e lançaram a série de TV com Linda Carter.

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Primeira capa da revista Ms. (1972)

The Secret History of Wonder Woman é uma leitura geralmente fluida, com mais informações pertinentes do que desnecessárias, rica em fotos e ilustrações e com alguns comentários afiados. A autora é historiadora, professora em Harvard e colaborada da revista The New Yoker. Nos anos 1970, uma geração de pesquisadoras americanas começou a resgatar os acontecimentos do movimento sufragista e feminista nos EUA, entre a segunda metade do século 19 e início do século 20. Era um tipo de elo perdido da historiografia feminista. Jill Lepore dá sua contribuição com seu livro, publicado em 2014.

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Nos quadrinhos, a volta triunfal da Mulher Maravilha se deu pelas mãos do desenhista e roteirista George Perez, em meados dos anos 1980. Em 75 anos de existência, entre altos e baixos, o brilho da princesa amazona nunca realmente se apagou. Presente em várias mídias e no imaginário popular por décadas, a Mulher Maravilha se tornou um dos símbolos mais relevantes da cultura pop.

The Secret History of Wonder Woman, de Jill Lepore, 410 págs., Knopf.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

HISTÓRIA DO BRASIL ALTERNATIVA

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A história alternativa é um subgênero da ficção científica pouco praticado no Brasil. As histórias alternativas mais interessantes fazem especulações sobre o passado para entender melhor o presente. Por isso, é sempre bem-vindo quando bons romances nacionais imaginam outros Brasis possíveis, como uma criativa reflexão sobre nossa realidade.

No caso de A Segunda Pátria, de Miguel Sanches Neto, e E de Extermínio, de Cirilo S. Lemos, temos obras escritas por um autor do mainstream e outro do fandom, respectivamente.

Como o próprio Sanches Neto reveleou, seu romance foi encomendado pela editora. A proposta era responder à pergunta: e se o presidente Getúlio Vargas se aliasse a Hitler às vésperas da Segunda Guerra Mundial? No universo criado por Sanches Neto, os nazistas dominaram o sul do Brasil. Então acompanhamos, em A Segunda Pátria, a abordagem de uma ficção especulativa escrita por alguém com experiência em romances históricos, mas iniciante na FC.

A maturidade literária é o que mais chama atenção em A Segunda Pátria. Prosa fluente, sagaz, ótima pesquisa histórica, utilizada para reproduzir a atmosfera e a mentalidade da época, com personagens bem desenvolvidos. O aspecto especulativo é sutil, mas assustador. Os protagonistas são um engenheiro negro e uma jovem nazista branca, em Santa Catarina. O interessante é que o autor, a partir de sua pesquisa, extrapola ou dá outros rumos a fatos e comportamentos, de início, reais. Acompanhamos um horror palpável, verossímil. Infelizmente, a trama perde seu rumo por vários capítulos, ao dar-se ênfase apenas ao ponto de vista da jovem nazista. É um estudo de personagem envolvente, muito bem executado, com nuances e dilemas, mas que faz a narrativa deixar de lado o cenário mais amplo. O que vai ser recuperado só no terço final do livro, com toda a força. Terminada a leitura, percebemos que A Segunda Pátria, apesar de sua estrutura irregular, é um romance corajoso.

E de Extermínio foi originalmente publicado como uma noveleta, reproduzida na primeira parte do romance. Cirilo S. Lemos muda acontecimentos da história do Brasil, misturando personagens fictícios com personalidades do passado. As décadas de 1930 e 1940 são retratadas com uma pegada dieselpunk, num contexto retrofuturista, em que a monarquia ainda comanda o país, mesmo que de maneira frágil. Tensões entre monarquistas, militares, comunistas e americanos mostram uma disputa de poder acirrada, num cenário de Dick Tracy e Rocketeer, à nossa maneira, onde o avanço convive com o atraso.

O texto é ágil e cheio de ação. Mas há também belas passagens durante a calmaria ou nos momentos de delírio, nos quais os personagens são aprofundados. A ressalva fica para a falta de coesão do livro, em que as partes formam um todo meio caótico. Porém, isso é um arranhão menor na prosa relevante e divertida do autor.

A literatura brasileira precisa de mais livros como A Segunda Pátria e E de Extermínio. Romances que conseguem, ao mesmo tempo, contar boas histórias e fazer a gente pensar melhor sobre as rachaduras na realidade de nosso país.

A Segunda Pátria, de Miguel Sanches Neto, 320 págs., Intrínseca

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

E de Extermínio, de Cirilo S. Lemos, 248 págs., Draco

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE