MÁQUINA DO TEMPO MADE IN CHINA

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Viagem no tempo é impossível
no espaço-tempo, quem sabe
para encontrar-me
em outra versão
radical
oriental
orientada
a tornar a máquina de Wells
made in China

(Ricardo Santos)

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MOSTRA LITERÁRIA DE SALVADOR

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Participei ontem da Mostra Literária de Salvador, como espectador, leitor e entusiasta da cena literária baiana. Um evento pequeno, mas bem organizado. O teatro SESI é um espaço aconchegante, cercado pela atmosfera boêmia e cultural do bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Nada melhor do que respirar literatura à beira do mar.

Fiquei sabendo do evento poucos dias antes. Achei estranho, já que tento ficar ligado às movimentações literárias da cidade. Parece que não houve muita divulgação. E só quando cheguei lá, fiquei sabendo da polêmica sobre falta de representatividade.

A programação inicial contava apenas com convidados, de Salvador e de outros estados, brancos ou considerados brancos. Houve uma revolta nas redes sociais, questionando como poderia acontecer um evento literário em Salvador sem autores e influenciadores negros. A bronca era justíssima.

A organização reconheceu o erro e reformulou a programação. Autores, quadrinistas, contadores de histórias, blogueiros e youtubers negros participaram das mesas de debate e ministraram oficinas. Todos ganharam com isso. Percebi um ambiente muito mais plural e uma troca mais rica de experiências literárias. Como disse o poeta e editor Alex Simões em um das mesas, os autores negros têm que forçar a barra e ocupar os espaços, sim.

A Mostra durou o dia inteiro com mesas, oficinas, sessões de autógrafos, sorteios de livros, doação de livros, vendas de livros. O mais bacana para mim foi entrar em contato com editoras e autores baianos que eu não conhecia. Em Salvador, há uma cena literária de guerrilha, como disseram nas mesas. Sempre houve uma tradição de pequenas editoras, que procuraram dar vazão à produção local, tentando levar ao leitor edições de qualidade. Já vi editoras daqui morrerem por vários motivos. E, vez ou outra, vejo outras nascerem. E a melhor forma de conhecê-las é circular pelos eventos literários.

Foi um prazer prestigiar o amigo Ian Fraser. Conhecer pessoalmente Alex Simões. Saber da existência da maravilhosa Lorena Ribeiro, com seu necessário canal Passos entre Linhas, daqui de Salvador, focado em literatura nacional. Bater um papo com o poeta Anderson Shon e falar sobre a urgência em consumir autores negros baianos vivos.

Nas duas mesas a que assisti, falou-se muito da crise do nosso mercado editorial, das transformações que estão ocorrendo e do papel do autor independente, capitaneando uma nova maneira de divulgar, vender e distribuir livros. O cenário é complicado, mas também o abalo do mercado pode gerar oportunidades para os autores nacionais, até mesmo em relação às grandes editoras.

Como disse o mediador Pedro Duarte, um cara que conhece muito os bastidores do mercado editorial: se está caro investir em autor estrangeiro, agora é a hora de investir em autor nacional, mais barato e acessível. As grandes editoras já acordaram para essa realidade, pelo menos, no gênero YA, para jovens adultos. Mas foi consenso na Mostra que as grandes editoras, as grandes livrarias e as distribuidoras têm que repensar suas práticas ultrapassadas para que o próprio mercado continue a existir.

A primeira edição da Mostra Literária de Salvador apresentou o potencial do evento. Tem tudo para crescer, incluir cada vez mais gente e ser uma referência na cena literária baiana.

O INFERNO SOMOS NÓS

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Jordan Peele conseguiu de novo. Entregou ao espectador mais um filme de impacto, tanto do ponto de vista estético quanto reflexivo. Em Corra! ele apresentou uma arriscada combinação de filme tenso, mas muito divertido. E se saiu bem desse desafio, criando algo único, a partir de referências inconfundíveis de mestres do cinema do passado.

Em Nós, Peele se arrisca ainda mais, em nome de um objetivo claro: assustar, deixar o espectador em choque. O humor está presente, porém de maneira mais pontual. Nos seus melhores momentos de sátira, as piadas são ótimas. Há uma cena hilária que usa a música Fuck the Police, do N.W.A. Mas, no fim das contas, o que prevalece é o gore e o slasher. O desespero, os gritos, as mutilações, o sangue.

Como diretor, Peele amadureceu. O primeiro terço do filme tem um ritmo impressionante. Praticamente nada acontece, mas o que vemos tem uma fotografia tão elaborada, uma montagem tão cadenciada e diálogos e atuações tão marcantes, que não importa. Acompanhamos o cotidiano da família protagonista com um sorriso besta na cara, sem desejar que nada se apresse. A influência de Hitchcock é evidente, o diretor que construía seus suspenses sofisticados para o público médio como um reflexo apavorante desse mesmo público. E quando a violência começa, nos deparamos com um dos filmes de terror mais criativos e perturbadores dos últimos tempos. Uma mistura de homenagem e subversão ao cinema de horror dos anos 70 e 80.

É realmente revolucionário ver uma família de negros com tamanha personalidade e desenvoltura como protagonistas de um filme importante, que gerou tanta expectativa. Todos os quatro membros da família Wilson tem uma individualidade bem desenvolvida, provocando afetos e tensões entre si . Eles conquistam a empatia da plateia por suas qualidades e falhas. Ao mesmo tempo, os atores também impressionam quando representam seus duplos assassinos, invertendo a experiência do espectador de forma fascinante. Agora a dona do filme é Lupita Nyong´o. Ela arrasa como a mãe que defende sua família a qualquer custo e como seu duplo, uma personagem nada caricata, carregando uma complexidade surpreendente. No gênero do terror, é uma perfomance histórica para uma mulher negra.

Peele revelou em entrevistas que Nós tem uma reflexão bastante específica, como fica evidente no duplo sentido do título em inglês. Mas ele também admitiu que fez um filme com várias camadas, permitindo outros tipos de interpretações. De fato, Nós é bem mais ambíguo, mesmo havendo algumas revelações no final. O filme já está gerando muita discussão sobre seus significados, pelo o que ficamos sabendo e pelo o que é deixado em aberto.

Nós não é perfeito. O filme sofre uma falta de coesão em suas ideias e estrutura narrativa. Mostra certo cansaço no terço final, quando tudo já pareceu resolvido. Peele criou a atmosfera de uma tensa e afiada alegoria sobre o ser humano, olhando para si mesmo e para a sociedade que ajudou a construir. Portanto, seria bem mais desafiador se essa grande metáfora não fosse explicada. Porque muita coisa relacionada à origem dos duplos não faz o menor sentido.

De qualquer maneira, Nós é um filmaço. É algo inédito no cinema em geral, por trazer uma nova perspectiva, uma nova voz, confirmando Jordan Peele como um mestre do terror.

 Nós (Us, 2019), de Jordan Peele, 116 min., Monkeypaw Productions.

 AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

 

CAPITÃ MARVEL, UM FILME DIVERTIDO E INSPIRADOR

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Então vamos lá, sem spoilers. Capitã Marvel é um filme divertido e inspirador. Num mundo onde existe o primeiro Thor, Hulk 2, Homem de Ferro 2 e Era de Ultron, este está longe de ser um dos piores do MCU.

Brie Larson convence como Capitã Marvel/Carol Danvers. Ela tem uma atitude inédita para uma personagem feminina da Marvel no cinema. A confiança dela desestabiliza quem está ao redor. E é isso o que causa a fúria dos haters. Ela está se divertindo fazendo o papel e consegue transmitir essa vibração para a plateia.

Tecnicamente, está tudo impecável, com efeitos especiais muito convincentes. O rejuvenescimento de Samuel L. Jackson e de Clark Gregg está incrível. E a recriação dos anos 90 é outro charme do filme. Há ótimas piadas sobre os perrengues tecnológicos da época.

Infelizmente, os Skrulls e Krees são mal aproveitados. E a Marvel mais uma vez não entrega vilões realmente marcantes. Há um problema de ritmo lá pelo meio. O roteiro tem aqueles furos já esperados de grandes produções. E as cenas de ação não são o melhor do filme, e sim a interação entre os personagens, na comédia (Brie Larson, Samuel L. Jackson, a gata Goose e Ben Mendelsohn são hilários quando as piadas funcionam) e no drama, com destaque para Lashana Lynch, como Maria Rambeau, a piloto melhor amiga de Carol.

O fato é que o filme da Capitã Marvel se tornou a Batalha de Yavin do MCU. Com direito a plot twist gigante, que vai mudar tudo o que pensávamos sobre o futuro desse universo e cena pós-crédito de cair o queixo. O grande desafio agora é saber como vamos continuar conectados a uma super-heroína tão poderosa. 

Capitã Marvel (2019), de Anna Boden e Ryan Fleck, 128 min., Marvel Studios

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

O AUGE DE CONSTANTINE

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Hábitos Perigosos é mais um ótimo exemplo para esfregar na cara de quem acha que quadrinhos são uma arte menor. O volume funciona praticamente como uma graphic novel, com uma história fechada. E que história!

Para quem nunca leu os casos sobrenaturais protagonizados pelo cínico mago John Constantine, este arco é perfeito. Considerado o melhor momento do personagem, ironicamente, acompanhamos o começo do fim. Constantine, fumante inveterado, está morrendo de câncer nos pulmões. Sim, essa HQ serviu de base para o filme com Keanu Reeves. É um bom filme, mas não compara ao material de origem.

Em Hábitos Perigosos, Constatine vai usar suas conexões com o além para tentar salvar sua vida. Será um caminho tortuoso e cheio de questionamentos.

A grande sacada do lendário roteirista Garth Ennis foi dar um ritmo de romance aos sete números da revista que compõem o encadernado. Nada é apressado. Mas também nada é entediante. A arte de William Simpson transforma as ideias de Ennis sobre céu e inferno em imagens de impacto.

Vemos o cínico Constantine fragilizado, reavaliando suas escolhas, ao mesmo tempo em que enfrenta demônios e seres humanos desprezíveis.

Hábitos Perigosos, de Garth Ennis, William Simpson e outros, 208 págs., Panini.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

TRISTE SÁTIRA SOBRE A MULHER CONTEMPORÂNEA

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The Pisces é um romance que te prende pelo texto ágil, coloquial, mas que consegue ter fôlego para tratar de temas muito sérios, misturando lucidez, ironia e desespero.

Lucy é uma acadêmica de 38 anos que está em crise. Sua dissertação sobre a poeta Safo não vai para frente. E ela acabou de terminar um relacionamento de oito anos. A irmã a convida para passar um tempo em sua casa, na Califórnia.

Certa noite, sozinha na praia, Lucy conhece Theo, um nadador deslumbrante de vinte e poucos anos. Para espanto e admiração dela, ele acaba se revelando um sereio. O que faz desse romance uma leitura envolvente é a voz narrativa. Lucy conta sua história em primeira pessoa, revelando com muita honestidade seu caos emocional.

De maneira rasa, Lucy por ser taxada de desagradável, sarcástica, maldosa. Mas isso seria uma injustiça. Primeiro, porque sua ironia é um dos grandes trunfos do livro. E segundo, há momentos de tristeza e de reflexão que a torna muita tridimensional. Momentos em que perguntas difíceis são feitas e verdades duras são ditas. Acompanhamos por páginas e páginas as digressões de Lucy e dificilmente ficamos entediados.

Fala-se de amor, sexo, carreira, maternidade, expectativa social e outros temas caros às mulheres, sob a perspectiva de alguém que questiona tudo e todos. The Pisces é sobre uma mulher no limite justamente por não saber direito seu lugar no mundo.

The Pisces, de Melissa Broder, 288 págs., Bloomsbury.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

SCI-FI (POEMA FANTÁSTICO 3)

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Sci-Fi

There will be no edges, but curves.
Clean lines pointing only forward.

History, with its hard spine & dog-eared
Corners, will be replaced with nuance,

Just like the dinosaurs gave way
To mounds and mounds of ice.

Women will still be women, but
The distinction will be empty. Sex,

Having outlived every threat, will gratify
Only the mind, which is where it will exist.

For kicks, we’ll dance for ourselves
Before mirrors studded with golden bulbs.

The oldest among us will recognize that glow—
But the word sun will have been re-assigned

To the Standard Uranium-Neutralizing device
Found in households and nursing homes.

And yes, we’ll live to be much older, thanks
To popular consensus. Weightless, unhinged,

Eons from even our own moon, we’ll drift
In the haze of space, which will be, once

And for all, scrutable and safe.

(Tracy K. Smith)

4 LIVROS DE CONTOS INCRÍVEIS ESCRITOS POR MULHERES

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Esses quatro livros de contos dão voz às mulheres da maneira completa possível. Ou seja, mostram que elas podem ser o que bem entender. O que muitos consideram ser loucura, vulgaridade, petulância e desvio, as mulheres chamam de liberdade e igualdade de direitos. Nem todas as mulheres desses contos têm plena consciência do seu feminismo, mas todas são personagens tridimensionais. Sabem o que querem e não querem para si.

Em O que Acontece Quando um Homem Cai do Céu, de Lesley Nneka Arimah, acompanhamos o livro com as histórias mais variadas em seus temas. A autora é britânica, criada na Nigéria e hoje mora nos EUA. É uma nerd declarada. E suas histórias refletem isso. Há de tudo um pouco, o fantástico, ficção cientifica, fábula, terror. Há também contos realistas. O que chamou tanto a atenção para esse livro largamente premiado é a sensibilidade de Arimah em conectar invenção e realidade de maneira tão intensa, profunda e sábia em poucas páginas. A visão geral é de desencanto. As personagens são mulheres ora sofridas, ora opressoras. Por isso, aqui não há lugar para ingenuidade. Outro aspecto interessante é ver como essas meninas e mulheres negras têm uma vida interior vibrante, provocando nelas todo tipo de sentimentos. A edição da editora Kapulana é bem cuidada. Não há muitos erros de revisão. Mas, às vezes, o espaçamento entre as palavras atrapalha a leitura. E a capa podia ser mais bonita. O que Acontece Quando um Homem Cai do Céu traz uma vigorosa perspectiva de pessoas que dificilmente são vistas em sua plenitude.

Já a autora argentina Mariana Enriquez apresenta ao leitor brasileiro um dos livros de ficção mais impactantes da última década. O seu As Coisas que Perdemos no Fogo investe no terror de forma visceral. É assustador porque a autora transforma os horrores do cotidiano da classe média e da periferia de Buenos Aires e da história recente da Argentina numa literatura claustrofóbica de primeira, ampliando significados e efeitos do comportamento humano e de mazelas sociais e políticas. Aqui também o foco são meninas e mulheres. Desta vez, as protagonistas estão mais à vontade na posição de gente branca com algum dinheiro, mesmo que meio decadente. Mas Enriquez nunca é leviana. Aliás, é por meio de sua extrema consciência que ela aperta os botões certos para nos apavorar. Estas protagonistas geralmente se colocam em situações perturbadoras, testemunhas do que há de pior na sociedade. Em ritmo de suspense, cada conto nos envolve e desestabiliza, à medida que avançamos em atmosferas pesadas, com lugares sujos, escuros e abandonados, habitados por personagens trágicos. A edição impecável da editora Intrínseca não nos distrai, não nos deixa sair desse mundo. Leitura para estômagos fortes.

O Corpo Dela e Outras Farras, da cubano-americana Carmen Maria Machado, conseguiu a proeza de ser finalista do National Book Award, o segundo prêmio literário mais importante dos EUA, depois do Pulitzer. É uma enorme conquista para um livro tão influenciado pelo fantástico e pelo terror. Não podia deixar de ser, mulheres são as protagonistas, geralmente lésbicas. Seus contos são alegorias poderosas a respeito de vários aspectos da vida da mulher contemporânea, principalmente, sobre agressões físicas, psicológicas e simbólicas, como a violência doméstica, o estupro, os papéis femininos na sociedade, a frustração sexual, a ditadura da beleza, a aceitação do corpo. Infelizmente, no geral, foi o livro de que menos gostei dos quatro, por sua irregularidade. Pela variação entre contos excelentes e cansativos, longos além da conta. Mas isso não significa que você deva ignorar a obra. Ela vale muito a pena por seus melhores momentos. E para completar, a edição da editora Planeta do Brasil é a mais bonita de todas, com uma lindíssima capa dura e um projeto gráfico ao mesmo tempo elegante e sombrio.

No caso da gaúcha Natália Borges Polesso, acompanhamos algo muito interessante. Amora é um livro de contos com tema único, relações lésbicas, mas com várias abordagens. O mais bacana é que os contos trazem uma consciência feminista muito presente, mas não há nada de panfletário. As personagens se comportam de maneira complexa, não se limitando a ser uma coisa só, uma metáfora, uma condição. O desenvolvimento realista de cada narradora ou personagem central convence o leitor que se trata de gente de carne e osso, com todas as suas potencialidades e contradições. Tem conto que você dá altas gargalhadas pelo humor sacana e tem conto que é emocionante pra burro pela força do afeto. Natália é a autora que mais experimenta em conteúdo e forma, sendo que algumas histórias são verdadeiros poemas em prosa. A edição da Não Editora é caprichada, em capa dura, muito gostosa de ter em mãos e com uma diagramação que facilita a leitura. O livro ganhou o prêmio Jabuti com todos os méritos. É um marco da literatura nacional.

Esses quatro livros são exemplos do que há de novo na literatura contemporânea. São visões de mundo que não pedem licença para existir. Trazem autoras que aliam o apuro narrativo com ideias arrojadas, colocando o tão relegado conto no centro da cena literária.

O que Acontece Quando um Homem Cai do Céu, de Lesley Nneka Arimah, 168 págs., Kapulana.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

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As Coisas que Perdemos no Fogo, de Mariana Enriquez, 192 págs., Intrínseca.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

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O Corpo Dela e Outras Farras, de Carmen Maria Machado, 240 págs., Planeta do Brasil, selo Minotauro.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

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Amora, de Natália Borges Polesso, 256 págs., Não Editora.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

CRIANÇAS LOBO PARA AMAR

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Wolf Children é um slice of life com um discreto toque de fantasia. Conta a história de uma mãe humana que tem de criar dois filhos lobisomens no Japão contemporâneo. Longe de ser um filme de terror, o anime dá medo por ser muito humano. Na verdade, assim como a vida, há de tudo um pouco: drama, comédia, tensão, tragédia e esperança.

O diretor e co-roteirista Mamoru Hosoda é um dos grandes mestres da animação japonesa. Sem dúvida, muito influenciado por Hayao Miyazaki, tanto na fluidez da animação quanto no desenvolvimento dos personagens. A luta de Hana, a mãe, para criar os dois filhos é cativante e bastante realista. Ela tenta cuidar da saúde, da alimentação e da educação deles, ao mesmo tempo em que precisa protegê-los de um mundo que pode machucá-los, física e psicologicamente.

Acompanhamos o crescimento da mais velha Yuki e do caçula Ame com curiosidade, encanto e apreensão. Afinal, os dois passam pelos mesmos problemas de outras crianças e adolescentes em sociedade, mas com um elemento a mais que torna suas vidas mais difíceis. Não por culpa deles, mas dos outros que não os compreendem. Há também momentos de extrema beleza e emoção, quando as crianças aproveitam todo o potencial de liberdade por serem lobisomens, num inspirador contato com a natureza.

Wolf Children é para todas as idades, mas, com certeza, são os adultos que vão melhor captar seus significados. Fala-se principalmente sobre identidade, pertencimento, sobre encontrar um lugar no mundo. Disponível na Netflix.

Wolf Children (2012), de Mamoru Hosoda, 117 min., Studio Chizu e Madhouse.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO, EXCELENTE