AS 5 MELHORES HQS QUE EU LI EM 2017

O leitor brasileiro de quadrinhos não tem do que reclamar. Há tantos títulos disponíveis que até fica complicado (e oneroso) acompanhar tudo. Mesmo assim, com promoções de lojas virtuais, algumas coisas interessantes ainda nas bancas e novas ferramentas digitais, é possível acompanhar muita coisa da produção nacional e gringa.  O Social Comics, uma espécie de Netflix de quadrinhos, firma-se como o meio com melhor custo-benefício para ler os quadrinistas brasileiros independentes. Faz tempo que muitos deles não devem nada aos artistas de fora no talento das ilustrações e na criatividade dos roteiros. O Catarse se tornou outra poderosa ferramenta para o autor independente chegar aos leitores. Também devemos aplaudir de pé o trabalho de editoras pequenas, como Mino, Veneta e Zarabatana. E há de se reconhecer que gigantes, como a Panini, trouxeram para o nosso mercado títulos novos e clássicos que o fã brasileiro já merecia ter na sua coleção. Continuo lendo DC e Marvel, porém cada vez mais procuro quadrinhos de super-heróis com propostas diferentes, o que você encontra na Image, Dark Horse e Valiant, por exemplo. As cinco HQs escolhidas por mim como as melhores de 2017 são aquelas que mais me causaram impacto este ano ao mostrar o cotidiano, o realismo, o fantástico, o já conhecido de maneiras nada convencionais.

5) Hitomi

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O charme dessa HQ nacional é sua simplicidade. Acompanhamos o cotidiano conturbado emocionalmente da garotinha Hitomi, numa pequena cidade do Japão, nos anos 80. A relação com a mãe é difícil e o pai está sempre ausente. O contraste entre o drama e a leveza das ilustrações e cores de George Schall cria uma atmosfera curiosa, como se pudéssemos ver o cotidiano sob um novo olhar, com mais atenção. O roteiro de Ricardo Hirsch privilegia o silêncio, dando mais peso à solidão e ao isolamento de Hitomi. A partir do instante em que nossa protagonista encontra uma câmera e sai por aí tirando fotos, ela partirá para uma insólita jornada de amadurecimento.

4) Black Hammer volume 1 – Secret Origins

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Essa HQ de super-heróis é uma ótima surpresa. Alia o visual da Era de Ouro dos quadrinhos, entre os anos 30 e 50, com um roteiro bem contemporâneo, criando uma atmosfera estranha e divertida. Temos um grupo de heróis aposentados, vivendo como uma família disfuncional, num fazenda no meio do nada. Seus dias de glória se foram e agora eles precisam aprender a lidar com as coisas banais da vida, num tipo de exílio forçado.  Suas histórias de origem, ao mesmo tempo, tiram um sarro e fazem homenagem a heróis icônicos da Marvel e DC. O roteiro de Jeff Lemire consegue um ótimo equilíbrio entre o humor e o drama, com reviravoltas intrigantes. A arte de Dean Ormston e as cores de Dave Stewart captam bem o clima de ficção científica das antigas. Black Hammer é uma HQ melancólica, mas engraçada, com seus momentos de pura bizarrice.

3) Nijigahara Holograph

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Em Nijigahara Holograph, temos uma luta feroz, entre manter ou perder a sanidade. Aqui o mangaká Inio Asano leva o leitor a uma jornada, ao mesmo tempo, bela e desumana, num tom muito mais sombrio do que em seus trabalhos anteriores. É como se David Lynch tivesse resolvido fazer um mangá, pegando o cotidiano, banal e repetitivo, e o virando pelo avesso, expondo os demônios que carregamos dentro de nós. Há uma alternância entre imagens e sentimentos harmoniosos com cenas de pura violência e degradação. Parece que a todo momento Asano faz sempre a mesma pergunta: como pode haver tanta beleza e brutalidade no mundo? Os personagens de Nijigahara Holograph ou são vítimas, ou algozes. Às vezes, ambas as coisas. Os jovens angustiados de suas outras obras estão lá. Mas agora tudo é bem mais sinistro.

2) Bulldogma

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O potiguar Wagner Willian se estabelece como um dos grandes nomes dos quadrinhos nacionais com essa obra-prima. Uma graphic novel de 320 páginas, cheia de bizarrices e reflexões sobre a existência e o Universo. À medida que acompanhamos o cotidiano da protagonista, a ilustradora Deisy Mantovani, percebemos como sua vida fica cada vez complicada, entre frustrações profissionais, indefinições amorosas, procrastinação, erros, roubadas, papos, baladas, cachaça, sexo, numa São Paulo efervescente. Para piorar, ela começa a ver coisas que não fazem sentido, acontecimentos estranhíssimos, ligados ao apartamento onde mora. O lugar faz parte da lenda urbana local, envolvendo abduções alienígenas. Aos poucos, Deisy entra numa espiral de paranoia, que vai aumentando, misturando pesadelo e realidade. Bulldogma é uma HQ imprevisível. O estilo da arte varia, tornando-se  impressionista, realista, cartunesco, de acordo com o momento da protagonista, na sua maneira de lidar com os outros e consigo mesma. Existe uma trama, mas o que importa mesmo é a atmosfera, os elementos que a compõe. O suspense avança, com surpresas e reviravoltas bem loucas. Bulldogma é uma visceral homenagem ao cinema, à literatura e aos próprios quadrinhos, uma reflexão alucinada sobre a arte de narrar.

1) Lobo Solitário volumes 1-5

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A maneira mais empolgante de conhecer a história do Japão feudal é lendo o clássico Lobo Solitário, publicado originalmente em revista, na década de 70. As aventuras do estoico ronin Itto Ogami e de seu nem sempre inocente filhinho Daigoro são, ao mesmo tempo, belas e brutais. O roteiro de Kazuo Koike tem soluções narrativas ora sutis, ora de grande força, além da extensa pesquisa sobre o período Edo (1603-1868), o auge do xogunato, uma espécie de ditadura militar. Em Lobo Solitário, a visão de mundo é aparentemente amarga, mas, no fundo, há um senso de justiça. Itto Ogami é um anti-herói à maneira dos cowboys interpretados por Clint Eastwood. Um canalha na superfície, mas com uma ética que procura fazer o certo. A arte de Goseki Kojima transforma todo esse contexto em imagens de um realismo e de uma fluidez cinematográficos. Lobo Solitário (que, na verdade, é um título inadequado para o contexto da HQ) tem um histórico de publicação complicado no Brasil, saindo no passado por várias editoras, em edições incompletas. Mas, em 2017, a Panini começou a republicar o título, direto da versão japonesa. Até agora foram lançado cinco volumes. Lobo Solitário é uma saga obrigatória para fãs de quadrinhos. E, para o público em geral, é uma leitura instrutiva e cheia de emoção.

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AS 5 MELHORES SÉRIES QUE EU VI EM 2017

É totalmente compreensível quando alguém prefere ficar em casa, no lugar de ir ao cinema. Hoje em dia, não faltam séries excelentes para assistir no conforto do seu lar, com um custo-benefício muito mais atraente. É até impossível acompanhar o volume de produções de qualidade, entre lançamentos e novas temporadas. As cincos séries escolhidas por mim como as melhores do ano foram aquelas que tentaram quebrar estereótipos sociais e clichês narrativos. Que ousaram na forma e trouxeram conteúdos sob um novo olhar. Em alguns casos, com um impacto digno dos melhores momentos da sétima arte.

5) Master of None (2ª temporada)

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A primeira temporada me conquistou por ter tido a ousadia de fazer uma comédia romântica inteligente do ponto de vista do cara que geralmente é o melhor amigo não-branco do protagonista branco. No caso, um cara de ascendência indiana. Aziz Ansari conseguiu ser divertido e, ao mesmo tempo, não banalizar temas cabeludos, como racismo e diferenças culturais. Na segunda temporada, vemos uma produção mais ambiciosa e madura, sem perder a leveza tão marcante da série. Há mais experimentações de linguagem, o próprio Ansari se mostra um roteirista e diretor mais seguro e inventivo. A coisa fica mais dramática nos últimos episódios. Mas tudo é tão bem executado que nos deixamos levar pelas angústias dos personagens. No final, entre a fantasia e a realidade, percebemos que não existe receita pronta quando o assunto é relacionamentos.

4) Mindhunter

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Se você gostou do filme Zodíaco, de David Fincher, vai amar Mindhunter. Na série, o tema do serial killer é tratado com ainda mais paciência e sutileza. Uma das surpresas do ano, esse drama policial acertou muito bem em concentrar seus esforços nas histórias. Todo o elenco está excelente, mesmo nos menores papéis, mas não há estrelas. A recriação dos EUA dos anos 70 é impecável, mas a direção dos episódios sempre é muito discreta. O ritmo mais lento da série é compensado pelos diálogos ágeis, interessantes e perturbadores. Apesar do fundo histórico, sobre o início do programa de análise de serial killers dentro do FBI, há muita liberdade criativa. O que acaba sendo uma maneira bem acertada de falar sobre o passado sob uma ótica contemporânea. Há muita violência física contra mulheres na série, afinal, são as vítimas preferidas dos serial killers, além do machismo, da violência simbólica, dos homens de bem. Contudo,  as personagens femininas, principalmente as protagonistas, estão longe de ser indefesas, submissas. A série é intensa, mas não é gráfica. O suspense cresce a cada episódio sem ninguém dar um tiro sequer.

3) Legion 

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Essa série é a coisa mais diferente que já vi, na TV ou no cinema, envolvendo super-heróis. O canal FX deu carta branca para o badalado showrunner Noah Hawley virar o universo dos X-Men pelo avesso. A narrativa de Legion é uma mistura de Michel Gondry e David Lynch. A direção de arte também é uma mistureba interessante de referências dos anos 60, 70 e atuais. Uma solução para cortar custos, mas que funcionou muito bem para dar um visual único à produção. Provavelmente, o espectador médio, mesmo fã da Marvel, vai achar tudo muito estranho e difícil de acompanhar. Há heróis, vilões e superpoderes, mas a atmosfera de sonho, de delírio, talvez não agrade quem espera uma narrativa mais linear, menos subjetiva. A verdade é que Legion deu um novo fôlego às adaptações de super-heróis. Mesmo que pouca coisa dos quadrinhos tenha sido usada. Mas há uma ligação direta com os X-Men, que pode ser mais explorada no futuro.

2) Cara Gente Branca

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Essa série da Netflix é uma ótima maneira de qualquer pessoa entender como o racismo opera na sociedade. Mostra a vida de estudantes negros numa universidade americana de elite. A escolha do cenário é certeira. Num ambiente onde o pensamento progressista devia dominar, arma-se um campo de batalha racial depois de uma festa blackface. A partir daí o espectador tem contato com todos os aspectos da vida universitária, principalmente, os menos nobres. A sistematização do racismo no campus não é muito diferente do que acontece em outros espaços sociais. Num lugar onde o jovem negro devia se sentir seguro, a violência simbólica é mais articulada. E a violência física é a mesma do mundo lá fora. Acompanhamos as várias nuances da experiência do jovem negro pelo ponto de vista de um elenco de personagens complexos. À primeira vista, eles podem ser vistos como estereótipos (a ativista, a patricinha, o radical, o capitão do mato). Mas a série dá oportunidade para que o espectador e os próprios personagens reflitam sobre quem eles são, a fundo. A todo momento, esses jovens tentam entender como fazer parte de uma sociedade que assimila e enaltece a cultura negra, mas que não se importa com corpos e mentes de gente negra. O humor aqui não é para gargalhar. Está mais para uma ironia incômoda.

1) Twin Peaks – O Retorno

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Não teve para mais ninguém em 2017 (ainda não vi The Handmaid´s Tale). O que inicialmente parecia uma ideia duvidosa, mesmo se tratando de David Lynch, acabou, no final, explodindo nossas cabeças. A 3ª temporada de Twin Peaks é um revival que nada tem de previsível ou preguiçoso. Lynch não se preocupou muito em agradar aos fãs de Twin Peaks. Há fan service, alguns inclusive aquecem o coração. Mas Lynch aproveitou esta oportunidade de retomar a série para expandir o universo criado por ele e pelo roteirista Mark Frost. Nos anos 90, Lynch revolucionou a televisão com uma 1ª temporada que transformava uma novela, uma soap opera, num pesadelo surrealista. No Retorno, ele vai ainda mais longe, numa narrativa mais fragmentada, mais lenta, mais delirante e mais engraçada. É puro cinema. Um filme de 18 horas, que surpreende a cada episódio. O que importa na obra de Lynch não é encontrar respostas, e sim ficar fascinado e abalado com as maravilhas e os horrores da jornada.

OS 5 MELHORES LIVROS QUE EU LI EM 2017

Este foi mais um ano de boas leituras, no geral. A Amazon, por meio de seus e-books e seu sistema de empréstimo, firma-se como a melhor maneira  para acompanhar a produção independente nacional. Li muitos contos avulsos, daqui e de fora. Algumas coletâneas, como Crimes Fantásticos, da editora Argonautas. Edições das revistas Trasgo, Somnium e Zzzumbido. Clássicos e contemporâneos. Ficção de gênero e mainstream. Não-ficção e poesia. Algumas menções honrosas: The Iron Dream, de Norman Spinrad; A Canção dos Shenlongs, de Diogo Andrade; Rua da Padaria, de Bruna Beber; Escritos em Verbal de Ave, de Manoel de Barros; Opus, de Saitoshi Kon; Ateliê de Criação Literária, de Luiz Bras. Os cinco livros escolhidos como os melhores de 2017 foram os que mais me surpreenderam, no tema, nas ideias e, principalmente, na execução.

5) All Systems Red

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Um murderbot, uma inteligência artificial com um corpo humanoide, é responsável pela segurança de um grupo de pesquisadores num planeta desconhecido. Na verdade, ela/ele não tem gênero. Ela/ele faz muito bem seu trabalho, mas não se interessa pelo contato com humanos. O que adora mesmo é assistir séries de TV. Mas as coisas se complicam. A equipe corre risco de vida. O murderbot tem que tomar decisões difíceis. E, aos poucos, descobrimos mais sobre seu passado sombrio. A grande atração do livro é a voz do murderbot. Sua narração é irônica e cheia de personalidade. Os outros personagens cumprem bem seus papéis de coadjuvantes, com destaque para a Dra. Mensah, a chefe da equipe. O texto é fluido, o mistério é envolvente e o ritmo é ágil. Contudo, no final, tudo é resolvido  rápido demais. Ficou a sensação de peças faltando. Mas as últimas páginas, após o clímax, fecharam muito bem o livro. Deu gostinho de quero mais. As duas próximas novelas da série serão lançadas em 2018!

4) The Sorcerer of the Wildeeps

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Com certeza, você nunca leu uma fantasia heroica, de espada e magia ou sword and soul como essa. Kai Ashante Wilson renova o subgênero, historicamente dominado por protagonistas viris e brutais, com algumas variações mais complexas (Elric, Kane, Geralt). Em The Sorcerer of the Wildeeps temos Demane, um jovem feiticeiro, e Captain, o líder de um grupo de mercenários. Ambos são responsáveis pela escolta de uma caravana de mercadores. E secretamente são amantes. É uma relação bonita, de respeito e cuidado mútuos. Mas também de conflitos. Nos anos 60, Michael Moorcock quis subverter o estereótipo do herói viril de Conan com seu Elric, um anti-herói fisicamente frágil, viciado em drogas mágicas, um pensador torturado. Moorcock também brincou com forma e conteúdo com tramas e personagens inspirados no surrealismo e psicodelia. Ashante Wilson leva essa subversão para outro nível. The Sorcerer… é uma história de fantasia (com elementos de ficção científica e terror) sem nenhuma vergonha de se assumir como tal, mas também é literariamente desafiadora. A linguagem é outro personagem aqui. Uma mistura de coloquialismo, norma culta e poesia. Não é uma leitura fácil. E infelizmente nem sempre dá certo. Essa experimentação funciona muito bem em certos trechos. Em outros, quebra o ritmo da trama. Leitor de fantasia ou não vai encontrar nesse livro uma história complexa e cativante.

3) Quatro Soldados

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Eu sempre quis ler um romance nacional como Quatro Soldados. Samir Machado de Machado mistura sem nenhuma cerimônia e com muita habilidade referências da chamada alta literatura a outras do puro entretenimento. Assim, ele cria uma obra híbrida e muito particular. Tem trama interessante? Tem. Tem protagonistas bem desenvolvidos? Tem. Tem worldbuilding e sense of wonder convincentes? Tem. O texto tem apuro literário? Tem. O romance é episódico. Aventuras passadas num Brasil do século 18 fantástico e brutal. Na verdade, outra delícia do livro é sua autoconsciência irônica, como um bom romance pós-moderno. Parece chato dizendo isso. Pelo contrário. É divertido, sem perder a lucidez, a elegância. Tem seus problemas: falta de personagens femininas de fato relevantes, uma sensação de obra incompleta, conclusão insatisfatória do arco de alguns protagonistas. Quatro Soldados mostra um Brasil mítico para falar sobre o absurdo da realidade, com ecos no país de hoje. Não bastasse o texto cativante, o projeto gráfico da edição em papel é um luxo só.

2) Dois Anos, Oito Meses e 28 Noites

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Volta e meia, autores mainstream pegam emprestados elementos de ficção científica, terror ou fantasia para escrever um romance. Poucas dessas obras apresentam algo de novo, ou relevante para tais gêneros. Salman Rushdie é um autor diferente. Alguém que consegue transitar com desenvoltura entre o erudito e o pop, fazendo uma ponte consistente entre mundos que, no geral, procuram se evitar. No seu divertido, delirante e afiado Dois Anos, Oito Meses e 28 Noites temos uma história cheia de fantasia, ficção científica e terror, uma deliciosa fábula. Na verdade, o livro traz um comentário muito lúcido, mas não pessimista, do caos da vida contemporânea. Passada na Nova York atual, a trama envolve pessoas com super poderes, djins e deuses, procriação e morte, amor e sexo, razão e fé. Com seus personagens carismáticos (inclusive os vilões) e sua maneira sedutora de narrar, como uma Sherazade moderna, Rushdie nos leva pelo braço e mostra um mundo louco, fora de controle, mas também belo e fascinante, pelo qual vale a pena lutar.

1) The Secret History of Wonder woman

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O surgimento da Mulher Maravilha nos quadrinhos é uma mistura de contexto social e vida pessoal. Seu criador, William Moulton Marston, era um entusiasta sincero do movimento feminista, nas primeiras décadas do século 20, nos EUA. Mas também era alguém polêmico e contraditório. E a figura de sua heroína, corpo e mente, foi inspirada em três importantes mulheres de sua vida. O livro de Jill Lepore mostra que a Mulher Maravilha é fruto direto da longa e difícil luta de uma era marcante do feminismo. The Secret History of Wonder Woman é uma leitura geralmente fluida, com mais informações pertinentes do que desnecessárias, rica em fotos e ilustrações e com alguns comentários afiados. A autora é historiadora, professora em Harvard e colaborada da revista The New Yoker. Nos anos 1970, uma geração de pesquisadoras americanas começou a resgatar os acontecimentos do movimento sufragista e feminista nos EUA, entre a segunda metade do século 19 e início do século 20. Era um tipo de elo perdido da historiografia feminista. Jill Lepore dá sua contribuição com seu livro, publicado em 2014. Presente em várias mídias e no imaginário popular por décadas, a Mulher Maravilha se tornou um dos símbolos mais relevantes da cultura pop.

OS 5 MELHORES FILMES QUE EU VI EM 2017

Este ano resolvi selecionar não só filmes que vi no cinema. Cada vez mais, os serviços de streaming trazem excelentes filmes menores ou de outros países, difíceis de ver na telona. Teve muita coisa boa em cartaz, na tv a cabo e na internet. Adorei o escracho de Thor: Ragnarok. A mistura de faroeste e road movie em Logan. O gore visceral de Raw. A camaradagem juvenil de IT. O hilário What We Do in the Shadows. O épico indiano Bahubali. O fofo Sing Street. Mas também houve decepções. A maior delas foi o genérico e apagado Liga da Justiça. Kingsman 2 foi um filme desnecessário. Blade Runner 2049 é belíssimo, mas, no fim, apresenta um subtexto problemático, preocupado demais com o drama do homem branco. Os 5 filmes que escolhi são as narrativas que mais me impressionaram visual e filosoficamente em 2017. Fiquei pensando neles durante vários dias depois de vê-los.

5) OS ÚLTIMOS JEDI

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Os Últimos Jedi (por que no Brasil não se chamou O Último Jedi?) tem um ritmo irregular, barriga, personagens mal aproveitados e furos de roteiro, mas acabou se tornando uma das mais vibrantes experiências cinematográficas que tive recentemente. O filme trata, acima de tudo, do conflito de gerações entre a trilogia original e o novo cânone. Esse Episódio VIII veio para refundar a franquia, saindo da zona de conforto de O Despertar da Força. Pela primeira vez, vemos um filme de Star Wars do jeito que a Disney quer. Ou seja, entretenimento para todas as idades. Além disso, o diretor e roteirista Rian Johnson teve liberdade para escrever uma alegoria política sobre os tempos atuais, sobre a valorização da diversidade, da mulher, do herói comum, e uma crítica à fúria dos conservadores e à masculinidade tóxica. Visualmente, é o filme mais bonito de Star Wars, com momentos de cair o queixo, ou ficar em silêncio. O uso da cor vermelha tem uma carga dramática só vista no trabalho de autores arrojados, como Tarantino e Kubrick. É um filme corajoso em quebrar expectativas, fazendo uma devastadora autocrítica da mitologia da franquia e da própria jornada do herói no cinema. Tudo isso para tornar Star Wars ainda mais relevante e mágico.

4) MULHER-MARAVILHA   

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A Warner tem de agradecer de joelhos à diretora Patty Jenkins! Sem ela, o novo universo da DC no cinema seria um completo fracasso criativo. O filme da Mulher-Maravilha é um marco em vários aspectos, uma grande produção, comandada por uma mulher, que quebrou vários recordes de bilheteria. Acima de tudo, é um filme que amamos. Por retratar a Mulher-Maravilha de maneira tão sábia e vibrante. O filme é especial, porque, pela primeira vez, vemos personagens femininas em um blockbuster como pessoas, não como objetos sexuais, não como badass apenas; mesmo o excelente Mad Max – Estrada da Fúria ficou devendo nesse quesito. Enquadramentos de câmera, figurinos, diálogos, propósito e relevância na trama. Tudo isso foi muito bem orquestrado para que o espectador curtisse uma abordagem inédita numa produção desse porte. 80% do longa funciona muito bem. Mulher-Maravilha é um belo filme  histórico anti-guerra com super-heróis.

3) UNDER THE SHADOW

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Filme de terror pouco falado em 2016, mas que chegou a entrar em algumas listas de melhores do ano. É uma produção da Grã-Bretanha, Irã e Qatar. É a estreia do diretor e roteirista iraniano Babak Anvari. E o cara destrói. O filme se passa no Irã dos anos 80, durante a guerra Irã-Iraque. Uma mulher iraniana passa por uma série de problemas. Sofre com os bombardeios que atingem a capital Teerã, tem de cuidar da filha pequena inquieta, tem um marido que acha conveniente sua condição de dona de casa e o regime do aiatolá Khomeini a impede de continuar os estudos de medicina, por causa do seu passado político. O filme demora um pouco para engrenar. Mas, quando começa de fato, apresenta um terror sutil, que aumenta de intensidade, ficando cada vez mais assustador. O interessante é que a história do Irã e a cultura árabe são usados para realizar um filme de terror que também fala sobre os absurdos da guerra e angústias sociais quando não se tem liberdade.

2) YOUR NAME

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Sou fanzaço do diretor e roteirista Makoto Shinkai. Em Your Name, ele está no auge do seu talento. Não por acaso, o filme foi um gigantesco sucesso de bilheteria no Japão e pode ganhar uma versão live-action americana em breve. A obra de Shinkai fascina pela junção poderosa entre visual e emoção. Fãs de anime e apreciadores da cultura japonesa vão perceber as várias camadas do filme, indo além do melodrama juvenil. É uma constante no trabalho de Shinkai a discussão sobre pertencimento, o lugar de cada um no mundo, o vazio existencial, solidão, encontros e desencontros, tradição e o futuro. Em Your Name, os contrastes e conexões entre o Japão do passado e o atual são magistralmente mostrados, tornando-se um recurso fundamental na trama. Os elementos de fantasia e de crônica da vida moderna trazem algo bem original na maneira de contar uma história de amor entre adolescentes. Há o humor pateta e momentos mais tristes e tensos, embalados por uma trilha sonora filhadaputamente tocante. O filme tem uma dinâmica incrível com viradas de roteiro imprevisíveis. O elenco de personagens é muito carismático. E a mistura de animação tradicional e computação gráfica é a mais deslumbrante já vista numa obra de Shinkai. A melancolia de Your Name é romântica, mas nunca é desonesta. É uma animação belíssima, triste, que, no final, deixa na gente uma sensação boa de aprendizado.

1) CORRA!

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Corra! é um filme brilhante. A intenção do diretor e roteirista Jordan Peele era fazer uma reflexão sobre a condição do negro americano por meio de uma sátira, uma mistura de terror psicológico e comédia. Também podemos dizer que este é um dos melhores filmes de ficção científica dos últimos anos. A grande sacada aqui não é mostrar antagonistas explicitamente racistas, gente que odeia pessoas negras, que quer matá-las violentamente. O contrário é mais assustador. Em Corra! os brancos adoram, idolatram os negros. Mas sua versão distorcida de admiração gera uma violência ainda mais perturbadora. Na verdade, esse fascínio pela figura do negro é superficial. Mais uma vez, a dignidade de pessoas negras é tratada como coisa de quinta categoria, algo a ser descartado. Na sua estreia como diretor, Jordan Peele surpreende por sua segurança e ambição. Ele é um cinéfilo. Percebemos isso ao longo da trama, com suas referências a clássicos da ficção científica e do terror. Corra! é um filme que nunca vimos antes. É uma poderosa reflexão sobre as várias faces do racismo no formato de uma sátira assustadora.

A CERIMÔNIA DO ARGOS 2017

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Que tarde sensacional! A cerimônia do Argos 2017 superou as expectativas. Pude conhecer pessoalmente vários amigos virtuais, autores de quem sou fã, gente nova e reencontrar pessoas. A programação da Tarde Fantástica, na Universidade Veiga de Almeida, campus Tijuca, no Rio de Janeiro, teve exibição de animações e palestra sobre o consumo de ficção especulativa no Brasil, finalizando com a entrega do Argos 2017. A Estranha Bahia levou a 2ª colocação na categoria Antologias ou Coletâneas!!! É um grande feito pelo livro ser uma publicação independente e pela qualidade dos outros finalistas. Parabéns a todos os vencedores! Parabéns também ao CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica) por ser uma comunidade agregadora no fandom. No chope após a cerimônia, comentamos justamente as tantas coisas bacanas que podem surgir do encontro de gente talentosa e batalhadora da ficção especulativa nacional. E, finalmente, parabéns à comissão organizadora do Argos 2017, que fez um esforço tremendo para a realização desta edição, com direito a prêmio em dinheiro e livros cedidos pela editora Arqueiro. Que venha o Argos 2018 maior e melhor!

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LISTA DOS VENCEDORES DO ARGOS 2017

ROMANCE:

Grande Vencedor:
O Esplendor, de Alexey Dodsworth, Editora Draco

Segundo Lugar:
O Caminho do Louco, de Alex Mandarino, AVEC Editora

Terceiro Lugar:
-A Fonte Âmbar, de Ana Lúcia Merege, Editora Draco

ANTOLOGIAS/COLETÂNEAS:

Grande Vencedor:
-Medieval: Contos de uma Era Fantástica, organizada por Ana Lucia Merege e Eduardo Massami Kasse, Editora Draco

Segundo Lugar:
Estranha Bahia, organizada por Alec Silva, Ricardo Santos e Rochett Tavares, Editora Ex! (auto-publicacao)

Terceiro Lugar:
-Mistérios do Mal: Contos de Horror, de Carlos Orsi, Editora Draco

CONTOS:

Grande Vencedor:
O Grande Livro do Fogo, de Ana Lúcia Merege, na antologia/coletânea Medieval: Contos de uma Era Fantástica, Editora Draco

Segundo Lugar:
-O Domo, o Roubo e a Guia, de Roberta Spindler, na antologia/coletânea Dinossauros, Editora Draco

Terceiro Lugar:
-A Noviça Escarlate, de Luiz Felipe Vasques, na antologia/coletânea Crônica da Guerra dos Muitos Mundos – Volume 1, auto-publicação

ESTRANHA BAHIA FINALISTA DO ARGOS 2017

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Foram anunciados os finalistas do PRÊMIO ARGOS 2017. E a ESTRANHA BAHIA, da qual participei como organizador e autor, foi indicada como melhor antologia ou coletânea!!!!!!!!!!!!

Nossa equipe e os autores da ESTRANHA BAHIA estamos muito felizes de ver nosso trabalho de formiguinha reconhecido. E o que valoriza ainda mais nossa indicação é a qualidade dos outros finalistas. Só tem nome fera!

Parabéns a todos os indicados (teve gente que votei que está na lista). Parabéns ao CLFC pela iniciativa e por ser um espaço agregador no fandom. E parabéns à Comissão do Argos 2017 por ter domado o touro pelos chifres (quem conheceu os bastidores da premiação sabe a trabalhadeira que deu).

Estarei presente na cerimônia de premiação, no dia 16 de dezembro, no Rio de Janeiro. Ganhar é bom, mas, sinceramente, essa indicação já foi uma vitória. O mais importante será fazer parte dessa festa!

PRÊMIO ARGOS 2017 – FINALISTAS

ROMANCES:

-A Bandeira do Elefante e da Arara, de Christopher Kastensmidt, Editora Devir
-O Caminho do Louco, de Alex Mandarino, Editora Avec
-O Esplendor, de Alexey Dodsworth, Editora Draco
-A Fonte Âmbar, de Ana Lúcia Merege, Editora Draco
-O Ultimo Refugio, de João Beraldo, Editora Draco

ANTOLOGIAS/COLETÂNEAS:

-Crônicas da Guerra dos Muitos Mundos – Volume 1, organizada por Rita Maria Felix da Silva, auto-publicação
-Dinossauros, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro, Editora Draco
-Estranha Bahia, organizada por Alec Silva, Ricardo Santos e Rochett Tavares, Editora EX! (auto-publicação)
-Medieval : Contos de uma Era Fantástica, organizada por Ana Lucia Merege e Eduardo Kasse, Editora Draco
-Misterios do Mal: Contos de Horror, de Carlos Orsi, Editora Draco

CONTOS:

-Amor, Uma Arqueologia, de Fabio Fernandes, na antologia/coletânea Trasgo 11, auto-publicação
-Auto-Retrato de Uma Natureza Morta, de Octavio Aragão, na antologia/coletânea Crônica da Guerra dos Muitos Mundos – Volume 1, auto-publicação
-O Domo, o Roubo e a Guia, de Roberta Spindler, na antologia/coletânea Dinossauros, Editora Draco
-O Grande Livro do Fogo, de Ana Lúcia Merege, na antologia/coletânea Medieval : Contos de uma Era Fantástica, Editora Draco
-A Novica Escarlate, de Luiz Felipe Vasques, na antologia/coletânea Crônica da Guerra dos Muitos Mundos – Volume 1, auto-publicação

O vencedor de cada categoria será anunciado na cerimônia do ARGOS, dia 16 de dezembro, na UVA (Universidade Veiga de Almeida, campus Tijuca, no Rio de Janeiro, às 16:00).

Para cada primeiro lugar, além do tradicional troféu do ARGOS com o nome da obra e do autor gravados, haverá um prêmio em dinheiro de R$500 (quinhentos reais).
E os três primeiros colocados de cada categoria receberão um livro gentilmente oferecido pela Editora Arqueiro.

COMISSÃO DO ARGOS 2017

-Luiz Felipe Vasques – Presidente
-Jorge Pereira
-Eduardo Torres

QUERIDO OVO FRITO

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Quem veio primeiro
a galinha assada
ou o ovo frito?

Parece tanto com o sol
quando na frigideira
crepita
reagindo à manteiga.

Sinto-me um Zeus.

Não comer ovo frito
me causa mais depressão
do que a certeza da morte.

Minha tristeza é suspensa
no momento mágico em que
sento na mesa
e tomo café com leite quentinho
e como torrada
e ovo frito.

Depois da xícara vazia
do prato sujo de gema mole
aí sim
podem me dar outro tapa na cara.

(Ricardo Santos)

 

A COR DA JUSTIÇA É NEGRA, UM POEMA PARA O 20 DE NOVEMBRO

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Um poema para este 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra. Dia de luto e luta.

A COR DA JUSTIÇA É NEGRA

1.
Coloco a cara
de menino
de adolescente
de homem
de velho
pra fora de casa, de manhã cedo
pra ir trabalhar
pra ir estudar
pra procurar emprego
carregando na carteira minha ansiedade.
O que será dessa vez?
Vão me deixar em paz hoje?
Vão me deixar tocar a vida como qualquer outro robô?
Vão me enxergar além da minha pele?

2.
Meu dever de professora é ensinar aos meus alunos o seguinte:
no Brasil, é a polícia quem decide
se você é negro ou não.
Branco sai, preto fica. Branco vive, preto morre.
O PREconceiTO não é apenas social, não é apenas contra quem é pobre
e se chama Silva, Santos ou Conceição.

3.
Minha família é miscigenada
tem gente de pele clara
de pele escura
com cabelo crespo e cabelo liso
narizes e bocas e rostos
quadrados, redondos, cilíndricos
gente que mora nos subúrbios
e nas torres da classe média.
Dizem que sou pardo (odeio essa expressão).
Então me pergunto:
eu sou negro?
Não sofro o mesmo racismo
que meus primos de pele escura
que andam o tempo todo com o pontinho vermelho na testa.
Mas há momentos em que eu sou o mais escuro,
o não-branco, o cara de lábios grossos e cabelo crespo.
Ninguém diz nada na sala.

4.
Quanto mais escura for minha pele,
pior será o julgamento.
Triste dizer, mas é simples assim.
Não importa se sou rico ou pobre.
A cor da minha pele sempre será assunto de debate.
Discutir meu caráter?
Não me faça gargalhar.
Vamos deixar isso pra depois.

5.
O que seria do Brasil sem as mulheres negras
que balançaram tantos mateus e foram estupradas
para gerar todos os josés e marias?
Por que uma mulher negra não pode ser Miss Brasil?
Pois a beleza não é o que você diz o que é a beleza
e sim o que está no mundo.
Por que uma mulher negra não pode ser astronauta?
Mae Jemison vai dar na sua cara.

6.
Não pense, cidadão,
não pensem, autoridades,
que já nasci bandido
só porque minha pele é preta.
Pensem nos meus ancestrais
(que talvez sejam seus também
mesmo que não façamos ideia de quem eles eram)
trazidos contra a vontade para o Brasil.
Durante a travessia infernal
não morreram
de escorbuto
de fome
de tantos açoites
de epidemias
não cometeram suicídio
não foram jogados ao mar, ainda vivos,
acorrentados a outros iguais por se tornarem um estorvo.
Chegaram aqui como mercadoria:
força braçal e moeda de troca.
Sofreram todo tipo de violência para gerar riqueza.
Depois foram libertados, a mando das potências industriais
para virar mão de obra barata.
Os negros libertos fundaram periferias, subúrbios e favelas.
Segregados pelos muros do racismo institucional.
O Estado, a iniciativa privada, os detentores do poder
sempre viram a população negra como um mal necessário.
Empregadas domésticas
babás
motoristas particulares
de ônibus
limpadores de banheiro
garis
operários da construção civil
policiais
soldados
eleitores
consumidores.
Que não se atrevam a sair de suas posições demarcadas.
Mesmo que exista uma grande revolta pela carência de tudo.
Sem saneamento para todos
sem boa educação
sem saúde eficaz
sem emprego decente.
Mas as forças de segurança
os tribunais
as cadeias
estão aí
para quem ousar abalar a ordem das coisas
para quem discordar dessa pax social.

7.
Atravesso a rua às pressas
de chinelo, boné e camiseta
atrasado para encontrar com minha namorada.
Uma senhora me olha apreensiva. Ela acha que vou assaltá-la?

Minha filhinha vai sozinha ao caixa da lanchonete comprar um sorvete.
Funcionários pensam que ela está ali para pedir comida, importunar os clientes.

Ocupamos uma aula na universidade
Falamos sobre o racismo na universidade
Mas era a universidade que deveria falar sobre o racismo de alunos e professores.
Somos chamados de vitimistas.

Numa noite fria, cubro a cabeça com o capuz do meu casaco.
Ando sozinho pelo meu bairro.
Uma viatura encosta
policiais me abordam.
Não sei se voltarei para casa
com minha dignidade intacta
ou a vida.

(Ricardo Santos)

Imagem: Pixabay

 

NERDICE BAIANA CRIANDO CORPO

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Há alguns meses, numa entrevista de rádio, afirmei três coisas: 1) O romance O Sorriso do Lagarto, de João Ubaldo Ribeiro, era a maior obra de ficção especulativa baiana, apesar de ser uma ficção-científica fraca para os iniciados; 2) Havia muita dificuldade dos autores baianos de ficção especulativa trocarem ideias e se encontrarem, era difícil achá-los; e 3) O maior nome da ficção especulativa baiana não era um autor, e sim um editor, o lendário e polêmico Gumercindo Rocha Dórea.

Agora, por meio da repercussão da coletânea Estranha Bahia, que ajudei a organizar, pela interação com o pessoal do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica) e com os escritores e amigos do fandom no Facebook, posso dizer que a coisa evoluiu e muito. Além dos autores da Estranha Bahia, descobri nomes que já estão por aí há algum tempo e se consolidando.

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Ainda não terminei de ler O Esplendor, de Alexey Dodsworth, mas já posso afirmar tranquilamente que é a maior obra da ficção especulativa baiana. Mesmo se passando em outro planeta, tem muita da Bahia ali. E é uma obra de ficção-científica com FC maiúsculos. Ainda temos o romance Araruama, de Ian Fraser. Outro cara que está ganhando cada vez mais espaço. E Hugo Canuto com seus quadrinhos de fama internacional. Todos baianos boca-de-zero-nove! Agora Gumercindo ainda continua como o maior. Afinal, o cara fundou a Geração GRD.

A nerdice baiana está criando corpo!!!

ESTRANHA BAHIA NO PRÊMIO ARGOS 2017

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O Prêmio Argos é o mais importante da ficção especulativa nacional. Ele é promovido pelo CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica). Seguem abaixo as regras para participar da edição deste ano, seja você leitor ou escritor de terror, fantasia e ficção científica. Publicado em 2016, o livro Estranha Bahia, no qual participei como organizador e autor, pode ser votado na CATEGORIA ANTOLOGIA/COLETÂNEA. Visite o site do CLFC. Leia a revista gratuita Somnium. Participe do grupo no Facebook. Filie-se. A votação já começou!
PRÊMIO ARGOS 2017 DO CLFC
MELHOR ROMANCE, MELHOR ANTOLOGIA/COLETÂNEA E MELHOR CONTO DO GÊNERO FANTÁSTICO EM PORTUGUÊS PUBLICADOS EM 2016
EM QUEM SE VOTA?
Obras do gênero fantástico publicadas pela primeira vez e originalmente em português no ano de 2016, no Brasil e países lusófonos. Estarão ANULADOS os votos no Harry Potter, George R. R. Martin, obras de 10 anos atrás e outras demonstrações de constrangimentos cognitivos. Portanto, certifiquem-se (ficha catalográfica no começo, ou procurem no google, site da editora, etc) do ano, ao votar.
QUEM VOTA?
Os sócios ativos do CLFC, isto é, os sócios do CLFC que estão registrados na lista oficial do CLFC no Yahoogroups. A votação será exclusivamente virtual através dos emails registrados na lista oficial do CLFC. Votos recebidos de outros emails serão ANULADOS em sua totalidade, mesmo que sejam de sócios do CLFC. Conforme estabelecido pela diretoria em 2009 quando o clube se tornou 100% virtual, sócios do CLFC que não sejam membros da lista oficial são considerados sócios inativos sem direito a voto no Argos e nas demais atividades virtuais do clube.
QUANDO SE VOTA?
De 08 a 26 de Novembro. A divulgação de três finalistas de cada categoria será ao longo da semana. O dia da premiação será 17 (domingo) de Dezembro, das 16h às 18h, no Planetário da Gávea, Rio de Janeiro (A CONFIRMAR O LOCAL).
COMO SE VOTA?
No email cadastrado na lista oficiall do CLFC vcs receberão um link para votarem. Portanto, VERIFIQUEM FILTRO DE SPAM, caixa de lixo, etc. Seguindo o link, vocês encontrarão uma cédula eletrônica. SIGAM AS INSTRUÇÕES nela também contidas. Há 3 categorias do Prêmio Argos 2017: Melhor Romance, Melhor Antologia/Coletânea, Melhor Conto. Vocês votarão até 2 vezes nas 3 categorias, para o favorito e o vice-favorito. A primeira escolha ganha 2 pontos, a segunda escolha ganha 1 pontos (para questões de desempate).Os votos serão digitados por vocês, por extenso, portanto certifiquem-se que os nomes de cada obra e autor estejam corretos. Em caso de imprecisão que impeça identificação clara o voto será anulado. Cada uma das 3 categorias terá 2 páginas no formulário, uma para cada escolha. Terminará com um feedback opcional de vcs, sendo 7 páginas no total. O segundo voto de cada categoria também é opcional. A cédula é montada no Google Forms, o que significa que é necessário acessar sua conta Google. Caso não tenham uma conta Google, não queiram ter ou se embananem com essas modernices, alternativamente vcs poderão mandar seus votos DIRETAMENTE para o email premioargos2017@gmail.com .(NÃO USEM A LISTA PARA MANDAR OS VOTOS!!!), no mesmo formato do formulário: até duas escolhas (por ordem de preferência) nas categorias oferecidas, o votante enviando o voto do seu email válido. Na cédula, haverá explicações sobre como votar. LEIAM.
E A APURAÇÃO?
A recepção e apuração dos votos será feita pela Comissão Organizadora, que também resolverá eventuais casos omissos. Não caberá recurso das decisões da Comissão Organizadora.
Qualquer dúvida sobre o processo, contactar o presidente da Comissão Argos 2017 Luiz Felipe Vasques no email premioargos2017@gmail.com
OBS: Para se filiar ao CLFC enviar email ao Presidente Clinton Davisson em fafia7@gmail.com com nome e endereço completos, telefone com DDD para contato e informando o email com o qual quer ser registrado no cadastro e na lista oficial. A filiação ao CLFC implica no compromisso de cumprir e fazer cumprir seu estatuto e envidar os melhores esforços pelo engrandecimento e fortalecimento do Gênero Fantástico no Brasil. O CLFC não cobra taxa de inscrição nem mensalidades. Não haverá prazo de carência para os novos sócios votarem para o Argos 2017.
Comissão Organizadora do Prêmio Argos 2017 do CLFC:
-Luiz Felipe Vasques (Presidente)
-Jorge Pereira
-Eduardo Torres