O DESESPERO DAS FLORES

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O menino aprendeu com o pai
a amar as flores na labuta diária
no jardim bonito da casa
fizesse sol ou chuva

O menino conversava com as flores
em sussurros, para que ninguém o zombasse
pois as flores sabiam: sua dor era um segredo
e por isso tentavam animá-lo
com o zum-zum-zum das abelhas

As lágrimas invisíveis do menino
caíam em suas bochechas negras
assim que caíam as bombas
sobre as ruas, as casas, as pessoas

Apesar de toda aflição
o menino se espantava pelo jardim bonito
continuar bonito
como o último milagre de um deus morto

Certa noite, a família do menino teve de fugir
mama e papa não deram maiores explicações
abandonariam a casa abalada e o jardim bonito
e as lágrimas do menino agora caíam sem pudor

Levariam apenas o necessário para a jornada incerta
e o menino teve de fazer uma escolha difícil:
qual das flores carregar consigo,
deixar todas para trás não era uma opção

As palavras de papa foram duras, puro desencanto
em ver o homem que ensinou o menino a amar as flores
dizendo que a flor eleita seria um castigo vivo
de um passado que já não existia mais a assombrá-los

O menino era um bom menino, mas um menino
e como todo menino não entedia de muitas coisas
ou não queria entender ou fingia não entender,
mas, no final, venceu a batalha, não havia mais tempo para altercações

E a família partiu aproveitando o silêncio das bombas
e o menino escutou o choro de outros meninos e meninas e flores que ficavam
porque todas as abelhas também partiam

(Ricardo Santos)

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AQUAMAN, UM FILME B DE LUXO

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Adorei o filme da Mulher-Maravilha. E gostei de Aquaman. Se você odiou o filme de James Wan ou achou regular, não vou tirar sua razão. Comparado a outras superproduções, Aquaman é uma bagunça, tem problemas de ritmo, personagens são subaproveitados e é um pouco longo. Mas é uma bagunça divertida e bonita de ver.

O roteiro não faz o menor sentido ao cruzar informações do passado e do presente, de Atlantis e dos personagens. A maioria dos diálogos é constrangedora. As atuações são quase todas canastronas. Mas o grande mérito aqui é que todos os envolvidos abraçaram a cafonice da proposta sem medo. E essa cafonice dá certo porque não rimos dela, mas com ela. Vem embalada numa produção de primeira, com clima de anos 80. Os efeitos especiais e sonoros são impressionantes, mostrando um universo subaquático rico. As cenas de ação são brutais, muito bem coreografadas. A trilha sonora, usando sintetizadores, à maneira synthwave, e orquestra e percussão, é envolvente, ora ameaçadora, ora cheia de fantasia. O tema do Arraia Negra é de arrepiar.

Apesar dos problemas do roteiro, o terceiro ato é o melhor dos filmes da DC desde O Cavaleiro das Trevas. Na verdade, no papel, Aquaman não convence. O talento de James Wan tirou leite de pedra ao transformar um personagem secundário e motivo de piadas num herói carismático. Além do diretor enfrentar a complicada logística de filmar e pós-produzir cenas envolvendo água.

É muito bacana ver um filme desse porte com um protagonista que não é branco. O Aquaman/Arthur Curry de Jason Momoa ganha o público pelo apelo de astro de rock bombado, mas também por ser vulnerável emocionalmente, pelo humor e por ser um herói falho. Os vilões marcaram presença, principalmente, o rei Orm de Patrick Wilson, um lobo em pele de cordeiro. Agora Wan ficou devendo nas personagens femininas. Elas são badass e mais espertas do que os homens, mas são colocadas em segundo plano em momentos decisivos.

Aquaman é um filme B de luxo, o Flash Gordon do séc.21.

Aquaman, de James Wan, 2018, 143 min., Warner Bros. e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE