MIRANDO NO ALVO ERRADO

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Ricky Gervais se tornou famoso e rico ao faturar em cima do filão da “comédia de choque”. Do tipo, falem mal, mas falem de mim. Então, ele faz piadas controversas sobre pessoas com câncer, AIDS e pessoas trans, por exemplo. Mas ele também ataca ferozmente os criacionistas. Ou seja, ele atira para todos os lados. Gervais já fez muita coisa no cinema, na TV, podcasts, publicou livros, participou de vídeo games, é um notório ativista dos direitos dos animais, ateu e entusiasta da Ciência.

Seu mais recente projeto é o stand-up Humanidade para a Netflix. Uma amostra de suas contradições. É no stand-up que muitos comediantes se soltam. Não é por acaso que ícones como Richard Pryor e Chris Rock brilham ou brilharam nos palcos, enquanto no cinema interpretaram personagens idiotas.

Gervais tem dois grandes méritos na carreira. Ele foi co-criador da versão original de The Office e apresentou várias edições dos Golden Globe. No The Office britânico, ele fazia o chefe sem noção David Brent. A série era uma poderosa sátira à vida corporativa. A versão americana mora no meu coração, mas não tem o mesmo vigor. E eu adorava assistir Gervais apresentando os Golden Globe, com a nata de Hollywood tensa, rezando para não ser alvo de suas piadas corrosivas. Ele deixava toda aquela gente famosa e endinheirada desconfortável. Era lindo de ver.

Mas o maior problema de Humanidade é que Gervais bate muito nos indefesos e pouco nos poderosos. Um comediante geralmente procura pontos em comum com a plateia ou aposta na autodepreciação para arrancar gargalhadas. A estratégia de Gervais é diferente. Ele logo deixa claro que é rico, famoso, mora numa mansão e tem uma vida de privilégios. E começa a atacar toda as bases da classe média, da classe trabalhadora, esfregando na cara das pessoas toda a mediocridade delas. A plateia gargalha. Mas o clima fica pesado. Só que Gervais retoma o controle do show apertando nos botões certos. A plateia é conservadora. Então não tem problema em pegar no pé de Caitlyn Jenner.

Gervais não é burro. Depois de tanta barbaridade, ele quer conquistar o coração da plateia. Então, na segunda metade de Humanidade, ele fala sobre sua origem pobre e conta “causos” de sua família esquisita. E também se autodeprecia um pouco. O conteúdo político do show é bom, quando ele destrói os argumentos dos conservadores religiosos e mostra as vantagens do pensamento fundamentado. Mas aí já é tarde. A coisa perdeu a graça.

Humanidade (Humanity, 2018), de John L. Spencer, 78 min., Netflix.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

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PRIMEIRO CONTRATO DE 2018 ASSINADO

Primeiro contrato do ano assinado. Meu conto Óculos Escuros foi aprovado na submissão (sem cobrar nada do autor) e revisado pela Ana Lúcia Merege. Para a coletânea A Sombra e o Medo, com histórias de terror e suspense, da editora Engenho das Palavras. O lançamento será nos próximos meses. Stay tuned.

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