MEU CONTO NA TRASGO

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Acaba de sair a revista Trasgo n°15. Principal publicação de ficção científica e fantasia no Brasil, ela foi idealizada pelo editor Rodrigo van Kampen. Ele se inspirou em publicações estrangeiras que valorizam a produção de contos de novos autores e nomes consagrados. Por aqui, a iniciativa é ainda mais necessária pelo menor espaço que a literatura de gênero (policial, ficção científica, terror…) tem na mídia e no meio editorial.

Nesta edição, vocês podem ler meu conto de ficção científica Wonder. Num futuro próximo, um casal descobre que seu bebê em gestação será uma criança com superinteligência, muito acima dos atuais superdotados. Wonders são celebridades, gerando fascínio e medo nos adultos.

A Trasgo pode ser lida de graça, em vários formatos. É só clicar na capa.

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MEU CONTO NA SOMNIUM N°113

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A revista Somnium é a publicação de ficção científica mais antiga em atividade no Brasil. Iniciativa do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica), ela já teve edições em papel, por muitos anos, no formato semi-profissional. Agora as edições são exclusivamente digitais e gratuitas. Editores são convidados pelo presidente para organizar a revista, num esforço de membros do CLFC para escrever textos, selecionar contos e diagramar cada número.  Acaba de sair o número 113. Participo com o conto Aynin Candé, uma mistura de new weird, cyberpunk e afrofuturismo. Tenho a honra de estar ao lado de autores muito bacanas. Inclusive ídolos, como Carlos Orsi, Luiz Bras e Gerson Lodi-Ribeiro. Para ler a edição atual e várias outras é só clicar na capa.

O DIÁLOGO

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Se eu previsse o que estava por vir, talvez não desse falta do Maigret que devorava de manhã na cama, e que segui lendo na praça de alimentação do shopping, enquanto esperava Cristina. Talvez não lembrasse que o havia deixado em sua bolsa quando nos encontramos para almoçar, porque eu estava de folga e não queria carregar nada nas mãos. Talvez não quisesse saber logo quem matou o Senhor Charles. Talvez não fosse ao trabalho de Cristina para pegar o livro. Só que não acredito em vida após a morte, destino ou premonições. O que acontece, acontece.

Cristina é vendedora numa loja de roupas. Enquanto eu atravessava os corredores do shopping, driblando um e outro, não parava de pensar no programa que ela tinha inventado para aquela noite. A despedida de um amigo dela. O sujeito vai morar em Portugal. Não suporto a maioria de suas amizades. Riem muito alto, falam muita merda. Assim como ela não suporta a maioria das minhas. Para ela, são um bando de boçais.

Entro na loja e Cristina logo me vê. Ela se mostra mais surpresa do que contente. Quer saber o que estou fazendo ali. Digo que vim atrás do livro que deixei em sua bolsa. Ela vai pegá-lo. Na volta, confirmamos o diabo do programa da noite. Trocamos um selinho. Saio da loja disposto a terminar o romance num canto menos barulhento do shopping.

Dois corredores depois, meu plano foi frustrado. Eu estava distraído e só fui perceber quando era tarde demais, quando já olhávamos um para o outro. Não sei por que paramos, frente a frente. Não sei por que não seguimos nossos caminhos.

Ela estava com o cabelo mais longo, deliciosamente gorda e acompanhada de uma menininha e um sujeito alto.

“Como vai?”, ela disse, serena.

As palavras quase não saíram da minha boca. Minha recuperação foi lenta.

Ela me apresentou ao marido e à filhinha.

A conversa não rendeu muito. Ela perguntou por minha família. Respondi com poucas palavras, tentando mostrar tranquilidade, equilíbrio. Em seguida, instalou-se um silêncio constrangedor. A gente se despediu.

Fui direto para o carro e joguei o Maigret no banco do carona.

Tomei fôlego para não dar ignição de uma vez e arrancar com tudo.

No primeiro sinal vermelho, apareceu um garoto e me pediu um trocado.

“Eu não tenho nada”, disse a ele. Quis ser gentil ao invés de usá-lo como bode expiatório da minha raiva, da minha frustração.

O garoto segurou o passo. Olhou para mim e deu uma gargalhada, erguendo a cabeça. Depois seguiu seu caminho.

O sinal ficou verde. Fui embora.

O BATUQUEIRO DO GRAN CIRCO LODOROV

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Desde menino Ian Lao quis sair de sua aldeia e conhecer o mundo. Sonhava com os lugares maravilhosos estampados nos postais que um certo caixeiro vendeu, por anos e anos, ao povo de sua aldeia. O Muro de Berlim, a Torre Eiffel, as pirâmides do Egito, o Cristo Redentor, a Disneylândia. Para Ian Lao, a vida dura de camponês nunca solapou sua vontade errante. Certa manhã, pouco depois de completar dezesseis anos, o pequeno Ian Lao partiu, olhando duas vezes para trás.

Tornou-se um globetrotter da falta, do desespero e de pouquíssimas alegrias. Depois de muita reviravolta, foi parar no interior de Pernambuco. E foi numa cidadezinha chamada Nova Esperança que ele recobrou a sua. O lugar era uma miséria, mas tudo bem: lá estava o Gran Circo Lodorov em noite de estreia.

Em suas andanças, ele nunca vira nada parecido. Sem dúvida, era o pior circo que já encontrara. Leões magérrimos domados por um tuberculoso, palhaços feios de dar medo, um velho mágico com truques manjadíssimos, malabaristas muito desastrados. Quando o atirador de facas entrou no picadeiro, todos prenderam a respiração. Para sorte da mocinha na roda de madeira, o atirador deixou cair uma faca no próprio pé e se retirou mancando. A maioria da mirrada plateia ficava cada vez mais aborrecida com aquele acúmulo de incompetências. Mas Ian Lao adorou tudo, porque tudo resultou em patetices de chorar de rir. Ele agora sabia o que fazer em seguida: juntar-se àqueles freaks para garantir pão, cama e sua terapia.

Depois do espetáculo, saiu à procura do dono do circo.

Quando Vladimir Lodorov viu à sua frente a minúscula figura de Ian Lao, ele não sabia o que pensar. O chinesinho começou a falar um espanhol de sotaque carregado e a fazer caretas e gestos, tentando explicar quem era e o que pretendia. Lodorov entendeu pouca coisa, mas percebeu que o chinesinho queria trabalho. Por sua vez, perguntou, com um português de sotaque carregado, também fazendo caretas e gestos, se Ian Lao conseguia dar cambalhotas num fio a dez metros de altura, tocar a ponta do nariz com o pé, dobrar o corpo para que o colocassem numa caixa, equilibrar pratos em varinhas. Ian Lao riu e riu, e disse: no. De repente, ele tirou de um saco de pano gasto um gongo dourado e uma baqueta. E pôs-se a bater e a gritar. Para espanto de Lodorov, aquilo não soava exatamente belo, mas exótico e prazeroso. Então veio a ideia de tornar o chinesinho o abre-alas do Gran Circo, o prenunciador de seu encantamento e diversão.

A trupe chegava às cidadezinhas e Ian Lao, por onde passava, se punha a tocar seu gongo e a gritar as atrações do Gran Circo Lodorov. Seu português, aprendido a bom custo, dava para o gasto. À noite, ele assistia ao pastelão involuntário. Mas depois de meses e meses, sua terapia já não tinha o mesmo efeito. As patetices perderam a graça. Certa manhã, Ian Lao partiu, sem olhar para trás.

Numa estação ferroviária decaída, ele quis saber para onde ia o trem prestes a sair. Ninguém lhe deu a mínima. Até que ele colocou os pertences no chão, abriu o saco de pano e o gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio. Todos olharam para ele. Atenderam-no. Agora a dúvida era saber se iria para a Salvador das batucadas do Olodum ou se para o Rio da bateria da Mangueira.

UMA NOITE QUALQUER

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Daniel trabalhava na pensão dos Velhos. Por volta das nove da noite, suas obrigações terminavam. Então era comum ele pegar toalha, xampu e sabonete e ir para os fundos da pensão, onde havia uma ducha larga no pátio. A água caía forte. Às vezes, ele pensava em dar um grito, mas se segurava, permanecia em silêncio. A verdade é que gostava da água gelada batendo em seu corpo jovem e magro, como se uma correntezinha elétrica o atravessasse, da cabeça aos pés. Não havia perigo de o flagrarem nu e ensaboado. Ele sempre usava um short sem bolsos durante o banho. Nos dias muito frios, não tinha jeito, só lhe restava o banheiro dos fundos da pensão. Era um cubículo cheio de mofo, com uma pia mais amarela do que branca, um vaso sanitário idem e um chuveiro vagabundo. Ao abri-lo, mais parecia uma torneira de tão fraco. Daniel, as cozinheiras, as faxineiras, qualquer entregador de encomendas, pedreiro, eletricista, ou encanador tinha que se aliviar por ali mesmo. Daniel fazia sua pouca barba no pátio, aproveitando a luz natural. Todas as manhãs, ele acordava ainda com o céu cinzento para aproveitar a ducha larga em paz e começar melhor o dia.

Depois de sair do banho, em sua rotina noturna, ele se arrumava em seu quarto e ia para a cozinha ampla. Abria a geladeira à procura de alguma sobra do jantar servido aos hóspedes e moradores. Ligava o fogão e esquentava a comida. Limpava tudo, apagava a luz e voltava para o quarto. No corredor, de longe, ele podia ver Danilo, que tomava conta da recepção durante o resto da noite e a madrugada. Isso quando ele estava por lá, quando não largava o posto.

O quarto de Daniel ficava no fundo do corredor que ligava a cozinha, a sala de refeições e a recepção. Era um ponto estratégico, afirmavam os Velhos. Para o caso de qualquer emergência. Para o caso de qualquer amolação, isso sim. Não era raro alguém bater na porta de Daniel e ele ter de deixar o seu descanso, a sua cama, para atender a solicitação de algum hóspede, morador ou dos Velhos. Era um vaso sanitário entupido, ou um gato de rua rondando pelo primeiro andar, ou uma misteriosa poça de vômito apodrecendo na escada, ou a porta da rua que precisava ser aberta para algum hóspede ou morador entrar na pensão. E lá estava Daniel para desentupir, enxotar, esfregar pano e abrir porta. Danilo era quem devia fazer essas tarefas e não ele, indignava-se. Afinal, quem estava de serviço naquele turno? Mas Daniel nunca foi reclamar com os Velhos. Desde o começo, seu Herculano deixara no ar que as coisas seriam assim. Se não quisesse o emprego, que fosse embora.

O quarto era pequeno, mas com espaço razoável para colocar uma cama de solteiro em um canto e um guarda-roupa estreito ao lado. Além de uma mesa de metal, daquelas de bar, e uma cadeira também de bar, na parede oposta à cama. Para alívio de Daniel, havia uma janelinha alta, que fazia circular um bom vento. Mas o que salvava mesmo era um ventilador nanico que ficava em cima de um banquinho de plástico. E também havia seu bem mais precioso: uma televisão de dez polegadas. Mesmo enxergando tudo dobrado e com as cores trocadas, ele gostava de assistir ao noticiário nela. Aproveitava mais do que se tivesse um rádio. Mas acabava se cansando da imagem confusa. Então, pegava um romance policial ou de terror para ler, até cair no sono.

Naquela noite, justamente quando dormia com um desses livros aberto no peito, de luz acesa, bateram na porta do quarto, com força. Daniel tomou um susto. Levantou-se logo. O livro foi parar no chão. Mais batidas na porta. Uma voz gasta e irritada se pronunciou:

“Levanta, rapaz.”

Era seu Herculano.

Daniel estava apenas de short. Vestiu uma camisa e calçou os chinelos. A porta foi destrancada, sem nenhuma pressa. O livro ficou debaixo da cama.

O rosto de seu Herculano carregava o mau humor de sempre. Ele usava óculos grandes, um pijama azul e o cabelo branco estava desgrenhado.

“Que demora”, disse o velho.

“Boa noite, seu Herculano.”

“Olhe ali na porta da rua.”

“O quê?”

“A porta da rua. Alguém está batendo.”

A vontade de Daniel era de meter um soco na cara do velho. Mas acabou por atendê-lo. Saiu do quarto, abriu caminho e parou no meio do corredor. Seu Herculano recuou para junto da parede, como se buscasse proteção contra uma ameaça desconhecida.

Daniel encarou a porta da rua. Era toda de madeira, cheia de entalhes, mas sem janelinhas ou aberturas. Não dava para ver se realmente havia alguém do outro lado. Ninguém batia nela. Escutava-se o som de um ou outro carro passando. Aliás, Daniel queria saber o que seu Herculano fazia fora da cama tarde da noite. Os Velhos moravam em uma casa dentro da pensão. No térreo, entre a cozinha e a sala de refeições, havia outro corredor, que levava até a casa deles. Lá havia sala, banheiro, quarto e cozinha, tudo em tamanho menor.

Mesmo sem ser questionado, seu Herculano acabou explicando a Daniel por que estava zanzando por ali. Todas as noites, ele acordava, acendia o abajur do criado-mudo, colocava os óculos e pegava ao lado da cama um copo de água para refrescar-se. Dessa vez, o copo caiu no chão. Formou-se uma poça de água com cacos de vidros no assoalho. Tanto para seu Herculano como para dona Hermínia, que acordara com o barulho, aquela porcaria tinha que ser removida. Imediatamente. Nada de esperar o dia amanhecer.

A recepção estava abandonada.

“Seu Herculano, onde está Danilo?”

“E eu sei daquele ingrato.”

Quando Daniel chegou à pensão, cinco meses antes, Danilo já ocupava a recepção naquele turno. E volta e meia, largava o posto. Daniel logo percebeu que o sujeito não seria um aliado, nem exatamente um inimigo. Seria um tormento a mais naquele lugar. Ficou surpreso de saber que o outro não morava na pensão. E até agora não descobriu onde. Na verdade, não interessava muito. Com certeza, já havia algum tempo, Danilo fizera uma cópia da chave da rua, sem a concordância dos Velhos. Porém o que realmente intrigava Daniel era o fato de os Velhos o manterem na pensão. Seu Herculano por ser tão duro com todo mundo. Dona Hermínia por claramente não suportar Danilo. Seu Herculano o repreendia na frente de qualquer um. Dona Hermínia não lhe dirigia a palavra. Danilo sempre respondia o que seu Herculano queria ouvir. E seu Herculano nunca confiscava a cópia da chave.

Batidas fortes na porta da rua.

Daniel e seu Herculano tomaram um susto.

Então não era uma maluquice, uma invenção, constatou Daniel.

“Vá atender a porta”, disse seu Herculano.

Daniel virou a cabeça para trás e o encarou com uma raiva indisfarçável, o rosto rígido.

Seu Herculano não queria saber de caretas. Ele queria que Daniel fosse adiante, que se sacrificasse por ele.

Talvez aquele fosse o momento da verdade, pensou Daniel. O momento de dizer: chega. Chega de trabalhar por cama, comida e quase dinheiro nenhum. Chega de aturar esses Velhos. Chega de cuidar dessa casa velha… Mas, como em outras vezes, ele respirou fundo e logo se lembrou do motivo que o levara até aquela pensão, que o fizera sair de sua cidade, no interior, na calada da noite, cinco meses antes. Claro que, com um pouco mais de sorte, ele não estaria naquele buraco… Pelo menos não passava fome, não dormia ao relento… Continuaria ali até arranjar coisa melhor. Continuaria aguentando toda essa amolação.

Seu Herculano não aceitava que Daniel ainda estivesse parado, no meio do corredor.

“Anda, rapaz, anda.”

Mais batidas fortes na porta da rua.

Daniel não se movia.

Talvez fosse o caso de algo mais excêntrico, continuou Daniel. Seria algum assaltante metido a besta, querendo entrar pela porta da frente só por farra? Contando com uma possível ingenuidade de alguém ali dentro para ter êxito, sem tanto esforço? Esperando convencer algum imbecil com uma historiazinha sobre uma emergência, para o imbecil então destrancar a porta e o assaltante sorrir, mostrar a arma, abrir caminho para os companheiros, dar uns tabefes e levar tudo de valor? Já ocorreram na calçada, em frente à pensão, dois ou três assaltos testemunhados por Daniel. As vítimas eram hóspedes e moradores, chegando ou saindo, no finalzinho da tarde. Em outros tempos, Daniel soube, ali acontecera a invasão de uma dupla armada para roubar, principalmente, os caixeiros-viajantes. E ainda mais longe no passado, numa manhã, um homem de chapéu panamá entrou aos gritos à procura de um jovem. Ao aparecer na porta da cozinha, o tal fora esfaqueado várias vezes. A vítima morava na pensão e trabalhava como auxiliar num escritório de contabilidade. O assassino era dono de uma farmácia, onde a filha de quatorze anos o ajudava. Logo o povo ficou sabendo que a vigilância do pai falhara. A mãe havia descoberto a gravidez da filha. A jovem contou tudo depois de muita ameaça e alguma violência. O pai ficou preso poucos anos.

Ou talvez fosse algo mais corriqueiro: alguém carregando uma mala e perdido pelo centro de Salvador, em busca de um quarto. Pelo menos uma vez por semana, Daniel testemunhava a cena, ao passar tarde pela recepção. Danilo sempre enxotava qualquer um, sem abrir a porta, apenas falando e ouvindo através dela. Era a ordem expressa dos Velhos. Não aceitar ninguém depois das nove horas. Depois que a porta da rua era fechada. A partir desse horário, a função de Danilo era, sobretudo, controlar a saída e a entrada dos hóspedes e moradores, checando o livro de registro. Daniel sabia que os Velhos odiavam que essa gente, como os dois diziam, ficasse indo da pensão para a rua e vice-versa, tarde da noite, para beber, jogar e trepar. Os Velhos não admitiam nenhuma dessas coisas lá dentro. E Danilo se mantinha vigilante para não descumprirem a regra. Na verdade, denunciava os desafetos. E acobertava aqueles que o subornavam. Nos cinco meses que estava por ali, Daniel já ouvira segredos de hóspedes, moradores e dos Velhos. Ele conhecia algum podrezinho de um ou de outro. Nada tão chocante a ponto de assustá-lo, nada de grandes revelações. Ele ouvia comentários, meias palavras, trechos de conversas. Geralmente, as pessoas o tomavam por inofensivo, insignificante, quando ele estava próximo, ocupando-se de suas tarefas.

Mais batidas fortes na porta da rua.

Seu Herculano não parava de resmungar.

Daniel percebeu que não tinha saída: precisava acabar logo com aquele tormento para cair de novo na cama. Por ele, daria meia-volta bem rápido, entraria em seu quarto e fecharia a porta. Tudo resolvido sem nada resolver. Mas fazer isso seria o mesmo que arranjar ainda mais problemas com os Velhos. Portanto, avante, soldado.

Daniel foi em direção à porta da rua, devagar. Logo acelerou o passo, até parar bruscamente.

Todas as noites, àquela hora, a recepção era iluminada por uma lâmpada de luz branca, sobre o balcão. Um lustre simples com três globos era desligado sempre às nove. A luz amarela do corredor permanecia acesa a noite inteira.

Que horas eram exatamente?, Daniel quis saber, o corpo quase colado à  porta da rua. Não devia ser tão tarde. Ele sentia certa agonia toda vez que procurava saber as horas e não tinha um relógio por perto.

Uma voz possante deu-lhe um susto:

“Alguém aí, por favor.”

Sem dúvida, o sujeito lá fora sabia que alguém ali dentro chegara mais próximo.

Daniel limpou a garganta:

“Pois não.”

“Eu queria um quarto, amigo.”

Os olhos de Daniel e os de seu Herculano se encontraram. O primeiro olhava sem mostrar surpresa com o desenrolar da situação. Virara-se para trás a fim de confirmar ao outro que corria tudo bem, não havia motivos para preocupações. No fundo, estava enfurecido por toda a aflição do velho terminar no óbvio. E claro, aliviado, por não acontecer nenhuma péssima novidade naquela noite. Mas seu Herculano, ouvindo o diálogo, ainda se mantinha apreensivo, não pretendia baixar a guarda facilmente.

Daniel abandonou seu Herculano e virou-se para o sujeito atrás da porta.

“Já fechamos, senhor. Volte amanhã cedo. A partir das seis.”

Silêncio.

E então o vozeirão do sujeito voltou a impressionar:

“Escuta, amigo. Eu vim de muito longe, não conheço a cidade. Está frio aqui fora. Me parece que não existe outro lugar pelas redondezas onde eu possa dormir. Pelo menos, não um lugar com bom aspecto.”

“Desculpe, senhor. São regras da casa. Se tivesse aparecido até as nove horas.”

Daniel olhou para seu Herculano, que balançou a cabeça rápida e negativamente.

“Vamos fazer o seguinte: me diga quanto é o valor de duas diárias e eu passo o dinheiro por baixo da porta. Será a garantia de minha boa-fé.”

A potência da voz do sujeito não o ajudava muito. Ela fazia Daniel ter uma ponta de dúvida de que realmente não havia perigo nenhum.

“Não posso fazer isso, senhor. Desculpe. Volte amanhã. Vou lhe arranjar um dos melhores quartos.”

Daniel nem sabia mais o que falava, ele mesmo reconheceu. Não tinha autoridade para fazer tal promessa.

Novo silêncio. Dessa vez, mais demorado.

“Senhor?”

Nada de resposta.

“A mala do seu pai está comigo.”

Daniel tomou um susto, como nunca antes na vida.

A voz possante do estranho tornou aquelas palavras ainda mais surreais. A bile subiu e desceu pela garganta de Daniel. Não podia ser, pensou. Ele não tinha ouvido direito. Tinha entendido errado. Ele não conhecia aquele homem. O homem não o conhecia. Conhecia?

Daniel ficou no dilema entre abrir a porta ou não. Eram duas opções igualmente terríveis. Continuar ali dentro, protegido, mas tomado por uma ansiedade crescente. Ou se expor a uma verdade dura demais para suportar.

Ou nada daquilo era real. Coisa de sua imaginação. Um mal-entendido que se tornou um tormento.

“Rapaz, o que ele falou?”, perguntou seu Herculano, lá do fundo.

Então Daniel disse, mais para si mesmo, esquecendo todo o resto:

“Sobre a mala. Mas ninguém tinha como saber sobre a mala. Ninguém.”