A COR DA JUSTIÇA É NEGRA

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Participei de um concurso de textos em prosa e verso, em celebração ao dia da Consciência Negra, com um tema envolvendo negritude e Justiça. O resultado saiu hoje. Não ganhei, mas fiquei feliz pelas vencedoras. Elas mandaram bem. Leiam abaixo meu conto.

1.

Coloco a cara de adolescente ou de homem fora de casa, de manhã cedo, para ir trabalhar, para ir estudar, carregando comigo certa ansiedade. O que será desta vez? Vão me deixar em paz hoje? Vão deixar eu tocar minha vida como qualquer outra pessoa? Vão me enxergar além da minha pele?

2.

Meu dever de professora é ensinar aos meus alunos o seguinte: no Brasil, é a polícia quem decide se você é negro ou não. Branco sai, preto fica. Branco vive, preto morre. O preconceito não é apenas social, não é apenas contra quem é pobre e se chama Silva, Santos ou Conceição.

3.

Minha família é bastante miscigenada, com toda uma variação de cores. Há gente de pele clara e de pele escura, com cabelo crespo e cabelo liso, com narizes e bocas e rostos de todos os formatos, gente que mora nos subúrbios e em bairros de classe média. Dizem que sou pardo (odeio essa expressão). Então me pergunto: eu sou negro? Não sofro o mesmo preconceito que alguém de pele mais escura. Porém em ambientes onde eu sou o mais escuro, o não-branco, o cara de lábios grossos e cabelo crespo, o racismo acontece, o mais velado possível, principalmente, nos olhares.

4.

Quanto mais escura for minha pele, pior será o julgamento. Triste dizer, mas é simples assim. Não importa se sou rico ou pobre. A cor da minha pele sempre será assunto de debate. Discutir meu caráter? Não me faça gargalhar. Vamos deixar isso pra depois.

5.

Não pense, cidadão, não pensem, autoridades, que já nasci bandido só porque minha pele é preta. Pensem nos meus ancestrais (que talvez sejam seus também, mesmo que não façamos ideia de quem eles eram), trazidos contra a vontade para o Brasil. Durante a travessia infernal, não morreram de escorbuto, de fome, de tantos açoites, de epidemias, não cometeram suicídio, não foram jogados ao mar, ainda com vida, acorrentados a outros iguais por se tornarem um estorvo. Chegaram aqui como mercadoria: força braçal e moeda de troca. Sofreram todo tipo de violência para gerar riqueza. Depois foram libertados, a mando das potências industriais, para virar mão de obra barata. Os negros libertos fundaram as periferias, subúrbios e favelas. Segregados pelos muros do racismo institucional. O Estado, a iniciativa privada, os detentores do poder sempre viram a população negra como um mal necessário. Empregadas domésticas, babás, motoristas particulares, de ônibus, limpadores de banheiro, garis, operários da construção civil, policiais, soldados, eleitores, consumidores. Que não se atrevessem a sair de suas posições demarcadas. Mesmo que houvesse uma grande revolta pela carência de tudo. Sem saneamento para todos, sem boa educação, sem saúde eficaz, sem emprego decente. Mas as forças de segurança, os tribunais, as cadeias sempre estiveram aí para quem ousasse abalar a ordem das coisas, para quem discordasse dessa pax social.

6.

Atravesso a rua às pressas. Estou de chinelo, boné, camiseta e atrasado para encontrar com minha namorada. Uma senhora me olha apreensiva. Ela acha que vou assaltá-la? Minha filhinha vai sozinha ao caixa da lanchonete comprar um sorvete. Funcionários se aproximam. Pensam que ela está ali para pedir comida, importunar os clientes. Ocupamos uma sala de aula na universidade para falar sobre os casos de racismo na instituição, cometidos por alunos e professores, já que aqueles estudantes brancos nunca vão aos debates marcados para ouvir e discutir sobre o tema. Somos chamados de vitimistas. Numa noite fria, cubro a cabeça com o gorro do meu casaco. Ando sozinho pelo meu bairro. Uma viatura encosta, policiais me abordam. Não sei se voltarei para casa com minha dignidade intacta ou a vida.

ELA NÃO DANÇA

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Passava das duas da madrugada e Max estava atento. Mesmo na escuridão da boate, ele não tinha como fechar os olhos, pegar no sono. O barulho, as luzes coloridas e a movimentação ao redor o mantinham desperto.

A loira seminua dançando no palco não lhe interessava. Assim como nenhuma das outras garotas espalhadas pelo lugar, usando shortinhos, tops, microssaias e vestidos curtíssimos. Max sempre observava os clientes.

Max não o tinha visto chegar à boate. Mas logo notou sua presença. Caminhou do lado mais escuro do palco até o bar. Queria observar melhor aquele homem de cara fechada.

Era um homem branco de idade indefinida. Seu cabelo grisalho era comprido o bastante para esconder as orelhas. O rosto barbeado era estreito, o queixo saliente. Ele usava uma camisa branca de botões e mangas curtas, calça branca e mocassins amarelos.

Max parou num ponto recuado entre o bar e os banheiros.

O homem de branco estava distante, atrás de uma mesinha redonda de vidro. Ele estava sentado num longo sofá de couro, colado à parede espelhada. O braço esquerdo permanecia estendido na parte alta do sofá. A mão direita pousada na perna.

Um garçom foi até a mesa. O homem de branco fez seu pedido. Max tinha certeza de que as palavras saídas da sua boca foram whiskey e ice.

Não havia dúvida: o cara era gringo. Mas de qual nacionalidade?

Max já vira por ali todo tipo de estrangeiro. Geralmente apareciam americanos, alemães, espanhóis, argentinos, italianos. Às vezes, algo mais raro como israelenses, sul-africanos, chineses. Nem sempre Max conseguia acertar a nacionalidade pela fisionomia, sotaque ou jeito de se comportar dos clientes. A maioria falava num inglês carregado, confundindo-o. E as aparências enganavam. Certa vez, só no olho, Max tomou um jovem inglês de ascendência paquistanesa por indiano. Nestes casos, ele recorria às informações das garotas, numa conversa fiada ou com perguntas mais diretas, antes, durante ou depois do expediente.

Em relação à nacionalidade do homem de branco, Max não podia dizer muita coisa. Talvez ele fosse do Leste Europeu.

O garçom retornou à mesa, tirando da bandeja que carregava um copo de uísque. O homem de branco falou o que pareceu a Max ser um obrigado em português.

Max notou também outros dois clientes. Eram bem mais jovens. Brancos. Caras de gringo. Um estava sentado em outra mesa, mais próximo do homem de branco. Vestia calça social e uma camisa estampada de botões para fora da cintura. O outro sujeito estava sentado numa mesa mais longe do homem de branco. Vestia calça jeans preta e uma camisa polo preta para fora da cintura.

O cara de preto estava de costas para Max. Mas Max podia ver o rosto do gringo pela parede espelhada. Já o cara de camisa estampada, ele podia ver frente a frente. Os dois gringos varriam a boate com a cabeça e os olhos. Com certeza, eram guarda-costas do homem de branco. Num curto espaço de tempo, o olhar de Max e o do cara de camisa estampada se encontraram duas vezes. Antipatia à primeira e à segunda vista.

Nenhum dos três gringos podia estar armado. A revista na portaria era rigorosa, com detector de metais e tudo. Armas de fogo e armas brancas eram totalmente proibidas dentro da boate. A mesma regra valia para funcionários e clientes. Até mesmo Jonas, um dos seguranças, precisava guardar sua arma de policial no cofre da gerência.

A boate não era grande. Sempre ficavam dois seguranças no lado de dentro e dois na portaria.

Max viu uma garota parada na frente do homem de branco. O nome dela era Kátia. Ela era negra e usava megahair. O sorriso dela derrubava qualquer um. Ainda mais os gringos. Brasileiro ia à boate atrás de garotas brancas. Os gringos procuravam garotas negras.

O homem de branco abriu um sorriso discreto com os lábios apertados. Convidou Kátia para sentar com um gesto. Ela sentou ao lado dele.

Os outros dois gringos assistiam a tudo. O cara de camisa estampada tinha pedido refrigerante. O cara de preto, água mineral. Os dois recusavam qualquer aproximação das garotas.

Max viu uma garota negra de cabelo curto entrar na boate. Ela usava um vestidinho verde apertado. Calçava sapatos baixos. Carregava nas costas uma mochila de náilon, parecendo um saco. Usava luvas cirúrgicas… E segurava uma pistola com silenciador, colada à coxa.

Ela apontou a arma para o homem de branco. Ele fez cara de bobo. Ela deu um tiro em seu peito, sujando a camisa branca de sangue.

Kátia gritou.

Depois a garota de vestido verde apontou a arma para o peito do cara de camisa estampada. Ele também fez cara de bobo. Ela atirou.

Ela se virou à procura do cara de preto. Ele não estava à vista.

Caos total. Gritos e mais gritos. Correria. Gente se jogando no chão. Indo para os banheiros. Saindo pela porta da boate.

A música alta e as luzes piscando só pioravam as coisas.

Max ficou paralisado. Assim como Jonas, do outro lado da boate.

A garota de vestido verde foi até um cliente, um homem negro que estava deitado no chão. Deu um tiro em sua cabeça. A garota que estava deitada ao lado dele deu um grito, mas continuou com o rosto voltado para o chão.

A garota de vestido verde tirou a mochila das costas, guardou a arma e recolocou a mochila. Saiu da boate empurrando quem estava pelo caminho.

Naquela madrugada, ela tinha matado cinco homens. Os primeiros foram os dois seguranças da portaria. Tiro no peito. No momento, os gritos lá fora não tinham sido ouvidos dentro da boate.

Horas depois, o caso apareceu nos telejornais e na internet. O homem de branco era um empresário francês procurado pela Interpol. Ele estava envolvido em esquemas contra o sistema financeiro europeu. O cliente negro era dono de uma loja de celulares na Avenida Sete com uma longa ficha criminal. A polícia suspeitava de que o cliente negro era parceiro da atiradora, sendo eliminado como queima de arquivo. Não havia pistas sobre o paradeiro dela.

Max sonhou com a garota de vestido verde por noites e noites.

O DIÁLOGO

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Se eu previsse o que estava por vir, talvez não desse falta do Maigret que devorava de manhã na cama, e que segui lendo na praça de alimentação do shopping, enquanto esperava Cristina. Talvez não lembrasse que o havia deixado em sua bolsa quando nos encontramos para almoçar, porque eu estava de folga e não queria carregar nada nas mãos. Talvez não quisesse saber logo quem matou o Senhor Charles. Talvez não fosse ao trabalho de Cristina para pegar o livro. Só que não acredito em vida após a morte, destino ou premonições. O que acontece, acontece.

Cristina é vendedora numa loja de roupas. Enquanto eu atravessava os corredores do shopping, driblando um e outro, não parava de pensar no programa que ela tinha inventado para aquela noite. A despedida de um amigo dela. O sujeito vai morar em Portugal. Não suporto a maioria de suas amizades. Riem muito alto, falam muita merda. Assim como ela não suporta a maioria das minhas. Para ela, são um bando de boçais.

Entro na loja e Cristina logo me vê. Ela se mostra mais surpresa do que contente. Quer saber o que estou fazendo ali. Digo que vim atrás do livro que deixei em sua bolsa. Ela vai pegá-lo. Na volta, confirmamos o diabo do programa da noite. Trocamos um selinho. Saio da loja disposto a terminar o romance num canto menos barulhento do shopping.

Dois corredores depois, meu plano foi frustrado. Eu estava distraído e só fui perceber quando era tarde demais, quando já olhávamos um para o outro. Não sei por que paramos, frente a frente. Não sei por que não seguimos nossos caminhos.

Ela estava com o cabelo mais longo, deliciosamente gorda e acompanhada de uma menininha e um sujeito alto.

“Como vai?”, ela disse, serena.

As palavras quase não saíram da minha boca. Minha recuperação foi lenta.

Ela me apresentou ao marido e à filhinha.

A conversa não rendeu muito. Ela perguntou por minha família. Respondi com poucas palavras, tentando mostrar tranquilidade, equilíbrio. Em seguida, instalou-se um silêncio constrangedor. A gente se despediu.

Fui direto para o carro e joguei o Maigret no banco do carona.

Tomei fôlego para não dar ignição de uma vez e arrancar com tudo.

No primeiro sinal vermelho, apareceu um garoto e me pediu um trocado.

“Eu não tenho nada”, disse a ele. Quis ser gentil ao invés de usá-lo como bode expiatório da minha raiva, da minha frustração.

O garoto segurou o passo. Olhou para mim e deu uma gargalhada, erguendo a cabeça. Depois seguiu seu caminho.

O sinal ficou verde. Fui embora.

AS MORTES

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1.

O homem está no ônibus, indo para o trabalho. De pé, espremido, tentando se equilibrar. As costas doem. Mas ele só pensa nas contas atrasadas. E nas amizades duvidosas do filho adolescente. A imagem da mulher de seios fartos, sentada mais ao fundo, distraída com o celular, torna-se um alívio momentâneo. Meia hora depois, o homem sai do ônibus. Atravessa a rua na faixa de pedestres. Um carro avança o sinal vermelho. Das vítimas, ele é o único que não resiste aos ferimentos.

2.

A soldada se arrasta com dificuldade. O planeta é inóspito. O visor do capacete atrapalha sua visão com informações demais: sua condição física, a carga de seu armamento, a posição dos colegas de pelotão. Ela transpira. Tudo está muito quieto. Isso a deixa tensa. O sargento dá uma ou outra ordem pelo comunicador do capacete. Então vem o tiro pelas costas. Ela não pode se virar para ver quem disparou. O visor alerta a avaria no traje. Ela perde a consciência rápido. Tão rápido que não consegue formular um último pensamento.

3.

O velho fecha sua pequena livraria no horário de sempre. Ele mora num modesto quarto e sala em cima da loja. Todas as livrarias daquele país vendem apenas livros técnicos, sobre os mais diversos assuntos. Ler, escrever e publicar contos, romances, quadrinhos, poesia é proibido. As punições do governo são severas. O pior é ser mandado para os sanatórios. O velho retira de um compartimento secreto, na parede, um de seus caderninhos. Muitas linhas depois, ele condena um personagem à forca.

4.

Os lobos atravessam a estepe. Buscam alimento para seus filhotes. Na neve do dia branco, uma lebre desponta. À distancia, a observam saltar e correr. Deixam-na ir embora. Procuram uma presa bem maior. Acabam encontrando um alce imponente. Cercam e atacam. O alce luta, mas não resiste às investidas. Longe dali, os filhotes e os lobos no covil são massacrados por uma alcateia rival.

5.

A rainha está apreensiva. A princesa, sua única filha, sua predileta, fará aniversário em breve. Séculos antes, numa época de terras inférteis, fome e doenças, a rainha de então fez um pacto com uma bruxa para salvar o reino. O preço seria o sacrifício de uma princesa, aos doze anos. Dias depois da visita da bruxa, no aniversário da menina, cumpriu-se a nova lei. As terras voltaram a ser cultivadas. Os súditos voltaram a pagar impostos. Guerras voltaram a ser vencidas. O ritual se tornou uma tradição, que a rainha de agora pensa em desobedecer. O olhar inocente e violeta não ajuda em nada.

6.

O homem-bomba entra no edifício, um dos mais seguros do mundo. Ele é convidado de uma festa beneficente. As informações a seu respeito são falsas. O dinheiro da doação é pra valer. O anfitrião é presidente de um poderoso grupo multinacional. Todos confiam no avançado sistema de vigilância. Seguranças aos montes, scanners corporais, sensores de movimento e de temperatura, muitas câmeras. Nenhum tipo de arma não autorizada pode entrar ali. O homem-bomba está numa mesa com outros cinco convidados. O anfitrião chega e é aplaudido. Ele agradece, faz uma piada e começa seu discurso. O homem-bomba tira do bolso interno do paletó uma pílula verde e a coloca na boca. Bebe um copo de água. O anfitrião continua falando. O homem-bomba começa a suar. Os convidados da mesa lhe dão atenção, imaginam que está passando mal. Ele começa a tremer. Agora praticamente todos o observam. Inclusive o anfitrião, que para de falar. Dois seguranças se dirigem ao convidado em crise. Os sensores de temperatura indicam uma anomalia no recinto. O andar inteiro explode. O homem-bomba acorda, respira fundo, sente dores no corpo nu. Ele está de volta ao quarto do hotel próximo ao edifício. Ainda tonto, vai até à janela. Observa o resultado de mais uma missão cumprida.

7.

A professora fala à turma inquieta sobre a Primeira Guerra Mundial. No fundo da sala, uma aluna pergunta: na história da humanidade, guerras são a regra ou a exceção? A professora odeia quando a menina faz esse tipo de questionamento, obrigando-a a interromper a aula. Mas a professora se sente no dever de dar uma resposta. Ela não seria diminuída por aquela marginalzinha. A vida é conflito, diz a professora. O que devemos fazer é escolher nossas batalhas. Agora a aluna quer saber: matar muita gente, uma população inteira, pode levar à paz? A professora mais uma vez…

8.

O corretor de imóveis está com as mãos e os pés amarrados, a boca amordaçada, os olhos vendados, deitado num chão sujo e fétido. A cabeça dói. A respiração é difícil. A última coisa que se lembra é do sítio com a placa de vende-se e do casal interessado na propriedade. Ele não entende aquele terror. Não o aceita. Considera-se uma pessoa sem inimigos, um homem de bem. Não tem dinheiro. Coisas terríveis devem acontecer com gente ruim. Escuta uma porta ser aberta, passos calmos, o ranger do assoalho, silêncio.

9.

A jovem guerreira está cansada das disputas entre seu povo e o do outro lado da floresta. Está cansada de perder amigos e parentes, do sangue em suas mãos. Ela quer dar um fim em tanta tristeza. Não basta orar aos deuses. É preciso se tornar um deus, uma deusa, e assim acabar com o sofrimento na terra. Para tanto, o mais bravo guerreiro deve mergulhar no rio mais fundo da floresta e chegar à Gruta no Fim do Mundo. Lá se encontra a Flecha Quebrada. O bravo guerreiro deve enfiá-la bem no coração. Caso seja merecedor se transformará num cometa para chegar aos céus, para ficar ao lado dos deuses. A jovem guerreira tenta por muito tempo encontrar o rio, a gruta, a flecha. Quando finalmente tem sucesso, ela não é mais tão jovem. Mas está feliz. Agora pode ajudar seu povo. Ela enfia a Flecha Quebrada em seu peito. Chega aos céus na forma de um cometa. E fica lá no alto a observar a tragédia humana.

 

O BATUQUEIRO DO GRAN CIRCO LODOROV

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Desde menino Ian Lao quis sair de sua aldeia e conhecer o mundo. Sonhava com os lugares maravilhosos estampados nos postais que um certo caixeiro vendeu, por anos e anos, ao povo de sua aldeia. O Muro de Berlim, a Torre Eiffel, as pirâmides do Egito, o Cristo Redentor, a Disneylândia. Para Ian Lao, a vida dura de camponês nunca solapou sua vontade errante. Certa manhã, pouco depois de completar dezesseis anos, o pequeno Ian Lao partiu, olhando duas vezes para trás.

Tornou-se um globetrotter da falta, do desespero e de pouquíssimas alegrias. Depois de muita reviravolta, foi parar no interior de Pernambuco. E foi numa cidadezinha chamada Nova Esperança que ele recobrou a sua. O lugar era uma miséria, mas tudo bem: lá estava o Gran Circo Lodorov em noite de estreia.

Em suas andanças, ele nunca vira nada parecido. Sem dúvida, era o pior circo que já encontrara. Leões magérrimos domados por um tuberculoso, palhaços feios de dar medo, um velho mágico com truques manjadíssimos, malabaristas muito desastrados. Quando o atirador de facas entrou no picadeiro, todos prenderam a respiração. Para sorte da mocinha na roda de madeira, o atirador deixou cair uma faca no próprio pé e se retirou mancando. A maioria da mirrada plateia ficava cada vez mais aborrecida com aquele acúmulo de incompetências. Mas Ian Lao adorou tudo, porque tudo resultou em patetices de chorar de rir. Ele agora sabia o que fazer em seguida: juntar-se àqueles freaks para garantir pão, cama e sua terapia.

Depois do espetáculo, saiu à procura do dono do circo.

Quando Vladimir Lodorov viu à sua frente a minúscula figura de Ian Lao, ele não sabia o que pensar. O chinesinho começou a falar um espanhol de sotaque carregado e a fazer caretas e gestos, tentando explicar quem era e o que pretendia. Lodorov entendeu pouca coisa, mas percebeu que o chinesinho queria trabalho. Por sua vez, perguntou, com um português de sotaque carregado, também fazendo caretas e gestos, se Ian Lao conseguia dar cambalhotas num fio a dez metros de altura, tocar a ponta do nariz com o pé, dobrar o corpo para que o colocassem numa caixa, equilibrar pratos em varinhas. Ian Lao riu e riu, e disse: no. De repente, ele tirou de um saco de pano gasto um gongo dourado e uma baqueta. E pôs-se a bater e a gritar. Para espanto de Lodorov, aquilo não soava exatamente belo, mas exótico e prazeroso. Então veio a ideia de tornar o chinesinho o abre-alas do Gran Circo, o prenunciador de seu encantamento e diversão.

A trupe chegava às cidadezinhas e Ian Lao, por onde passava, se punha a tocar seu gongo e a gritar as atrações do Gran Circo Lodorov. Seu português, aprendido a bom custo, dava para o gasto. À noite, ele assistia ao pastelão involuntário. Mas depois de meses e meses, sua terapia já não tinha o mesmo efeito. As patetices perderam a graça. Certa manhã, Ian Lao partiu, sem olhar para trás.

Numa estação ferroviária decaída, ele quis saber para onde ia o trem prestes a sair. Ninguém lhe deu a mínima. Até que ele colocou os pertences no chão, abriu o saco de pano e o gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio. Todos olharam para ele. Atenderam-no. Agora a dúvida era saber se iria para a Salvador das batucadas do Olodum ou se para o Rio da bateria da Mangueira.

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Meu pai está morto. Foi enterrado há alguns anos. Mas hoje ele está vivo. Preciso ver seu rosto pela última vez. Trocar as últimas palavras.

Lembro bem de nossas tardes de sábado quando eu era criança. Ele gostava de contar histórias sobre as viagens de sua juventude.

Ele correra o mundo, carregando sua mochila surrada.Tinha enfrentado sol e chuva, sentido fome e saciedade, testemunhado beleza e violência.

Eu não parava de perguntar sobre os lugares, as paisagens, as pessoas.

Eu não entendia tudo o que ele me contava. Mas a graça de seu discurso me fazia sorrir, feito um idiota embevecido.

Meu pai e minha mãe tanto se amavam quanto se odiavam.

Quando a guerra deles começava, eu começava a minha: ia para meu quarto brincar com meus bonecos e soldadinhos de plástico.

Um dia, meu pai arrumou a mala e partiu. Antes de ir, ele beijou o topo da minha cabeça, prometendo voltar em breve.

Dias se passaram. O silêncio distante do meu pai não me deixava dormir. Às vezes, minha mãe chorava trancada em seu quarto.

Uma noite, o cansaço pela espera me venceu.

Sonhei que eu e meu pai andávamos sozinhos numa roda-gigante mágica, cortando nuvens, vendo pássaros e aviões de perto.

Até que surgiram crianças felizes nas cadeirinhas da roda-gigante e meu pai sumiu sem dizer adeus.

Algum tempo depois de meu pai ir embora, minha mãe começou a sair com um sujeito. Os dois acabaram se casando.

Fisicamente, ele até lembrava meu pai. Mas o cara não sabia contar histórias. E não gostava de assistir filmes de terror e de ficção científica.

Meu pai adorava rir das múmias, lobisomens e aliens que víamos nas madrugadas. Eu morria de medo.

Foi me dada a chance de rever meu pai, de falar com ele novamente. Mas não sei onde encontrá-lo. Estou perdido.

Não conheço essas ruas, essas esquinas, esses prédios. A cidade está deserta. Uma metrópole fantasma.

Não há sinal de catástrofe, de devastação. Tudo está em seu lugar.

Para meu espanto, um garoto aparece na minha frente do nada. Reconheço-o. Sou eu quando tinha nove, dez anos.

Ele estica o braço e aponta para o céu. Um disco voador de filme B se aproxima. Ele aterrissa no meio da avenida.

O garoto segura na minha mão. Partimos.

Não sei como vim parar nesse deserto. Efeitos colaterais da Máquina.

Não havia como programá-la para simplesmente colocar meu pai e eu, cara a cara, numa praia paradisíaca?

O Homem da Máquina me alertou: “Não será fácil”.

Sinto uma sede terrível. O sol é inclemente. Não há nada ao meu redor, apenas areia.

Não sei se continuo a caminhar, seguindo com meus passos cada vez mais débeis. Ou se me rendo em definitivo ao cansaço febril.

Será esse o fim da minha jornada? Não vou poder xingar meu pai, dar-lhe um soco, beijá-lo?

Meu corpo não aguenta mais. Vou ao chão.

Mesmo com os sentidos confusos, sinto algo entre meus dedos. Ao abrir a mão, a areia se esvai, revelando uma chave antiga, enferrujada.

O trecho de areia sob mim começa a tremer. Consigo forças para me afastar, me jogar para o lado.

Uma pequena duna emerge. Na verdade, é um velho baú.

Me arrasto até ele. Levanto o corpo com dificuldade. Afasto com o braço vacilante a areia acumulada sobre sua tampa.

Coloco a chave na tranca e abro.

O baú está cheio de água. E boiando, há uma garrafa de vidro fechada, com um rolo de papel dentro.

Bebo a água sofregamente. Ela é tão cristalina, tão fresca.

Depois de saciado, presto atenção na garrafa de vidro. A curiosidade me faz abri-la.

O rolo de papel é um antigo mapa. Mares, montanhas, florestas.

Ao final de uma linha pontilhada, uma inscrição indica: SEU PAI ESTÁ AQUI.

O deserto se torna sombrio. As nuvens se fecham. Começa a chover forte. Os grossos pingos de água fazem da areia lama.

Para proteger o mapa, coloco-o de volta na garrafa de vidro.

Meus pés estão cobertos de lama. Meus passos ficam pesados. Mas vou adiante, insisto, agora sei para onde ir.

Tudo o que tenho a fazer é esperar. Pelo momento certo.

O sinal são os raios, cortando o céu, atingindo o solo.

Lá estão eles! À minha frente, no horizonte, emitindo sua música assustadora.

Para ver melhor, enxugo o rosto com a mão várias vezes. Não dou muita importância aos grossos pingos de chuva me atingindo.

Os raios são tão brancos. Sinto uma mistura de medo e prazer ao contemplá-los.

Entre os raios, já posso vê-los, batendo suas enormes nadadeiras, lenta e graciosamente.

São bagres gigantes, multicolores. As tonalidades mudam a todo momento.

Preciso seguir as instruções do mapa.

Para montar nos bagres gigantes, a pessoa tem de gritar muito, muito alto. Para chamar a atenção deles. Fazê-los voar bem baixo.

Assim é possível agarrar-me a um dos bagres e seguir meu caminho.

Uma carona direto para A Montanha de Todos os Saberes, como indica o mapa.

Os bagres gigantes estão se aproximando. Os raios estrondosos os acompanham.

Coloco a garrafa na cintura, dentro da calça folgada.

Inspiro fundo, encho os pulmões, fecho os olhos.

Nunca gritei com tanta força. A chuva não me atrapalha. Eu continuo a gritar, a gritar, a gritar.

Quando termino, um acesso de tosses acaba comigo.

Deu certo. Os bagres gigantes estão se aproximando, diminuem cada vez mais de altitude.

Agora tenho que me concentrar. Não posso perder a chance de montar em um deles.

Mesmo eu estando todo molhado, mesmo com suas escamas escorregadias, tenho de conseguir.

Eles vêm ao meu encontro. Os raios fazem a terra tremer. É agora.

Agarro-me à nadadeira de um dos primeiros bagres do cardume. Com dificuldade, monto nele. Faço de seus bigodes rédeas.

Ganhamos altitude. Agora sou eu quem atinge a chuva. O som dos raios à minha volta é ensurdecedor.

Agora meu coração está acelerado por outro motivo. O medo deu lugar ao êxtase.

Seguro-me ao bagre gigante com um pouco mais de destreza, de segurança.

O que me permite curtir a viagem. Mesmo com a chuva me encharcando, e os raios explodindo.

A cena me faz lembrar do dia em que eu e meu pai saímos de moto.

Numa manhã ensolarada, meu pai apareceu em casa com a moto de um amigo.

Aproveitamos a ausência de minha mãe para andarmos por estradas no litoral.

Fiquei na garupa, agarrado à sua cintura. Como era gostoso sentir o vento forte no rosto, o coração acelerar.

Foi nossa última aventura antes de ele partir.

Uma noite, alguém bateu na porta de nossa casa. Minha mãe foi atendê-la e deu um grito.

Fui correndo socorrê-la, e vi o mesmo que ela: um fantasma. Meu pai estava de volta.

Ele não queria ser o homem da casa novamente. Queria dar explicações, me reconquistar, ser o pai que fora ou melhor.

Porém suas palavras não me seduziam mais. Eu não era mais uma criança.

Ele retornou outras vezes. Me recusava a vê-lo.

Até o dia em que escrevi uma carta para minha mãe, revelando os motivos da minha partida (não todos).

Fui embora de casa. Não sem antes beijá-la na testa, enquanto dormia.

Peguei a estrada, sem rumo definido.

Eu sempre falava com minha mãe. Ela me contava como andava sua vida e eu contava da minha. Eu não revelava tudo, não queria magoá-la.

Toda vez ela me pedia para voltar para casa. Eu não fazia promessas que não podia cumprir.

Às vezes, ela falava sobre meu pai, de como ele estava sempre preocupado comigo.

Eu não queria saber. Falava para ela mudar de assunto, me irritava com ela. Depois pedia desculpas.

De uma maneira ou de outra, nunca fiquei sem ter notícias do meu pai. Mas fiquei sem vê-lo por anos.

O Homem da Máquina recomendou que eu não lutasse contra os caprichos da jornada.

Falar é fácil.

Agora estou numa sala ampla com móveis luxuosos e antigos. Estou completamente seco. Nem sinal dos bagres gigantes, da chuva, dos raios.

A garrafa de vidro com o mapa sumiu da minha cintura. Será que cheguei ao meu destino?

Pelas janelas altas, vejo uma noite de lua cheia. Parece não ter ninguém na casa.

Mas logo uma sombra volumosa e disforme vem caminhando em minha direção.

Sob a luz, acaba o mistério, mas não o espanto: é um palhaço corpulento, de cara branca e de nariz e cabelo violeta.

Em silêncio, ele levanta os ombros, mexe os braços e as mãos, faz uma careta me convidando a entrar.

Ele segue o caminho de volta. Eu vou logo atrás. Nos deparamos com uma robusta porta fechada.

Antes de o palhaço abri-la, ele sorri para mim de forma assustadora.

Atrás da porta, há uma sala de jantar, onde outros palhaços nos esperam.

Todos estão de pé, ao redor de uma mesa comprida e farta, com dez ou doze deles de cada lado.

Palhaços de maquiagens, roupas e tamanhos diferentes me encarando. Tento disfarçar meu medo.

O palhaço de nariz e cabelo violeta aponta para a cadeira vazia da cabeceira.

Eu me sento. Os outros palhaços fazem o mesmo. Meu anfitrião permanece de pé.

Os palhaços se põem a comer, beber, conversar e rir. Eu apenas como e bebo, cauteloso, observando tudo.

Eles parecem não se importar com minha presença. Imaginei que eu fosse o convidado especial.

Olho para o lado e vejo que o palhaço de nariz e cabelo violeta desapareceu.

Começo a pensar em como sair dali, como posso continuar minha busca, e o que aquele lugar tem a ver com ela.

Percebo que um dos palhaços, de quando em quando, me encara, firme.

Sempre o encaro de volta, hesitante.

Os outros palhaços continuam a aproveitar o banquete.

O palhaço me encara uma última vez, e levanta-se.

Os outros palhaços parecem não se importar com sua ausência.

O palhaço se aproxima de uma porta lateral, e desaparece na escuridão de outro cômodo.

A porta fica aberta.

Me levanto. Vou em direção à porta.

Os outros palhaços também não dão a mínima.

O cômodo é tão escuro, não tem como ver seu verdadeiro tamanho. Deve ser enorme.

O palhaço está distante, sentado numa cadeira, no único ponto iluminado do recinto. Ele está de costas para mim.

Vou ao seu encontro.

Lembro de quando meu pai me levou ao circo pela primeira vez.

Minha expectativa era imensa. Nunca tinha visto animais selvagens de perto. Estava lá para ver macacos, leões e elefantes.

Mas, para minha surpresa, acabei me encantando com uma jovem trapezista. Acho que foi minha primeira paixão.

Estou mais perto do palhaço. Percebo que ele está sentado numa cadeira modesta.

A fonte de luz são lampadazinhas fracas em volta do espelho da mesa de pernas finas.

O palhaço começa a tirar a maquiagem. Sua verdadeira pele se revela aos poucos. Ele me olha através do espelho.

São olhos tão familiares.

Um susto. É óbvio, imbecil.

Uma voz feminina me avisa: “Tempo encerrado. Para continuar a sessão, renove seus créditos… “.

UMA NOITE QUALQUER

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Daniel trabalhava na pensão dos Velhos. Por volta das nove da noite, suas obrigações terminavam. Então era comum ele pegar toalha, xampu e sabonete e ir para os fundos da pensão, onde havia uma ducha larga no pátio. A água caía forte. Às vezes, ele pensava em dar um grito, mas se segurava, permanecia em silêncio. A verdade é que gostava da água gelada batendo em seu corpo jovem e magro, como se uma correntezinha elétrica o atravessasse, da cabeça aos pés. Não havia perigo de o flagrarem nu e ensaboado. Ele sempre usava um short sem bolsos durante o banho. Nos dias muito frios, não tinha jeito, só lhe restava o banheiro dos fundos da pensão. Era um cubículo cheio de mofo, com uma pia mais amarela do que branca, um vaso sanitário idem e um chuveiro vagabundo. Ao abri-lo, mais parecia uma torneira de tão fraco. Daniel, as cozinheiras, as faxineiras, qualquer entregador de encomendas, pedreiro, eletricista, ou encanador tinha que se aliviar por ali mesmo. Daniel fazia sua pouca barba no pátio, aproveitando a luz natural. Todas as manhãs, ele acordava ainda com o céu cinzento para aproveitar a ducha larga em paz e começar melhor o dia.

Depois de sair do banho, em sua rotina noturna, ele se arrumava em seu quarto e ia para a cozinha ampla. Abria a geladeira à procura de alguma sobra do jantar servido aos hóspedes e moradores. Ligava o fogão e esquentava a comida. Limpava tudo, apagava a luz e voltava para o quarto. No corredor, de longe, ele podia ver Danilo, que tomava conta da recepção durante o resto da noite e a madrugada. Isso quando ele estava por lá, quando não largava o posto.

O quarto de Daniel ficava no fundo do corredor que ligava a cozinha, a sala de refeições e a recepção. Era um ponto estratégico, afirmavam os Velhos. Para o caso de qualquer emergência. Para o caso de qualquer amolação, isso sim. Não era raro alguém bater na porta de Daniel e ele ter de deixar o seu descanso, a sua cama, para atender a solicitação de algum hóspede, morador ou dos Velhos. Era um vaso sanitário entupido, ou um gato de rua rondando pelo primeiro andar, ou uma misteriosa poça de vômito apodrecendo na escada, ou a porta da rua que precisava ser aberta para algum hóspede ou morador entrar na pensão. E lá estava Daniel para desentupir, enxotar, esfregar pano e abrir porta. Danilo era quem devia fazer essas tarefas e não ele, indignava-se. Afinal, quem estava de serviço naquele turno? Mas Daniel nunca foi reclamar com os Velhos. Desde o começo, seu Herculano deixara no ar que as coisas seriam assim. Se não quisesse o emprego, que fosse embora.

O quarto era pequeno, mas com espaço razoável para colocar uma cama de solteiro em um canto e um guarda-roupa estreito ao lado. Além de uma mesa de metal, daquelas de bar, e uma cadeira também de bar, na parede oposta à cama. Para alívio de Daniel, havia uma janelinha alta, que fazia circular um bom vento. Mas o que salvava mesmo era um ventilador nanico que ficava em cima de um banquinho de plástico. E também havia seu bem mais precioso: uma televisão de dez polegadas. Mesmo enxergando tudo dobrado e com as cores trocadas, ele gostava de assistir ao noticiário nela. Aproveitava mais do que se tivesse um rádio. Mas acabava se cansando da imagem confusa. Então, pegava um romance policial ou de terror para ler, até cair no sono.

Naquela noite, justamente quando dormia com um desses livros aberto no peito, de luz acesa, bateram na porta do quarto, com força. Daniel tomou um susto. Levantou-se logo. O livro foi parar no chão. Mais batidas na porta. Uma voz gasta e irritada se pronunciou:

“Levanta, rapaz.”

Era seu Herculano.

Daniel estava apenas de short. Vestiu uma camisa e calçou os chinelos. A porta foi destrancada, sem nenhuma pressa. O livro ficou debaixo da cama.

O rosto de seu Herculano carregava o mau humor de sempre. Ele usava óculos grandes, um pijama azul e o cabelo branco estava desgrenhado.

“Que demora”, disse o velho.

“Boa noite, seu Herculano.”

“Olhe ali na porta da rua.”

“O quê?”

“A porta da rua. Alguém está batendo.”

A vontade de Daniel era de meter um soco na cara do velho. Mas acabou por atendê-lo. Saiu do quarto, abriu caminho e parou no meio do corredor. Seu Herculano recuou para junto da parede, como se buscasse proteção contra uma ameaça desconhecida.

Daniel encarou a porta da rua. Era toda de madeira, cheia de entalhes, mas sem janelinhas ou aberturas. Não dava para ver se realmente havia alguém do outro lado. Ninguém batia nela. Escutava-se o som de um ou outro carro passando. Aliás, Daniel queria saber o que seu Herculano fazia fora da cama tarde da noite. Os Velhos moravam em uma casa dentro da pensão. No térreo, entre a cozinha e a sala de refeições, havia outro corredor, que levava até a casa deles. Lá havia sala, banheiro, quarto e cozinha, tudo em tamanho menor.

Mesmo sem ser questionado, seu Herculano acabou explicando a Daniel por que estava zanzando por ali. Todas as noites, ele acordava, acendia o abajur do criado-mudo, colocava os óculos e pegava ao lado da cama um copo de água para refrescar-se. Dessa vez, o copo caiu no chão. Formou-se uma poça de água com cacos de vidros no assoalho. Tanto para seu Herculano como para dona Hermínia, que acordara com o barulho, aquela porcaria tinha que ser removida. Imediatamente. Nada de esperar o dia amanhecer.

A recepção estava abandonada.

“Seu Herculano, onde está Danilo?”

“E eu sei daquele ingrato.”

Quando Daniel chegou à pensão, cinco meses antes, Danilo já ocupava a recepção naquele turno. E volta e meia, largava o posto. Daniel logo percebeu que o sujeito não seria um aliado, nem exatamente um inimigo. Seria um tormento a mais naquele lugar. Ficou surpreso de saber que o outro não morava na pensão. E até agora não descobriu onde. Na verdade, não interessava muito. Com certeza, já havia algum tempo, Danilo fizera uma cópia da chave da rua, sem a concordância dos Velhos. Porém o que realmente intrigava Daniel era o fato de os Velhos o manterem na pensão. Seu Herculano por ser tão duro com todo mundo. Dona Hermínia por claramente não suportar Danilo. Seu Herculano o repreendia na frente de qualquer um. Dona Hermínia não lhe dirigia a palavra. Danilo sempre respondia o que seu Herculano queria ouvir. E seu Herculano nunca confiscava a cópia da chave.

Batidas fortes na porta da rua.

Daniel e seu Herculano tomaram um susto.

Então não era uma maluquice, uma invenção, constatou Daniel.

“Vá atender a porta”, disse seu Herculano.

Daniel virou a cabeça para trás e o encarou com uma raiva indisfarçável, o rosto rígido.

Seu Herculano não queria saber de caretas. Ele queria que Daniel fosse adiante, que se sacrificasse por ele.

Talvez aquele fosse o momento da verdade, pensou Daniel. O momento de dizer: chega. Chega de trabalhar por cama, comida e quase dinheiro nenhum. Chega de aturar esses Velhos. Chega de cuidar dessa casa velha… Mas, como em outras vezes, ele respirou fundo e logo se lembrou do motivo que o levara até aquela pensão, que o fizera sair de sua cidade, no interior, na calada da noite, cinco meses antes. Claro que, com um pouco mais de sorte, ele não estaria naquele buraco… Pelo menos não passava fome, não dormia ao relento… Continuaria ali até arranjar coisa melhor. Continuaria aguentando toda essa amolação.

Seu Herculano não aceitava que Daniel ainda estivesse parado, no meio do corredor.

“Anda, rapaz, anda.”

Mais batidas fortes na porta da rua.

Daniel não se movia.

Talvez fosse o caso de algo mais excêntrico, continuou Daniel. Seria algum assaltante metido a besta, querendo entrar pela porta da frente só por farra? Contando com uma possível ingenuidade de alguém ali dentro para ter êxito, sem tanto esforço? Esperando convencer algum imbecil com uma historiazinha sobre uma emergência, para o imbecil então destrancar a porta e o assaltante sorrir, mostrar a arma, abrir caminho para os companheiros, dar uns tabefes e levar tudo de valor? Já ocorreram na calçada, em frente à pensão, dois ou três assaltos testemunhados por Daniel. As vítimas eram hóspedes e moradores, chegando ou saindo, no finalzinho da tarde. Em outros tempos, Daniel soube, ali acontecera a invasão de uma dupla armada para roubar, principalmente, os caixeiros-viajantes. E ainda mais longe no passado, numa manhã, um homem de chapéu panamá entrou aos gritos à procura de um jovem. Ao aparecer na porta da cozinha, o tal fora esfaqueado várias vezes. A vítima morava na pensão e trabalhava como auxiliar num escritório de contabilidade. O assassino era dono de uma farmácia, onde a filha de quatorze anos o ajudava. Logo o povo ficou sabendo que a vigilância do pai falhara. A mãe havia descoberto a gravidez da filha. A jovem contou tudo depois de muita ameaça e alguma violência. O pai ficou preso poucos anos.

Ou talvez fosse algo mais corriqueiro: alguém carregando uma mala e perdido pelo centro de Salvador, em busca de um quarto. Pelo menos uma vez por semana, Daniel testemunhava a cena, ao passar tarde pela recepção. Danilo sempre enxotava qualquer um, sem abrir a porta, apenas falando e ouvindo através dela. Era a ordem expressa dos Velhos. Não aceitar ninguém depois das nove horas. Depois que a porta da rua era fechada. A partir desse horário, a função de Danilo era, sobretudo, controlar a saída e a entrada dos hóspedes e moradores, checando o livro de registro. Daniel sabia que os Velhos odiavam que essa gente, como os dois diziam, ficasse indo da pensão para a rua e vice-versa, tarde da noite, para beber, jogar e trepar. Os Velhos não admitiam nenhuma dessas coisas lá dentro. E Danilo se mantinha vigilante para não descumprirem a regra. Na verdade, denunciava os desafetos. E acobertava aqueles que o subornavam. Nos cinco meses que estava por ali, Daniel já ouvira segredos de hóspedes, moradores e dos Velhos. Ele conhecia algum podrezinho de um ou de outro. Nada tão chocante a ponto de assustá-lo, nada de grandes revelações. Ele ouvia comentários, meias palavras, trechos de conversas. Geralmente, as pessoas o tomavam por inofensivo, insignificante, quando ele estava próximo, ocupando-se de suas tarefas.

Mais batidas fortes na porta da rua.

Seu Herculano não parava de resmungar.

Daniel percebeu que não tinha saída: precisava acabar logo com aquele tormento para cair de novo na cama. Por ele, daria meia-volta bem rápido, entraria em seu quarto e fecharia a porta. Tudo resolvido sem nada resolver. Mas fazer isso seria o mesmo que arranjar ainda mais problemas com os Velhos. Portanto, avante, soldado.

Daniel foi em direção à porta da rua, devagar. Logo acelerou o passo, até parar bruscamente.

Todas as noites, àquela hora, a recepção era iluminada por uma lâmpada de luz branca, sobre o balcão. Um lustre simples com três globos era desligado sempre às nove. A luz amarela do corredor permanecia acesa a noite inteira.

Que horas eram exatamente?, Daniel quis saber, o corpo quase colado à  porta da rua. Não devia ser tão tarde. Ele sentia certa agonia toda vez que procurava saber as horas e não tinha um relógio por perto.

Uma voz possante deu-lhe um susto:

“Alguém aí, por favor.”

Sem dúvida, o sujeito lá fora sabia que alguém ali dentro chegara mais próximo.

Daniel limpou a garganta:

“Pois não.”

“Eu queria um quarto, amigo.”

Os olhos de Daniel e os de seu Herculano se encontraram. O primeiro olhava sem mostrar surpresa com o desenrolar da situação. Virara-se para trás a fim de confirmar ao outro que corria tudo bem, não havia motivos para preocupações. No fundo, estava enfurecido por toda a aflição do velho terminar no óbvio. E claro, aliviado, por não acontecer nenhuma péssima novidade naquela noite. Mas seu Herculano, ouvindo o diálogo, ainda se mantinha apreensivo, não pretendia baixar a guarda facilmente.

Daniel abandonou seu Herculano e virou-se para o sujeito atrás da porta.

“Já fechamos, senhor. Volte amanhã cedo. A partir das seis.”

Silêncio.

E então o vozeirão do sujeito voltou a impressionar:

“Escuta, amigo. Eu vim de muito longe, não conheço a cidade. Está frio aqui fora. Me parece que não existe outro lugar pelas redondezas onde eu possa dormir. Pelo menos, não um lugar com bom aspecto.”

“Desculpe, senhor. São regras da casa. Se tivesse aparecido até as nove horas.”

Daniel olhou para seu Herculano, que balançou a cabeça rápida e negativamente.

“Vamos fazer o seguinte: me diga quanto é o valor de duas diárias e eu passo o dinheiro por baixo da porta. Será a garantia de minha boa-fé.”

A potência da voz do sujeito não o ajudava muito. Ela fazia Daniel ter uma ponta de dúvida de que realmente não havia perigo nenhum.

“Não posso fazer isso, senhor. Desculpe. Volte amanhã. Vou lhe arranjar um dos melhores quartos.”

Daniel nem sabia mais o que falava, ele mesmo reconheceu. Não tinha autoridade para fazer tal promessa.

Novo silêncio. Dessa vez, mais demorado.

“Senhor?”

Nada de resposta.

“A mala do seu pai está comigo.”

Daniel tomou um susto, como nunca antes na vida.

A voz possante do estranho tornou aquelas palavras ainda mais surreais. A bile subiu e desceu pela garganta de Daniel. Não podia ser, pensou. Ele não tinha ouvido direito. Tinha entendido errado. Ele não conhecia aquele homem. O homem não o conhecia. Conhecia?

Daniel ficou no dilema entre abrir a porta ou não. Eram duas opções igualmente terríveis. Continuar ali dentro, protegido, mas tomado por uma ansiedade crescente. Ou se expor a uma verdade dura demais para suportar.

Ou nada daquilo era real. Coisa de sua imaginação. Um mal-entendido que se tornou um tormento.

“Rapaz, o que ele falou?”, perguntou seu Herculano, lá do fundo.

Então Daniel disse, mais para si mesmo, esquecendo todo o resto:

“Sobre a mala. Mas ninguém tinha como saber sobre a mala. Ninguém.”