UMA NOITE QUALQUER

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Daniel trabalhava na pensão dos Velhos. Por volta das nove da noite, suas obrigações terminavam. Então era comum ele pegar toalha, xampu e sabonete e ir para os fundos da pensão, onde havia uma ducha larga no pátio. A água caía forte. Às vezes, ele pensava em dar um grito, mas se segurava, permanecia em silêncio. A verdade é que gostava da água gelada batendo em seu corpo jovem e magro, como se uma correntezinha elétrica o atravessasse, da cabeça aos pés. Não havia perigo de o flagrarem nu e ensaboado. Ele sempre usava um short sem bolsos durante o banho. Nos dias muito frios, não tinha jeito, só lhe restava o banheiro dos fundos da pensão. Era um cubículo cheio de mofo, com uma pia mais amarela do que branca, um vaso sanitário idem e um chuveiro vagabundo. Ao abri-lo, mais parecia uma torneira de tão fraco. Daniel, as cozinheiras, as faxineiras, qualquer entregador de encomendas, pedreiro, eletricista, ou encanador tinha que se aliviar por ali mesmo. Daniel fazia sua pouca barba no pátio, aproveitando a luz natural. Todas as manhãs, ele acordava ainda com o céu cinzento para aproveitar a ducha larga em paz e começar melhor o dia.

Depois de sair do banho, em sua rotina noturna, ele se arrumava em seu quarto e ia para a cozinha ampla. Abria a geladeira à procura de alguma sobra do jantar servido aos hóspedes e moradores. Ligava o fogão e esquentava a comida. Limpava tudo, apagava a luz e voltava para o quarto. No corredor, de longe, ele podia ver Danilo, que tomava conta da recepção durante o resto da noite e a madrugada. Isso quando ele estava por lá, quando não largava o posto.

O quarto de Daniel ficava no fundo do corredor que ligava a cozinha, a sala de refeições e a recepção. Era um ponto estratégico, afirmavam os Velhos. Para o caso de qualquer emergência. Para o caso de qualquer amolação, isso sim. Não era raro alguém bater na porta de Daniel e ele ter de deixar o seu descanso, a sua cama, para atender a solicitação de algum hóspede, morador ou dos Velhos. Era um vaso sanitário entupido, ou um gato de rua rondando pelo primeiro andar, ou uma misteriosa poça de vômito apodrecendo na escada, ou a porta da rua que precisava ser aberta para algum hóspede ou morador entrar na pensão. E lá estava Daniel para desentupir, enxotar, esfregar pano e abrir porta. Danilo era quem devia fazer essas tarefas e não ele, indignava-se. Afinal, quem estava de serviço naquele turno? Mas Daniel nunca foi reclamar com os Velhos. Desde o começo, seu Herculano deixara no ar que as coisas seriam assim. Se não quisesse o emprego, que fosse embora.

O quarto era pequeno, mas com espaço razoável para colocar uma cama de solteiro em um canto e um guarda-roupa estreito ao lado. Além de uma mesa de metal, daquelas de bar, e uma cadeira também de bar, na parede oposta à cama. Para alívio de Daniel, havia uma janelinha alta, que fazia circular um bom vento. Mas o que salvava mesmo era um ventilador nanico que ficava em cima de um banquinho de plástico. E também havia seu bem mais precioso: uma televisão de dez polegadas. Mesmo enxergando tudo dobrado e com as cores trocadas, ele gostava de assistir ao noticiário nela. Aproveitava mais do que se tivesse um rádio. Mas acabava se cansando da imagem confusa. Então, pegava um romance policial ou de terror para ler, até cair no sono.

Naquela noite, justamente quando dormia com um desses livros aberto no peito, de luz acesa, bateram na porta do quarto, com força. Daniel tomou um susto. Levantou-se logo. O livro foi parar no chão. Mais batidas na porta. Uma voz gasta e irritada se pronunciou:

“Levanta, rapaz.”

Era seu Herculano.

Daniel estava apenas de short. Vestiu uma camisa e calçou os chinelos. A porta foi destrancada, sem nenhuma pressa. O livro ficou debaixo da cama.

O rosto de seu Herculano carregava o mau humor de sempre. Ele usava óculos grandes, um pijama azul e o cabelo branco estava desgrenhado.

“Que demora”, disse o velho.

“Boa noite, seu Herculano.”

“Olhe ali na porta da rua.”

“O quê?”

“A porta da rua. Alguém está batendo.”

A vontade de Daniel era de meter um soco na cara do velho. Mas acabou por atendê-lo. Saiu do quarto, abriu caminho e parou no meio do corredor. Seu Herculano recuou para junto da parede, como se buscasse proteção contra uma ameaça desconhecida.

Daniel encarou a porta da rua. Era toda de madeira, cheia de entalhes, mas sem janelinhas ou aberturas. Não dava para ver se realmente havia alguém do outro lado. Ninguém batia nela. Escutava-se o som de um ou outro carro passando. Aliás, Daniel queria saber o que seu Herculano fazia fora da cama tarde da noite. Os Velhos moravam em uma casa dentro da pensão. No térreo, entre a cozinha e a sala de refeições, havia outro corredor, que levava até a casa deles. Lá havia sala, banheiro, quarto e cozinha, tudo em tamanho menor.

Mesmo sem ser questionado, seu Herculano acabou explicando a Daniel por que estava zanzando por ali. Todas as noites, ele acordava, acendia o abajur do criado-mudo, colocava os óculos e pegava ao lado da cama um copo de água para refrescar-se. Dessa vez, o copo caiu no chão. Formou-se uma poça de água com cacos de vidros no assoalho. Tanto para seu Herculano como para dona Hermínia, que acordara com o barulho, aquela porcaria tinha que ser removida. Imediatamente. Nada de esperar o dia amanhecer.

A recepção estava abandonada.

“Seu Herculano, onde está Danilo?”

“E eu sei daquele ingrato.”

Quando Daniel chegou à pensão, cinco meses antes, Danilo já ocupava a recepção naquele turno. E volta e meia, largava o posto. Daniel logo percebeu que o sujeito não seria um aliado, nem exatamente um inimigo. Seria um tormento a mais naquele lugar. Ficou surpreso de saber que o outro não morava na pensão. E até agora não descobriu onde. Na verdade, não interessava muito. Com certeza, já havia algum tempo, Danilo fizera uma cópia da chave da rua, sem a concordância dos Velhos. Porém o que realmente intrigava Daniel era o fato de os Velhos o manterem na pensão. Seu Herculano por ser tão duro com todo mundo. Dona Hermínia por claramente não suportar Danilo. Seu Herculano o repreendia na frente de qualquer um. Dona Hermínia não lhe dirigia a palavra. Danilo sempre respondia o que seu Herculano queria ouvir. E seu Herculano nunca confiscava a cópia da chave.

Batidas fortes na porta da rua.

Daniel e seu Herculano tomaram um susto.

Então não era uma maluquice, uma invenção, constatou Daniel.

“Vá atender a porta”, disse seu Herculano.

Daniel virou a cabeça para trás e o encarou com uma raiva indisfarçável, o rosto rígido.

Seu Herculano não queria saber de caretas. Ele queria que Daniel fosse adiante, que se sacrificasse por ele.

Talvez aquele fosse o momento da verdade, pensou Daniel. O momento de dizer: chega. Chega de trabalhar por cama, comida e quase dinheiro nenhum. Chega de aturar esses Velhos. Chega de cuidar dessa casa velha… Mas, como em outras vezes, ele respirou fundo e logo se lembrou do motivo que o levara até aquela pensão, que o fizera sair de sua cidade, no interior, na calada da noite, cinco meses antes. Claro que, com um pouco mais de sorte, ele não estaria naquele buraco… Pelo menos não passava fome, não dormia ao relento… Continuaria ali até arranjar coisa melhor. Continuaria aguentando toda essa amolação.

Seu Herculano não aceitava que Daniel ainda estivesse parado, no meio do corredor.

“Anda, rapaz, anda.”

Mais batidas fortes na porta da rua.

Daniel não se movia.

Talvez fosse o caso de algo mais excêntrico, continuou Daniel. Seria algum assaltante metido a besta, querendo entrar pela porta da frente só por farra? Contando com uma possível ingenuidade de alguém ali dentro para ter êxito, sem tanto esforço? Esperando convencer algum imbecil com uma historiazinha sobre uma emergência, para o imbecil então destrancar a porta e o assaltante sorrir, mostrar a arma, abrir caminho para os companheiros, dar uns tabefes e levar tudo de valor? Já ocorreram na calçada, em frente à pensão, dois ou três assaltos testemunhados por Daniel. As vítimas eram hóspedes e moradores, chegando ou saindo, no finalzinho da tarde. Em outros tempos, Daniel soube, ali acontecera a invasão de uma dupla armada para roubar, principalmente, os caixeiros-viajantes. E ainda mais longe no passado, numa manhã, um homem de chapéu panamá entrou aos gritos à procura de um jovem. Ao aparecer na porta da cozinha, o tal fora esfaqueado várias vezes. A vítima morava na pensão e trabalhava como auxiliar num escritório de contabilidade. O assassino era dono de uma farmácia, onde a filha de quatorze anos o ajudava. Logo o povo ficou sabendo que a vigilância do pai falhara. A mãe havia descoberto a gravidez da filha. A jovem contou tudo depois de muita ameaça e alguma violência. O pai ficou preso poucos anos.

Ou talvez fosse algo mais corriqueiro: alguém carregando uma mala e perdido pelo centro de Salvador, em busca de um quarto. Pelo menos uma vez por semana, Daniel testemunhava a cena, ao passar tarde pela recepção. Danilo sempre enxotava qualquer um, sem abrir a porta, apenas falando e ouvindo através dela. Era a ordem expressa dos Velhos. Não aceitar ninguém depois das nove horas. Depois que a porta da rua era fechada. A partir desse horário, a função de Danilo era, sobretudo, controlar a saída e a entrada dos hóspedes e moradores, checando o livro de registro. Daniel sabia que os Velhos odiavam que essa gente, como os dois diziam, ficasse indo da pensão para a rua e vice-versa, tarde da noite, para beber, jogar e trepar. Os Velhos não admitiam nenhuma dessas coisas lá dentro. E Danilo se mantinha vigilante para não descumprirem a regra. Na verdade, denunciava os desafetos. E acobertava aqueles que o subornavam. Nos cinco meses que estava por ali, Daniel já ouvira segredos de hóspedes, moradores e dos Velhos. Ele conhecia algum podrezinho de um ou de outro. Nada tão chocante a ponto de assustá-lo, nada de grandes revelações. Ele ouvia comentários, meias palavras, trechos de conversas. Geralmente, as pessoas o tomavam por inofensivo, insignificante, quando ele estava próximo, ocupando-se de suas tarefas.

Mais batidas fortes na porta da rua.

Seu Herculano não parava de resmungar.

Daniel percebeu que não tinha saída: precisava acabar logo com aquele tormento para cair de novo na cama. Por ele, daria meia-volta bem rápido, entraria em seu quarto e fecharia a porta. Tudo resolvido sem nada resolver. Mas fazer isso seria o mesmo que arranjar ainda mais problemas com os Velhos. Portanto, avante, soldado.

Daniel foi em direção à porta da rua, devagar. Logo acelerou o passo, até parar bruscamente.

Todas as noites, àquela hora, a recepção era iluminada por uma lâmpada de luz branca, sobre o balcão. Um lustre simples com três globos era desligado sempre às nove. A luz amarela do corredor permanecia acesa a noite inteira.

Que horas eram exatamente?, Daniel quis saber, o corpo quase colado à  porta da rua. Não devia ser tão tarde. Ele sentia certa agonia toda vez que procurava saber as horas e não tinha um relógio por perto.

Uma voz possante deu-lhe um susto:

“Alguém aí, por favor.”

Sem dúvida, o sujeito lá fora sabia que alguém ali dentro chegara mais próximo.

Daniel limpou a garganta:

“Pois não.”

“Eu queria um quarto, amigo.”

Os olhos de Daniel e os de seu Herculano se encontraram. O primeiro olhava sem mostrar surpresa com o desenrolar da situação. Virara-se para trás a fim de confirmar ao outro que corria tudo bem, não havia motivos para preocupações. No fundo, estava enfurecido por toda a aflição do velho terminar no óbvio. E claro, aliviado, por não acontecer nenhuma péssima novidade naquela noite. Mas seu Herculano, ouvindo o diálogo, ainda se mantinha apreensivo, não pretendia baixar a guarda facilmente.

Daniel abandonou seu Herculano e virou-se para o sujeito atrás da porta.

“Já fechamos, senhor. Volte amanhã cedo. A partir das seis.”

Silêncio.

E então o vozeirão do sujeito voltou a impressionar:

“Escuta, amigo. Eu vim de muito longe, não conheço a cidade. Está frio aqui fora. Me parece que não existe outro lugar pelas redondezas onde eu possa dormir. Pelo menos, não um lugar com bom aspecto.”

“Desculpe, senhor. São regras da casa. Se tivesse aparecido até as nove horas.”

Daniel olhou para seu Herculano, que balançou a cabeça rápida e negativamente.

“Vamos fazer o seguinte: me diga quanto é o valor de duas diárias e eu passo o dinheiro por baixo da porta. Será a garantia de minha boa-fé.”

A potência da voz do sujeito não o ajudava muito. Ela fazia Daniel ter uma ponta de dúvida de que realmente não havia perigo nenhum.

“Não posso fazer isso, senhor. Desculpe. Volte amanhã. Vou lhe arranjar um dos melhores quartos.”

Daniel nem sabia mais o que falava, ele mesmo reconheceu. Não tinha autoridade para fazer tal promessa.

Novo silêncio. Dessa vez, mais demorado.

“Senhor?”

Nada de resposta.

“A mala do seu pai está comigo.”

Daniel tomou um susto, como nunca antes na vida.

A voz possante do estranho tornou aquelas palavras ainda mais surreais. A bile subiu e desceu pela garganta de Daniel. Não podia ser, pensou. Ele não tinha ouvido direito. Tinha entendido errado. Ele não conhecia aquele homem. O homem não o conhecia. Conhecia?

Daniel ficou no dilema entre abrir a porta ou não. Eram duas opções igualmente terríveis. Continuar ali dentro, protegido, mas tomado por uma ansiedade crescente. Ou se expor a uma verdade dura demais para suportar.

Ou nada daquilo era real. Coisa de sua imaginação. Um mal-entendido que se tornou um tormento.

“Rapaz, o que ele falou?”, perguntou seu Herculano, lá do fundo.

Então Daniel disse, mais para si mesmo, esquecendo todo o resto:

“Sobre a mala. Mas ninguém tinha como saber sobre a mala. Ninguém.”

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PERSONAGEM, O ELEMENTO MAIS IMPORTANTE DA NARRATIVA PARTE 1

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ACREDITANDO NO PERSONAGEM (A CONEXÃO EMOCIONAL)

Há várias maneiras de narrar, de fazer ficção. Muitos autores não se destacam exatamente pela construção de personagens. Suas qualidades são outras. Experimentação da linguagem, uma conexão mais profunda com a poesia, o debate de ideias, a narrativa mitológica ou moral (lendas e fábulas), ou a crítica social e política por meio da sátira, da paródia, com personagens intencionalmente rasos. Outros inserem vários desses elementos em seus textos e ainda assim se preocupam com o desenvolvimento de personagens. E também existem os autores que querem ser claros e objetivos, querem ficar praticamente invisíveis, deixando a impressão de que a história é contada por si mesma.

Seja o autor mais preocupado com a linguagem e a forma, ou aquele que pretende conquistar a empatia do leitor da maneira mais direta possível. Em ambos os casos, quando há uma preocupação com o desenvolvimento de personagens,  a intenção é de contar histórias de uma maneira mais realista. Mesmo se tratando de ficção científica, fantasia e terror.

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Para isso, vários recursos narrativos podem ser utilizados, misturando técnicas da literatura, do teatro, do cinema e da televisão. Reviravolta, gancho, macguffin, a arma de Chehkov , sumário narrativo, diálogo, monólogo interior, montagem, ponto de vista, estrutura em atos, worldbuilding dentre outros.

Porém nada é mais importante do que a criação de personagens. Todo esse conhecimento citado acima não valerá muita coisa se o leitor não acreditar nos condutores da trama, no que fazem e dizem, sejam heróis, vilões ou coadjuvantes.

Mais do que elaborar uma trama cheia de suspense com um final de tirar o fôlego, mais do que cuidar de cada detalhe de um universo de fantasia original, é preciso que haja personagens interessantes o suficiente para que aconteça a tão esperada conexão emocional do leitor com a obra. E não estou falando de lágrimas baratas. Estou falando de compromisso com as etapas da jornada de um ou muitos personagens.

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Na prática, é muito fácil perceber quando essa conexão não acontece. Se a leitura de um romance muito bem escrito está arrastada ou você está pulando partes, provavelmente, os personagens desse texto não funcionam bem, não são cativantes.

UM PERSONAGEM DEVE SER A SOMA DE COMPOSIÇÃO (CORPO E PERSONALIDADE) + MOTIVAÇÃO (OBJETIVOS).

PERSONAGENS INTERESSANTES NÃO SÃO HERÓIS OU VILÕES O TEMPO TODO; POSSUEM FALHAS E FRAQUEZAS; E DEVEM SER IMPREVISÍVEIS, EM ALGUM MOMENTO.

O LEITOR SE APEGA A PERSONAGENS COM QUE PODE SE IDENTIFICAR DE ALGUMA MANEIRA.

MOTIVAÇÕES SÓLIDAS GERAM CONFLITOS INTENSOS, AUMENTANDO O SUSPENSE E O DRAMA DA NARRATIVA.

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Um exemplo bastante famoso de conflito intenso é a relação entre Batman e o Coringa, em várias mídias. Em seus melhores momentos nos quadrinhos, esse embate se torna algo muito caro ao leitor, porque ele tem sua identificação dividida ao meio, pelos dois lados da moeda. Batman com sua personalidade controversa e a motivação de fazer justiça por conta própria, numa sociedade corrupta. E o Coringa com sua personalidade distorcida e a motivação de mostrar que sanidade, lei e ordem podem ser, com frequência, sinônimos para hipocrisia pessoal e social.

Para o autor Andrew Miller, a chave para criar personagens é ter um entendimento mais profundo do ser humano: “Ao criarmos personagens, fazemos a nós mesmos perguntas importantes e honestas sobre nossa natureza e daqueles ao nosso redor. Nossas respostas são os próprios personagens (…). Assim que terminamos, estamos logo insatisfeitos com estas respostas, e começamos de novo, confusos, frustrados e entusiasmados.”

Para criarmos bons personagens, é preciso que a gente entenda melhor quem nós somos e que o mundo em volta é muito maior do que nossa comunidade, do que estamos acostumados.

Na PARTE 2, falaremos sobre A COMPOSIÇÃO DO PERSONAGEM, as várias maneiras de como descrevê-lo.

SEX CRIMINALS, VOLUME 1

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Nem sempre quadrinhos têm a ver com super-heróis. Pelo menos, não como estamos acostumados.

Sex Criminals é mais uma prova de que a execução importa mais do que a premissa quando se trata de contar histórias. Aqui temos uma ideia bastante simples. O que você faria se pudesse parar o tempo, literalmente, toda vez que tivesse um orgasmo? No caso do casal protagonista dessa HQ, roubaria um banco para salvar uma biblioteca de ser fechada. Que ideia mais imbecil para uma história, certo? Só que tem mais, muito mais.

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A começar pelos próprios personagens. Suze e Jon são ora divertidos e malucos, ora carregam uma tristeza difícil de suportar. A grande sacada do badalado roteirista Matt Fraction foi mostrar as esquisitices e dramas de cada um de maneira menos realista e não-linear. Às vezes, derrubando a quarta parede ou embaralhando a linha do tempo dos personagens. Isso dá uma dinâmica incrível à trama. O que poderia ser uma love story indie se torna algo muito maior. É um procedural diferente de tudo que você já viu.

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A arte de Chip Zdarsky tem mesmo esse clima de quadrinhos indie, mas a trama e os personagens vão além. E as cores de Becka Kinzie reforçam essa virada fora dos padrões, principalmente, quando o tempo para, jogando tudo numa atmosfera de quase sonho, de universo paralelo.

E o mais importante: Sex Criminals trata o sexo com franqueza. Sacanagem, pornografia, fantasias e brinquedos sexuais, práticas menos convencionais, tudo aqui é motivo para uma comédia ora pastelão, ora sutil. Não há nada realmente pesado. A intenção é mostrar como sexo pode ser divertido.

Sex Criminals (Volume 1), de Matt Fraction e Chip Zdarsky, 128 págs, Image Comics

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

RANI E O SINO DA DIVISÃO

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Rani e o Sino da Divisão tem um dos textos mais deliciosos da literatura nacional, em qualquer gênero. Jim Anotsu tem enorme talento para escolher palavras, montar parágrafos e capítulos,  um ouvido apuradíssimo para empregar um ritmo quase hipnótico à narrativa, bom manejo do suspense, criatividade no worldbuilding e cuidado na pesquisa. Infelizmente, o livro não é perfeito.

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Jim Anotsu

Tive problemas para acreditar nos personagens. Tudo bem que Rani, seu amigos, parentes e adversários estão envolvidos em situações estranhas, num mundo fantástico. Mas, mesmo numa ficção delirante, o leitor quer acompanhar personagens que causem nele algum sentimento, alguma sensação, seja admiração, raiva, medo, repulsa e por aí vai. E tudo isso é consequência dos conflitos da trama, do choque entre os objetivos dos personagens, como indivíduos ou grupos.

Bons conflitos geram uma forte conexão com os personagens, seja para amá-los ou odiá-los. Portanto, em Rani…, senti a ausência de conflitos mais exigentes, que tirassem os personagens da zona de conforto. Mesmo numa trama sobre o fim do mundo.

O conflito central, o embate entre a heroína-mor, Rani, e o vilão-mor, Aiba, carece de liga, não convence. É algo parecido com a relação Harry Potter/Voldemort. Mas, no caso da obra de Rowling, o peso para Harry e também para Voldemort de buscar cada um seu objetivo é enorme. Falta esse peso nos principais conflitos em Rani…, levando o leitor a não se importar muito com o destino dos personagens. A todo instante, o drama parece que vai partir os personagens ao meio, mas acaba aliviando a tensão. Então tudo volta praticamente ao ponto de origem, sem grandes transformações.

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Para não ser injusto com a construção de personagens do livro, o melhor deles de fato é Rani, uma menina negra fora dos padrões, com seus dramas de adolescente esquisita e ironia afiada. Ela funciona melhor quando se ocupa de seus próprios pensamentos, em seu monólogo interior.

O livro vale a leitura para conhecermos um talento em ascensão, numa edição muito bem cuidada, com uma revisão competente, um projeto gráfico divertido e uma capa pop, ao mesmo tempo, bad ass e fofa.

Rani e O Sino da Divisão, de Jim Anotsu, 320 págs., Gutenberg

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

PERDIDO EM MARTE, O LIVRO E O FILME

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Depois de ler o romance do americano Andy Weir, dá para entender por que o livro fez tanto sucesso. As pessoas gostam de histórias de superação. E aqui temos a tentativa de sobrevivência mais extrema na literatura dos últimos anos.

Três elementos fizeram com que o livro funcionasse bem: o protagonista, a estrutura da narrativa e a pesquisa.

Este é um romance de ficção científica hard. A ciência não serve apenas como pano de fundo, nem sua aplicação é meia-boca. Podemos até dizer que, mais do que o astronauta Mark Watney, a ciência é o personagem principal, como um todo, pelos esforços do próprio Watney, da NASA, da tripulação da Hermes e de outros cientistas.

Andy Weir

Andy Weir

Porém, diferente de outras ficções científicas hard (excelentes, mas que podem ser bem áridas), o equilíbrio entre humor, drama e suspense de Perdido em Marte foi o que conquistou tantos leitores ao redor do mundo. Este é um romance hard feito para as massas. Não tomem isso como algo negativo. Estou apenas avaliando as intenções do autor. Ele quis escrever uma FC que tivesse maior repercussão, sem comprometer tanto a integridade científica.

Weir já afirmou que a ciência do livro é 90% possível. No restante, ele tomou algumas liberdades em função da trama. Por exemplo, a tempestade de areia do início, o que gera todo o conflito do romance. A atmosfera de Marte é rarefeita demais para criar um fenômeno tão violento.

Achei os primeiros capítulos cansativos, apenas com os diários de bordo de Watney,em primeira pessoa, relatando seu isolamento. Quase abandonei o romance. Gosto de ciência, mas o texto não era sedutor o suficiente para superar um bom livro de divulgação científica. Então vieram os capítulos envolvendo a NASA e a coisa ganhou ritmo.

Uma grande sacada do autor foi a variação da estrutura narrativa. Acompanhamos a história pelos diários de bordo de Watney, trechos em terceira pessoa, chats, e-mails e outros tipos de comunicação. Isso faz com que as informações científicas se tornem mais interessantes de acompanhar e também dá voz a outros personagens. Mesmo que não sejam muito bem desenvolvidos, cada um cumpre sua função na trama. E há bons momentos de humor, reflexão e suspense surgidos de falas, pensamentos e ações desses personagens.

Muitos criticaram o tom otimista de Watney. Um cara numa situação extrema e inédita que leva as coisas, muitas vezes, na brincadeira. O próprio autor disse que não queria escrever um livro sombrio. Há muitos perigos e incertezas no romance, mas nada que realmente abale o moral do marciano. Weir justifica esse comportamento pelo fato de Watney ser um astronauta altamente treinado e com perfil psicológico acima da média. E também porque o romance tem um senso de aventura de clássicos da FC e de programas espaciais pioneiros que o autor quis resgatar.

Perdido em Marte é uma FC prática, digamos assim. Não é transcendente nem contestadora. É uma diversão muito bem executada. Que vale a leitura.

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Já o filme, infelizmente, não me deixou muito satisfeito. É aquele velho problema de querer ser fiel à obra de origem, sacrificando a integridade do derivado. Quando o filme termina, fica claro que havia muita coisa do livro para resumir em pouco mais de duas horas. Não funciona. Ainda mais para quem leu o romance.

Foi muito bacana ver na tela momentos-chave do livro tão bem produzidos. Mas, na maioria das vezes, o filme saiu perdendo por estar tão amarrado ao material original. Tiveram que correr para fechar uma história minimamente coerente e deixaram um monte de coisas de fora. A principal delas: as soluções científicas.

No livro, as explicações são mais detalhadas. O que, em alguns trechos, pode irritar o leitor acaba se mostrando uma ferramenta narrativa muito eficaz por dar tensão aos rumos da trama, criando reviravoltas criativas. No filme, o que entrou em termos de ciência foi explicado às pressas, ou não foi explicado de forma alguma.

Outro ponto problemático: os personagens. Se no livro eles já são bidimensionais, com seus bons momentos, é verdade, no filme, o espaço para cada um é ainda mais reduzido e raso. Ficou até constrangedor ver atrizes e atores tão competentes sem muito o que fazer. A salvação é que o maior tempo de tela é de Matt Damon, como um Mark Watney bem próximo do protagonista do livro. Um cara cheio de personalidade, geek, meio rebelde e boca suja.

A produção é muito bem cuidada. Bela fotografia, direção de arte com visual aprimorado, trilha sonora eficiente, efeitos especiais e sonoros bem integrados à trama. A montagem é excelente em sequências decisivas, mas deixa a desejar em cenas envolvendo a Terra e a NASA, com desenvolvimento confuso e cortes abruptos.

Ridley Scott fez uma direção discreta. Ao contrário dos excessos de filmes anteriores, como Êxodo e Prometheus. Pena que o roteiro do ótimo Drew Goddard (O Segredo da Cabana, a série do Demolidor) teve um sucesso parcial na adaptação do livro.

O grande mérito do filme é tratar a ciência não como o vilão, mas como o mocinho, mesmo que um mocinho bastante problemático.

Perdido em Marte, de Andy Weir, 336 págs., Arqueiro

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE

Perdido em Marte, de Ridley Scott, 130 min., Fox

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE

PÉSSIMO EXEMPLO PARA NOVOS AUTORES

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Fios de prata é um tapa na cara de qualquer aspirante a escritor de entretenimento no Brasil. Pelo menos, para aqueles autores que acham que escrever bem é o começo de todo esse complicado processo de publicar um livro, de ter uma carreira.

O exemplo deste romance mostra que é mais fácil ser um sucesso praticando o oposto. Nada de texto fluido, com bom ritmo, sintaxe clara e trama bem desenvolvida (e de preferência, com alguma criatividade ou elemento novo). Nada de escrever um texto decente, que não provoque vergonha alheia. Faça apenas um texto minimamente estruturado, que consiga passar pelo crivo de uma editora profissional. Crie um universo minimamente interessante com personagens e situações cheios de fantasia. E dedique a maior parte de seu tempo se promovendo, dizendo às pessoas como você é um autor tão especial. Investir no aprimoramento do texto não é o mais importante. Os livros não são um fim, mas um meio para o autor estar em evidência.

Outra coisa é o autor que rala para escrever o melhor texto possível, e depois sai promovendo um livro em tudo quanto é lugar. Ele quer ser lido. Ele quer que, no final, falem mais do seu livro do que dele.

Fios de Prata é um romance que teria potencial para ser algo bom, uma muito bem-vinda novidade em nosso mercado editorial, mas que falha miseravelmente por sua execução pobre e por muitas ideias batidas. E o que piora sua situação é o fato de estar bastante ligado ao universo de Sandman, de Neil Gaiman, muito superior em todos os aspectos. O romance acaba ficando ainda mais nanico.

Fios de Prata, de Raphael Draccon, 352 págs., Leya

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

SEGUNDO ROMANCE

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Começaram os trabalhos para o meu segundo romance. Uma trama juvenil que mistura história policial, fantasia e ficção científica numa Salvador do futuro. Vai ser uma salada doida com muita ação, romance, aventura, drama e comédia. Os personagens serão fortes, mas também falhos, masculinos e femininos, de todas as cores e credos. Vai ter lutas de espadas, meninos de rua hackers, diferentes tipos de magos e feiticeiras e máquinas movidas por magia. Será algo mais ambicioso. E com tudo que tenho direito, inclusive uma bela edição física que estará à venda.