A MALANDRAGEM COMO SOBREVIVÊNCIA

1 alô amigo

Como mostra o livro O Imperialismo Sedutor, de Antônio Pedro Tota, durante a Segunda Guerra Mundial, houve esforços dos EUA para conquistar corações e mentes dos povos e, principalmente, dos governos da América do Sul. Em especial, do Brasil, por sua posição geográfica estratégica no continente e pelos recursos naturais importantíssimos para a indústria americana, como a borracha amazônica. Walt Disney fez sua parte, tentando aproximar norte-americanos e sul-americanos pela valorização das culturas dos países latinos mais importantes para os gringos. O média-metragem Alô, Amigos (1942) e o longa Você Já Foi à Bahia? (1944) fazem passeios por alguns destes países, mostrando costumes, paisagens, floras, faunas, comidas, danças e cantos, tudo de maneira leve, exuberante e bem humorada. Há belíssimas sequências, mesclando animação e música, no que a Disney sabe fazer de melhor. Mas nenhum dos dois filmes são marcantes. No geral, trazem histórias enfadonhas, datadas e cheias de estereótipos. Os melhores segmentos, em cada filme, são realmente os do Brasil. É inegável que a estrela de ambos é Zé Carioca, ou Joe Carioca. São segmentos que não fogem ao exotismo, mas que, no fundo, mostram o que é ser brasileiro, particularmente, carioca e baiano. Afinal, o estereótipo é uma maneira de distorcer a realidade. Nesses filmes, não se revelam a pobreza do Brasil, a repressão política de Getúlio Vargas, os interesses econômicos dos americanos. Nem a capoeira, os terreiros, as navalhas. Aqui baianas e malandros são todos brancos.

Temos então o conto Alô, Amigo! O Encontro de Zé Pelintra com Walt Disney, o primeiro da série Nordeste Alternativo, do autor baiano César Miranda. Estamos no Rio de Janeiro da década de 1920, Walt Disney está no Brasil em busca de inspiração. Ele acaba conhecendo Zé Pelintra, com seu chapéu de malandro e terno branco impecável, uma entidade das mais difundidas nas religiões afro-brasileiras, especialmente na umbanda. Zé Pelintra convida Val para conhecer o verdadeiro Rio de Janeiro, o Rio além dos pontos turísticos tradicionais. É um conto divertido, mas nenhum pouco ingênuo. Mostra a malandragem como uma questão de sobrevivência. O texto é muito maduro, no ritmo e na sintaxe, no que parece ser a estreia do autor. A pesquisa da época é inserida de maneira sutil, sempre a serviço da trama. No final da leitura, o saldo que fica é de um gosto na boca de Jorge Amado 2.0. Um gosto bom. O Jorge Amado da consciência social e da valorização da cultura popular. Jorge Amado em suas qualidades e contradições. O autor César Miranda ganhou mais um fã de seu trabalho.

Olá, amigo! O encontro de Zé Pelintra com Walt Disney (Nordeste Alternativo livro 1), de César Miranda, 36 págs., independente

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

MINHA PÁGINA NA AMAZON

autor amazon

Finalmente criei minha página na Amazon, com todos os meus livros disponíveis por lá. Meu nome é comum pra burro. Então encontrar homônimos faz parte da minha vida. Pior é que tem outros escritores chamados Ricardo Santos pela internet e na Amazon. Isso às vezes gera confusões. Já me atribuíram livros que não escrevi. Há muitos anos até pensei em criar um pseudônimo. Mas acabei desistindo. Meu ego não é assim tão grande. Para acessar minha página clique na imagem.

O NEGRO COMO NERD NO BLACK BAHIA

1 BLACk

Era para ser um evento presencial no teatro Eva Hertz, na livraria Cultura do Salvador Shopping, no dia 15 de maio, dentro das atividades do mês geek. Mas a pandemia virou o mundo de cabeça pra baixo. A ideia era criar um evento para discutir sobre negritude e nerdice, sobre o artista negro como produtor de conteúdo nerd, geek e pop. Mesmo em Salvador, uma cidade com 80% da população negra, os espaços nerds ainda são muito de classe média, ou seja, majoritariamente ocupados por público e artistas brancos. Porque é a diversidade que torna qualquer coisa mais vibrante, com troca de experiências e novas ideias. Tem melhorado? Sim. Mas melhorado quanto? As oportunidades e os incentivos são suficientes para os artistas negros, no caso? A mentalidade dos gestores de cultura e dos empresários do setor está mudando mesmo? As pessoas em geral querem consumir narrativas negras? O nerd negro está tendo acesso à produção de artistas negros? É para responder a essas e outras perguntas que vai rolar a live Black Bahia, cultura nerd, tecnologia e arte. É uma parceria com a booktuber mais retada da Bahia, Lorena Ribeiro, que vai acontecer no seu canal Passos entre Linhas , com mediação minha e dela, no dia 30/05, sábado, às 15h. O evento também é uma iniciativa da escritora Mariana Madelinn. Conheçam nossos convidados abaixo. Não percam!

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Mariana Madelinn nasceu no inverno de 1994, em Salvador. Uma bacharel em Direito que não consegue imaginar uma realidade sem que esteja escrevendo. Desde 2009 tem um blog lírico intitulado Cantar à Vida, no qual posta poesias e prosas poéticas. Além disso, já publicou dois livros de realismo fantástico na Amazon: A Trilha (2018) e As Inverdades Nunca Ditas (2019). Participou da antologia Manifesto Poético (editora Resistência, 2019) e é uma das autoras convidadas da antologia Farras Fantásticas, em valorização da literatura fantástica nordestina, pela editora Corvus.

1 marcelo

Marcelo Lima é autor de quadrinhos e de audiovisual há 10 anos. Indicado duas vezes ao prêmio HQ Mix, escreveu a série animada Auts (PlayKids/TV Cultura/TVE Bahia) e co-criou as séries Pequenos Narradores (TV Aratu) e Galera da Praia, parceria com o Projeto Tamar. Venceu o Prêmio Literário João Ubaldo Ribeiro – Prefeitura de Salvador (2017) pela adaptação para HQ do romance O Bicho que Chegou a Feira, de Muniz Sodré. Também foi roteirista das HQs Lucas da Vila de Sant’Anna da Feira (com Marcos Franco, 2010) e O Quarto ao Lado (2016). É pesquisador de animação, transmídia e ficção seriada na UFBA.

1 bells

Bells Barbosa é black feminista e caprica obcecada. Nerd, fanfiqueira, otaku e shipper. Problematizadora na vida, colunista e podcaster no site Maratona de Sofá.

2 shon

Anderson Shon é escritor, professor, poeta, nerd e super-herói nas horas vagas. Autor dos livros Um Poeta Crônico (2013) e Outro Poeta Crônico (2019), ele não se contenta com a ideia da escrita única e passeia pelos mais diversos tipos de literatura possíveis. Tem o site andersonshon.com, no qual fala sobre representatividade e nerdice na coluna Black Nerd. Transforma músicas em contos na coluna Cantando o Conto. Expõe seus pensamentos peculiares na coluna PenSHONmentos. E traduz sua criatividade através de seus Contos Crônicos. O mais conhecido deles, O Dia do Yuri, até já ganhou uma versão audiovisual pela produtora Cloud Filmes. Escreveu para a Correio Nagô, Jovem Nerd, Iradex entre outros. É um dos colaboradores voluntários do Jornal A Voz da Favela. Sua nova empreitada passeia pelo universo do podcast, sendo idealizador, produtor e editor do O Que Você Está Lendo?, sobre livros e leitura.

2 zeze

Zezé Ifatolá Olukemi é grafiteiro, design gráfico, game designer , escritor, poeta e promotor de anti-racismo e direitos humanos formado pelo Instituto Steve Biko. É praticante do culto Iṣẹṣe Lágbà (religião tradicional yorubá) e pesquisador da cultura tradicional yorubá. Foi conselheiro de cultura do município de Salvador e co-fundador da ITAN Game Development. Atualmente é graduando em tecnologia em jogos digitais pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Ele mantem o site zezeolukemi.

AS FARRAS FANTÁSTICAS CONTINUAM

farras

É galera, a pandemia do novo coronavírus abalou o mundo, nossas vidas e nossos projetos. Tem gente passando por momentos difíceis, com medo, mortes de familiares e conhecidos pela COVID-19 e até sem grana pra comer. Nesse momento, precisamos nos proteger, mas também procurar ajudar o próximo. Sei que nem todos estão com ânimo para ler e escrever. A saúde mental de muita gente está frágil. Mas sei também que muitos estão procurando a leitura e a escrita como instrumentos de fuga ou de reflexão do que estamos vivendo. Nossa antologia Farras Fantásticas continua, firme e forme, em casa. Nosso cronograma foi reformulado. Por enquanto, nossa única certeza é que o prazo de submissão dos contos foi prorrogado para 15/06. Ainda faremos nossa campanha no Catarse e entregaremos aos leitores uma edição em e-book bacana e uma edição em papel belíssima. O Farras é um projeto que valoriza o fantástico nordestino e nacional. Leia nosso edital, clicando na imagem, e mande seu conto.

O HOMEM INVISÍVEL – TERROR DA VIDA REAL

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O que os homens podem aprender com o filme O homem invisível? Porque o problema do machismo, da masculinidade tóxica e da relação abusiva é nosso, dos homens. Sem a gente na jogada, as mulheres deixariam de sofrer a ameaça física e psicológica de namorados, maridos, chefes, colegas de escola, de trabalho ou de qualquer cara que passasse na rua, tendo seus comportamentos nocivos normalizados por um sistema social que inferioriza as mulheres. Pior, que as culpa por serem independentes, por se vestirem do que jeito que bem entender, por escolherem seus parceiros e parceiras, chegando ao ponto de criminalizar e tirar delas as decisões sobre o próprio corpo. Uma mulher sai de casa pela manhã para estudar, trabalhar ou ir na esquina comprar pão e não sabe se retornará sem sofrer um assédio moral, sexual, uma violência física ou com a vida intacta.

A grande sacada da nova versão de O homem invisível foi fazer um suspense de primeira, um entretenimento muito competente, que, ao mesmo tempo, nos faz refletir sobre um tema tão atual.

O filme preserva alguns elementos do romance clássico de H.G. Wells, publicado em 1897, como a arrogância do cientista e suas pesquisas no campo da óptica. Assim como a ideia do terror social provocado pela condição do homem invisível. De resto, a trama do filme é uma criação do diretor e roteirista Leigh Whannell.

A situação do relacionamento abusivo é muito bem trabalhada, na medida em que o tema se insere nos desdobramentos da história de forma orgânica, casando acertadamente a maneira de contar a história e o que ela pretende discutir, seja pela fala dos personagens, seja pelas cenas de tensão e violência.

O homem invisível conta com a produção da Blumhouse (que também produziu o filme Corra! que fala de racismo de uma maneira inovadora) e com o talento da atriz Elisabeth Moss (a protagonista da série The handmaid´s tale), que carrega o filme nas costas, mostrando toda a fragilidade de uma mulher traumatizada pela violência doméstica, mas também revelando força e determinação quando necessário.

Destaque também para a montagem precisa, a fotografia que provoca aflição com tomadas abertas e espaços vazios, a direção de arte frequentemente sugestionando a presença do homem invisível, o design de som que mexe com as tensões do espectador e a trilha sonora ora sutil, ora potente, empregada nos momentos certos. Há problemas? Claro, furos de roteiro, falta de desenvolvimento de personagens, atuações medianas e, principalmente, o clímax convencional, em que o eficiente suspense dá lugar a um tipo de ação, de correria, já vista em outras produções.

O fascinante em O homem invisível é utilizarem os recursos do terror psicológico para criar uma alegoria tão contundente, tão incômoda. O homem invisível transforma a vida da mulher que ele ama num inferno, no que atualmente chamamos de gaslighting, que é uma maneira do abusador manipular a percepção da realidade da vítima ao ponto dela duvidar da própria sanidade, levando outras pessoas a fazer o mesmo.

O terror do filme é de dar nos nervos por ser tão real.

O homem invisível (The invisible man, 2020), de Leigh Whannell, 124 min., Blumhouse, Universal e outros

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

CHEGOU A ANTOLOGIA FARRAS FANTÁSTICAS!

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Desde o dia 15 de janeiro está aberto o edital da antologia Farras Fantásticas, organizada por mim Ricardo Santos, Ian Fraser, João Mendes e Pedro Duarte. Juntamos nossa vontade e nossas experiências para publicar um puta livro, em parceria com a editora Corvus, para valorizar os autores do fantástico do Nordeste. Ainda não revelamos nosso time de autores convidados, mas está sensacional. É uma galera que traz muito talento e representatividade pro Farras. Porque o Nordeste também é diversidade. Quer fazer parte desse projeto lindo, 100% nordestino e 100% brasileiro? Clique na imagem para saber mais.

CONCURSO DE RESENHAS ESTRANHA BAHIA

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Você quer ganhar um monte de livros? Então é muito fácil. Em parceira com o canal Passos Entre Linhas, estamos promovendo um concurso de resenhas. Para concorrer, você deve ter lido ou correr para ler a coletânea Estranha Bahia. Depois você vai lá na Amazon e faz uma resenha do livro. As resenhas postadas entre os dias 08 de dezembro e 15 de janeiro estarão concorrendo a três kits de livros. No dia 20 de janeiro, Lorena Ribeiro do canal Passos Entre Linhas vai anunciar quais foram, na avaliação dela, as três melhores resenhas. Para conhecer os livros dos kits, é só clicar na imagem. A versão física da Estranha Bahia está à venda na livraria LDM.

OS 6 MELHORES LIVROS QUE LI EM 2019

livros 2019

6 – A telepatia são os outros, de Ana Rüsche: Irene, uma fisioterapeuta brasileira de meia-idade, vai para o Chile de férias e acaba no meio de uma trama tensa e intensa, envolvendo a indústria farmacêutica, um misterioso grupo de pesquisadores e um chá que possibilita a conexão de mentes. Essa novela traz algo novo para a ficção científica nacional e é uma ótima porta de entrada para conhecer o gênero. Em suas poucas páginas, há um mar de informações, mas nada é jogado aleatoriamente. Há rigor na pesquisa da autora. E leveza em sua imaginação, ao criar personagens e situações que se vinculam com a obra de uma Ursula K. Le Guin, por exemplo, outra autora de ideias questionadoras do estado das coisas, imbuída de uma criatividade “ecológica”, digamos assim, de busca do melhor entendimento entre ser humano e natureza. Ana Rüsche também é poeta, o que fica evidente em algumas passagens, elevando a beleza e os significados de sua prosa.

5 – The Pisces, de Melissa Broder: Certa noite, sozinha na praia, Lucy, uma acadêmica de quase quarenta anos, conhece Theo, um nadador deslumbrante de vinte e poucos. Para espanto e admiração dela, ele acaba se revelando um sereio. O que faz desse romance uma leitura envolvente é a voz narrativa. Lucy conta sua história em primeira pessoa, revelando com muita honestidade e ironia seu caos emocional. Fala-se de amor, sexo, carreira, maternidade, expectativa social e outros temas caros às mulheres, sob a perspectiva de alguém que questiona tudo e todos. The Pisces fala sobre uma mulher no limite justamente por não saber direito seu lugar no mundo.

4 – Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior: Itamar é o mais importante autor baiano da atualidade. Vencedor da última edição do Prêmio Leya, seu romance teve extensa cobertura da mídia portuguesa. Lançado no Brasil pela editora Todavia, a carreira de sucesso do livro continuou. Com certeza, em 2020, será um forte concorrente aos principais prêmios literários do país. Itamar segue a tradição dos grandes autores baianos em aliar inquietação política e filosófica com apuro literário. Em Torto Arado, o foco é a gente sofrida, os desassistidos, as minorias, os invisíveis sociais. Mas o autor descarta naturalismos fáceis. Numa prosa fluente e ritmada, cheia de uma poesia dura e contundente, acompanhamos a histórias de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, mulheres negras, da zona rural. O triunfo literário do romance é construção da visão de mundo das protagonistas. Apesar das enormes dificuldades da vida, das explorações e humilhações, ambas são pessoas de “carne e osso”, conscientes de suas limitações e possibilidades. Essa atmosfera lembra muito o cinema e a literatura italiana dos anos 1960 e 1970, que representava a tomada de consciência política do proletariado. Em Torto Arado, vemos uma perspectiva “de dentro”, o protagonismo do povo negro rural, sem intermediários, digamos assim. Fruto de primorosa pesquisa, e mais do que isso, fruto da sensibilidade do autor, que faz um resgate de parte das origens do Brasil, ligando passado e presente.

3 – A Parábola do Semeador, de Octavia E. Butler: Acompanhamos os Estados Unidos no futuro, após uma crise ambiental e econômica, em que comunidades com melhores recursos se fecham por trás de muros. Há uma tentativa de levar uma vida normal num mundo em convulsão, com escolas, empregos e relações sociais e familiares, mas a tensão é constante. Por meio do olhar afiado da jovem Lauren Olamina, acompanhamos pessoas tendo de fazer escolhas difíceis, passando por dilemas para manter sua humanidade. A própria Lauren sofre bastante com os acontecimentos. Ela tem um poder de hipersensibilidade, que a faz absorver a dor física alheia. Em meio a tanta violência, incerteza e desesperança, Lauren resolve criar uma nova religião, que promove a comunhão entre o ser humano e a natureza. A tradução preserva o ritmo e a força do texto original.

2 – Use of Weapons, de Iain M. Banks: A série de ficção científica The Culture é composta por livros independentes (com alguns pontos de ligação) dentro de um mesmo universo. The Culture é uma sociedade no futuro, numa galáxia distante, em que humanos aprimorados e inteligências artificiais convivem numa espécie de sociedade utópica. Mas isso não quer dizer que não existam relações complexas, disputas entre pessoas e máquinas. Em Use of Weapons, considerado o terceiro livro da série, acompanhamos uma trama de espionagem política. O romance é conhecido por sua estrutura narrativa de cair o queixo, com duas linhas temporais, uma que avança no tempo e outra que recua até a infância do protagonista. E pela chocante revelação final. Melhor dizendo, pelas duas revelações finais. E uma delas tem a ver com uma cadeira. Use of Weapons é uma meditação brutal, cheia de uma poesia melancólica e uma ironia afiada, sobre a vontade de subjugar, seja no âmbito pessoal ou coletivo.

1 – As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez: A autora argentina apresenta ao leitor brasileiro um dos livros de ficção mais impactantes da última década. Os seus contos investem no terror de forma visceral. É assustador porque os horrores do cotidiano da classe média e da periferia de Buenos Aires e da história recente da Argentina são transformados numa literatura claustrofóbica, ampliando significados e efeitos do comportamento humano e de mazelas sociais e políticas. Aqui o foco são meninas e mulheres. As protagonistas estão à vontade na posição de gente branca com algum dinheiro, mesmo que meio decadente. Mas Enriquez nunca é leviana. Aliás, é por meio de sua consciência de classe e de gênero que ela aperta os botões certos para nos apavorar. Estas protagonistas geralmente se colocam em situações perturbadoras, testemunhas do que há de pior na sociedade. Em ritmo de suspense, cada conto nos envolve e desestabiliza, à medida que avançamos em atmosferas pesadas, em lugares sujos, sombrios e abandonados, habitados por personagens trágicos. A bela edição da editora Intrínseca, com tradução e revisão impecáveis, não nos distrai, não nos deixa sair desse mundo. Leitura para estômagos fortes.

 

OS 6 MELHORES FILMES QUE VI EM 2019

 

filmes 2019

6 – Nós (2019), de Jordan Peele: Jordan Peele conseguiu de novo. Entregou ao espectador mais um filme de impacto, tanto do ponto de vista estético quanto reflexivo. Corra! é mais coeso, mas mesmo assim Nós mostra uma evolução de Peele como cineasta. O primeiro terço do filme tem um ritmo impressionante. Praticamente nada acontece, mas o que vemos tem uma fotografia tão elaborada, uma montagem tão cadenciada e diálogos e atuações tão marcantes, que não importa. Acompanhamos o cotidiano da família protagonista com um sorriso besta na cara, sem desejar que nada se apresse. A influência de Hitchcock é evidente, o diretor que construía seus suspenses sofisticados para o público médio como um reflexo apavorante desse mesmo público. E quando a violência começa, nos deparamos com um dos filmes de terror mais criativos e perturbadores dos últimos tempos. Uma mistura de homenagem e subversão ao cinema de horror dos anos 70 e 80. Nós é algo inédito no cinema em geral, por trazer uma nova perspectiva, uma nova voz para Hollywood, confirmando o talento de Jordan Peele como um mestre do terror.

5 – Homem-Aranha no Aranhaverso (2018), de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman:  Saí chocado do cinema depois de ver esse filme. Achei isso no calor do momento e reafirmo quase um ano depois: é o melhor filme de super-herói de todos os tempos. A técnica de animação é incrível, praticamente uma HQ em movimento. O arco de Miles Morales é vibrante e emocionante. Peter B. Parker é uma maravilhosa desconstrução do Homem-Aranha. E ainda de quebra tivemos um dos grandes super-vilões da telona: Prowler. Que tema musical é aquele! E a cena pós-crédito é hilária, abrindo possibilidade para uma baita continuação. Oscar merecidíssimo.

4 – Suspiria (2018), de Luca Guadagnino: Nem sempre um remake é uma perda de tempo, um crime contra a obra original. Suspiria, de 1977, é um clássico do terror italiano, do giallo, o filme mais celebrado do mestre Dario Argento. Em 2018, o também italiano Luca Guadagnino, diretor do aclamado “Me chame pelo seu nome”, lançou uma nova versão de Suspiria. No final das contas, Guadagnino se saiu muito bem da enrascada em que se meteu. Justamente por ter sido infiel à obra original. A premissa é a mesma. Uma estudante de balé americana vai para uma prestigiada academia na Alemanha Ocidental dos anos 1970 e coisas bizarras começam a acontecer. Mas Guadagnino opta por fazer um filme feminista e político (uma espécie de resposta contemporânea ao giallo, um subgênero bastante machista), com um gore mais “realista” e visceral. Mostra uma crueldade feminina implacável. Porque, mesmo no grotesco, há sabedoria, beleza e libertação.

3 – Em Chamas (2018), de Lee Chang-dong : É um suspense perturbador justamente porque nos colocar para pensar, para preencher as lacunas deixadas pelo caminho. É um filme lento, mas com uma tensão crescente, que nos desestabiliza ao acrescentar mais e mais mistérios ao invés de solucioná-los. Nas entrelinhas, Em Chamas diz muito sobre o estado das coisas do capitalismo. De um lado, há as incertezas do jovem pobre e sem emprego, alguém praticamente descartável. Do outro, a total falta de empatia das classes mais abastadas. A produção é primorosa em sua simplicidade. A montagem é precisa, a fotografia eleva o cotidiano, e os personagens falam o estritamente necessário.

2 – Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles: Bacurau é um filmaço. Irregular, mas feito com muito tesão. Cheio de consciência estética e política. Os diretores reconhecem e enaltecem a influência do cinema de gênero (terror, western, thriller, ficção científica). Citam mestres como John Carpenter, George Romero, Sergio Leoni, Sergio Corbucci e Sam Peckinpah. Mendonça e Dornelles bebem de todas essas fontes para apresentar um filme vibrante em seus melhores momentos. É divertido, tenso, movimentado e reflexivo. A verdadeira protagonista é a cidade de Bacurau, com seu povo, sua história, seu senso de comunidade, escassa de recursos (onde falta água, mas há internet), politicamente madura, em prol da diversidade. Uma utopia possível encravada no sertão pernambucano, ameaçada por um poder vil que recusa a dizer seu nome.

1 – Parasita (2019), de Bong Joon-ho:  Os filmes de Bong Joon-ho são obras de arte, de reflexão numa roupagem de entretenimento. Ele quebra as barreiras do cinema de autor e do cinema comercial. Para ele, se divertir e pensar são dois lados da mesma moeda. Parasita é seu filme mais maduro por ser o mais paciente em nos envolver em suas ideias. A tensão é pontual. Mas quando surge nos desarma por completo. Na verdade, a grande sacada de Parasita é a quebra de nossas expectativas. Há vários filmes em um só. Comédia, suspense, drama, terror. O diretor alterna a condução da trama entre esses gêneros com extrema habilidade e nunca de forma gratuita. Temos aqui mais um exemplo de filme sul-coreano que faz uma crítica devastadora da desumanização do capitalismo.