LEIA O 1º CAPÍTULO DA NOVELETA “CAOS TRANQUILO”

cyberpunk-livro

Participo da coletânea Cyberpunk com a noveleta Caos Tranquilo. Uma história que mistura perseguição em carros velozes pelas ruas de Salvador e momentos introspectivos da protagonista, uma ex-militar, com seus dilemas morais. É uma trama ágil, mas que também faz pensar sobre o estado das coisas. Para saber mais, clique na imagem.

1

Zima queria tirar logo as informações de sua cabeça e incendiar a Rede.

O bunker de MC costumava ficar pouco iluminado. O foco de luz voltado para a mesa larga de escritório. Os três monitores pareciam pequenas TVs quadradas, um do lado do outro. O teclado era todo remendado com adesivos coloridos. A mesa estava cheia de papéis, livros técnicos, manuais, canetas, disquetes e embalagens de comida.

MC estava sentado numa cadeira giratória sebenta. Fazia frio, o ar-condicionado ruidoso operava bem. Mas ele não estava nem aí. Devidamente agasalhado e ouvindo heavy metal nas alturas em seu walkman.

A maior parte do cômodo estava vazia, na escuridão. MC só ocupava metade do espaço, como se fosse obrigado a respeitar algum tipo de fronteira. Os equipamentos ficavam bem próximos à parede do fundo. Em outro cômodo, havia várias CPUs espalhadas pelo chão. Cabos atravessavam a parede, por buracos mínimos, para chegar aos monitores. Do outro lado, fazia ainda mais frio. Zima já tinha ido até lá uma vez. O bunker era alimentado por um gato na rede elétrica. Um gerador ficava junto das CPUs, em caso de emergência.

Zima estava de pé, mais recuada, na penumbra, observando MC trabalhar. Qualquer um que o visse na rua nunca ia imaginar que aquele sujeito, com cara de garçom de churrascaria, era uma porra de gênio. Quando estava ali, ela nunca se cansava de pensar nisso, de rir disso.

MC pendurou os fones fininhos no pescoço, a música tocando. Afastou-se da mesa e girou a cadeira para encará-la.

“Pronta?”

“Sim.”

MC balançou a cabeça e apertou os lábios.

“Ok.”

Então se levantou. O walkman estava num bolso dianteiro do agasalho.

Ele foi até o frigobar e pegou uma garrafinha de Crush de laranja.

Virou-se para Zima.

“Aceita?”

“Vamos logo com isso, cara.”

Ele sorriu.

“Calma, Zi. A gente vai fazer História. Preciso tomar alguma coisa refrescante primeiro.”

“Nada de pílulas. Você não vai viajar hoje.”

“Sem problema.”

MC pegou um abridor de garrafa em cima do frigobar. A tampinha caiu no chão. Ele deu goladas generosas.

Depois voltou para sua cadeira e colocou a garrafinha pela metade na mesa.

“Vai deitar no chão mesmo?”

“Como sempre.”

“Desta vez, vai doer mais.”

“Não importa.”

MC torceu o rosto.

“Você é quem manda.”

Ele girou a cadeira e começou a teclar.

Zima tirou uma Glock, escondida sob a blusa, da frente da calça. Agachou-se. Colocou a arma no chão e se deitou. Usava uma blusa sem mangas. A pele negra dos braços e das mãos sentiu o frio do piso de concreto.

Ela poderia muito bem sentar em outra cadeira giratória que tinha ali no canto. Mas preferia o piso duro e desconfortável.

Enquanto MC fazia os últimos preparativos para a conexão, ela levou a mão ao seu chip de acesso, atrás da orelha. Seu cabelo sempre estava muito curto. O chip ficava visível o tempo todo. Certas pessoas achavam aquilo prático. Outras ficavam incomodadas.

“Let´s go”, MC disse.

Zima olhava para o teto.

Ela ouviu a cadeira girar, MC se levantar e pegar suas coisas. Estava acostumada. Nas mãos dele, com certeza, havia o cabo conector e a caixinha do mordedor de boxe com um Z escrito na tampa.

“Esse treco está limpo, certo?”

“Dei uma lavadinha.”

Ele riu, aproximando-se.

Ela não falou mais nada.

Então veio uma explosão.

Tudo ficou numa escuridão total. Os aparelhos pararam de funcionar.

Poeira e fumaça contaminaram o ambiente.

Zima ouviu um grito de MC.

Mesmo atordoada, ela se sentou no chão, ligeira. Procurou a Glock ao lado e apontou para frente.

Seu olho biônico foi automaticamente acionado.

O olho bom começou a lacrimejar.

Ela prendeu a respiração.

Tinham derrubado a porta. Ela ouvira o som de metal batendo no concreto.

Entraram. Passos apressados de botas.

Três leituras térmicas em preto e branco. Os invasores carregavam fuzis à altura do rosto, provavelmente, M4.

Zima não perdeu tempo. Deu três tiros. Todos na cabeça.

Gritos de dor. Corpos brancos no chão. Nenhum tiro disparado pelo inimigo.

Ela soltou o ar. Tossiu. Passou a mão no olho lacrimejante.

Ainda apontando a Glock, virou a cabeça para trás.

Captou a leitura do corpo branco de MC, deitado no chão. Além de manchas brancas ao redor, fontes de energia dos aparelhos ainda quentes.

Ele estava vivo, mas quase não se mexia. Ela não tinha como saber seu estado. Ele se mantinha em silêncio.

Ela voltou a encarar o que estava adiante.

Da parte dos invasores, nenhum movimento, nenhum gemido.

Ninguém mais surgiu na porta.

Zima foi precisa nos disparos, mas também teve sorte. A posição dos invasores ao entrar era desfavorável. A porta se encontrava do mesmo lado onde ela estava deitada. Executaram uma manobra maior, perdendo segundos na abordagem. Segundos preciosos.

Eles sabiam que ela tinha reativado seu olho biônico?

Pela eficiência dos tiros, ela imaginou que os invasores estavam sem qualquer proteção ou aparelho na cabeça. O ataque no escuro aumentou as suspeitas de que também tivessem olhos biônicos.

“Merda.”

Começava a fazer calor ali dentro. Mas para o ar-condicionado funcionar de novo, o gerador precisava ser ligado manualmente.

Até que ponto os desgraçados conheciam os detalhes do bunker?

A ansiedade deu lugar à fúria.

Zima procurava entender qual tinha sido seu erro, qual foi a besteira que fizera para conseguirem achá-la antes do previsto.

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A NOVA EDIÇÃO DA ESTRANHA BAHIA

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A nova edição da Estranha Bahia está mais gostosa de pegar e de ler. O formato 14cm x 21cm, mais compacto e robusto, com capa cartão e papel de maior gramatura, deixa o livro mais resistente e mais prático para o leitor levar aonde quiser. E agora Estranha Bahia vem com shrink, a embalagem plástica protegendo o livro. Lançamento em agosto. Serão disponibilizados a versão em e-book, na Amazon, e o livro físico, em loja virtual, com entrega para todo o Brasil.

ESTRANHA BAHIA FOI PARA A GRÁFICA

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Estranha Bahia finalmente foi para a gráfica!!! Na verdade, serão impressos 20 exemplares iniciais, que servirão como ARCs (Advanced Reader Copies) de luxo para distribuição entre blogueiros e booktubers. Já notei algumas pequenas correções a fazer. Os contos foram revistos pelos autores e houve nova revisão. Essa 2ª edição terá 196 páginas, no formato 14cm x 21cm. Em breve, Estranha Bahia estará disponível em e-book na Amazon e o livro físico poderá ser adquirido em loja virtual, com entrega para todo o Brasil.

UHURA (POEMA FANTÁSTICO 4)

uhura

Uhura

Olorum encarregou Oxalá
de fazer o mundo

um espetáculo tão estranho
que qualquer um
que olhasse, pensaria

sequenciadores
samplers
sintetizadores

componentes de um código
uma tecnologia secreta
para modelar o ser humano

incorporar
o não narrado
os buracos

orixá tentou fazer o homem
de ar
como ele

um fragmento narrativo,
o homem logo de desvaneceu

a empreitada de criar
uma distorção significativa do presente

a maior empresa de tecnologia
do mundo
que controla boa parte
de nosso tráfego na web
absorve empresas de robótica
e inteligência artificial
especula-se
por que

o orixá tentou
vários caminhos
fez de fogo
o homem se consumiu

tentou azeite
água
até vinho de palma

uma nova geração
de sistemas autônomos
o marketing indireto
de produzir realidades
informações circulam
como uma commodity

foi então
que Nanã Burucu veio
apontou com seu ibiri centro e arma –
Para o fundo lago onde morava
e de lá retirou
todos os restos, os pedaços
que não foram apagados
uma memória coletiva
e individual
que nunca irá compor
um discurso

Oxalá modelou o homem do barro,
e com o sopro de Olorum,
ele caminhou

descendente direto
de alienígenas sequestrados
levado de uma cultura para outra
nessa nova sociedade híbrida

enquanto isso, no Japão
as pessoas já fazem
rituais funerários budistas
para seu cães-robôs
que podem fazer qualquer coisa
de trabalhar em depósitos
a cuidar de idosas
o mundo caminha à passos largos

mas chega o dia
que seu corpo precisa voltar

Nanã Burucu
espera os descendentes
despossuídos
abduzidos para o novo mundo

ela deu a matéria no começo
mas quer de volta
no fim
tudo o que é seu
a lama, frágeis arquivos
a chave
para o futuro na diáspora

(Stephanie Borges)

TRILOGIA BINTI: UMA JORNADA NOTÁVEL

binti

A autora estadunidense, de ascendência nigeriana, Nnedi Okorafor disse, certa vez, que, como não havia ficção para ela ler sobre a África no futuro, ela resolveu escrever suas próprias histórias. A trilogia Binti é um excelente exemplo desse projeto.

Na primeira novela, somos apresentados a Binti, uma garota muito curiosa, matemática brilhante e filha de um fabricante de astrolábios. Ela faz parte do povo Himba, na Terra. Um povo que dá valor ao conhecimento, mas muito fechado em si, bastante apegado às tradições. Quando Binti decide viajar para outro planeta, onde se encontra a universidade mais prestigiosa da galáxia, gera-se uma crise familiar. Os poucos Himba que deixam sua comunidade se tornam párias.

Na nave que a leva, Binti é a única pessoa do povo Himba a bordo, com otjize espalhada pelo rosto e tranças, uma espécie de argila vermelho-alaranjada, símbolo fundamental em sua cultura.

Binti se sente novamente dividida com o acolhimento de um grupo de estudantes, futuros colegas de universidade (depois de um estranhamento inicial) e a curiosidade espantada e racista de tripulantes e passageiros, gente Koush, um povo humano dominante. Então acontece uma reviravolta sanguinolenta. A viagem espacial se torna cenário de uma eletrizante história de terror, com a chegada do povo alien Meduse, inimigos mortais dos Koush.

Binti é uma adolescente muito decidida, mas também frágil na incerteza do que o futuro lhe reserva longe de casa, na universidade, e em seu contato com o povo Meduse. Contato esse que fica mais complexo e tenso à medida que o tempo vai passando na nave, e que vai transformar a vida de Binti para sempre.

Em Binti: Home, segunda novela da trilogia, ela já frequenta a universidade de Umza Ooni. Depois do trauma vivenciado no livro anterior, Binti volta para Terra, a fim de se explicar à sua família por ter fugido. Esse retorno não é fácil. Binti não é mais a mesma pessoa, algo que tanto seus familiares como a própria Binti têm dificuldade em entender.

A expansão desse universo é o maior mérito do segundo volume. Conhecemos mais o povo Himba e a família de Binti, com seus afetos e conflitos. Agora Binti enfrentará mais uma etapa decisiva em seu caminho de autodescoberta, após revelações sobre seus ancestrais e poderes que ela desconhecia. Ao mesmo tempo, há um grande perigo no ar. A rivalidade entre os Meduse e os Koush chega à Terra, ao povo Himba e coloca a vida de Binti em risco.

Na terceira novela, The Night Masquerade, temos uma conclusão épica à jornada de Binti, colocando-a no epicentro de uma guerra iminente entre Meduse e Koush, após anos de trégua. Binti precisa buscar a paz a fim de preservar sua cultura e a vida de seu povo. Além de tentar entender as habilidades que carrega consigo.

A primeira novela é tão empolgante que você consegue terminá-la de um só fôlego. O texto de Okorafor é simples, fluido, muito gostoso de ler. É uma prosa cheia de sabedoria, calorosa, mas que não deixa de lado o aspecto sombrio da natureza humana… e de alienígenas. Isso continua em Binti: Home, mas aqui algo fica faltando, um maior investimento na trama. Não acontece muita coisa, mesmo com um elenco de personagens fascinantes.

Contudo, em The Night Masquerade, Okorafor consegue aproveitar muito bem o fato de escrever a novela mais extensa para, finalmente, entregar ao leitor o cenário completo de toda a saga. É no terceiro livro que temos os melhores momentos de Binti, tanto na interação com os demais personagens, como em suas reflexões sobre seu lugar no mundo (e no universo) e outros temas caros, como os papéis da mulher, sede de conhecimento, estado de guerra, tradição, modernidade e negritude. Himba, Meduse e Koush não são retratados como mocinhos e vilões, mas como gente e seres complexos numa situação-limite, que precisam fazer escolhas difíceis, vencer barreiras e preconceitos. O desfecho é positivo, mas longe de ser ingênuo.

Com a trilogia Binti, Nnedi Okorafor subverte as convenções da ficção científica para tornar o gênero mais vibrante. Ela continua os passos de Octavia Butler e apresenta uma obra de afrofuturismo notável. A primeira novela ganhou o Nebula e o Hugo.

 

Binti, 98 págs, Tor. AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

Binti: Home, 168 págs., Tor. AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

Binti: The Night Masquerade, 202 págs., Tor. AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

QUEM TEM MEDO DO FEMINISMO NEGRO?

feminismo

Djamila Ribeiro é um dos nomes mais importantes do pensamento social contemporâneo brasileiro, justamente por fazer, com tanta propriedade, a ponte entre a teoria acadêmica e a população em geral.

Por meio de seus artigos e livros, e como editora e palestrante, ela torna acessível uma pauta urgente: a condição da mulher negra no Brasil. Djamila mostra que a mulher negra, tão massacrada historicamente, sofre em dobro por ser mulher e negra, tendo que enfrentar o racismo, o machismo, o fogo amigo do feminismo da mulher branca, a invisibilidade e outros estereótipos desde a infância.

Este Quem tem medo do feminismo negro? é ótimo, principalmente, para quem ainda não parou para refletir sobre o tema. Para quem já tem outras leituras a respeito, serve como síntese de muitas fontes espalhadas por aí. Além de trazer uma rica bibliografia para que o processo de reflexão continue, mais aprofundado. É um aprendizado realmente.

Quem tem medo do feminismo negro?, de Djamila Ribeiro, 120 págs., Cia das Letras.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

CONTOS SOMBRIOS

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A tradutora, ilustradora e escritora Camila Fernandes é um dos talentos mais sólidos da literatura fantástica nacional, mas infelizmente pouco se fala sobre sua obra, focada em contos.

A autora consegue misturar com muita competência tradição e contemporaneidade. Suas histórias remetem a contos de fadas, seres mitológicos, lendas e medos antigos. O que torna sua prosa cativante é a ligação do passado com o mundo atual, pós-moderno, feminista.

Outro elemento de fascínio é a franqueza da autora. Sua crueldade, que nunca é gratuita. Tem uma razão de ser. É a condição humana olhando para o fundo do poço. Ou olhando para um lugar desconhecido, além de sua compreensão.

Vale destacar também a prosa fluente e cadenciada, que consegue desenvolver personagens e desfechos com destreza, gerando espanto, principalmente nas histórias mais longas.

Contos Sombrios é um livro que precisa ser mais apreciado. O e-book está disponível na Amazon.

Contos Sombrios, de Camila Fernandes, 105 págs., Dandelion.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

A ARTE DA GUERRA

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O romance Use of Weapons é conhecido por sua estrutura peculiar e pela chocante revelação final. Melhor dizendo, pelas duas revelações finais. E uma delas tem a ver com uma cadeira.

Entre os fãs da série The Culture, escrita pelo escocês Iain M. Banks, a avaliação do livro divide opiniões. Tem quem o considere um dos melhores romances de ficção científica já escritos. Outros o admiram, mas com ressalvas. Eu fico com estes últimos. Um livro de Banks sempre é garantia de uma leitura, no mínimo, intrigante, com momentos de reflexões contundentes sobre a condição humana e pérolas de uma ironia refinada e perversa.

A série The Culture, na verdade, são livros independentes (com alguns pontos de ligação) dentro de um mesmo universo. The Culture é uma sociedade no futuro, numa galáxia distante, em que humanos aprimorados e inteligências artificiais convivem em harmonia. Eles vivem numa espécie de sociedade utópica. Não há mazelas sociais nem preconceitos. Há apenas prosperidade e aceitação. Mas isso não quer dizer que não existam relações complexas, disputas entre pessoas e máquinas.

Em Use of Weapons, considerado o terceiro livro da série, acompanhamos uma trama de espionagem política. Zakalwe é um ex-agente da Special Circunstances, mistura de serviço de inteligência e forças especiais de The Culture. Ele é tirado de sua aposentadoria confortável e convocado para uma nova missão: convencer um político exilado a interceder pela paz entre duas sociedades galácticas à beira da guerra. Zakalwe aceita o trabalho. Só que as coisas nunca são fáceis quando The Culture resolve se meter nos conflitos alheios. Suas intenções são nobres, mas nem sempre claras.

O livro é divido em duas linhas narrativas. Acompanhamos o presente, a partir do momento em que Zakalwe é convocado para a missão até o seu final. E paralelamente, temos trechos do passado de Zakalwe, apresentados de forma reversa, de anos antes de sua aposentadoria até a infância. Assim, a cada nova ação dele no presente, entendemos melhor suas motivações pelo o que é revelado de sua vida pregressa. É um recurso engenhoso. Bem sucedido, em parte. Quando funciona, mostra a maturidade de Banks como escritor, em termos de ritmo, construção de cenas e desenvolvimento de ideias. Quando a coisa não funciona, fica como algo gratuito, artificial, excessivo, a técnica pela técnica.

Zakalwe é um personagem fascinante pelo o que ele representa na narrativa. Por meio desse protagonista, Banks mostra que qualquer coisa pode se tornar uma arma. Até mesmo os sentimentos. Zakalwe é uma figura trágica, cabendo ao leitor sentir admiração, raiva ou pena.

Use of Weapons é uma meditação brutal, cheia de uma poesia melancólica e uma ironia afiada, sobre a vontade de subjugar, seja no âmbito pessoal ou coletivo.

3.5/5

Use of Weapons, de Iain M. Banks, 516 págs., Orbit.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

DECEPÇÃO CYBERPUNK

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Saga cyberpunk em 10 volumes, Blame! começa muito promissora, mas termina melancolicamente como uma baita decepção.

Os primeiros cinco volumes mostram um universo contido, mas intrigante e em expansão, envolvendo ciborgues letais e impiedosos de um lado e alguns humanos tentando sobreviver a uma distopia claustrofóbica, dentro de enormes instalações metálicas, com vários níveis e compartimentos, um verdadeiro labirinto vertical.

No início, o estilo lacônico do roteiro do mangaká Tsutomu Nihei estimula o leitor a fazer todos os questionamentos: que lugar é aquele? O que pretendem os robôs? O que aconteceu antes com a humanidade? A cada volume, apenas poucas informações são dadas. Mas tudo bem, porque há a expectativa de novas revelações, que, no final, façam algum sentido.

Mas acontece que, a partir do volume 6, a trama vai ficando cada vez mais vaga, com menos personagens e menos diálogos. E os mistérios se empilham. O que leva mesmo a avançarmos na leitura é a arte criativa e detalhada de Nihei, com suas criaturas bizarras e cenários épicos. Ele também é um mestre da movimentação. Sua cenas de ação são ágeis e potentes. Sua maior dificuldade é o desenvolvimento de personagens.

O desfecho é aberto demais, daqueles que dá vontade de jogar o mangá na parede.

Blame!, de Tsutomu Nihei, 10 volumes, JBC.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

A HORA E A VEZ DOS DESASSISTIDOS

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Itamar Vieira Junior é o mais importante autor baiano da atualidade. Vencedor da última edição do Prêmio Leya, seu romance Torto Arado teve extensa cobertura da mídia portuguesa. O autor foi à terrinha e fez bonito em diversos encontros e entrevistas. O romance será lançado no Brasil pela Todavia.

Itamar segue a tradição dos grandes autores baianos em aliar inquietação política e filosófica com apuro literário. Ele chamou atenção com o livro de contos A Oração do Carrasco. Não se engane com a finura do livro. Apesar de curto, cada conto carrega uma densidade que desafia o leitor, conteúdo e forma.

O triunfo aqui é falar de gente sofrida, os desassistidos, as minorias, mas descartando naturalismos fáceis. É uma poesia dura. Às vezes excessiva. Um ou outro conto poderia ser mais curto, porque a história termina e a linguagem continua meio que solitária, como em “Meu mar (Fé)”.

Mas não é à toa que o livro foi finalista do Jabuti. É o mais impactante livro de contos publicado por um autor baiano na última década, pelo menos. Existe até um flerte com a especulação, com a ficção científica, em “A floresta do adeus”. Os melhores contos são os que aliam, na medida certa, enredo intrigante, personagens cativantes e voz narrativa envolvente, como em “Alma” e “O espírito aboni das coisas”.

A pequena editora Mondrongo, da cidade de Itabuna, no interior aqui da Bahia, está de parabéns por lançar uma edição tão profissional, com bela capa e um projeto gráfico atraente.

A Oração do Carrasco é imperdível.

A Oração do Carrasco, de Itamar Vieira Junior, 167 págs., Mondrongo.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE