PERSONAGEM, O ELEMENTO MAIS IMPORTANTE DA NARRATIVA PARTE 2

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COMPOSIÇÃO DO PERSONAGEM (CORPO E PERSONALIDADE)

Na PARTE 1, afirmamos que o foco dessa série é entender como construir personagens cativantes, numa perspectiva realista, sejam heróis, vilões ou secundários. Para despertar uma maior conexão emocional com o leitor, fazendo-o se importar com o elenco condutor da história. E estimulando o interesse pelo conto ou romance até a última linha.

Como mencionado anteriormente, PERSONAGEM é a soma de COMPOSIÇÃO (CORPO E PERSONALIDADE) + MOTIVAÇÃO (OBJETIVOS).

Aqui falaremos sobre COMPOSIÇÃO.

A COMPOSIÇÃO NÃO DEVE SER UMA DESCRIÇÃO EXAUSTIVA DE COMO O PERSONAGEM SE PARECE NEM DE COMO ELE PENSA E AGE.

Descrições sobre personagem que não deixam nenhum espaço para a imaginação do leitor são limitadoras, castradoras, desinteressantes. A principal vantagem da literatura, o seu maior fascínio, é justamente permitir que possamos completar em nossa cabeça como deve ser determinado personagem, a partir das informações apresentadas na narrativa.

EM LITERATURA, UM PERSONAGEM É VISTO DE MANEIRA DIFERENTE POR CADA LEITOR. NO CINEMA E NA TELEVISÃO, O PERSONAGEM SEMPRE TERÁ A MESMA IMAGEM.

Os leitores de As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin, sempre tiveram suas próprias personificações de Tyrion, Jon Snow e Daennerys, a partir das descrições em cada livro. Com o surgimento da série de TV Game of Thrones, estes personagens ganharam versões em carne e osso. Muitos leitores ficaram decepcionados. As versões imaginadas por eles, em conjunto com o autor, eram menos convencionais, mais estimulantes.

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Na fantasia épica ou na space opera, o worldbuilding é um elemento bastante valorizado.  Criam-se universos originais, misturando novas ideias com referências consagradas. Para o leitor embarcar na atmosfera desses mundos ficcionais, para convencê-lo a acompanhar a jornada do autor, a descrição é algo necessário. O mesmo pode-se dizer sobre os personagens que habitam tais mundos. Portanto, a palavra de ouro no processo de revelar o personagem se chama EQUILÍBRIO.

NÃO DEVEMOS DIZER TUDO SOBRE O VISUAL E COMO FUNCIONA A MENTE DO PERSONAGEM. O LEITOR DEVE TIRAR SUAS PRÓPRIAS CONCLUSÕES.

A DESCRIÇÃO DO PERSONAGEM DEVE SER DINÂMICA, EM FUNÇÃO DA TRAMA E DA INTERAÇÃO COM O RESTO DO ELENCO.

EXEMPLO 1

– Fale comigo, espertinho – disse Max. – O que você acha que vai acontecer?
George não disse nada.
– Vou lhe dizer – disse Max. – Vamos matar um sueco. Você conhece um sueco enorme chamado Ole Anderson?
– Sim.
– Ele vem jantar todas as noites, não vem?
– Ele vem aqui às vezes.
– Ele vem às seis horas, não vem?
– Quando vem.
– Sabemos de tudo, espertinho – disse Max. Diga mais alguma coisa. Vai alguma vez ao cinema?
– De vez em quando.
– Você deve ir mais ao cinema. Os filmes são bons para um menino esperto como você.
– Por que vão matar o Ole Anderson? O que ele fez a vocês?
– Ele nunca teve chance para nos fazer qualquer coisa. Ele nem mesmo chegou a nos ver.
E ele só nos vai ver uma vez – disse Al, da cozinha.
– Então, por que vão matá-lo? – perguntou George.
– Nós o estamos matando para um amigo. É só um favor para um amigo, espertinho.
– Cale-se – disse Al, da cozinha. Você fala demais, maldito.
– Preciso entreter o espertinho. Não é espertinho?

(conto Os Assassinos, de Ernest Hemingway, tradução de L.F. Riesemberg)

Raimundo Carrero afirma, em Os Segredos da Ficção (Agir, 2005):

“(…) o autor mostra conhecimento e domínio do personagem, e faz com ele se movimente para permitir a completa interação com o leitor, adiantando ou esquecendo, de propósito, alguns detalhes. (…) Fica estabelecida uma espécie de parceria, que exige equilíbrio e tensão.” (pág.219)

“É na seleção que o escritor mostra a capacidade de contar e desenvolver a narrativa.” (pág.242)

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Podemos subdividir a COMPOSIÇÃO da seguinte maneira:

1)CORPO = TRAÇOS FÍSICOS + VESTIMENTAS + ACESSÓRIOS.

No que classificamos de corpo, são consideradas características mais genéricas do personagem (altura, peso, cor do cabelo e da pele), assim como características mais particulares (uma cicatriz, o jeito de andar e de falar). Além disso, temos as roupas, trajes, acessórios e armas utilizados; ou a falta deles.

David Lodge afirma, em A Arte da Ficção (L&PM, 2010):

“(…) Os romancistas modernos preferem que os fatos sobre os personagens venham à tona aos poucos, de diferentes formas, ou então que sejam depreendidos a partir de ações e falas. (…) Toda descrição ficcional é altamente seletiva.” (pág.77)

Lodge argumenta que essa seleção é necessária, pois senão o autor gastaria páginas e páginas descrevendo o físico e a psicologia dos personagens.

Ou seja, seria uma tortura para o leitor.

Lodge ainda diz que roupas e outros detalhes são ótimas maneiras de descrever uma personalidade:

“As roupas são sempre úteis para determinar o caráter, a classe social e o estilo de vida de um personagem. (…) A impressão é reforçada pelo modo de falar e de agir.” (pág.77)

O nível de detalhamento deve ter um propósito, não pode ser gratuito. As roupas de um personagem podem ser descritas com minúcia para o leitor ter mais informações sobre seu passado e presente. Se o tamanho das mãos do personagem ou alguma outra particularidade (calos, cicatrizes, arranhões) tiver uma função na trama, descreva. O que não for dito, será preenchido pela imaginação e especulações do leitor.

EXEMPLO 2

Naquela noite, alguém tinha pagado pela garrafa de uísque sobre a mesa. O melhor uísque que havia na casa. O que elevou bastante o ânimo de seu Costa.

Mesmo em seu estado lamentável, com os sentidos comprometidos, seu Costa pôde observar melhor a figura à sua frente. Os dois estavam num canto do bar, em lados opostos da mesa.

O homem tinha um rabo de cavalo, usava gravata, colete e um terno bem cortado, e apoiava a mão numa elegante bengala de jacarandá.

O estranho era que o homem parecia relativamente jovem para precisar daquele auxílio. E ele não demonstrava ter defeito físico nenhum.

Ao contrário de seu Costa, que tinha mais dificuldade para domar a perna mecânica quando estava bêbado.

Seu Costa concluiu que a bengala fazia parte do figurino de habitante da Capital, de membro de sua elite.

O veterano não tinha muito apreço por aquele tipo de gente, por considerá-los causadores de guerras, aproveitadores que ganhavam dinheiro enquanto soldados perdiam suas vidas. Ele também não entedia o que um cavalheiro fazia num lugar frequentado por trabalhadores. Mas o trataria muito bem. Estava adorando o fato de um desses desgraçados lhe pagar um bom uísque.

(romance Um Jardim de Maravilhas e Pesadelos, de Ricardo Santos)

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2)PERSONALIDADE  = HISTÓRIA PESSOAL + NOME + VISÃO DE MUNDO (PENSAMENTO) + AÇÃO.

Assim como uma pessoa real, um personagem deve ter um passado. A extensão desse passado vai depender da importância do personagem na narrativa. Protagonistas e coadjuvantes de peso merecem mais atenção neste aspecto do que um figurante. E é esse passado que irá proporcionar uma história pessoal ao personagem, a ponto de dar a ele uma maneira de enxergar a vida e os outros, ou seja, uma visão de mundo, que o motiva a agir.

O passado de um personagem pode ser desenvolvido num texto, em forma de resumo (principais acontecimentos de sua vida), ou por tópicos (nascimento, infância, juventude…). Nada exaustivo, algo entre 50 e 500 palavras.

Dar nomes aos personagens é uma das funções mais difíceis e importantes do autor. Um nome certeiro é fundamental para tornar um personagem inesquecível. Um nome equivocado pode enfraquecê-lo ou até mesmo arruiná-lo. Claro que falamos do tipo de ficção que conhecer o nome das pessoas, dos seres é praticamente uma obrigação. O autor é livre para fazer o que bem entender com seus personagens, inclusive, nomeá-los apenas com iniciais, identificá-los pela profissão ou papel social, ou mesmo não nomeá-los. Muitos autores escreveram brilhantes narrativas nomeando seus personagens de maneira menos convencional. Mas, em nosso caso, nomes realistas contam e muito.

Diz Carrero, em Os Segredos da Ficção:

“Encontrar um nome correto e justo para o personagem deve se tornar uma obsessão. Às vezes, o personagem impressiona somente pelo nome. Se Capitu fosse apenas Capitulina, não geraria a empatia. Capitu é já um mistério em si mesma, uma graça, um enigma. (…) O próprio Dom Casmurro derrota Bentinho. Dez a zero. Não tem nem graça.” (pág.194)

A DESCRIÇÃO DE UM PERSONAGEM PODE E DEVE VARIAR DE ACORDO COM OUTROS PONTOS DE VISTA.

No livro Characters, Emotion & Viewpoint (Writer´s Digest Book, 2005), Nancy Kress aborda, no capítulo 2, na seção Through other eyes: dressing secondary characters, como um personagem pode ser descrito de maneira vívida e variada, a depender de quem estiver observando. Essa é uma das vantagens da técnica do ponto de vista, também conhecida como point of view (POV), muito usada em roteiros de cinema. Ao invés de o leitor saber sobre um personagem por um narrador onisciente e com uma voz invariável, podemos ter informações e impressões desse personagem por mais de um ponto de vista. Com certeza, cada observador terá algo diferente para contar sobre esse personagem, seja sobre sua aparência ou personalidade. E não é só isso. Por tabela, o leitor também aprenderá mais sobre o observador, enquanto ele descreve o personagem.

EXEMPLO 3

Lá está ela, pensa Willie Bass, com quem cruza algumas vezes pela manhã, mais ou menos neste lugar. A velha beldade, a velha hippie, com os cabelos ainda compridos e desafiadoramente grisalhos, dando suas voltas matinais de jeans e camisa de algodão masculina, e um tipo qualquer de sapatos leves étnicos (Índia? América Central?) nos pés. Ainda possui uma certa atração sexual, uma espécie de encanto boêmio, de bruxa boa. Contudo, nesta manhã, ela tem um aspecto trágico, ali parada, tão ereta, com sua camisa larga e os seus sapatos exóticos, resistindo à força da gravidade, uma fêmea de mamute já enterrada até os joelhos no pixe, descansando um momento entre esforços, volumosa e altiva, quase indiferente, fingindo contemplar os tenros pastos que esperam na margem oposta, mas começando, na realidade, a ter a certeza de que ainda estará ali, presa na armadilha e solitária, depois de escurecer, quando os chacais aparecerem. Ela aguarda pacientemente que venha a luz.

(romance As Horas, de Michael Cunningham, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, adaptada para o português brasileiro)

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O personagem precisa respirar, mostrar-se vivo, tridimensional, de acordo com sua participação na trama. Portanto, os personagens devem aparecer muito mais do que o autor.

Como ainda fala Carrero, em Os Segredos da Ficção:

“O AUTOR NÃO DIZ, NARRA.” (pág.219)

“Em geral, usamos o próprio personagem como narrador dissimulado ou o narrador oculto que cuida de bordar os furos da narração (…).” (pág.219)

“(…) quem tem estilo é o personagem. Embora precise, é óbvio, da visão do narrador oculto que se ampara e se esconde nos personagens.” (pág.229)

Saber o que selecionar e como descrever as características físicas e a personalidade dos condutores da trama é fundamental para estimular a imaginação do leitor e conquistar sua atenção.

Na PARTE 3, falaremos sobre A MOTIVAÇÃO DO PERSONAGEM, o que o leva a agir.

AUTOCRÍTICA DE UM ROMANCE

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Alguma vez, alguém já analisou o próprio conto, novela ou romance depois de escrito, de publicado? Fazendo a comparação do que foi planejado com o resultado final? Abaixo segue minha avaliação, em tópicos, do meu primeiro romance Um Jardim de Maravilhas e Pesadelos, publicado em 2015.

É aquela coisa: você só aprende fazendo. Claro que o estudo é fundamental para aprimorar qualquer escrita. Enquanto eu (r)escrevia esse livro, aprendi muito, na prática, sobre uma série de tópicos, como furos de roteiro, ritmo, construção de cena e desenvolvimento de personagens. Aprendi o que não deve ser feito, principalmente, evitar clichês e preconceitos implícitos ou explícitos.

Godard disse uma frase de que gosto bastante: “Os problemas de um filme sempre podem ser corrigidos no filme seguinte”. Acho que isso é válido também na literatura. Evidente que ninguém nunca quer errar. Mas a verdade é que erramos mais do que acertamos. É a vida. Mas querer acertar é o segredo.

Autocrítica do romance Um Jardim de Maravilhas e Pesadelos:

– Herói mais reativo do que ativo (ponto negativo);

– heroína mais reativa do que ativa (ponto negativo);

– conflito entre heróis (ponto positivo);

– heróis falhos (ponto positivo);

– vilão complexo, ativo (ponto positivo);

– worldbuilding em função da trama, procurando evitar o infodump (ponto positivo);

– uso de macguffin (alguns podem considerar como bem utilizado, outros como algo que precisaria de maiores explicações);

– uso da arma de chehkov (satisfatoriamente utilizada, evitou o deus ex machina no clímax);

– estrutura em três atos (está bem disfarçadinho, mas existe);

– uso de reviravoltas e ganchos (utilizados de maneira orgânica, surpreendendo o leitor, mas sem enganá-lo);

– sem jornada do herói (existe uma série de passos que determinam se o protagonista percorreu a jornada como estrutura narrativa. No filme Matrix, Neo faz essa jornada de maneira clássica, seguindo cada um desses passos. Certos autores usam apenas alguns aspectos da jornada. No meu caso, a evitei completamente por achar que não se adequaria à história que eu queria contar, e também por considerá-la batida. Isso foi a coisa mais consciente que fiz ao escrever o livro. O problema de muitos autores é que eles tentam adequar sua história à jornada do herói e não o contrário).

PITACOS INCRÍVEIS

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O site Homo Literatus está com um projeto muito bacana: o Pitacos, em que o editor Vilto Reis faz a análise de contos enviados pelo público. Para minha felicidade, meu conto “Uma noite qualquer” foi escolhido.

De fato, é a voz de um editor falando. Vilto diz com total honestidade, com conhecimento de causa, o que há de problemático no conto. Ao mesmo tempo, pontua suas qualidades. Ou seja, critica sem deixar o autor pra baixo. Na verdade, me estimulou a reescrever a história, a melhorar como escritor.

Pode-se ler o conto completo em PDF na descrição do canal do Homo Literatus no Youtube, ou on line aqui mesmo no blog.

ESCREVENDO CENAS DE LUTA

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Este livro é uma leitura rápida, que pode ser feita em poucas horas. A primeira metade é para iniciantes. Escritores que decidiram escrever cenas de luta mais convincentes e não têm nenhum conhecimento prévio do assunto. Gente que já pesquisa e pensa a respeito pode achar que os primeiros quatorze capítulos não trazem muita novidade. Para quem está começando do zero, é interessante porque reúne abordagens e dicas espalhadas por aí, em outros manuais e pela internet.

A autora fala sobre todo tipo de luta, com armas variadas e artes marciais, em diversos gêneros literários. Mostra poucos exemplos de textos e sem muita inspiração, só para o leitor entender, na prática, o que foi argumentado anteriormente. Também são utilizadas cenas de lutas em filmes e vídeos em que especialistas demonstram determinadas técnicas. Os links no livro levam diretamente aos vídeos no Youtube.

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Para especialistas, GoT tem cenas ruins de luta. Esta é uma das poucas coreografias elogiadas

Quem tem algum conhecimento sobre lutas de espada em ficção sabe que filmes e séries são geralmente péssimos exemplos. Qualquer especialista dirá que as melhores cenas desse tipo são, no máximo, bem coreografadas, são ótimo divertimento, mas estão longe do combate de lutadores reais e de registros na História. No caso da literatura, mesmo na fantasia, as cenas podem ser mais verossímeis do que em filmes e séries. No papel, exigimos mais empenho do autor e dos personagens. As melhores fontes de pesquisa são contos e romances de autores mais experientes ou consagrados, manuais de escrita e vídeos de especialistas em armas. Nem todos os vídeos mostrados no livro são interessantes. Existem canais melhores no Youtube, como Schola Gladiatoria e Skallagrim.

O livro fica bom mesmo a partir do capítulo 15, em que a autora fala sobre lutadoras femininas. Aliás, essa é a melhor parte, mostrando, principalmente para homens que escrevem, como mulheres geralmente se comportam em cenas de luta. Cada vez mais, elas têm ganhado espaço também na ficção científica e na fantasia. São personagens fora dos padrões anteriores, mais ativas e presentes em momentos decisivos, inclusive, na hora da porrada.  Mas mulheres lutam de maneira diferente dos homens e a autora explica por que e como.

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A segunda metade do livro é mais rica em informações relevantes, com bons toques sobre a dinâmica da luta. Durante o embate, deve haver diálogo ou não? Como mostrar um lutador enfrentando múltiplos oponentes sem parecer forçado? Como utilizar as limitações do cenário para criar tensão? Como ajustar o ritmo do texto com a agilidade do que está sendo narrado?

Não sei se foi intenção da autora, mas a obra se torna mais interessante para quem procura melhorar a escrita de cenas envolvendo espadas, facas, adagas, armaduras, lanças, arco e flecha e armas afins. Ou seja, voltada mais para fantasia heroica, épica, aventuras de piratas e tramas históricas militares. As melhores dicas são nesse sentido.

Ao final, a autora mostra que entende do que está falando. Lemos duas cenas de luta de um romance e de um conto, publicados por ela. Nada excepcional, mas são cenas vívidas e envolventes.

Recomendo o livro porque o peguei no sistema de empréstimo da Amazon e foi uma leitura rápida. Se eu tivesse pago o valor para compra do e-book, quase R$20, ou do livro físico, quase R$50, e se fosse mais volumoso, eu ficaria bem chateado. Na verdade, eu ficaria puto.

Writing Fight Scenes, de Rayne Hall, 193 págs., Scimitar Press

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

PERSONAGEM, O ELEMENTO MAIS IMPORTANTE DA NARRATIVA PARTE 1

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ACREDITANDO NO PERSONAGEM (A CONEXÃO EMOCIONAL)

Há várias maneiras de narrar, de fazer ficção. Muitos autores não se destacam exatamente pela construção de personagens. Suas qualidades são outras. Experimentação da linguagem, uma conexão mais profunda com a poesia, o debate de ideias, a narrativa mitológica ou moral (lendas e fábulas), ou a crítica social e política por meio da sátira, da paródia, com personagens intencionalmente rasos. Outros inserem vários desses elementos em seus textos e ainda assim se preocupam com o desenvolvimento de personagens. E também existem os autores que querem ser claros e objetivos, querem ficar praticamente invisíveis, deixando a impressão de que a história é contada por si mesma.

Seja o autor mais preocupado com a linguagem e a forma, ou aquele que pretende conquistar a empatia do leitor da maneira mais direta possível. Em ambos os casos, quando há uma preocupação com o desenvolvimento de personagens,  a intenção é de contar histórias de uma maneira mais realista. Mesmo se tratando de ficção científica, fantasia e terror.

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Para isso, vários recursos narrativos podem ser utilizados, misturando técnicas da literatura, do teatro, do cinema e da televisão. Reviravolta, gancho, macguffin, a arma de Chehkov , sumário narrativo, diálogo, monólogo interior, montagem, ponto de vista, estrutura em atos, worldbuilding dentre outros.

Porém nada é mais importante do que a criação de personagens. Todo esse conhecimento citado acima não valerá muita coisa se o leitor não acreditar nos condutores da trama, no que fazem e dizem, sejam heróis, vilões ou coadjuvantes.

Mais do que elaborar uma trama cheia de suspense com um final de tirar o fôlego, mais do que cuidar de cada detalhe de um universo de fantasia original, é preciso que haja personagens interessantes o suficiente para que aconteça a tão esperada conexão emocional do leitor com a obra. E não estou falando de lágrimas baratas. Estou falando de compromisso com as etapas da jornada de um ou muitos personagens.

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Na prática, é muito fácil perceber quando essa conexão não acontece. Se a leitura de um romance muito bem escrito está arrastada ou você está pulando partes, provavelmente, os personagens desse texto não funcionam bem, não são cativantes.

UM PERSONAGEM DEVE SER A SOMA DE COMPOSIÇÃO (CORPO E PERSONALIDADE) + MOTIVAÇÃO (OBJETIVOS).

PERSONAGENS INTERESSANTES NÃO SÃO HERÓIS OU VILÕES O TEMPO TODO; POSSUEM FALHAS E FRAQUEZAS; E DEVEM SER IMPREVISÍVEIS, EM ALGUM MOMENTO.

O LEITOR SE APEGA A PERSONAGENS COM QUE PODE SE IDENTIFICAR DE ALGUMA MANEIRA.

MOTIVAÇÕES SÓLIDAS GERAM CONFLITOS INTENSOS, AUMENTANDO O SUSPENSE E O DRAMA DA NARRATIVA.

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Um exemplo bastante famoso de conflito intenso é a relação entre Batman e o Coringa, em várias mídias. Em seus melhores momentos nos quadrinhos, esse embate se torna algo muito caro ao leitor, porque ele tem sua identificação dividida ao meio, pelos dois lados da moeda. Batman com sua personalidade controversa e a motivação de fazer justiça por conta própria, numa sociedade corrupta. E o Coringa com sua personalidade distorcida e a motivação de mostrar que sanidade, lei e ordem podem ser, com frequência, sinônimos para hipocrisia pessoal e social.

Para o autor Andrew Miller, a chave para criar personagens é ter um entendimento mais profundo do ser humano: “Ao criarmos personagens, fazemos a nós mesmos perguntas importantes e honestas sobre nossa natureza e daqueles ao nosso redor. Nossas respostas são os próprios personagens (…). Assim que terminamos, estamos logo insatisfeitos com estas respostas, e começamos de novo, confusos, frustrados e entusiasmados.”

Para criarmos bons personagens, é preciso que a gente entenda melhor quem nós somos e que o mundo em volta é muito maior do que nossa comunidade, do que estamos acostumados.

Na PARTE 2, falaremos sobre A COMPOSIÇÃO DO PERSONAGEM, as várias maneiras de como descrevê-lo.

A IMPORTÂNCIA DOS PERSONAGENS SECUNDÁRIOS

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Nenhuma obra de ficção se sustenta sem, no mínimo, bons personagens secundários. Se eles forem marcantes, melhor ainda.

Em filmes, os personagens ao redor do protagonista ou dos protagonistas são fundamentais para tornar a narrativa dinâmica, mesmo em histórias fora do padrão de Hollywood. O menor dos papéis pode transformar radicalmente a trama. E até roubar a cena do personagem principal.

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Podemos assistir a um filme ou a uma peça de teatro com um único ator ou atriz, em que ninguém mais aparece. Mas será na interação desse único personagem com o mundo exterior, por meio de cartas, conversas ao celular, vendo televisão e outras atividades, ou concentrado em seus próprios pensamentos e ideias, relembrando pessoas do passado, que os personagens secundários vão se revelar, talvez de uma maneira até mais intensa, por não estarem presentes em cena.

Em literatura, a construção de personagem se dá de várias maneiras, superando as possibilidades do cinema, do teatro, dos games e por aí vai. Curiosamente, os recursos do autor são mais limitados, mas é ele que possui maior liberdade na hora de criar os seus mundos e decidir quem vai habitá-los.

Seja a história um monólogo interior modernista ou a mais insana fantasia épica, protagonistas sozinhos não sustentam uma narrativa.

É tão chato ler uma ficção cujos coadjuvantes aparecem na trama apenas para bater o cartão de ponto.

E quem são os personagens secundários?

Segundo o roteirista Scott Myers, existem três níveis de personagens: primários, secundários e terciários.

“Primários: os protagonistas.

Secundários: personagens recorrentes com menor importância.

Terciários: personagens que aparecem em uma ou duas cenas, com um propósito específico.”

Essa é uma classificação bastante básica. Mas serve como exemplo para afirmar que realmente existem diferentes níveis de participação de cada personagem.

É evidente que se torna impossível, em qualquer história, desenvolver com maior profundidade todos os personagens. Sempre haverá protagonistas, a razão de ser da trama; coadjuvantes secundários e terciários, fundamentais para dar mais consistência à jornada dos protagonistas; e figurantes, apenas para compor a paisagem. O leitor espera ver o esforço do autor em contar a história com energia por meio desse elenco, mesmo quando o enredo é muito importante.

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A escritora Charlie Jane Anders dá 10 dicas de como escrever personagens coadjuvantes:

1) Dê a eles, no mínimo, uma característica marcante: tomando Charles Dickens como exemplo, o mestre dos personagens secundários e terciários, Anders mostra que um personagem pode chamar a atenção pelo jeito como anda ou por seus hábitos, dando verossimilhança e brilho a menor das participações.

2) Dê a eles uma história de origem: como personagens coadjuvantes têm menor ou pouquíssimo espaço na trama, seria interessante criar uma origem, contar como determinado personagem se tornou quem é, em algumas linhas ou parágrafos. Não um perfil, mas uma história de origem tipo dos super-heróis, revelando o que o levou à sua transformação.

3) Faça-os falar de maneiras diferentes: não faça seus personagens falarem todos do mesmo jeito. Assim como pessoas reais, personagens devem se expressar com discursos variados. Pessoas são lacônicas, prolixas, com diversos graus de instrução e experiências de vida. Personagens podem ser assim também.

4) Evite fazer deles um poço de virtude ou representantes do autor: personagens virtuosos são chatos, ninguém se importa com eles. Nós somos falhos. Personagens também devem ser. Mas o pior é criar um personagem apenas para transmitir as ideias do autor. Cada personagem deve ter sua personalidade.

5) Relacione-os a um local específico: uma maneira de dar mais consistência a um personagem, mesmo sendo secundário ou terciário, é ligá-lo a um local que, de certa forma, o identifica. Assim ele não se tornará genérico demais. Pode ser uma taverna, um bar, uma sala de máquinas etc. Tanto o personagem como o cenário se tornarão mais reais.

6) Apresente-os duas vezes, primeiro no pano de fundo, depois em primeiro plano: apresente o personagem por meio de outro ou outros personagens, numa menção ou referência. Até ele aparecer em cena. O leitor pode lembrar dele mais tarde. Como fazemos numa festa, quando somos apresentados a alguém, e só depois batemos um papo com essa pessoa.

7) Tenha foco na importância deles para seus protagonistas: por mais sensacional que seja seu elenco de apoio, não se desvie do caminho. O mais importante é fazer da jornada dos protagonistas uma experiência mais completa por meio da interação com os outros personagens. Não invista além do necessário na interação entre dois personagens coadjuvantes.

8) Dê a eles um arco, ou a ilusão de um: criar um arco para um personagem é difícil. Criar um arco de mentira é fácil. Apresente seu personagem de determinada maneira, e, num ponto mais avançado da história, mostre sua participação com uma mudança de atitude. O leitor não verá a evolução do personagem, e sim o resultado. Isso torna personagens secundários mais interessantes, sem cair naquele comportamento uniforme.

9) Quanto menor a participação, mais caricatural deve ser o personagem: a própria Charlie Jane Anders admite que a dica é discutível. Mas ela afirma que os personagens coadjuvantes devem ser tridimensionais ou cartunescos a partir da vontade ou estilo de cada autor. Nos livros de Douglas Adams, os personagens coadjuvantes são ainda mais cartunescos do que os protagonistas e essa é a graça!

10) Decida quais personagens coadjuvantes serão esquecíveis: certos personagens secundários, terciários e figurantes terão que ser rasos porque você não quer que todos chamem a atenção do leitor. Não há como todos os personagens de sua história ter personalidades definidas, características próprias e um passado. É conteúdo demais para o autor elaborar e para o leitor assimilar.

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Vamos a um exemplo.

Este é um trecho de uma história minha inacabada. Uma ficção científica, passada num Brasil do futuro. Petros Rai, o protogonista, é um mercenário que vai ao escritório de um chefão do crime, a negócios.

Petros Rai entrou no bar. Poucos se importaram com sua chegada. Deram uma rápida olhada nele. Logo voltaram a beber, a fumar, a acariciar prostituas e a jogar cartas. Não havia nenhum tipo de música tocando. Ele pôde captar as reações, localizar mais ou menos de onde vinham. Por experiência, sabia que um ou dois frequentadores o observava atentamente, dos cantos mais escuros.

O ambiente não trazia novidades. Até a disposição do balcão e das mesas era óbvia. Era necessário um estômago forte para aguentar o ar viciado.

Entrou no bar como um frequentador qualquer. Não um frequentador regular ou fiel, mas comportava-se como um habitante da Cidade Baixa. Forasteiros eram apenas tolerados. Pelo menos, aqueles que tinham dinheiro para pagar suas bebidas e refeições.

Petros Rai teve sorte. Encontrou logo um espaço para ficar de pé junto ao balcão.

O barman não se aproximou de imediato. Era um cara robusto com uma cabeça pequena.

“Uma dose de pura”, disse Petros Rai, olhando para o barman.

O barman o encarou. Sem pressa, virou o corpo, deu dois passos para trás e pegou uma garrafa na prateleira do fundo. Pegou um copinho de vidro transparente embaixo do balcão. Derramou um líquido de cor âmbar no copinho até enchê-lo. Deixou a garrafa ao lado.

“Uma moeda.”         

Petros Rai meteu a mão no bolso da calça e colocou sobre o balcão uma moeda.

O barman olhou-a fixamente.

Não era a moeda que esperava receber.

Ela era igualmente prateada, porém maior e mais espessa. E tinha gravada uma cabeça de sapo de perfil.

O barman deu mais uma olhada em Petros Rai, que se manteve firme. Depois virou a cabeça e dirigiu o ollhar para alguém entre os frequentadores. Um homem magro e barbudo, com uma prostitua no colo, balançou a cabeça, confirmando algo.

O barman voltou-se de novo para o homem à sua frente.

“Siga pelo corredor à esquerda”, disse o barman.

Petros Rai pegou a dose de pura e tomou-a de um só gole. O álcool ardeu em sua garganta.

O barman não testemunhou nenhuma careta, tosse ou olhos marejados.

Petros Rai colocou o copinho de vidro de volta no balcão e se afastou. Uma onda de calor passou pelo seu corpo.

O barman recolheu a moeda, o copinho e a garrafa para baixo do balcão. Foi atender outra pessoa.

Petros Rai seguiu bar adentro, passou pela extensão do balcão, e atravessou um longo corredor.

Mesmo que o barman e os frequentadores do bar não retornem à história, a participação de cada um deixou sua marca ou foi mera figuração, avançando a trama de maneira dinâmica e contribuindo para o desenvolvimento do protagonista, para mostrar um pouco mais quem ele é e quais são seus limites.

Essa cena do bar poderia ser descrita em poucas linhas, ou num parágrafo, fazendo com que o protagonista fosse logo ao que interessa: o encontro com o chefão do crime. Mas seria tão menos interessante. Não revelaria muito de como o bar podia ser um lugar perigoso para nosso protagonista, e como ele se sairia em situações tensas.

Uma história com um bom elenco de coadjuvantes tem mais chances de intrigar o leitor, de fazê-lo avançar as páginas, do que uma história que concentra quase todos os esforços nos protagonistas.