A COVARDIA DO OSCAR

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Os filmes do Oscar já deixaram de ser relevantes para a indústria. Não geram mais tendências, não guiam mais os estúdios para o que será produzido no ano seguinte. Para os executivos que dão o sinal verde, soltam a grana, fazem as ideias no papel acontecer, são os blockbusters que importam, há pelo menos uma década.

Claro que ganhar Oscar dá prestígio para produtores, diretores e roteiristas, pode mudar a carreira de atrizes e atores e até reforçar a bilheteria. Este ano, a maioria dos indicados a melhor filme foi sucesso de público do cinema independente, dando excelente retorno financeiro para seus investidores. Mas o público médio de cinema não se importa com esses filmes. E o faturamento deles fica bem atrás dos grandes sucessos, por exemplo, da Disney (Marvel/Star Wars), Universal (Velozes e Furiosos/Meu Malvado Favorito) e Warner (Animais Fantásticos/DC).

É por isso que o Oscar devia ser mais ousado em suas indicações e vencedores. O franco favorito deste ano é La La Land. Um filme que me desinteressou por completo por feder a nostalgia. Seria incrível se Moonlight, sobre autoconhecimento, homossexualidade e negritude, considerado tecnicamente perfeito, fosse o grande vencedor da noite. 

O Oscar devia sair do limbo, deixar de ser um clube vip. Devia indicar e premirar filmes de fato relevantes. Tornar-se uma referência crítica, a consciência de Hollywood. Porque o prêmio já deixou de ser o termômetro da indústria há muito tempo.

EU SOU ATEU

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Recentemente saiu uma matéria sobre a dificuldade de aceitação dos ateus no Brasil por serem minoria em um país tão religioso. Primeiro, devo dizer que sou ateu. Segundo, que isso pouco afeta meu dia a dia. E terceiro, que não gostei da matéria. Achei-a muito genérica. Claro que ateus em cidades menores têm suas vidas mais afetadas por suas convicções. No interior, geralmente, a vida social gira em torno das igrejas. Mas a matéria vacila ao não ouvir gente das periferias, que sofre a mesma pressão religiosa. Colocaram entrevistados de classe média como os mais oprimidos. E ainda citaram o escritor Richard Dawkins como referência, um ateu fundamentalista, que se acha o dono da verdade.

Não acredito que religião seja o ópio do povo. É uma questão complexa, parte da cultura humana. Se todas as religiões fossem apagadas da cabeça das pessoas hoje, amanhã outras surgiriam. Envolve uma série de questões da relação das pessoas consigo mesmas, com os outros, a natureza, o planeta, o Universo. Religiões são interpretações dos mistérios da existência e representações culturais da vida em sociedade. Neste caso, meu ateísmo acaba sendo mais uma interpretação, a partir do que procurei investigar e do que me foi apresentado ao longo da vida.

Agora fico irado com qualquer fundamentalista e aproveitador que explora a fé das pessoas, gera violência e interfere na vida pública para atingir direitos. O estado deve ser laico e qualquer um que diga o contrário vai comprar briga comigo. Não deve existir no currículo da rede pública aula de religião e nenhuma outra prática que favoreça essa ou aquela crença. Para isso, existem escolas específicas e os ambientes de convívio da família do aluno. Devem existir aulas ou oportunidades na escola pública em que todas as religiões sejam debatidas e todos os pontos de vista apresentados. As mulheres devem ter os mesmos direitos que os homens de tomar decisões sobre sua mente e seu corpo e nenhuma religião pode interferir nisso.  

Fico triste, enojado e revoltado com a intolerância geral, que é histórica e não uma invenção recente. Agora dizer que já fui discriminado porque sou ateu seria mentir. Como disse a escritora e editora Clara Madrigano, tente ser umbandista no Brasil para ver o que é discriminação.

A DC PODE SUPERAR A MARVEL NO CINEMA

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A Marvel está sapateando na cabeça da DC, no cinema, tanto nas bilheterias como na qualidade criativa de seus filmes. Mas a DC pode puxar o tapete da Marvel em breve.

Na verdade, a Warner/DC é a veterana em fazer filmes de super-heróis, começando lá atrás, nos anos 70, com o primeiro Superman. E reinou absoluta nesse filão por décadas. Tudo bem que apenas investindo em seus dois heróis mais icônicos, Superman e Batman. Mas foram filmes importantes para estabelecer, no mainstream, algo que ficava restrito ao fandom.

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Enquanto que a Marvel, por muitos anos, nunca teve uma parceria de longa duração com um estúdio, optando por vender os direitos de filmagem de seus heróis, fosse pela falta de recursos para produzir os próprios filmes, ou por problemas financeiros.

Mas esse cenário desfavorável começou a mudar quando o Marvel Studios produziu um filme com total controle da Casa das Ideias: Homem de Ferro, em 2008, um sucesso de público e crítica. Em 2009, o grupo Marvel foi comprado pela Disney. A partir daí, com grandes orçamentos à disposição e a supervisão afiada de Kevin Feige, a Marvel finalmente tinha condições de dominar o mundo das bilheterias.

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A Warner/DC fazia seus filmes de super-heróis sem tanta pressão, porque não havia concorrência. Isso até o lançamento de Homem de Ferro. Na época, a DC não se abalou tanto porque estava encantada com o Batman de Christopher Nolan. A trilogia de Nolan rendeu muito dinheiro, reconhecimento e Oscars. Mas atrasou a criação do universo cinematográfico da DC.

A situação piorou porque confiaram, informalmente, o comando desse universo a um diretor/produtor com um ego grande e um talento pequeno. O sr. Zack Snyder prometeu muito e entregou pouquíssimo. Batman vs Superman deveria ser um filme para abalar as estruturas, mas foi um fracasso criativo e uma decepção nas bilheterias.

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A Warner entrou em pânico e mutilou seu próximo lançamento, Esquadrão Suicida, para deixá-lo mais palatável. Outro fracasso criativo. Mas depois a Warner ficou mais calma. O filme é ruim, mas fez dinheiro.

Atualmente, o comando do universo DC no cinema está nas mãos de um cara dos quadrinhos, Geoff Johns , e um executivo da Warner,  Jon Berg. A ordem agora é ajustar o rumo. Internamente, a DC sabe que errou, que precisa mudar peças importantes para que seu grande plano deslanche. A ambição é conquistar bilheterias de U$ 1 bilhão, o aval da crítica e o coração do público, assim como a Marvel.

Mas a DC tem uma vantagem que pode fazê-la superar a concorrência.

A Warner é conhecida por dar liberdade criativa a seus diretores. O estúdio já se beneficiou e se prejudicou por conta disso. Mas a política continua. O que é um sinal de confiança no potencial de seus colaboradores.

No caso dos filmes da DC, inicialmente, a estratégia não deu certo. Escolheram a pessoa errada para dar essa liberdade. Porém, o futuro pode ser promissor.

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O próximo lançamento da DC é o filme da Mulher Maravilha. Apesar da decepção com Batman vs Superman e Esquadrão Suicida, o último trailer e o fato de ser o primeiro filme de super-heróis protagonizado e dirigido por mulheres estão gerando grandes expectativas.

Em um aspecto, a DC já ganhou da Marvel. Em bem menos tempo, deu muito mais espaço para a diversidade. Lembrando que Esquadrão Suicida é um filme que tem como protagonistas um homem negro, o Pistoleiro, e uma mulher branca, Arlequina. Além de ter um elenco multiétnico, com personagens relevantes, como Amanda Waller, uma mulher negra, e El Diablo, o primeiro super-herói latino com substância no cinema.

Sem falar no já confirmado filme solo do Batman, que será dirigido e estrelado por Ben Affleck. Um cara que já provou ter ambição em seus projetos e talento para executá-los.

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Ou seja, mesmo tendo a última palavra sobre esse universo DC, a Warner ainda tem muita a ganhar bancando as ideias dos seus colaboradores. Algo ao mesmo tempo diferente e lucrativo pode surgir dessa parceria. Porque o negócio do cinema tem a ver com dinheiro, mas também tem a ver com ego.

Já com a Marvel, o caminho é mais seguro e, por isso, mais previsível. Eles aprenderam a fazer filmes bem azeitados, mas aqui a rédea é mais curta. A liberdade criativa é muito mais limitada. E isso se reflete na estética, no tom e nas possibilidades de cada filme. Há uma padronização, uma linha de montagem. Hoje em dia, sabemos que, dificilmente, um filme da Marvel vai decepcionar o público. Assim como, sabemos que, dificilmente, irá surpreendê-lo.

Claro que essa virada da DC em cima da Marvel pode não se concretizar. Contudo, esse cenário de pulo do gato, de busca pela excelência, é uma projeção a partir de informações sólidas, não é uma mera vontade minha. Depois do lançamento do filme da Mulher Maravilha, da Liga da Justiça e da aventura solo do Batman, a gente conversa de novo.

PAGUE PARA PUBLICAR QUANDO VOCÊ FOR O CHEFE

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Apesar da crise econômica (do aumento dos custos e da diminuição das oportunidades), de gente gabaritada constatar, com números sólidos, que nosso mercado editorial para livros de FC e fantasia diminuiu nos últimos 5 anos e do fechamento ou fuga de grandes editoras, nada disso justifica ficar à mercê de editoras de fundo de quintal, que cobram caro e exigem absurdos para publicar, tomando todas as decisões editoriais. Se falta caráter já no lançamento de um edital para antologia ou nas regras para tirar seu romance da gaveta, então só espere dor de cabeça até você receber seus exemplares.

Por menor que seja, UMA EDITORA SÉRIA NÃO COBRA DO AUTOR. O investimento em um autor é uma parceria, uma via de mão dupla, em que o publisher e o editor entram com sua experiência de mercado para transformar um manuscrito em um romance com potencial artístico e/ou de vendas. A editora sabe como melhor promover, distribuir e comercializar o livro.

Mesmo confiando no trabalho de editoras sérias, a auto-publicação hoje é a maneira mais viável e realista de um escritor começar, seja no formato digital ou físico. É muito melhor se informar e procurar profissionais competentes para leitura crítica, preparação de texto, revisão, ilustração, capa, diagramação e uma gráfica com bom acabamento e preços justos. Você gastará mais ou menos grana, a depender da ambição de seu projeto. E com certeza, sua satisfação será muito maior. Você terá total controle editorial sobre sua obra.

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Claro que você terá que ralar mais para promover e vender seu livro. Mas tudo é aprendizado. Você vai acertar e errar. Quem sabe você chame atenção de uma editora séria e tenha a oportunidade de melhorar seu texto e de ampliar seu número de leitores. Isso pode acontecer. Tomara que aconteça. Mas não encare isso como o caminho natural das coisas.

Em geral, editoras publicam textos que vendem: tendências, modas, cópias de modelos do passado. Não é porque você é um puta escritor que você terá mais chance de ser publicado. Provavelmente, o escritor medíocre passará na sua frente. Mas nada disso importa na hora de escrever e publicar. O que importa mesmo é você entregar ao leitor o melhor produto possível, um texto trabalhado num formato bacana, atraente.

A auto-publicação digital veio para democratizar o acesso a todo tipo de literatura. Tirar das mãos dos gatekeepers a produção desse conteúdo. Em parte, uma demanda ignorada pelas grandes editoras. Em outra parte, uma demanda que as grandes editoras nem sabiam que existia, despertando interesse.

Fico muito feliz quando um autor independente que admiro consegue chamar atenção de uma editora séria, pequena ou grande. É um potencial reconhecido. É a chance de muito mais leitores terem contato com uma obra que, de alguma maneira, pode fazer a diferença.

HELL NO, TILDA!

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Tilda Swinton é uma grande atriz. E ela é muito requisitada por um tipo de performance camaleoa, em papéis que exigem curiosas transformações físicas. Mas quanto ao Ancião, mestre do herói no filme do Doutor Estranho, a defesa de sua escalação não tem muito fundamento. Ela podia estar no filme, interpretando outro personagem bad ass, como só ela sabe fazer. Mas o Ancião devia ser interpretado por uma atriz asiática, como a malaia Michelle Yeoh, acompanhando a brilhante ideia dos produtores de contratar uma mulher.

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Mesmo que exista uma reviravolta na trama que explique por que uma mulher branca se tornou o Ancião, essa justificativa seria muito conveniente.

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Michelle Yeoh

A Marvel está melhorando a representação de personagens negros em seu MCU (muuuito mais homens do que mulheres). Mas, em relação a personagens asiáticos, para cada acerto (Agents of SHIELD), comentem-se muitos vacilos e ainda contando (Thor, 1ª e 2ª temporadas do Demolidor e a série do Punho de Ferro vem aí, já cheia de controvérsia).

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A Marvel alega que mudanças são necessárias para fugir de estereótipos dos quadrinhos do passado. Concordo. Filmes são ótimas oportunidades de criticar, de corrigir abordagens racistas anteriores (que reverberam nos dias atuais) por serem veículos de grande audiência. Construir representações mais tridimensionais de heróis e vilões não-brancos, filme após filme, é uma necessária tentativa de mostrar que o mundo é um lugar mais plural, rico e complexo.

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É curioso a Marvel falar em mudanças, justamente em um filme sobre um cirurgião americano branco em crise que vai para a “mística” ásia encontrar uma cura e descobre poderes ocultos milenares. Este é um dos tropos mais racistas do passado que a Marvel manteve sem alterar nada.

POR QUE NÃO VEREI O OSCAR

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Na verdade, já faz alguns anos que não ligo para a cerimônia do Oscar. Fico satisfeito em ver a lista dos ganhadores na manhã seguinte, em algum site. Não quero perder mais meu tempo vendo um espetáculo geralmente arrastado,mal-escrito e dirigido, apesar de todo o luxo e o desfile de astros; muitos claramente desconfortáveis por estar ali, no palco ou na plateia. A graça era ver as reações e piadas fora do roteiro e um ou outro belo momento. Mas eram migalhas em um show tão longo.

O prêmio perdeu prestígio nessa era digital, de fácil acesso a informação e fácil produção de conteúdo.  Mas muita gente de Hollywood faz questão de marcar presença na cerimônia. Para a indústria de cinema, o jornalismo de entretenimento e uma parcela considerável dos compradores de ingressos pelo mundo, o Oscar ainda é importante. É uma maneira tradicional e lucrativa de promover filmes, uma fonte abundante de buzz e uma referência reconhecível, um selo de qualidade, para o grande público.

Um ator ser indicado ao prêmio pode significar um upgrade decisivo na carreira, melhores oportunidades de trabalho, com diretores e produtores de prestígio, cachês mais gordos. Ganhar um Oscar pode significar as portas do céu do estrelato, do protagonismo em grandes produções. A vaca no pasto viraria então filé-mignon.

Mas, em 2016, eu abriria uma exceção. Eu estava disposto a ver a cerimônia por um motivo: Chris Rock. Quando seu nome foi anunciado como apresentador, abri o maior sorriso. Adoro o cara. Não o astro de cinema, mas o comediante. Odeio quase todos os seus filmes, mas adoro seus shows de comédia. No cinema, Chris Rock é apenas um palhaço abusado. No palco, ele é um devastador comentarista social e político. Herdeiro direto de um gênio, Richard Pryor. Eu sabia que o Chris Rock do Oscar seria uma versão mais light dos palcos. De qualquer maneira, seria curioso ver seu humor ácido num ambiente tão quadrado e branco, agindo como um verdadeiro penetra.

Então as indicações foram anunciadas e a polêmica começou. Apenas atrizes e atores brancos foram indicados. Pior, dos indicados em todas as categorias, principalmente, nas de maior destaque, a maioria é de homens brancos. Segundo a Variety, dos 23 produtores indicados a melhor filme, sete são mulheres. Dos 17 roteiristas indicados, quatro são mulheres e não há nenhum representante de minorias. Um dos filmes mais fantásticos de 2015, Creed, teve apenas uma indicação, para Sylvester Stallone, deixando de fora o diretor e roteirista negro Ryan Coogler, que fez um dos mais intensos e criativos trabalhos dos últimos anos.

E aí está o verdadeiro problema. Os atores e diretores negros fizeram maior barulho contra o Oscar deste ano, com toda a razão, e algumas vozes latinas também, mas a falta de diversidade como um todo no prêmio é um reflexo da falta de diversidade nas produções americanas em geral, apesar do discurso de se abraçar talentos do mundo inteiro. Claro que houve um enorme avanço na última década, com atrizes negras protagonizando séries de TV de sucesso e atores indianos e asiáticos ganhando papéis de destaque, sem estereótipos, também na TV e em serviços de streaming. Mesmo assim, mesmo com o surgimento da chamada era de ouro da televisão, a grande maioria dos diretores, roteiristas e produtores é branca. No cinema, nos blockbusters, onde o dinheiro de verdade está, a diversidade é ainda menor, seja de cor, gênero, orientação sexual ou qualquer outra. Os verdadeiros donos da bola geralmente estão nos bastidores.

Fazer mudanças internas para tornar a Academia mais sintonizada como os novos tempos é louvável, mas não resolve o problema. Isso é apenas estancar a ferida, não é tratar a doença.

Pois é, Chris Rock. Fica pra próxima.

BRINCADEIRA DE MENINA

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Bizarro como um discurso não verbalizado, mas nada sutil, uma visão de mundo tacanha, pode afetar uma pessoa desde pequena.

Fui a um grande supermercado hoje e prestei atenção no que muitos consideram o óbvio. Na seção de brinquedos, havia, de um lado, os brinquedos dos meninos, com carros, aviões, naves, bonecos e jogos. Do outro lado, os brinquedos das meninas, com bonecas (geralmente loiras), utensílios de casa, kits de produção e embelezamento. Tinha jogos e carros, sim. Mas tudo era tão rosa que parecia praticamente uma parede uniforme.

No lado dos meninos, muitos bonecos dos Vingadores e de Star Wars. Mas nada de Viúva Negra nem Rey. Tinha até boneco de um personagem que nem lembro que estava em O Despertar da Força. Mas da protagonista não tinha.

Que dizer que mulher não pode aprender a ser badass também? A se defender e defender os outros, a se tornar heroína?

Essa postura do mercado, endossada por muitos pais, leva a todo tipo de abuso e de violência física e psicológica contra a mulher, desde criancinha.

FINN AINDA FICOU DEVENDO

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O personagem Finn é uma evolução dentro da obra mais amada da cultura pop. E a cultura pop é importantíssima. É o espaço social mais dinâmico, envolvendo gosto, comportamento e representação.

Ter uma renovação de atitudes na franquia Star Wars significa uma tentativa de quebrar preconceitos por dentro do sistema. Naquilo que, simbolicamente, é importante para muitas pessoas. E para a indústria, onde o dinheiro está de verdade.

Finn é um dos protagonistas. Ele não é Lando Calrissian (meu personagem preferido da saga, mas um coadjuvante de luxo) nem Mace Windu (subaproveitado). Agora, realmente, Finn se encontra na linha tênue entre a caricatura e o avanço.

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Sempre se criticou muito quando atores negros participavam dos filmes apenas como alívios cômicos. Enquanto eu assistia ao Despertar da Força, isso passou pela minha cabeça. Então quer dizer que Finn não pode ser engraçado só porque ele é negro? Ele pode. Mas lá estão alguns velhos clichês na composição do personagem. Ele poderia ser engraçado de outro jeito, de uma maneira mais afirmativa e independente.

Outro problema é que só existe ele como um personagem negro de destaque. Avanço mesmo seria se houvesse outros, com outros tipos de atitude. Lupita Nyong’o, que faz a alien Maz Kanata, poderia ser uma jedi ou uma sith incrível, representando uma mulher negra.

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Maz Kanata

Para saber mais:

Star Wars despertou a força, mas ainda precisa despertar para uma imagem mais justa e equilibrada do negro

Star Wars VII: Precisamos falar como todas as mulheres são brancas, todos os negros são homens

DIVERSIDADE NA CULTURA POP PARA JOVENS

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Como vivemos numa sociedade complexa, uma mentalidade preconceituosa dificilmente pensa de maneira isolada, compartimentalizando seu preconceito, escolhendo apenas uma bandeira para lançar seu ódio, apesar do senso comum dizer o contrário.

Em determinada situação, um preconceito pode sobressair, mas geralmente, ao fundo, outros preconceitos apenas estão esperando sua vez para mostrar a cara. Isso quando não o fazem todos juntos, num verdadeiro “ataque de gangue”. Ou seja, a chance de alguém ser racista e também misógino, homofóbico e islamofóbico é bastante forte. Por isso, não adianta o homem negro lutar contra o racismo se ele é um machista, mesmo que fofo. Não adianta a mulher branca lutar por direitos iguais entre os gêneros se ela acha que outras mulheres importam menos por serem negras, asiáticas, indígenas…

Todo tipo de preconceito deve ser combatido por todo mundo. O raciocínio é simples: se algo agride a dignidade humana, então deve ser enfrentado. Vamos julgar as pessoas pelo caráter de cada uma e não por que elas são diferentes de você. E essa transformação de mentalidade deve começar pelas crianças.

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Devemos ajudá-las a se tornar seres humanos mais decentes. E a cultura pop pode contribuir muito. Cada vez mais, vejo desenhos animados, quadrinhos e livros infanto-juvenis fazendo seu papel de mostrar às crianças e jovens como o mundo é mais complicado, rico e diverso do que até mesmo as escolas ensinam.

Então fico babando quando vejo uma HQ como da nova Miss Marvel, Kamala Khan, uma super-heroína adolescente muçulmana; o desenho animado Steven Universe, sobre um garoto com poderes mágicos que é criado por três mulheres alienígenas; e os romances juvenis de Terry Pratchett, que, em meio a magos, bruxas, animais falantes e deuses, faz críticas mordazes sobre muitas convenções de nossa sociedade.

34534E o melhor de tudo é que obras como essas nunca buscam “ensinar” ninguém, falando num tom pejorativo mesmo. Nenhuma dessas histórias são chatas, nenhuma perde o talento de encantar. Seus autores “apenas” contam histórias. Eles não forçam a barra. Eles não querem dar respostas fáceis, e sim instigar seus jovens leitores a pensar diferente, a fazer perguntas diferentes, que, afinal, vão estar mais próximas, mais ligadas, ao mundo complexo em que vivemos.

11294455_10153915497143102_708838674_oEsse tipo de HQ, desenho animado e livro faz muito bem seu trabalho de abrir a cabeça da garotada com humor, sutileza, ironia e muita atitude. Na superfície, a coisa é bem simples. Nas entrelinhas, o subtexto come solto, revelando visões de mundo muito interessantes, até para adultos. No Brasil, vejo que obras assim também estão despontando. Eu só gostaria que o ritmo fosse mais intenso.

Como consumidor de cultura pop, sempre fui fã desse tipo de obra infanto-juvenil, que, no final das contas, consegue se comunicar com gente de todas as idades. Então, quando resolvi escrever meu primeiro romance, minha tentativa foi nesse sentido. É algo aparentemente simples de fazer, mas que, na verdade, dá um trabalho danado. E muita satisfação!

TODOS MERECEM LER

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Eu estava no carro quando ouvi no rádio uma entrevista com Aurélio Schommer, curador da Flica (Festa Literária de Cachoeira). Ele comemorava os cinco anos de sucesso do evento, que se passa na deliciosa região do recôncavo baiano, onde é possível apreciar belas paisagens e comer pratos maravilhosos.

Torço muito pela Flica, porque o calendário cultural baiano precisa de eventos além do Carnaval e do Festival de Verão, como temos a Mostra de Cinema em Vitória da Conquista, o Festival de Jazz na Chapada Diamantina e por aí vai. Mas algo na fala dele me incomodou. Em resumo, ele disse que a Bahia precisa de festas literárias e não de feiras de livros. Para ele, festas como a Flica celebram a literatura, e feiras vendem livros. Mas qual é o problema em vender livros? Como podemos fortalecer nosso mercado editorial e tornar a relação editoras-autores menos frágil se livros não forem vendidos? 

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Em 2015, a Feira de Livros da Bahia, ou Bienal do Livro Bahia, foi pro saco com a reforma do Centro de Convenções de Salvador. A Feira sempre acontecia em anos ímpares. A próxima será em 2016. Com problemas e méritos, uma feira de livros atrai público, faz do livro um acontecimento, coloca-o no centro das atenções. Qualquer ajuda é muito bem-vinda.

A mancada do comentário do curador da Flica está em não reconhecer a função gregária do livro. Apesar de ser, geralmente, um prazer solitário, a leitura gera muito barulho, no sentido de que as pessoas querem trocar ideias sobre os livros, séries, personagens, autores, temas e áreas de conhecimento de que mais gostam. Devemos ter um discurso inclusivo na hora de falar de leitura, de livros. Tanto a Flica como Bienal do Livro Bahia são eventos fundamentais no calendário cultural do Estado, que devem se fortalecer a cada nova edição. Vamos pensar em todos os públicos leitores!