BALANÇO DAS MINHAS SUBMISSÕES DE CONTOS EM 2017

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Até agora, em 2017, foram 6 submissões de contos. Enviei histórias para 2 revistas, 2 sites e 2 coletâneas (uma física e outra em e-book). Tive aprovação em 5 delas e estou aguardando o resultado da sexta.

Já tive aprovações em anos anteriores. Mas este está sendo o mais produtivo. Tanto pela quantidade quanto pela qualidade de quem está aprovando minhas histórias. E detalhe importante: não paguei para enviar os contos e não pagarei para vê-los publicados.

Como consegui esse fazer isso?

1) Muita leitura, muita (re)escrita e muito estudo. Não adianta apenas ler e escrever. É preciso fazer essas atividades de maneira crítica. Leia um conto ou romance a primeira vez para se divertir. Depois leia novamente com uma caneta na mão e com o suporte dos melhores livros sobre escrita (a internet também é uma ótima ferramenta, cheia de textos, entrevistas, vídeos, podcasts). Você não precisa reler cada livro que passa por sua mão. Mas faça isso com aquelas obras que te deixaram boquiaberto.

2) Aprenda com seus erros. Contos meus foram rejeitados antes. Depois eu entendi os motivos. Faltava alguma coisa neles, uma melhor abertura, foco, coesão. Ou havia algo demais, muitos personagens, estrutura confusa, infodump. Reescrevi ou joguei fora os contos rejeitados.

3) Ouça as pessoas. Forme um grupo de leitores beta, pequeno, mas confiável, de amigos de verdade, que seja leitores, se forem escritores melhor ainda, que critiquem sua escrita com propriedade e justiça. Além disso, valorize a opinião ou análise mais aprofundada de qualquer pessoa fora de seu círculo de convivência disposta a ler seus textos. Retorne o favor, seja um leitor beta. Você também aprenderá analisando a obra dos outros.

4) Seja paciente com feedbacks, resultados e datas de lançamento. Ninguém está louco para ler seu conto. Apenas você mesmo. Só depois é que os leitores vão chegando, devagarzinho.

5) Fuja dos picaretas. Participe de concursos, sites, revistas e coletâneas que valorizem seu trabalho e não seu dinheiro. Há gente séria e profissional realmente interessada em revelar talentos. Basta procurar. O esforço vale a pena.

6) E por último, há o fator sorte. A loteria do acaso que te coloca no lugar certo na hora certa. Mas sorte apenas não transforma ninguém em escritor. Antes vem o trabalho duro.

APOSTANDO NA NOVELA DE FC, FANTASIA E TERROR

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Alguma editora nacional devia apostar num selo de novelas contemporâneas de ficção científica, fantasia e terror, de autores estrangeiros e, principalmente, brazucas. Apenas no formato em e-book, com edições simples, mas profissionais.

A ficção curta ganhou novo fôlego na era digital. As pessoas estão mais dispostas a ler histórias mais rápidas, em diversas plataformas.

Muitas vezes queremos uma leitura que nos engaje enquanto estamos no ônibus, no metrô, na fila do banco, do supermercado, no intervalo da aula. Deixando os romances para ler na poltrona, na cama. E a novela vem mostrando ser um formato interessante para suprir essa necessidade de leitura fora de casa.

Não tenho uma pesquisa científica para comprovar essa tese, mas é algo que concluo a partir de minha própria experiência, de amigos e de gente que fala sobre isso na internet.

Muitos torcem o nariz para o conto por achar que não há material suficiente para um investimento emocional (o que pra mim é uma bobagem). Mas com a novela é diferente. Os viciados em romances estão mais abertos a ler romances menores. Ainda mais se fizerem parte de uma série.

Se fossem novelas bem editadas e com preços acessíveis, poderiam ser até um novo filão do mercado. Um sucesso que nem mesmo a pirataria pudesse prejudicar. Se o selo tivesse uma identidade, uma cara própria, poderia conquistar os leitores. E eles fariam de tudo para apoiar a iniciativa, principalmente, comprando os e-books.

As novelas da Tor são um sucesso. Claro que estamos falando do mercado americano, que atende uma audiência mundial. E muitos dizem que é um caso isolado. Mas a Tor apostou e agora está colhendo os frutos em vendas e prêmios.

Também dizem que o e-book no Brasil não decolou etc. etc. Não sei. Quem está dentro do mercado sabe mais do que eu. Só acho que seria interessante a gente ver novelas de FC, terror e fantasia sendo lançadas regularmente e criando uma expectativa no leitor, gerando buzz. É um formato que agrada a gregos e troianos. E talvez mais de acordo com a disponibilidade de tempo dos autores nacionais.

Prova do potencial do formato são novelas lançadas recentemente apenas em e-book. Tenho lidos ficções curtas independentes e de pequenas editoras bem editadas, de autores talentosos e com boa repercussão. Algumas superando expectativas.

No mercado editorial, a palavra aposta é o que move esse negócio meio louco que é publicar e vender livros. Há muita frustração, mas também há resultados surpreendentes.

PARABÉNS AOS INDEPENDENTES!

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No dia 18 de março, comemora-se o Indie Book Day, o Dia da Publicação Independente, iniciativa do editor alemão Daniel Beskos. É uma forma de incentivar os leitores a prestigiar livrarias e editoras independentes.

As editoras independentes preenchem uma demanda de mercado importante, principalmente, na literatura de gênero: ficção científica, terror, fantasia e outros. Muitas vezes, oferecem aos leitores livros mais instigantes dos que as grandes casas. Além de abrir as portas para autores nacionais talentosos.

Mas meu foco aqui será sobre a autopublicação, essa guerra do exército de um autor só.

Acho que não é mais novidade para ninguém dizer que autopublicação é coisa séria. Antes considerada um mero puxadinho do mercado editorial, coisa de farofeiro, atualmente, editoras e agentes estão atentos a essa produção, a fim de garimpar novos sucessos de vendas. Claro que não é tão simples assim, e está longe de ser um conto de fadas. Mas o grande benefício que a autopublicação trouxe para autores e leitores foi a publicação de livros que as editoras deixaram passar.

Um livro bom nem sempre desperta o interesse de uma editora. Por uma série de fatores, cronograma de publicações, tendências do mercado, potencial de vendas. Editoras precisam pagar contas num negócio de risco. Não dá para apostar em um autor novato só porque seu livro é bom. É uma questão de sorte também para o autor. Estar no lugar certo, na hora certa. Editoras não descobrem mais autores. Elas apostam no que é mais ou menos garantido, seja no thriller independente que todo mundo comentou nas redes sociais ou no romance erótico que bombou no Wattpad.

Dar o salto do independente para ser cuidado por uma editora, por menor que ela seja, é algo que deve ser almejado, mas não a qualquer custo. Autopublicação significa trabalho em dobro para o autor, que se torna, mais do que nunca, empresário de sua própria carreira, mas também significa liberdade em dobro. Pesquisando e contratando as pessoas certas, um livro independente pode ter, hoje em dia, a mesma qualidade do que um livro das melhores editoras. Mas aí vêm os problemas: o custo do livro será mais alto para o independente, haverá maior dificuldade para divulgação e distribuição. Claro que há o e-book, mais barato de produzir (nem tanto assim) e mais acessível. Mas o livro físico ainda é um sonho para o autor e um conforto para o leitor. Sendo que edições em papel mais caprichadas estão ganhando a preferência do público.

A questão é que, mesmo que você publique um livro por um editora, isso não significa que todos os seus outros livros seguirão o mesmo caminho. Há livros que as editoras não querem publicar e ponto, ou porque não fazem parte da linha editorial delas, ou porque não acreditam no seu projeto, por mais profissional que sejam forma e conteúdo.

Uma porta para outras oportunidades, um fim em si mesmo, não importa, a autopublicação veio para ficar e precisa ser levada a sério, principalmente, por quem a produz.

A CORAGEM DO OSCAR

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Nunca fiquei tão feliz em estar errado. Na véspera do Oscar, chamei a Academia de covarde pelo favoritismo de La La Land. Mas Moonlight ganhou o prêmio de melhor filme. No final, a gafe histórica da troca de envelopes deu ainda mais emoção ao anúncio do verdadeiro vencedor.

A Academia premiou um filme que olha para o futuro, tanto na temática quanto na execução. Moonlight é um vigoroso estudo de personagem. Um filme com substância, honesto e sábio. E realizado com ousadia. Roteiro, montagem, fotografia, trilha sonora, atuações. Elementos combinados para quebrar tabus e estereótipos. Não foi feito para ganhar Oscar, mas acabou levando. E esse é o papel da premiação. Indicar e premiar o que de melhor o cinema americano pode produzir.

O Oscar foi um clube fechado por décadas. É uma tradição que Hollywood criou para adular a si mesma. Mas o prêmio precisa se reinventar. O mundo não gira mais em torno dele. Nem a própria indústria lhe dá tanta importância.

Moonlight custou 1,5 milhão de dólares e faturou até agora 26 milhões. É um sucesso de bilheteria, mas bastante modesto, comparado às grandes produções americanas. Do ponto de vista financeiro, o Oscar não interessa mais para os estúdios e executivos. A bilheteria de todos os nove indicados a melhor filme equivale ao faturamento de uma ou duas produções da Marvel.

Por que muita gente fica atenta aos festivais mundo afora? Pela habilidade desses eventos em mostrar filmes que de fato tem algo a dizer, com uma nova maneira de fazer cinema. Tirando erros e polêmicas, o saldo continua muito bom. Temos a chance de ver filmes de vários países. Cineastas, atores e outros profissionais da área são descobertos ou têm sua consagração em Cannes, Berlim, Veneza, Sundance.

Esta história de filme feito para ganhar Oscar tem que acabar. Geralmente, são produções com linguagens cansadas e esquecíveis. Os filmes relevantes têm que ser produzidos e cabe à Academia encontrá-los. Em meio à máquina de moer gente de Hollywood, a função da Academia é inspirar pessoas a dar o seu melhor como cineastas e seres humanos.

A COVARDIA DO OSCAR

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Os filmes do Oscar já deixaram de ser relevantes para a indústria. Não geram mais tendências, não guiam mais os estúdios para o que será produzido no ano seguinte. Para os executivos que dão o sinal verde, soltam a grana, fazem as ideias no papel acontecer, são os blockbusters que importam, há pelo menos uma década.

Claro que ganhar Oscar dá prestígio para produtores, diretores e roteiristas, pode mudar a carreira de atrizes e atores e até reforçar a bilheteria. Este ano, a maioria dos indicados a melhor filme foi sucesso de público do cinema independente, dando excelente retorno financeiro para seus investidores. Mas o público médio de cinema não se importa com esses filmes. E o faturamento deles fica bem atrás dos grandes sucessos, por exemplo, da Disney (Marvel/Star Wars), Universal (Velozes e Furiosos/Meu Malvado Favorito) e Warner (Animais Fantásticos/DC).

É por isso que o Oscar devia ser mais ousado em suas indicações e vencedores. O franco favorito deste ano é La La Land. Um filme que me desinteressou por completo por feder a nostalgia. Seria incrível se Moonlight, sobre autoconhecimento, homossexualidade, negritude e maravilhosamente executado, fosse o grande vencedor da noite. 

O Oscar devia sair do limbo, deixar de ser um clube vip. Devia indicar e premirar filmes de fato relevantes. Tornar-se uma referência crítica, a consciência de Hollywood. Porque o prêmio já deixou de ser o termômetro da indústria há muito tempo.

EU SOU ATEU

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Recentemente saiu uma matéria sobre a dificuldade de aceitação dos ateus no Brasil por serem minoria em um país tão religioso. Primeiro, devo dizer que sou ateu. Segundo, que isso pouco afeta meu dia a dia. E terceiro, que não gostei da matéria. Achei-a muito genérica. Claro que ateus em cidades menores têm suas vidas mais afetadas por suas convicções. No interior, geralmente, a vida social gira em torno das igrejas. Mas a matéria vacila ao não ouvir gente das periferias, que sofre a mesma pressão religiosa. Colocaram entrevistados de classe média como os mais oprimidos. E ainda citaram o escritor Richard Dawkins como referência, um ateu fundamentalista, que se acha o dono da verdade.

Não acredito que religião seja o ópio do povo. É uma questão complexa, parte da cultura humana. Se todas as religiões fossem apagadas da cabeça das pessoas hoje, amanhã outras surgiriam. Envolve uma série de questões da relação das pessoas consigo mesmas, com os outros, a natureza, o planeta, o Universo. Religiões são interpretações dos mistérios da existência e representações culturais da vida em sociedade. Neste caso, meu ateísmo acaba sendo mais uma interpretação, a partir do que procurei investigar e do que me foi apresentado ao longo da vida.

Agora fico irado com qualquer fundamentalista e aproveitador que explora a fé das pessoas, gera violência e interfere na vida pública para atingir direitos. O estado deve ser laico e qualquer um que diga o contrário vai comprar briga comigo. Não deve existir no currículo da rede pública aula de religião e nenhuma outra prática que favoreça essa ou aquela crença. Para isso, existem escolas específicas e os ambientes de convívio da família do aluno. Devem existir aulas ou oportunidades na escola pública em que todas as religiões sejam debatidas e todos os pontos de vista apresentados. As mulheres devem ter os mesmos direitos que os homens de tomar decisões sobre sua mente e seu corpo e nenhuma religião pode interferir nisso.  

Fico triste, enojado e revoltado com a intolerância geral, que é histórica e não uma invenção recente. Agora dizer que já fui discriminado porque sou ateu seria mentir. Como disse a escritora e editora Clara Madrigano, tente ser umbandista no Brasil para ver o que é discriminação.

A DC PODE SUPERAR A MARVEL NO CINEMA

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A Marvel está sapateando na cabeça da DC, no cinema, tanto nas bilheterias como na qualidade criativa de seus filmes. Mas a DC pode puxar o tapete da Marvel em breve.

Na verdade, a Warner/DC é a veterana em fazer filmes de super-heróis, começando lá atrás, nos anos 70, com o primeiro Superman. E reinou absoluta nesse filão por décadas. Tudo bem que apenas investindo em seus dois heróis mais icônicos, Superman e Batman. Mas foram filmes importantes para estabelecer, no mainstream, algo que ficava restrito ao fandom.

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Enquanto que a Marvel, por muitos anos, nunca teve uma parceria de longa duração com um estúdio, optando por vender os direitos de filmagem de seus heróis, fosse pela falta de recursos para produzir os próprios filmes, ou por problemas financeiros.

Mas esse cenário desfavorável começou a mudar quando o Marvel Studios produziu um filme com total controle da Casa das Ideias: Homem de Ferro, em 2008, um sucesso de público e crítica. Em 2009, o grupo Marvel foi comprado pela Disney. A partir daí, com grandes orçamentos à disposição e a supervisão afiada de Kevin Feige, a Marvel finalmente tinha condições de dominar o mundo das bilheterias.

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A Warner/DC fazia seus filmes de super-heróis sem tanta pressão, porque não havia concorrência. Isso até o lançamento de Homem de Ferro. Na época, a DC não se abalou tanto porque estava encantada com o Batman de Christopher Nolan. A trilogia de Nolan rendeu muito dinheiro, reconhecimento e Oscars. Mas atrasou a criação do universo cinematográfico da DC.

A situação piorou porque confiaram, informalmente, o comando desse universo a um diretor/produtor com um ego grande e um talento pequeno. O sr. Zack Snyder prometeu muito e entregou pouquíssimo. Batman vs Superman deveria ser um filme para abalar as estruturas, mas foi um fracasso criativo e uma decepção nas bilheterias.

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A Warner entrou em pânico e mutilou seu próximo lançamento, Esquadrão Suicida, para deixá-lo mais palatável. Outro fracasso criativo. Mas depois a Warner ficou mais calma. O filme é ruim, mas fez dinheiro.

Atualmente, o comando do universo DC no cinema está nas mãos de um cara dos quadrinhos, Geoff Johns , e um executivo da Warner,  Jon Berg. A ordem agora é ajustar o rumo. Internamente, a DC sabe que errou, que precisa mudar peças importantes para que seu grande plano deslanche. A ambição é conquistar bilheterias de U$ 1 bilhão, o aval da crítica e o coração do público, assim como a Marvel.

Mas a DC tem uma vantagem que pode fazê-la superar a concorrência.

A Warner é conhecida por dar liberdade criativa a seus diretores. O estúdio já se beneficiou e se prejudicou por conta disso. Mas a política continua. O que é um sinal de confiança no potencial de seus colaboradores.

No caso dos filmes da DC, inicialmente, a estratégia não deu certo. Escolheram a pessoa errada para dar essa liberdade. Porém, o futuro pode ser promissor.

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O próximo lançamento da DC é o filme da Mulher Maravilha. Apesar da decepção com Batman vs Superman e Esquadrão Suicida, o último trailer e o fato de ser o primeiro filme de super-heróis protagonizado e dirigido por mulheres estão gerando grandes expectativas.

Em um aspecto, a DC já ganhou da Marvel. Em bem menos tempo, deu muito mais espaço para a diversidade. Lembrando que Esquadrão Suicida é um filme que tem como protagonistas um homem negro, o Pistoleiro, e uma mulher branca, Arlequina. Além de ter um elenco multiétnico, com personagens relevantes, como Amanda Waller, uma mulher negra, e El Diablo, o primeiro super-herói latino com substância no cinema.

Sem falar no já confirmado filme solo do Batman, que será dirigido e estrelado por Ben Affleck. Um cara que já provou ter ambição em seus projetos e talento para executá-los.

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Ou seja, mesmo tendo a última palavra sobre esse universo DC, a Warner ainda tem muita a ganhar bancando as ideias dos seus colaboradores. Algo ao mesmo tempo diferente e lucrativo pode surgir dessa parceria. Porque o negócio do cinema tem a ver com dinheiro, mas também tem a ver com ego.

Já com a Marvel, o caminho é mais seguro e, por isso, mais previsível. Eles aprenderam a fazer filmes bem azeitados, mas aqui a rédea é mais curta. A liberdade criativa é muito mais limitada. E isso se reflete na estética, no tom e nas possibilidades de cada filme. Há uma padronização, uma linha de montagem. Hoje em dia, sabemos que, dificilmente, um filme da Marvel vai decepcionar o público. Assim como, sabemos que, dificilmente, irá surpreendê-lo.

Claro que essa virada da DC em cima da Marvel pode não se concretizar. Contudo, esse cenário de pulo do gato, de busca pela excelência, é uma projeção a partir de informações sólidas, não é uma mera vontade minha. Depois do lançamento do filme da Mulher Maravilha, da Liga da Justiça e da aventura solo do Batman, a gente conversa de novo.

PAGUE PARA PUBLICAR QUANDO VOCÊ FOR O CHEFE

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Apesar da crise econômica (do aumento dos custos e da diminuição das oportunidades), de gente gabaritada constatar, com números sólidos, que nosso mercado editorial para livros de FC e fantasia diminuiu nos últimos 5 anos e do fechamento ou fuga de grandes editoras, nada disso justifica ficar à mercê de editoras de fundo de quintal, que cobram caro e exigem absurdos para publicar, tomando todas as decisões editoriais. Se falta caráter já no lançamento de um edital para antologia ou nas regras para tirar seu romance da gaveta, então só espere dor de cabeça até você receber seus exemplares.

Por menor que seja, UMA EDITORA SÉRIA NÃO COBRA DO AUTOR. O investimento em um autor é uma parceria, uma via de mão dupla, em que o publisher e o editor entram com sua experiência de mercado para transformar um manuscrito em um romance com potencial artístico e/ou de vendas. A editora sabe como melhor promover, distribuir e comercializar o livro.

Mesmo confiando no trabalho de editoras sérias, a auto-publicação hoje é a maneira mais viável e realista de um escritor começar, seja no formato digital ou físico. É muito melhor se informar e procurar profissionais competentes para leitura crítica, preparação de texto, revisão, ilustração, capa, diagramação e uma gráfica com bom acabamento e preços justos. Você gastará mais ou menos grana, a depender da ambição de seu projeto. E com certeza, sua satisfação será muito maior. Você terá total controle editorial sobre sua obra.

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Claro que você terá que ralar mais para promover e vender seu livro. Mas tudo é aprendizado. Você vai acertar e errar. Quem sabe você chame atenção de uma editora séria e tenha a oportunidade de melhorar seu texto e de ampliar seu número de leitores. Isso pode acontecer. Tomara que aconteça. Mas não encare isso como o caminho natural das coisas.

Em geral, editoras publicam textos que vendem: tendências, modas, cópias de modelos do passado. Não é porque você é um puta escritor que você terá mais chance de ser publicado. Provavelmente, o escritor medíocre passará na sua frente. Mas nada disso importa na hora de escrever e publicar. O que importa mesmo é você entregar ao leitor o melhor produto possível, um texto trabalhado num formato bacana, atraente.

A auto-publicação digital veio para democratizar o acesso a todo tipo de literatura. Tirar das mãos dos gatekeepers a produção desse conteúdo. Em parte, uma demanda ignorada pelas grandes editoras. Em outra parte, uma demanda que as grandes editoras nem sabiam que existia, despertando interesse.

Fico muito feliz quando um autor independente que admiro consegue chamar atenção de uma editora séria, pequena ou grande. É um potencial reconhecido. É a chance de muito mais leitores terem contato com uma obra que, de alguma maneira, pode fazer a diferença.

HELL NO, TILDA!

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Tilda Swinton é uma grande atriz. E ela é muito requisitada por um tipo de performance camaleoa, em papéis que exigem curiosas transformações físicas. Mas quanto ao Ancião, mestre do herói no filme do Doutor Estranho, a defesa de sua escalação não tem muito fundamento. Ela podia estar no filme, interpretando outro personagem bad ass, como só ela sabe fazer. Mas o Ancião devia ser interpretado por uma atriz asiática, como a malaia Michelle Yeoh, acompanhando a brilhante ideia dos produtores de contratar uma mulher.

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Mesmo que exista uma reviravolta na trama que explique por que uma mulher branca se tornou o Ancião, essa justificativa seria muito conveniente.

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A Marvel está melhorando a representação de personagens negros em seu MCU (muuuito mais homens do que mulheres). Mas, em relação a personagens asiáticos, para cada acerto (Agents of SHIELD), comentem-se muitos vacilos e ainda contando (Thor, 1ª e 2ª temporadas do Demolidor e a série do Punho de Ferro vem aí, já cheia de controvérsia).

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A Marvel alega que mudanças são necessárias para fugir de estereótipos dos quadrinhos do passado. Concordo. Filmes são ótimas oportunidades de criticar, de corrigir abordagens racistas anteriores (que reverberam nos dias atuais) por serem veículos de grande audiência. Construir representações mais tridimensionais de heróis e vilões não-brancos, filme após filme, é uma necessária tentativa de mostrar que o mundo é um lugar mais plural, rico e complexo.

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É curioso a Marvel falar em mudanças, justamente em um filme sobre um cirurgião americano branco em crise que vai para a “mística” ásia encontrar uma cura e descobre poderes ocultos milenares. Este é um dos tropos mais racistas do passado que a Marvel manteve sem alterar nada.

POR QUE NÃO VEREI O OSCAR

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Na verdade, já faz alguns anos que não ligo para a cerimônia do Oscar. Fico satisfeito em ver a lista dos ganhadores na manhã seguinte, em algum site. Não quero perder mais meu tempo vendo um espetáculo geralmente arrastado,mal-escrito e dirigido, apesar de todo o luxo e o desfile de astros; muitos claramente desconfortáveis por estar ali, no palco ou na plateia. A graça era ver as reações e piadas fora do roteiro e um ou outro belo momento. Mas eram migalhas em um show tão longo.

O prêmio perdeu prestígio nessa era digital, de fácil acesso a informação e fácil produção de conteúdo.  Mas muita gente de Hollywood faz questão de marcar presença na cerimônia. Para a indústria de cinema, o jornalismo de entretenimento e uma parcela considerável dos compradores de ingressos pelo mundo, o Oscar ainda é importante. É uma maneira tradicional e lucrativa de promover filmes, uma fonte abundante de buzz e uma referência reconhecível, um selo de qualidade, para o grande público.

Um ator ser indicado ao prêmio pode significar um upgrade decisivo na carreira, melhores oportunidades de trabalho, com diretores e produtores de prestígio, cachês mais gordos. Ganhar um Oscar pode significar as portas do céu do estrelato, do protagonismo em grandes produções. A vaca no pasto viraria então filé-mignon.

Mas, em 2016, eu abriria uma exceção. Eu estava disposto a ver a cerimônia por um motivo: Chris Rock. Quando seu nome foi anunciado como apresentador, abri o maior sorriso. Adoro o cara. Não o astro de cinema, mas o comediante. Odeio quase todos os seus filmes, mas adoro seus shows de comédia. No cinema, Chris Rock é apenas um palhaço abusado. No palco, ele é um devastador comentarista social e político. Herdeiro direto de um gênio, Richard Pryor. Eu sabia que o Chris Rock do Oscar seria uma versão mais light dos palcos. De qualquer maneira, seria curioso ver seu humor ácido num ambiente tão quadrado e branco, agindo como um verdadeiro penetra.

Então as indicações foram anunciadas e a polêmica começou. Apenas atrizes e atores brancos foram indicados. Pior, dos indicados em todas as categorias, principalmente, nas de maior destaque, a maioria é de homens brancos. Segundo a Variety, dos 23 produtores indicados a melhor filme, sete são mulheres. Dos 17 roteiristas indicados, quatro são mulheres e não há nenhum representante de minorias. Um dos filmes mais fantásticos de 2015, Creed, teve apenas uma indicação, para Sylvester Stallone, deixando de fora o diretor e roteirista negro Ryan Coogler, que fez um dos mais intensos e criativos trabalhos dos últimos anos.

E aí está o verdadeiro problema. Os atores e diretores negros fizeram maior barulho contra o Oscar deste ano, com toda a razão, e algumas vozes latinas também, mas a falta de diversidade como um todo no prêmio é um reflexo da falta de diversidade nas produções americanas em geral, apesar do discurso de se abraçar talentos do mundo inteiro. Claro que houve um enorme avanço na última década, com atrizes negras protagonizando séries de TV de sucesso e atores indianos e asiáticos ganhando papéis de destaque, sem estereótipos, também na TV e em serviços de streaming. Mesmo assim, mesmo com o surgimento da chamada era de ouro da televisão, a grande maioria dos diretores, roteiristas e produtores é branca. No cinema, nos blockbusters, onde o dinheiro de verdade está, a diversidade é ainda menor, seja de cor, gênero, orientação sexual ou qualquer outra. Os verdadeiros donos da bola geralmente estão nos bastidores.

Fazer mudanças internas para tornar a Academia mais sintonizada como os novos tempos é louvável, mas não resolve o problema. Isso é apenas estancar a ferida, não é tratar a doença.

Pois é, Chris Rock. Fica pra próxima.