QUEM PODE IMAGINAR O NORDESTE?

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Nas últimas semanas, a escritora e pesquisadora Lidia Zuin publicou, em sua coluna no UOL, um texto com o título Amazofuturismo e Cyberagreste: por uma nova ficção científica brasileira. A proposta sugere um interesse em mapear e refletir sobre os novos rumos da nossa produção de ficção científica.

Alguns dias depois, o escritor e jornalista baiano Alan de Sá publicou um texto no Medium, Estão inventando o Nordeste. De novo. Alan se mostrou indignado com o que ele chamou de “interpretação equivocada de símbolos regionais”, referindo-se ao Cyberagreste. Em seguida, publicou um segundo texto, Por que fazer o Nordeste sertãopunk?, no qual detalha a proposta dele e dos autores Alec Silva e Gabriele Diniz de um movimento literário feito “por mãos nordestinas” e que valorize a pluralidade etnocultural da região.

A discussão Sertãopunk contra Cyberagreste ganhou corpo e esquentou os ânimos. Surgiram outras análises, memes e todo tipo de comentários nas redes sociais.

Chego junto nesse debate, como baiano, organizador da coletânea Estranha Bahia, citada por Alan de Sá, e participante da coletânea Cyberpunk, recentemente lançada pela editora Draco. Vou tentar ser o mais breve e objetivo possível, procurando não repetir o que já foi exposto.

Vamo vê colé de mermo dessa polêmica.

Afinal, quem pode imaginar o Nordeste? Essa pergunta é fácil de responder: todo mundo. Todo mundo mesmo. Agora o difícil é saber como.

Ninguém é dono da verdade. O que é diferente de ter convicções. Nenhum nordestino, por mais vivência que tenha, por mais pesquisas que faça, nunca vai conseguir compreender tudo o que o Nordeste é de fato e representa. Mas, por outro lado, o ser nordestino traz uma percepção única dessa experiência de pertencimento. Eu não consigo desligar meu ser baiano. Em nenhuma parte do mundo, seja por meio de falas, comportamentos e ideias. Mas também não existe fórmula para ser isso ou aquilo. Qualquer ser humano sofre influências culturais, e, ao mesmo tempo, não abre mão de sua individualidade. O que inclusive acaba contrariando estereótipos.

Portanto, esse como imaginar o Nordeste é um processo de construção, de troca de experiências e de conhecimentos, de saber quando ouvir e quando falar. E quem vem de fora da região, até de outros países, está convidado a saber o que é ser baiano, pernambucano, potiguar, maranhense, alagoano, piauiense, sergipano, paraibano e cearense, desde que tenha o coração aberto e a mente atenta. Querer conhecer e valorizar o Nordeste, com a melhor das intenções, não basta. É preciso que haja também leitura sensível para imaginá-lo.

Num primeiro momento, as ilustrações do universo Cyberagreste, do gaúcho Vitor Wiedergrün, me impressionaram, sim, pela estranha mistura de cangaço e cyberpunk. Pelo casamento perfeito entre o traço detalhista e as cores chapadas, lembrando bastante a obra de Moebius. Esses cangaceiros ciborgues tinham uma presença. Eram bonitos de ver. Mas num segundo momento, comecei a refletir sobre o sentido daquelas imagens, que narrativa contavam. Porque toda imagem conta uma história, mesmo uma imagem isolada. Seja o punho fechado erguido no ar de um Pantera Negra ou uma saudação nazista.

O próprio Vitor afirmou em entrevista a Lídia Zuin: “Eu sempre gostei da cultura brasileira e achava estranho não ver nada dessa cultura em obras de ficção e fantasia. Com o tempo, comecei a pensar e imaginar algumas fusões e, logo de cara, pensei como seria o Brasil em um futuro cyberpunk. Fiz algumas pesquisas e uns esboços de vestimentas do sul e do nordeste, mas acabei optando por iniciar os desenhos voltados para o sertão cyberpunk, daí o surgimento da série Cyberagreste”. Andriolli Costa, em seu podcast Poranduba, contou mais sobre os bastidores da criação de Vitor.

No final das contas, aquelas imagens se mostraram para mim como uma obra limitadora, por apresentar um futuro ironicamente parado no tempo, como se não tivesse existido um Nordeste do século 20 e do século 21. Deu-se mais relevância à iconografia de uma tradição popular, deixando de lado seus desdobramentos sociais e políticos. É uma arte bonita, mas vazia de sentido, de algo plenamente consciente do seu lugar no mundo. É o que vejo como nordestino, nascido e criado em Salvador, alguém que morou muitos anos no interior da Bahia e já rodou o Nordeste. E é esse vazio que pode gerar indignação, revolta de quem está inserido nesse contexto. De quem é filho da terra. Ainda mais quando se dá protagonismo a essa representação que nos fala tão pouco.

No grupo do Facebook do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), a escritora Cláudia Dugim falou sobre a distinção entre agenciamento e representatividade: “Qualquer autor pode ser inclusivo e proporcionar representatividade a uma minoria, sendo ele parte ou não dessa minoria, mas o agenciamento é diferente. O peso identitário e o lugar de fala, fazem do protagonismo um ponto crucial na narrativa, sem ambos os protagonismos, de autoria e personagem, não há Afrofuturismo, assim como não há Sertãopunk”.

De fato, o agenciamento é mais urgente, seja para autores negros, nordestinos, LGBTQ+ e de outras minorias. Mesmo porque pode haver convergência entre esses agenciamentos. Afinal, ninguém nunca é uma coisa só.

A representatividade também é importante, “é a habilidade de ver o outro, de reconhecer o outro”, como fala Ian Fraser, em seu texto Um bicho complicado. Ele bate muito na tecla da empatia. Porque realmente sem empatia não há conversa. E essa conversa precisa acontecer. É angustiante demais não tê-la, viver num estado permanente de incompreensão e de violência física e simbólica. Essa angústia pode se tornar algo extremamente nocivo para todos. Um caminho sem volta para a cultura de um país, inclusive para a convivência no dia a dia.

A coisa que mais abomino é injustiça. O texto de Lídia Zuin é equivocado ao dar protagonismo ao Cyberagreste, mas o texto dela não se trata de um discurso de ódio. Por isso, não devia ser retaliado como tal. Ao mesmo tempo, a revolta de Alan de Sá é legítima. O tom do seu primeiro texto foi acertado? Como disse um amigo meu, sem a agrestia de Alan esse debate necessário talvez nem tivesse começado. Vale ressaltar que, quatro meses atrás, o professor Alexander Meireles da Silva já tinha feito uma análise sobre Amazofuturismo e Cyberagreste em seu canal Fantasticursos, tornando-se uma das referências do texto de Lídia.

Acredito na radicalidade política como uma forma de ter clareza de pensamento. Definir o que é direita e esquerda ainda é fundamental para sabermos que atores e ideias buscam de fato uma transformação social. “Diálogo não é conciliação”, como fala a escritora, socióloga e youtuber Sabrina Fernandes, no seu canal Teze Onze. Diálogo é, por exemplo, ouvir, debater e dividir espaço com as minorias, promovendo-se uma relação de igualdade para todos. Conciliar é apenas ocupar os espaços cedidos por aqueles que detêm o poder e querem mantê-lo. Foi a conciliação que nos colocou nesse buraco político atual.

Os escritores nordestinos de ficção científica, terror e fantasia precisam marcar território como um ato de afirmação. Contudo, também devem estar abertos a uma vontade de agregar. Sabemos que, para muita gente no Sudeste, nordestino é tudo baiano. Mas não devemos, por isso, achar que só há inimigos fora do Nordeste. Trata-se também de um processo pedagógico para aqueles dispostos a nos ouvir. Porque queremos falar. E vamos falar independente da permissão de quem quer que seja.

Crédito da imagem: Juarez Paraíso

 

 

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MOSTRA LITERÁRIA DE SALVADOR

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Participei ontem da Mostra Literária de Salvador, como espectador, leitor e entusiasta da cena literária baiana. Um evento pequeno, mas bem organizado. O teatro SESI é um espaço aconchegante, cercado pela atmosfera boêmia e cultural do bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Nada melhor do que respirar literatura à beira do mar.

Fiquei sabendo do evento poucos dias antes. Achei estranho, já que tento ficar ligado às movimentações literárias da cidade. Parece que não houve muita divulgação. E só quando cheguei lá, fiquei sabendo da polêmica sobre falta de representatividade.

A programação inicial contava apenas com convidados, de Salvador e de outros estados, brancos ou considerados brancos. Houve uma revolta nas redes sociais, questionando como poderia acontecer um evento literário em Salvador sem autores e influenciadores negros. A bronca era justíssima.

A organização reconheceu o erro e reformulou a programação. Autores, quadrinistas, contadores de histórias, blogueiros e youtubers negros participaram das mesas de debate e ministraram oficinas. Todos ganharam com isso. Percebi um ambiente muito mais plural e uma troca mais rica de experiências literárias. Como disse o poeta e editor Alex Simões em um das mesas, os autores negros têm que forçar a barra e ocupar os espaços, sim.

A Mostra durou o dia inteiro com mesas, oficinas, sessões de autógrafos, sorteios de livros, doação de livros, vendas de livros. O mais bacana para mim foi entrar em contato com editoras e autores baianos que eu não conhecia. Em Salvador, há uma cena literária de guerrilha, como disseram nas mesas. Sempre houve uma tradição de pequenas editoras, que procuraram dar vazão à produção local, tentando levar ao leitor edições de qualidade. Já vi editoras daqui morrerem por vários motivos. E, vez ou outra, vejo outras nascerem. E a melhor forma de conhecê-las é circular pelos eventos literários.

Foi um prazer prestigiar o amigo Ian Fraser. Conhecer pessoalmente Alex Simões. Saber da existência da maravilhosa Lorena Ribeiro, com seu necessário canal Passos entre Linhas, daqui de Salvador, focado em literatura nacional. Bater um papo com o poeta Anderson Shon e falar sobre a urgência em consumir autores negros baianos vivos.

Nas duas mesas a que assisti, falou-se muito da crise do nosso mercado editorial, das transformações que estão ocorrendo e do papel do autor independente, capitaneando uma nova maneira de divulgar, vender e distribuir livros. O cenário é complicado, mas também o abalo do mercado pode gerar oportunidades para os autores nacionais, até mesmo em relação às grandes editoras.

Como disse o mediador Pedro Duarte, um cara que conhece muito os bastidores do mercado editorial: se está caro investir em autor estrangeiro, agora é a hora de investir em autor nacional, mais barato e acessível. As grandes editoras já acordaram para essa realidade, pelo menos, no gênero YA, para jovens adultos. Mas foi consenso na Mostra que as grandes editoras, as grandes livrarias e as distribuidoras têm que repensar suas práticas ultrapassadas para que o próprio mercado continue a existir.

A primeira edição da Mostra Literária de Salvador apresentou o potencial do evento. Tem tudo para crescer, incluir cada vez mais gente e ser uma referência na cena literária baiana.

MINHA V ODISSEIA DE LITERATURA FANTÁSTICA

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foto: Renata Cezimbra

O que dizer da minha experiência nessa V Odisseia? Baita lugar comum, mas vou falar sem medo de ser brega: FOI FANTÁSTICO! Pela primeira vez, testemunhei que, sim, existe uma cena de literatura fantástica no Brasil, criativa e batalhadora. E que, de alguma maneira, eu faço parte disso. Encontrei escritores em vários níveis: desde quem ainda pensa em escrever o primeiro livro ao autor consagrado. Além de conhecer editores, pesquisadores, capistas, diagramadores, ilustradores, artistas gráficos em geral e produtores culturais. Gente que já eram amigos virtuais e novas pessoas. Fiz contatos para futuros projetos meus, para prestação de serviços de uma galera muito talentosa.

Tive a honra (e a cara de pau de leitor fascinado pelo tema) de participar de uma mesa sobre Orixás e o Folclore Nacional, dividindo a fala com gente que preza muito a cultura popular: Nikelen WitterAndriolli Costa e Lauro Kociuba. Foi um grande aprendizado.

A Odisseia também foi uma correria danada. Muita gente pra ver em tão pouco tempo. Reencontrei amigos. Finalmente abracei e bati um papo ao vivo com amigos virtuais de anos. E troquei ideias com autores que eu admiro. Comprei livros, mas não consegui o autógrafo de todos, nem consegui tirar foto com todos. Fiquei feliz pelas boas conversas que tive com Artur VecchiDuda FalcãoAlex MandarinoMarcelo Augusto GalvãoRoberta SpindlerIan Fraser, Samir Machado de Machado, Thomas Olde Heuvelt, Andre Zanki Cordenonsi e Ana Cristina Rodrigues. E triste por ter apenas dito oi ou nem isso a Marco Antonio Santos FreitasJanayna Bianchi PinCristina LasaitisEvelyn PostaliChristopher KastensmidtKátia Regina SouzaKyanja LeeCesar Alcázar e Adri Amaral. Com certeza, a V Odisseia de Literatura Fantástica se tornou pra mim um marco. A minha Batalha de Yavin.

Quero agradecer ao Artur Vecchi pela generosidade e por realmente acreditar nos novos autores e tratá-los com tanto profissionalismo. Seu convite para a Odisseia foi aceito na hora, porque eu sabia que só tinha a ganhar. E minhas expectativas foram superadas. Obrigado também ao César Alcázar por fechar os detalhes da minha participação. E claro, agradeço ao Duda Falcão, Cristiane Marçal e Christian David por também terem proporcionado mais um momento de vitória da lit fan nacional.

O DRAMA DA POPULAÇÃO SÍRIA

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Quem sofre com o fogo cruzado entre as potências é o povo da Síria. A cobiça por aquele território é histórica, por causa de seus campos de petróleo e de gás e a localização estratégica entre Oriente e Ocidente. A Síria, como país, surgiu depois da Primeira Guerra Mundial, uma imposição europeia. Na última década, países ocidentais, encabeçados pelos EUA, com apoio da Turquia e Arábia Saudita, disputam o controle político e econômico da região contra a China, Irã e, principalmente, a Rússia, que apoiam o presidente Bashar al-Assad. Ele governa com mão de ferro, para revolta da população, empobrecida pelo desemprego e a decadência da infraestrutura do país. Por isso, começou a guerra civil, com parte da oposição financiada pelo Ocidente. E a repressão do governo aumentou bastante. Para piorar a situação, o Estado Islâmico e a Al-Qaeda viram uma oportunidade de se aproveitar do caos na Síria para recrutar gente e expandir seu poder de influência.

O contexto da região é complexo, remonta há milhares de anos, sob o domínio de impérios orientais e ocidentais. Mas o que é fácil entender é que o povo da Síria, os civis que não pegam em armas, sofre todos os horrores dessa guerra, causando as migrações em massa, inclusive para a Europa. A ONU, que deveria ter um papel moral e humanitário decisivo nessa questão, rende-se às vontades dos governos dos EUA, França e Grã-Bretanha, que afirmam que a única maneira de resolver o problema é pela força. A cruel verdade é que Assad massacra a população síria. Os extremistas islâmicos fazem lavagem cerebral em meninos e transformam meninas em escravas sexuais. E o Ocidente ou fica de braços cruzados, ou fecha as fronteiras, ou joga bombas em suas cabeças, como está acontecendo agora.

O HARVEYGATE E SEUS CÚMPLICES

'KILL BILL: VOLUME 1' FILM PREMIERE, LOS ANGELES, AMERICA - 29 SEP 2003

Estrelas e astros de Hollywood deixam aquela impressão de que estão acima de muita coisa, acima do bem e do mal, do que é ético e anti-ético, por causa da condição peculiar da indústria em que trabalham. Indústria essa que é uma mescla de poder econômico e simbólico, uma combinação praticamente perfeita entre dinheiro, glamour e imaginário popular.

Muita gente com poder de decisão em Hollywood acha que são deuses, que podem fazer de tudo sem medir as consequências. Principalmente, atingindo quem não tem poder nenhum e busca um sonho, qualquer que seja, não façamos aqui juízo de valor das vítimas. Então crianças e jovens, garotos e garotas, em nome do objetivo de fazer parte dessa indústria cheia de magia, submetem-se a todo tipo de humilhações e abusos.

O produtor Harvey Weinstein pensava que era deus. E agora ficou claro que deuses podem ser mortos. Mas o que dizer de seus cúmplices? O cineasta Quentin Tarantino tardiamente admitiu que sabia do comportamento monstruoso de Weinstein e que não fez muita coisa a respeito. Para piorar,  a atriz Mira Sorvino, que foi namorada de Tarantino, foi uma das vítimas de Weinstein.

Por outro lado, Brad Pitt, quando soube do assédio de Weinstein em cima da então namorada Gwyneth Paltrow, encostou o cara na parede durante uma festa e o ameaçou. O diretor e roteirista Kevin Smith (que, assim como Tarantino, deve a carreira a Weinstein) o criticou duramente, sentiu-se envergonhado e repassou o restante dos lucros de sua parceira com Weinstein para uma fundação de apoio a cineastas mulheres. Seth Rogen, por saber da fama de Weinstein, nunca quis trabalhar com ele.

Assédio em Hollywood é algo infelizmente muito antigo. Há notórios assediadores, como o cineasta Alfred Hitchock. Harvey Weinstein foi um dos maiores predadores da indústria do cinema, provavelmente o pior nas últimas décadas. Pelos vários depoimentos de suas vítimas, desde modelos e atrizes desconhecidas a estrelas como Angelina Jolie, percebe-se que seu assédio era algo fora comum, mesmo em Hollywood. Era sistemático e contava com uma rede de cúmplices. Os atores Matt Damon e Ben Affleck se viram no meio de um furação de críticas, com suspeitas de encobertar o comportamento de Weinstein e pela demora em se pronunciar. Ambos foram revelados, com sucesso de bilheteria e Oscars, no filme Gênio Indomável (1997), produzido por Weinstein.

Evidente que existe certa hipocrisia na condenação a Weinstein. A Academia do Oscar o expulsou, mas entre seus membros encontramos outros assediadores, inclusive, acusados e condenados pela Justiça, como Bill Cosby e Roman Polanski.  Entre os jovens atores, Casey Afleck é o nome mais comentado.

Mesmo assim o Harveygate é uma revolução. Assediadores estão perdendo seus empregos e poder no mundo do entretenimento. E essas denúncias estão inspirando vítimas de outras áreas a se levantar.

BALANÇO DAS MINHAS SUBMISSÕES DE CONTOS EM 2017

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Até agora, em 2017, foram 6 submissões de contos. Enviei histórias para 2 revistas, 2 sites e 2 coletâneas (uma física e outra em e-book). Tive aprovação em 5 delas e estou aguardando o resultado da sexta.

Já tive aprovações em anos anteriores. Mas este está sendo o mais produtivo. Tanto pela quantidade quanto pela qualidade de quem está aprovando minhas histórias. E detalhe importante: não paguei para enviar os contos e não pagarei para vê-los publicados.

Como consegui esse fazer isso?

1) Muita leitura, muita (re)escrita e muito estudo. Não adianta apenas ler e escrever. É preciso fazer essas atividades de maneira crítica. Leia um conto ou romance a primeira vez para se divertir. Depois leia novamente com uma caneta na mão e com o suporte dos melhores livros sobre escrita (a internet também é uma ótima ferramenta, cheia de textos, entrevistas, vídeos, podcasts). Você não precisa reler cada livro que passa por sua mão. Mas faça isso com aquelas obras que te deixaram boquiaberto.

2) Aprenda com seus erros. Contos meus foram rejeitados antes. Depois eu entendi os motivos. Faltava alguma coisa neles, uma melhor abertura, foco, coesão. Ou havia algo demais, muitos personagens, estrutura confusa, infodump. Reescrevi ou joguei fora os contos rejeitados.

3) Ouça as pessoas. Forme um grupo de leitores beta, pequeno, mas confiável, de amigos de verdade, que seja leitores, se forem escritores melhor ainda, que critiquem sua escrita com propriedade e justiça. Além disso, valorize a opinião ou análise mais aprofundada de qualquer pessoa fora de seu círculo de convivência disposta a ler seus textos. Retorne o favor, seja um leitor beta. Você também aprenderá analisando a obra dos outros.

4) Seja paciente com feedbacks, resultados e datas de lançamento. Ninguém está louco para ler seu conto. Apenas você mesmo. Só depois é que os leitores vão chegando, devagarzinho.

5) Fuja dos picaretas. Participe de concursos, sites, revistas e coletâneas que valorizem seu trabalho e não seu dinheiro. Há gente séria e profissional realmente interessada em revelar talentos. Basta procurar. O esforço vale a pena.

6) E por último, há o fator sorte. A loteria do acaso que te coloca no lugar certo na hora certa. Mas sorte apenas não transforma ninguém em escritor. Antes vem o trabalho duro.

APOSTANDO NA NOVELA DE FC, FANTASIA E TERROR

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Alguma editora nacional devia apostar num selo de novelas contemporâneas de ficção científica, fantasia e terror, de autores estrangeiros e, principalmente, brazucas. Apenas no formato em e-book, com edições simples, mas profissionais.

A ficção curta ganhou novo fôlego na era digital. As pessoas estão mais dispostas a ler histórias mais rápidas, em diversas plataformas.

Muitas vezes queremos uma leitura que nos engaje enquanto estamos no ônibus, no metrô, na fila do banco, do supermercado, no intervalo da aula. Deixando os romances para ler na poltrona, na cama. E a novela vem mostrando ser um formato interessante para suprir essa necessidade de leitura fora de casa.

Não tenho uma pesquisa científica para comprovar essa tese, mas é algo que concluo a partir de minha própria experiência, de amigos e de gente que fala sobre isso na internet.

Muitos torcem o nariz para o conto por achar que não há material suficiente para um investimento emocional (o que pra mim é uma bobagem). Mas com a novela é diferente. Os viciados em romances estão mais abertos a ler romances menores. Ainda mais se fizerem parte de uma série.

Se fossem novelas bem editadas e com preços acessíveis, poderiam ser até um novo filão do mercado. Um sucesso que nem mesmo a pirataria pudesse prejudicar. Se o selo tivesse uma identidade, uma cara própria, poderia conquistar os leitores. E eles fariam de tudo para apoiar a iniciativa, principalmente, comprando os e-books.

As novelas da Tor são um sucesso. Claro que estamos falando do mercado americano, que atende uma audiência mundial. E muitos dizem que é um caso isolado. Mas a Tor apostou e agora está colhendo os frutos em vendas e prêmios.

Também dizem que o e-book no Brasil não decolou etc. etc. Não sei. Quem está dentro do mercado sabe mais do que eu. Só acho que seria interessante a gente ver novelas de FC, terror e fantasia sendo lançadas regularmente e criando uma expectativa no leitor, gerando buzz. É um formato que agrada a gregos e troianos. E talvez mais de acordo com a disponibilidade de tempo dos autores nacionais.

Prova do potencial do formato são novelas lançadas recentemente apenas em e-book. Tenho lidos ficções curtas independentes e de pequenas editoras bem editadas, de autores talentosos e com boa repercussão. Algumas superando expectativas.

No mercado editorial, a palavra aposta é o que move esse negócio meio louco que é publicar e vender livros. Há muita frustração, mas também há resultados surpreendentes.

PARABÉNS AOS INDEPENDENTES!

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No dia 18 de março, comemora-se o Indie Book Day, o Dia da Publicação Independente, iniciativa do editor alemão Daniel Beskos. É uma forma de incentivar os leitores a prestigiar livrarias e editoras independentes.

As editoras independentes preenchem uma demanda de mercado importante, principalmente, na literatura de gênero: ficção científica, terror, fantasia e outros. Muitas vezes, oferecem aos leitores livros mais instigantes dos que as grandes casas. Além de abrir as portas para autores nacionais talentosos.

Mas meu foco aqui será sobre a autopublicação, essa guerra do exército de um autor só.

Acho que não é mais novidade para ninguém dizer que autopublicação é coisa séria. Antes considerada um mero puxadinho do mercado editorial, coisa de farofeiro, atualmente, editoras e agentes estão atentos a essa produção, a fim de garimpar novos sucessos de vendas. Claro que não é tão simples assim, e está longe de ser um conto de fadas. Mas o grande benefício que a autopublicação trouxe para autores e leitores foi a publicação de livros que as editoras deixaram passar.

Um livro bom nem sempre desperta o interesse de uma editora. Por uma série de fatores, cronograma de publicações, tendências do mercado, potencial de vendas. Editoras precisam pagar contas num negócio de risco. Não dá para apostar em um autor novato só porque seu livro é bom. É uma questão de sorte também para o autor. Estar no lugar certo, na hora certa. Editoras não descobrem mais autores. Elas apostam no que é mais ou menos garantido, seja no thriller independente que todo mundo comentou nas redes sociais ou no romance erótico que bombou no Wattpad.

Dar o salto do independente para ser cuidado por uma editora, por menor que ela seja, é algo que deve ser almejado, mas não a qualquer custo. Autopublicação significa trabalho em dobro para o autor, que se torna, mais do que nunca, empresário de sua própria carreira, mas também significa liberdade em dobro. Pesquisando e contratando as pessoas certas, um livro independente pode ter, hoje em dia, a mesma qualidade do que um livro das melhores editoras. Mas aí vêm os problemas: o custo do livro será mais alto para o independente, haverá maior dificuldade para divulgação e distribuição. Claro que há o e-book, mais barato de produzir (nem tanto assim) e mais acessível. Mas o livro físico ainda é um sonho para o autor e um conforto para o leitor. Sendo que edições em papel mais caprichadas estão ganhando a preferência do público.

A questão é que, mesmo que você publique um livro por um editora, isso não significa que todos os seus outros livros seguirão o mesmo caminho. Há livros que as editoras não querem publicar e ponto, ou porque não fazem parte da linha editorial delas, ou porque não acreditam no seu projeto, por mais profissional que sejam forma e conteúdo.

Uma porta para outras oportunidades, um fim em si mesmo, não importa, a autopublicação veio para ficar e precisa ser levada a sério, principalmente, por quem a produz.

A CORAGEM DO OSCAR

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Nunca fiquei tão feliz em estar errado. Na véspera do Oscar, chamei a Academia de covarde pelo favoritismo de La La Land. Mas Moonlight ganhou o prêmio de melhor filme. No final, a gafe histórica da troca de envelopes deu ainda mais emoção ao anúncio do verdadeiro vencedor.

A Academia premiou um filme que olha para o futuro, tanto na temática quanto na execução. Moonlight é um vigoroso estudo de personagem. Um filme com substância, honesto e sábio. E realizado com ousadia. Roteiro, montagem, fotografia, trilha sonora, atuações. Elementos combinados para quebrar tabus e estereótipos. Não foi feito para ganhar Oscar, mas acabou levando. E esse é o papel da premiação. Indicar e premiar o que de melhor o cinema americano pode produzir.

O Oscar foi um clube fechado por décadas. É uma tradição que Hollywood criou para adular a si mesma. Mas o prêmio precisa se reinventar. O mundo não gira mais em torno dele. Nem a própria indústria lhe dá tanta importância.

Moonlight custou 1,5 milhão de dólares e faturou até agora 26 milhões. É um sucesso de bilheteria, mas bastante modesto, comparado às grandes produções americanas. Do ponto de vista financeiro, o Oscar não interessa mais para os estúdios e executivos. A bilheteria de todos os nove indicados a melhor filme equivale ao faturamento de uma ou duas produções da Marvel.

Por que muita gente fica atenta aos festivais mundo afora? Pela habilidade desses eventos em mostrar filmes que de fato tem algo a dizer, com uma nova maneira de fazer cinema. Tirando erros e polêmicas, o saldo continua muito bom. Temos a chance de ver filmes de vários países. Cineastas, atores e outros profissionais da área são descobertos ou têm sua consagração em Cannes, Berlim, Veneza, Sundance.

Esta história de filme feito para ganhar Oscar tem que acabar. Geralmente, são produções com linguagens cansadas e esquecíveis. Os filmes relevantes têm que ser produzidos e cabe à Academia encontrá-los. Em meio à máquina de moer gente de Hollywood, a função da Academia é inspirar pessoas a dar o seu melhor como cineastas e seres humanos.

A COVARDIA DO OSCAR

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Os filmes do Oscar já deixaram de ser relevantes para a indústria. Não geram mais tendências, não guiam mais os estúdios para o que será produzido no ano seguinte. Para os executivos que dão o sinal verde, soltam a grana, fazem as ideias no papel acontecer, são os blockbusters que importam, há pelo menos uma década.

Claro que ganhar Oscar dá prestígio para produtores, diretores e roteiristas, pode mudar a carreira de atrizes e atores e até reforçar a bilheteria. Este ano, a maioria dos indicados a melhor filme foi sucesso de público do cinema independente, dando excelente retorno financeiro para seus investidores. Mas o público médio de cinema não se importa com esses filmes. E o faturamento deles fica bem atrás dos grandes sucessos, por exemplo, da Disney (Marvel/Star Wars), Universal (Velozes e Furiosos/Meu Malvado Favorito) e Warner (Animais Fantásticos/DC).

É por isso que o Oscar devia ser mais ousado em suas indicações e vencedores. O franco favorito deste ano é La La Land. Um filme que me desinteressou por completo por feder a nostalgia. Seria incrível se Moonlight, sobre autoconhecimento, homossexualidade, negritude e maravilhosamente executado, fosse o grande vencedor da noite. 

O Oscar devia sair do limbo, deixar de ser um clube vip. Devia indicar e premirar filmes de fato relevantes. Tornar-se uma referência crítica, a consciência de Hollywood. Porque o prêmio já deixou de ser o termômetro da indústria há muito tempo.