A HISTÓRIA SECRETA DA MULHER MARAVILHA

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O surgimento da Mulher Maravilha nos quadrinhos é uma mistura de contexto social e vida pessoal. Seu criador, William Moulton Marston, era um entusiasta sincero do movimento feminista, nas primeiras décadas do século 20, nos EUA. Mas também era alguém polêmico e contraditório. E a figura de sua heroína, corpo e mente, foi inspirada em três importantes mulheres de sua vida. O livro de Jill Lepore mostra que a Mulher Maravilha é fruto direto da longa e difícil luta de uma era marcante do feminismo.

Marston nasceu em 1893. Atlético, carismático e multitalentoso, desde garoto, muita gente e, mais do que ninguém, o próprio Marston acreditavam que ele estava destinado a realizar grandes feitos. Aluno de destaque em Harvard, foi líder em várias atividades universitárias. Escritor prodígio de roteiros de cinema, venceu um importante concurso da época. O filme Jack Kennard, Coward foi produzido em 1915, mas teve uma exibição limitada. Anos depois, Marston se tornou consultor do estúdio Universal durante a transição do cinema mudo para o sonoro.

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William Moulton Marston

Em Harvard, estudou Direito e Psicologia. Sua ambição era se dedicar a uma vida acadêmica de prestígio. Mas, ao se formar, as coisas não saíram como planejado. Marston exerceu várias profissões e tocou alguns negócios, fracassando na maioria dos seus projetos. Advogado, pesquisador, professor, romancista, escritor de livros teóricos, publicitário, dentre outras atividades. Também foi processado por credores e investigado pelo FBI por um caso de fraude. Praticamente, por onde ele passava gerava controvérsias por suas ideias nada convencionais sobre a natureza humana (ele não via o homosexualismo e travestismo como desvios) e a relação entre homens e mulheres (para ele, os homens teriam muito mais a ganhar num mundo dominado pelas mulheres). Seus estudos eram considerados pouco científicos. Ele se tornou persona non grata no mundo acadêmico.

Marston advogava a superioridade das mulheres. Ele acreditava que elas tinham uma moral mais elevada por serem mais atentas e honestas. Mas também afirmava que elas possuíam uma docilidade natural, uma tendência para o amor e a submissão, principalmente, no sexo, em práticas como o bondage, em que pessoas são amarradas e imobilizadas.

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A visão que Marston tinha das mulheres estava relacionada com sua criação, cercada por várias tias. E também pelo interesse intelectual despertado pelo aguerrido feminismo, nos EUA e Europa, do início do século 20. Mulheres iam às ruas, levantavam cartazes, enfrentavam a polícia, proferiam discursos, acorrentavam-se em lugares públicos, faziam greve de fome contra as opressões do patriarcado. Era um movimento fortemente influenciado pela mitologia grega, por mitos, como a Ilha de Lesbos, e poemas de Safo, nos quais as mulheres viviam com paz e progresso apenas entre elas. O que influenciou, na literatura, a criação de obras feministas importantes, como o romance Angel Island, de Inez Haynes Gillmore. O universitário Marston acompanhava toda essa revolução social de perto. Tão de perto que ele acabou se envolvendo amorosamente com duas mulheres à frente do seu tempo, de uma só vez.

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Os três acabaram formando uma família fora dos padrões. Uma casa com um marido, duas esposas e vários filhos. Um arranjo mantido em segredo a todo custo. Elizabeth Holloway, amiga de infância de Marston, trabalhou por muitos anos como editora de periódicos científicos e da Enciclopédia Britânica. Olive Byrne era uma estudante universitária quando conheceu o professor Marston. Ela abandonou os estudos para cuidar da casa. Holloway era conhecida por sua sabedoria e firmeza. Byrne por sua inteligência e vivacidade, além de sempre usar braceletes. Byrne era sobrinha de Margaret Sanger, uma pioneira do controle da natalidade. Para Sanger, a mulher devia ter todos os direitos sobre seu corpo, tornando-se mãe quando desejasse, e não encarando a maternidade como uma prisão inevitável. Sanger era uma personalidade reconhecida internacionalmente, com trânsito entre políticos e a elite. Ela não gostava de Marston, por considerá-lo uma fraude e alguém prejudicial à sua sobrinha. Mesmo assim, Marston tomou Sanger como uma das referências para criar a personalidade da Mulher Maravilha.

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Elizabeth Holloway, Olive Byrne, com seus braceletes, e Margaret Sanger

A primeira tentativa de Marston de marcar seu nome na História foi com a invenção do detector de mentiras. Na verdade, com o teste de detecção de mentiras, no qual se media a pressão sanguínea para avaliar alterações de humor. O teste nunca foi levado a sério por autoridades do judiciário e pela polícia, parte por preconceito pela novidade, parte pelas dúvidas de sua eficácia. Em 1921, um concorrente, John Augustus Larson, teve mais sorte. Seu polígrafo utilizava um conjunto de fatores (pressão sanguínea, pulsação, respiração e condutividade da pele) para saber se alguém estava mentindo. Em pouco tempo, Marston viu o polígrafo de Larson ser adotado por vários departamentos de polícia pelos EUA, enquanto seu teste era desacreditado. Anos depois, ao criar a Mulher Maravilha, ele usuraria o Laço da Verdade como uma metáfora ao seu teste. Marston nunca desistiu de promover a eficácia do teste, o que gerou grande repercussão na mídia, mas quase nenhum reconhecimento de fato e pouco retorno financeiro.

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Marston aplicando o teste de detecção de mentiras

Em 1940, já na meia-idade, frustrado profissionalmente, havia anos com a família sendo sustentada pelos empregos mais estáveis de Elizabeth Holloway, Marston deu uma entrevista para a revista Family Circle. O título era Don’t Laugh at the Comics (Não riam dos quadrinhos). Marston enaltecia o potencial educador dos quadrinhos, um fenômeno recente na cultura de massa, que conquistou as crianças (e adultos) e se tornou a maior preocupação de professores e pais. Para muitos, os quadrinhos era violentos, estimulavam a delinquência juvenil e estavam repletos de mensagens subliminares pervertidas. Havia quem considerasse a figura do Superman uma ode ao fascismo. O publisher da All-American Publications (que depois se fundiria com outras editoras para formar a DC Comics) Max Gaines ficou tão impressionado com as palavras de Marston que o contratou como consultor.

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Não demorou muito, Marston sugeriu a Gaines a criação de uma super-heroína. A partir de conversas em casa, Marston surgiu com a ideia de um contraponto aos heróis masculinos, um exemplo para as mulheres de todo o mundo. Alguém que pudesse vencer a guerra com o amor. Seria uma maneira de calar os críticos que achavam os quadrinhos violentos. Mesmo relutante, Gaines aprovou a ideia. Marston convidou Harry G. Peter, veterano ilustrador de revistas feministas, para dar vida a Suprema, the Wonder Woman (o editor da revista do Superman, Sheldon Mayer, achou melhor chamar a nova super-heroína apenas de Wonder Woman). Depois de alguns testes, Marston ficou satisfeito com o visual da Mulher Maravilha, inspirado no Capitão América, lançado um ano antes, e em protagonistas femininas de outros quadrinhos. A princesa amazona estreou em All Star Comics #8, em 1941, e logo se tornou um enorme sucesso. Finalmente, Marston conseguiu a fama e o dinheiro que tanto tinha perseguido ao longo da vida.

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A Mulher Maravilha se tornou tão querida pelos fãs quanto Superman e Batman. Apesar do sucesso da heroína, Gaines estava preocupado. Provavelmente, a revista da Mulher Maravilha foi a mais atacada na era de ouro dos quadrinhos. Autoridades e especialistas, em nome da moral e dos bons costumes, travaram uma guerra contra Marston e sua controversa criação. Para esses críticos, a Mulher Maravilha era um símbolo contra o casamento (a heroína era independente e nunca aceitava os pedidos do galã Steve Trevor) e uma apologia ao lesbianismo e a perversões sexuais. Gaines ficou realmente preocupado quando um homem, leitor entusiasmado da Mulher Maravilha, enviou uma carta elogiando o trabalho de Marston. O leitor era adepto de fetichismos. Marston rebateu todas as críticas, com argumentos pertinentes ou não, e com ajuda de especialistas simpáticos aos quadrinhos. Gaines tentava contornar o problema. Afinal, não podia perder um sucesso de vendas como a Mulher Maravilha. Sucesso resultante de uma mistura da figura determinada e altruísta da Mulher Maravilha com sua imagem, ao mesmo tempo, doce e sensual, inspirada nas pin-ups.

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À esquerda, pin-up desenhada pelo peruano Alberto Vargas (Esquire, 1942). Marston escrevia roteiros detalhados, principalmente, as maneiras de amarrar seus personagens.

Assim como outros super-heróis, a Mulher Maravilha participou dos esforços da 2ª Guerra Mundial contra o Eixo. Qualquer um que leia hoje os quadrinhos escritos por Marston vai notar como a Mulher Maravilha era uma personagem à frente do seu tempo. Infelizmente, ao redor dela, não havia muito do que Marston se orgulhar. As histórias da Mulher Maravilha promoviam um feminismo muito particular, no qual apenas a heroína era uma mulher independente, bela, forte e de bom coração. Nenhuma outra personagem feminina chegava aos seus pés, nem Etta Candy, a melhor amiga, gorda e devoradora de doces, muito menos as vilãs sensuais. Nem mesmo seu alter ego, Diana Prince, uma versão edulcorada da princesa amazona. Para piorar, os roteiros de Marston traziam o mesmo racismo e xenofobia de outros quadrinhos da época. Pessoas negras eram retratadas como bonecos de piche, de fala caipira. Assim como mexicanos eram quase selvagens. Na grande maioria, os vilões eram estrangeiros, principalmente alemães, representando o nazismo, e chineses e japoneses, o perigo amarelo.

Apesar dos ataques e críticas, Marston ficou à frente de sua criação até a morte, em 1947. Depois disso, a princesa amazona deixou a controvérsia de lado. O editor Robert Kanigher, que não gostava da personagem, ficou responsável pela revista. A Mulher Maravilha se tornou uma garota comportada. Nas décadas de 50 e 60, o conceito original de Marston foi bastante descaracterizado. O que só foi recuperado, de certa maneira, nos anos 1970, quando a Mulher Maravilha estampou a primeira capa da revista feminista Ms., as histórias de Marston  foram reeditadas e lançaram a série de TV com Linda Carter.

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Primeira capa da revista Ms. (1972)

The Secret History of Wonder Woman é uma leitura geralmente fluida, com mais informações pertinentes do que desnecessárias, rica em fotos e ilustrações e com alguns comentários afiados. A autora é historiadora, professora em Harvard e colaborada da revista The New Yoker. Nos anos 1970, uma geração de pesquisadoras americanas começou a resgatar os acontecimentos do movimento sufragista e feminista nos EUA, entre a segunda metade do século 19 e início do século 20. Era um tipo de elo perdido da historiografia feminista. Jill Lepore dá sua contribuição com seu livro, publicado em 2014.

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Nos quadrinhos, a volta triunfal da Mulher Maravilha se deu pelas mãos do desenhista e roteirista George Perez, em meados dos anos 1980. Em 75 anos de existência, entre altos e baixos, o brilho da princesa amazona nunca realmente se apagou. Presente em várias mídias e no imaginário popular por décadas, a Mulher Maravilha se tornou um dos símbolos mais relevantes da cultura pop.

The Secret History of Wonder Woman, de Jill Lepore, 410 págs., Knopf.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

HISTÓRIA DO BRASIL ALTERNATIVA

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A história alternativa é um subgênero da ficção científica pouco praticado no Brasil. As histórias alternativas mais interessantes fazem especulações sobre o passado para entender melhor o presente. Por isso, é sempre bem-vindo quando bons romances nacionais imaginam outros Brasis possíveis, como uma criativa reflexão sobre nossa realidade.

No caso de A Segunda Pátria, de Miguel Sanches Neto, e E de Extermínio, de Cirilo S. Lemos, temos obras escritas por um autor do mainstream e outro do fandom, respectivamente.

Como o próprio Sanches Neto reveleou, seu romance foi encomendado pela editora. A proposta era responder à pergunta: e se o presidente Getúlio Vargas se aliasse a Hitler às vésperas da Segunda Guerra Mundial? No universo criado por Sanches Neto, os nazistas dominaram o sul do Brasil. Então acompanhamos, em A Segunda Pátria, a abordagem de uma ficção especulativa escrita por alguém com experiência em romances históricos, mas iniciante na FC.

A maturidade literária é o que mais chama atenção em A Segunda Pátria. Prosa fluente, sagaz, ótima pesquisa histórica, utilizada para reproduzir a atmosfera e a mentalidade da época, com personagens bem desenvolvidos. O aspecto especulativo é sutil, mas assustador. Os protagonistas são um engenheiro negro e uma jovem nazista branca, em Santa Catarina. O interessante é que o autor, a partir de sua pesquisa, extrapola ou dá outros rumos a fatos e comportamentos, de início, reais. Acompanhamos um horror palpável, verossímil. Infelizmente, a trama perde seu rumo por vários capítulos, ao dar-se ênfase apenas ao ponto de vista da jovem nazista. É um estudo de personagem envolvente, muito bem executado, com nuances e dilemas, mas que faz a narrativa deixar de lado o cenário mais amplo. O que vai ser recuperado só no terço final do livro, com toda a força. Terminada a leitura, percebemos que A Segunda Pátria, apesar de sua estrutura irregular, é um romance corajoso.

E de Extermínio foi originalmente publicado como uma noveleta, reproduzida na primeira parte do romance. Cirilo S. Lemos muda acontecimentos da história do Brasil, misturando personagens fictícios com personalidades do passado. As décadas de 1930 e 1940 são retratadas com uma pegada dieselpunk, num contexto retrofuturista, em que a monarquia ainda comanda o país, mesmo que de maneira frágil. Tensões entre monarquistas, militares, comunistas e americanos mostram uma disputa de poder acirrada, num cenário de Dick Tracy e Rocketeer, à nossa maneira, onde o avanço convive com o atraso.

O texto é ágil e cheio de ação. Mas há também belas passagens durante a calmaria ou nos momentos de delírio, nos quais os personagens são aprofundados. A ressalva fica para a falta de coesão do livro, em que as partes formam um todo meio caótico. Porém, isso é um arranhão menor na prosa relevante e divertida do autor.

A literatura brasileira precisa de mais livros como A Segunda Pátria e E de Extermínio. Romances que conseguem, ao mesmo tempo, contar boas histórias e fazer a gente pensar melhor sobre as rachaduras na realidade de nosso país.

A Segunda Pátria, de Miguel Sanches Neto, 320 págs., Intrínseca

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

E de Extermínio, de Cirilo S. Lemos, 248 págs., Draco

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

CORRA QUE OS BRANCOS VÊM AÍ!

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Corra! é um filme brilhante. A intenção do diretor e roteirista Jordan Peele era promover uma reflexão sobre a condição do negro americano por meio de uma sátira, uma mistura de terror psicológico e comédia. Também podemos dizer que este é um dos melhores filmes de ficção científica dos últimos anos.

O hype é real. Principalmente, porque Peele conseguiu mostrar seu ponto de vista sem comprometer, em nenhum momento, o envolvimento do espectador com a narrativa, a trama. Corra! faz a gente pensar justamente por causa de sua história muito bem contada. Ao acompanharmos o horror passado pelo protagonista, entendemos todos os temas relevantes levantados pelo filme. O que é estar na pele de uma pessoa negra. Qual a ameaça que isso representa para sua própria vida pelo simples fato de você ser negro.

A grande sacada aqui não é mostrar antagonistas explicitamente racistas, gente que odeia pessoas negras, que quer matá-las violentamente. O contrário é mais assustador. Em Corra! os brancos adoram, idolatram os negros. Mas sua versão distorcida de admiração gera uma violência ainda mais perturbadora. Na verdade, esse fascínio pela figura do negro é superficial. Porque, mais uma vez, a dignidade de pessoas negras é tratada como coisa de quinta categoria, algo a ser descartado.

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Os temas de Corra! são muito sérios. Mas o filme é engraçado demais! Entenda: o humor não é de jeito nenhum leviano, insensível, inapropriado ou fora de lugar. Jordan Peele é um comediante muito famoso nos EUA. Ele é um dos criadores e protagonistas de Key & Peele, um programa no Comedy Central. É imperdível. No show, Peele faz diversos comentários sobre a condição do negro americano em esquetes hilários e afiados. Inclusive, alguns dos esquetes são bem assustadores, verdadeiras peças de comédia do absurdo.

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Então os fãs de Key&Peele podem ver em Corra! uma versão apurada das possibilidades de fazer terror, comédia e nonsense de Peele. É impressionante como no filme o terror não atrapalha a comédia e vice-versa. A habilidade do diretor em mudar o tom é mais um elemento que fez dessa produção barata um enorme sucesso de bilheteria. Custou US$4,5 milhões e até agora faturou mais US$ 214 milhões.

Outro triunfo é a escalação do elenco. Todos estão muito bem, novatos, desconhecidos e veteranos. O britânico Daniel Kaluuya faz o protagonista, o americano Chris, de forma tão convincente, com expressões faciais e corporais discretas, mas marcantes. A performance de Catherine Keener é magnética, numa atuação contida e poderosa. Outro destaque é o comediante Lil Rel Howery, no papel do melhor amigo de Chris. Ele rouba todas as cenas em que aparece.

Mas Corra! também tem seus problemas. Peele foi muito feliz em investir mais no terror psicológico, em mexer mais com nossas cabeças, do que no gore. Mas não evitou certos clichês do terror, certos sustos, principalmente, usando a trilha sonora macabra (aliás, excelente e original, com elementos hitchockianos, um toque de blues, R&B e música africana, sem estereótipos). E no terceiro ato, quando tudo é revelado ao espectador, algumas soluções fazem sentido, outras não. A grande revelação faz sentido. O motivo de Chris estar no meio daquela gente branca tão educada e amistosa. Mas outras revelações laterais não se encaixam, poderiam ter um rumo diferente, um melhor desenvolvimento, mais de acordo com o propósito dos antagonistas. Sim, estou falando do comportamento dos outros personagens negros daquela comunidade.

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Na sua estreia como diretor, Jordan Peele surpreende por sua segurança e ambição. Ele é um cinéfilo. Percebemos isso ao longo da trama, com suas referências a clássicos da ficção científica e do terror.

Corra! é um filme que nunca vimos antes. É uma poderosa reflexão sobre as várias faces do racismo no formato de uma sátira divertida e assustadora.

Corra! (Get Out), de Jordan Peele, 103 min., Blumhouse Productions, QC Entertainment e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

HITLER, ESCRITOR DE FICÇÃO CIENTÍFICA

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Publicado em 1954, Lord of the Swastika é a obra mais conhecida do autor de ficção científica Adolf Hitler. Acompanhamos a história de Feric Jaggar, um homem geneticamente perfeito que tem a ambição de varrer da face do planeta todo tipo de aberração mutante num mundo pós-nuclear.

Na verdade, o romance de Norman Spirad é um livro dentro de um livro, publicado em 1972. The Iron Dream é o texto integral do fictício Lord of the Swastika, acompanhado de um prefácio com a vida e obra do Hitler autor e um ensaio sobre seu clássico. Tudo faz parte do jogo metalinguístico dessa mistura de sátira e fantasia.

Nessa linha do tempo, Hitler deixa a Alemanha, depois de enfrentar problemas políticos, e emigra para os EUA, em 1919. Mas, tanto dentro como fora de Lord of the Swastika, Spinrad não está muito preocupado em criar universos alternativos verossímeis.

A intenção de Spirad foi construir uma ficção heroica exagerada, a partir da mentalidade delirante de Hitler. A linguagem é ridiculamente épica, com frases de efeito e uma sintaxe derramada. Ou seja, o livro é intencionalmente ruim.

O herói de Hitler é determinado, estrategista perfeito e cheio de razão. Os outros personagens são camaradas subordinados ou inimigos da pior espécie, aberrações. As primeiras cem páginas são movimentadas e o leitor consegue desfrutar as várias camadas do romance de Spinrad. Aquele universo leva o herói muito a sério e aí está a graça da coisa.

The Iron Dream é mais fantasia do que ficção científica. Principalmente, porque o herói puro, que se acha acima da maioria das outras criaturas, muitas retratadas como deformadas e vis, comporta-se como os protagonistas das histórias de espada e magia. Lembramos logo de Conan.

Portanto,  The Iron Dream também serve como uma crítica afiada à literatura de fantasia em geral, com seus heróis brancos e destemidos contra inimigos considerados inferiores, bestiais.

O livro não deixa de ser bastante violento, com a representação física da ideologia do herói em banhos de sangue empregando-se cassetetes, armas de fogo, balas de canhão, lança-chamas, bombas aéreas e por aí vai. O que leva o leitor a perceber como o racismo, a xenofobia, o machismo e a megalomania podem transformar o espírito de grupo, toda uma sociedade, numa força de destruição.

Infelizmente, o maior problema de The Iron Dream é que a piada se torna longa demais e vai perdendo a graça. A trama se torna repetitiva e previsível ao acompanharmos a ascensão do herói sem muitos obstáculos, sem nenhum dilema interior. Ainda mais para aqueles que conhecem um pouco da história da ascensão do próprio Hitler. Há toda uma analogia relacionada às disputas internas entre os nazistas, à Segunda Guerra Mundial, à União Soviética e aos judeus. Se The Iron Dream fosse uma novela, reuniria muito bem seus melhores momentos.

O romance se recupera nos capítulos finais com uma reviravolta chocante e provocativa.

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The Iron Dream, de Norman Spinrad, 288 páginas, Gateway.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

LEGION, X-MEN COM LSD

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A série Legion é a coisa mais diferente que já vi, na TV ou cinema, envolvendo super-heróis. O canal FX deu carta branca para o badalado showrunner Noah Hawley virar o universo dos x-men pelo avesso.

A narrativa de Legion é inspirada em diretores como Michel Gondry, David Lynch e Stanley Kubrick. A direção de arte é uma mistureba interessante de referências dos anos 60, 70 e atuais. Uma solução para cortar custos, mas que funcionou muito bem para dar um visual único à série. Outro atrativo é a trilha sonora. Quem curte aqui Pink Floyd?

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Provavelmente, o espectador médio, mesmo fãs da Marvel, vai achar tudo muito estranho e difícil de acompanhar. Há heróis, vilões e superpoderes, mas a atmosfera de sonho, de delírio talvez não agrade quem esperava uma narrativa mais linear, menos subjetiva.

A verdade é que Legion deu um novo fôlego às adaptações de super-heróis. Mesmo que pouca coisa dos quadrinhos tenha sido usada. Mas há uma ligação direta com os x-men, o que pode ser mais explorado no futuro.

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A história gira em torno do protagonista David Haller, interpretado com competência e carisma por Dan Stevens. Ele é o centro de tudo. Mas há espaço para o desenvolvimento dos outros personagens, até dos vilões. Mas quem rouba o show é Aubrey Plaza com sua performance ligada no 220v. Outro que faz a diferença é Jemaine Clement, com seu Oliver Bird irônico e bon-vivant.

Legion não é perfeito. Lá pelo meio, a criatividade dos roteiros cai de rendimento, dando voltas que não levam a lugar nenhum, para se recuperar no final. E quando se exige mais dos efeitos especiais, fica evidente a falta de grana para algo mais sutil. A série acompanha a tendência atual. São oito episódios que focam em um grande arco. Talvez a trama ficasse melhor amarrada em seis episódios.

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A segunda temporada já está confirmada. A questão é saber o que Hawley vai fazer daqui para frente. Os índices de audiência da primeira temporada não foram lá essas coisas para o padrão americano. Na casa de 1 milhão de espectadores ou menos por episódio. O canal FX reconhece a importância artística de Legion, mas sabe que é um produto difícil de vender. Para a série não acabar antes de fechar sua história, ela precisa de mais audiência. E geralmente, mais audiência significa concessões.

Mas não sofra por antecipação. Veja Legion. Abra sua mente e se divirta.

Legion, criada por Noah Hawley, 8 epsiódios (aprox. 50 min. cada), FX Productions, Marvel Television e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

CANIVETE SUÍÇO HUMANO

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Swiss Army Man é o filme mais filosófico sobre peido que você vai encontrar. Na verdade, flatulências são mais uma metáfora no caleidoscópio de significados dessa produção, ao mesmo tempo, tão vulgar e poética. Tecnicamente, o filme é perfeito. A fotografia é bonita sem ser artificial. A montagem é dinâmica, mas não parece videoclipe. A trilha sonora é outro triunfo, numa mistura de melancolia e êxtase. Inclusive vemos aqui uma espécie de musical, bem fora dos padrões. Os efeitos especiais e sonoros são loucos. Acontece um absurdo atrás do outro, mas você compra cada ideia. São muito bem executados e criativos.

Na maior parte do tempo, há um equilíbrio eficiente entre momentos de contemplação e de comédia alucinada. Só que nem sempre o ritmo é acertado. Mesmo sendo curto, o filme perde força lá pelo meio. Mas consegue se reerguer, tornando-se interessante e profundo novamente. A comédia vai dando cada vez mais espaço para o drama até a revelação final.

Paul Dano arrasa mais uma vez, numa performance exigente, sutil, cheia de camadas emocionais. E Daniel Radcliffe prova finalmente que existe vida após Harry Potter. Como um cadáver filosófico peidão, ele mostra que é um ator completo. É divertido na comédia e convincente no drama. E seu trabalho de corpo é incrível.

Os diretores Daniel Scheinert e Daniel Kwan (conhecidos como Daniels) fizeram Swiss Army Man para mostrar sua versão de coisas que odeiam, como piadas de peido no cinema, musicais e filmes de superação, como Náufrago. O título nacional, Um Cadáver para Sobreviver, é horroroso. O título original faz referência ao personagem de Radcliffe, que se transforma num canivete suíço humano literalmente.

Um Cadáver para Sobreviver (Swiss Army Man, 2016), de Daniels, 97 min., Tadmor e outros.

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FAROESTE NO JAPÃO

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A maneira mais empolgante de conhecer a história do Japão feudal é lendo o clássico Lobo Solitário. As aventuras do estoico ronin Itto Ogami e de seu nem sempre inocente filhinho Daigoro são, ao mesmo tempo, belas e brutais.

O roteiro de Kazuo Koike tem soluções narrativas ora sutis, ora de grande força, além da extensa pesquisa sobre o período Edo (1603-1868), o auge do xogunato, uma espécie de ditadura militar. Como o xogum comandava o país com mão de ferro, os daimiôs (senhores feudais) eram mantidos sob controle, até com o uso da violência. Os daimiôs rebeldes eram massacrados e o nome de sua família caía em desgraça. Os samurais sobreviventes, agora sem um senhor para servir, tornavam-se ronins, figuras errantes, assassinos de aluguel, bandidos de todo tipo. A arte de Goseki Kojima transforma todo esse contexto em imagens de um realismo e de uma fluidez cinematográficos.

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Em Lobo Solitário, a visão de mundo é aparentemente amarga, mas, no fundo, há um senso de justiça. Itto Ogami é um anti-herói à maneira dos cowboys interpretados por Clint Eastwood. Um canalha na superfície, mas que, no final, procura fazer o certo.

Este primeiro volume, relançado recentemente pela Panini, tem nove histórias fechadas, que dá para ler em um dia, de tão viciante. Terá periodicidade bimestral. A saga completa tem 28 volumes. (Quem não tiver tanta paciência pode investir nas edições omnibus da Dark Horse, em 12 volumes.)

A Panini lançou a série pela primeira vez no Brasil há mais de dez anos. Esta nova edição está bem cuidada. Bom papel, boa encadernação, revisão atenta. A diferença para a primeira versão está na contra capa, que agora tem a arte de Kojima. Na anterior, ambas as capas tinham a mesma arte de Frank Miller & Lynn Varley. Infelizmente, esta nova versão não tem os textos no posfácio sobre os autores do mangá, os bastidores da criação da série e o contexto do período Edo. Sugiro que baixem o scan da versão antiga apenas para ler estes textos, são bem interessantes.

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As aventuras do Lobo Solitário foram originalmente publicadas em revista, de 1970-1976. O formato de história curta casa muito bem com o estilo seco de seus criadores. Claro que existem certas liberdades para aumentar a dramaticidade dos acontecimentos (cabeças de cavalos, pernas e braços de inimigos são arrancados com um golpe de espada) e a estrutura das histórias segue uma formulazinha. Mas está valendo. A única coisa que incomodou mesmo foi o tratamento às personagens femininas. Elas ou são frágeis ou são mau-caráter.

Lobo Solitário é uma saga obrigatória para fãs de quadrinhos. E, para o público em geral, é uma leitura instrutiva e cheia de emoção.

Lobo Solitário volume 1, de Kazuo Koike e Goseki Kojima, 288 págs., Panini

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

AS 6 MELHORES HQS QUE LI EM 2016

6)Black Panther –A Nation Under Our Feet vol.1, de Ta-Nehisi Coates, Brian Stelfreeze e Laura Martin, 144 págs., Marvel.

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Não é a primeira vez que a Marvel convida um outsider para assumir um título. Ta-Nehisi Coates é um dos mais aclamados jornalistas americanos, principalmente, por suas reflexões sobre a condição do negro nos EUA. A ideia de ele escrever a nova fase da revista do Pantera Negra é muito interessante e oportuna. E o que Coates propõe é algo bastante ambicioso. Ele questiona a própria razão de ser de T´Challa/Pantera Negra como rei e protetor de Wakanda. Coates coloca o povo em primeiro plano, com seus medos e expectativas, questionando por que devem se submeter a uma monarquia. Este primeiro volume é o prenúncio de uma guerra civil? Coates é um jornalista, não é um ficcionista. Isso fica evidente na maneira como ele conduz a trama. Mais por diálogos do que pela ação. Muitas vezes, as falas têm um tom shakespeariano, épico. Visualmente, tudo é muito lindo e vibrante. As ilustrações de Brian Stelfreeze com as cores de Laura Martin criam uma atmosfera única, numa mistura de tradição com alta tecnologia, que o leitor só vai encontrar em Wakanda. Estou muito curioso para acompanhar a evolução do Pantera Negra como herói e de Coates como roteirista.

5) Blame! vol.1, Tsutomi Nihei, 248 págs., JBC.

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Primeira obra de destaque de Nihei, Blame! foi lançado no Japão há quase vinte anos. O próprio autor considera embaraçoso um trabalho de sua juventude ser publicado agora no Brasil. Mas ele não tem nada do que se envergonhar. Blame! é um mangá de visual impactante e ideias robustas. Inspira-se no cyberpunk para criar uma estética, ao mesmo tempo, fascinante e bizarra. Os personagens falam o mínimo. Humanos, ciborgues, seres geneticamente modificados. Há uma disputa de todos contra todos num lugar inteiramente de metal, com muitos andares, túneis e salas, uma estrutura que parece infinita. Nihei usa sua formação como arquiteto para deslumbrar o leitor com cenários incrivelmente detalhados. Para completar, a trama nos prende por seus mistérios e sua crueldade. Neste mundo, o sentido da vida é algo que precisa ser reconquistado.

4)Batman – A Corte das Corujas vol.1, de Scott Snyder, Greg Capullo e Jonathan Glapion, 176 págs., Panini.

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Scott Snyder é um dos melhores roteiristas de quadrinhos da última década. Em A Corte das Corujas, ele revigora o universo de Batman, criando uma das melhores fases do protetor mais obcecado de Gotham. São roteiros mais adultos e cheios de pesquisa, dando um peso e uma verossimilhança que tornam o drama e a ação mais intensos. A composição das páginas, as soluções visuais, são muito bonitas, de grande impacto, chegando ao visceral. Trabalho magnífico do ilustrador Greg Capullo e do colorista Jonathan Glapion. Batman enfrenta adversários à altura, que testam sua sanidade e seu corpo ao extremo e o fazem questionar suas convicções.

3) Pílulas Azuis, de Frederik Peeters, 208 págs., Nemo.

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HQ autobiográfica em que o autor conta a história de sua relação com a esposa e o enteado soropositivos. O grande mérito aqui é desmistificar a AIDS, humanizando as pessoas atingidas pela doença. Vamos saber como a paranoia social e o preconceito podem ser quebrados com a informação sobre maneiras de contágio, tratamento e a saúde dos soropositivos. No geral, o tom da HQ é leve, o relato de um cotidiano quase normal, mas há os momentos de angústia, dúvida, tristeza e desespero. Outra característica importante é a autocrítica. A HQ usa a metalinguagem. Uma obra consciente de que é uma obra. O autor fala sobre o dilema de expor ou não sua vida, as pessoas que ama. Mas, por outro lado, a HQ não poderia ajudar muita gente a entender melhor a AIDS, a não surtarem no convívio com soropositivos, a dar aos próprios soropositivos uma oportunidade de dizer que são pessoas iguais às outras, que também querem tocar a vida?, pensa o autor. O traço cru das ilustrações, em preto e branco, funciona muito bem ao mostrar, com franqueza, o cotidiano diferente de uma família comum.

2)Nimona, de Noelle Stevenson, 272 págs., Intrínseca.

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Todo mundo devia ler Ninoma. As meninas para se inspirarem numa figura feminina que não aceita classificações de nenhuma forma. Os meninos para admirarem uma garota fora dos padrões que vai fazê-los repensar muita coisa sobre o universo das mulheres. Esta é uma graphic novel que não se leva a sério, na superfície, mas que possui um subtexto muito consciente e rico, sem pesar a mão. A mistura inusitada de fantasia medieval e ficção científica resulta numa paródia com cara de desenho animado, tipo Hora de Aventura. A ilustradora e roteirista Noelle Stevenson tem um timing de comédia afiado. Há muito nonsense tanto nos diálogos quanto nas tiradas visuais. O que começa como algo divertidíssimo vai ficando cada vez mais sombrio. É uma transição que funciona. É isso que faz toda a diferença, tornando Ninoma uma obra relevante. Diverte, emociona e faz pensar.

1)Tungstênio, de Marcello Quintanilha, 184 págs., Veneta.

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Esta graphic novel foi lançada em 2014, mas só este ano tive conhecimento dela pela notícia da premiação em Angoulême, o mais importante festival de quadrinhos da Europa. Aproveitei uma promoção na internet e comprei. Senhoras e senhores, que HQ sensacional! O roteiro complexo, mas de uma clareza impressionante, amplia a força do traço realista. Marcello Quintanilha conseguiu transformar histórias do cotidiano numa trama cheia de suspense e significados. Outro destaque é como o autor carioca soube captar tão bem a fala e o comportamento da gente de Salvador. Como soteropolitano, nascido e criado na cidade, posso dizer que ele fez direitinho o dever de casa. Monte Serrat, um dos lugares mais icônicos da capital baiana, torna-se palco central de um drama de tirar o fôlego, que começa com um fato corriqueiro e, aos poucos, vai se complicando. É um retrato além do noticiário, além do senso comum, de gente negra, suburbana, que tem de se virar, com suas angústias e frustrações. O olhar de Quintanilha não é clínico. Ele procura dar voz aos personagens, para que o leitor acompanhe os acontecimentos pelo ponto de vista deles. Depois de ler Tungstênio, dá vontade de procurar tudo o que esse cara já publicou.

OS 6 MELHORES FILMES QUE VI EM 2016

Este ano vi filmes muito bons, no cinema, na TV a cabo e na Netflix. Darei destaque apenas aos que assisti na telona. Inclusive às ciladas. A maior delas foi Batman vs Superman. Eu já estava desanimado pelo filme ser obra de Zack Snyder. Mesmo assim, eu tinha que ver a coisa com meus próprios olhos. Ao sair do cinema, tive vontade de arrancá-los. Outra grande decepção foi Star Trek – Sem Fronteiras, uma trama frouxa com os personagens tão subaproveitados. Outro exercício de masoquismo foi ver Esquadrão Suicida, aquela colagem de cenas sem sentido, sem graça. Pra fechar a sessão de tortura, o quadradão e racista A Lenda de Tarzan. Para compensar, teve o sempre acima da média Tarantino com Os Oito Odiados. Capitão América: Guerra Civil, num pegada deliciosa de saga de quadrinhos. O divertido e maduro Zootopia. E o sombrio e deslumbrante Rogue One. Os seis filmes escolhidos como os melhores do ano são aqueles que me causaram aquela sensação de arrebatamento, que não saíram da minha cabeça por dias ou semanas por sua excelência técnica e abordagem fora dos padrões.

6)Deadpool

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Como a adaptação de um personagem de quadrinhos pouco conhecido, com um orçamento muito abaixo das grandes produções, tornou-se sucesso de crítica, de público e de bilheteria? A resposta não é tão simples, mas pode ser resumida: liberdade de criação. Os realizadores de Deadpool foram inteligentes em criar uma comédia de ação muito bem azeitada. Ryan Reynolds tem aqui a interpretação de sua vida. Um ator que muitos consideram insuportável, mas que arrasa como Wade Wilson/Deadpool. Totalmente despido de ego. Afinal, ele se matou dentro e fora da tela para que esse projeto vingasse. Era praticamente sua última chance como astro de cinema. O diretor estreante em longas Tim Miller mostra muita segurança. Ele entrega um filme com timing de comédia e de ação impressionantes. A montagem tanto acompanha a agilidade dos diálogos quanto a destreza e força das lutas, em coreografias excitantes e claras. O orçamento menor fica evidente em alguns momentos, principalmente, nos efeitos especiais. Não existe nada malfeito, e sim com menos textura. Mas o espectador não está nem aí. A atmosfera do filme é tão legal que certos aspectos mais toscos combinam bastante com toda a zoeira. Agora os verdadeiros heróis de Deadpool, como a hilária sequência de abertura ressalta, são os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick. Sem esse roteiro, Deadpool seria uma boa comédia de ação apenas. O roteiro tem diálogos afiadíssimos e escrachados  em suas autoreferências e metalinguagem, recursos derivados do personagem nas HQs. Outro ponto inteligente é a estrutura, usando de forma dinâmica os flashbacks. A trama é convencional. Herói ou anti-herói quer se vingar de bandido. O grande barato está na maneira como isso é feito. Deadpool mostra o ridículo do universo dos super-heróis, mas também reconhece que sem eles o mundo seria mais chato.

5)A Chegada

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O diretor canadense Denis Villeneuve é um nome ascendente em Hollywood. Conhecido pela extrema segurança ao filmar, pela beleza de suas produções e por provocar o espectador com questionamentos morais. Alguns o chamam de brilhante, um novo mestre do cinema. Outros de farsa, com domínio técnico demais e ideias de menos. Em A Chegada, ele provoca o espectador a repensar conceitos como vida, morte, escolha e destino. É um filme otimista. Emocionante, sem ser piegas. Eu já tinha lido a novela Story of your life, de Ted Chiang, na qual A Chegada se baseou (recentemente a editora Intrínseca publicou uma coletânea do autor). A grande revelação do filme não foi nenhuma surpresa para mim. Minha curiosidade estava em saber como fariam a adaptação da história de Chiang, por causa de sua estrutura peculiar. E também como tratariam as ideias e discussões científicas. Posso dizer que A Chegada é uma bela adaptação, fiel na medida do possível. E mesmo quem já leu a novela vai se surpreender com algumas novidades. A Chegada é bem-sucedido em traduzir, num fenomenal trabalho de montagem, a estrutura menos convencional de Story of your life. A única atuação que realmente se destaca é a de Amy Adams. Ela domina o filme. É um papel exigente, sutil, cheio de nuances e variações emocionais. Não há gritaria nem caras e bocas. Ela foi mais do que convincente. Alguns podem dizer que o filme é pretensioso. Muita pompa para ideias que não se sustentam. Discordo. A Chegada é um entretenimento visualmente arrojado com substância. Estimula o debate de temas relevantes com honestidade. Já entrou para a lista dos melhores filmes de FC de todos os tempos.

4) Creed

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O filme sabe dosar bem momentos de drama, sem apelar para a pieguice, e momentos de ação, cheios de energia. O diretor Ryan Coogler mostra muita habilidade em criar uma atmosfera que te deixa ligado na tela o tempo todo, usando fotografia, montagem, efeitos sonoros e música, numa pegada bem contemporânea. Mas não é videoclipe. A direção das lutas coloca o espectador quase em primeira pessoa, em planos-sequência muito bem coreografados, que não parecem encenados. O filme a todo instante faz referência à franquia Rocky. Mas os elementos do passado são integrados à trama de uma maneira bem orgânica. Além de um empolgante filme de boxe, Creed é um tocante drama familiar, que também não deixa de ser divertido. O trio principal está muito bem (Stallone, Michael B. Jordan e Tessa Thompson). B. Jordan tem muita presença física, carisma e um arco complexo. Tessa Thompson interpreta uma personagem cheia de atitude. E não vejo Stallone tão bem há muitos anos. Ele está atuando mesmo, e não fazendo pose de astro de Hollywood. Esse é um Rocky frágil, doce, mas cheio de experiência sobre boxe, sobre a vida. Gonna fly now, o  tema clássico de Rocky, toca apenas uma vez durante o filme. E é de arrepiar.

3) Boi Neon

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O diretor pernambucano Gabriel Mascaro reinventou o imaginário do Nordeste ao mostrar a realidade contemporânea da região, onde progresso, miséria, tradição e cultura pop andam lado a lado. Na superfície, acompanhamos o cotidiano das vaquejadas, onde a virilidade de homens e animais é tão presente. Mas o interesse aqui é mostrar outro olhar sobre esse universo, considerado brutal por muitos. O filme não tem propriamente uma trama. É um estudo de personagens. E eles são tão ricos, tão bem representados, que nos ganham a cada cena. A entrega do elenco é total, dos atores profissionais e dos não-atores. Vemos um questionamento constante de papéis e de dinâmicas sociais, do que é ser masculino e feminino. Iremar, um vaqueiro, almeja ser estilista de moda. Enquanto Galega dirige um caminhão e cria a filha sozinha. Mas há muito mais. Cada personagem tem seu encanto e sua subversão. A transição entre comédia e drama não é forçada. Os diálogos divertidos, tensos, ou delicados nunca tiram o espectador desse mundo. A montagem é paciente, mas vigorosa, com o uso frequente de longas tomadas. A direção de arte é enganosamente simples, recriando o ambiente rural, em locações reais. A fotografia estiliza o sertão sem parecer artificial, falso, com planos abertos durante o dia e o uso de cores fortes à noite. A trilha sonora, com sucessos nacionais, canções estrangeiras e música original, amplia o impacto das imagens. Boi Neon fala sobre sonhos, mas nunca de maneira romântica.

2)A Bruxa

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Filmes de terror marcantes não são aqueles que dão os maiores sustos, mas os que mexem com nossos mais profundos medos. Em A Bruxa, vemos o que acontece quando a sociedade patriarcal não funciona como o esperado. Numa produção de baixo orçamento, mas visualmente sofisticada, o diretor e roteirista estreante Robert Eggers perturba o espectador com um olhar perspicaz, analisando como o fracasso e a frustração podem colocar em teste até as certezas mais inabaláveis. O filme faz um embate constate entre norma, caos, sanidade e delírio. E isso afeta nossa própria percepção do que estamos vendo. As imagens sobrenaturais são reais, ou são projeções dos personagens, uma forma do diretor tornar mais evidentes os medos de cada um deles? A produção cria uma cenário verossímil e claustrofóbico. Acreditamos nas dúvidas dos personagens porque as atuações são incríveis, principalmente, dos quatro filhos. Até os animais estão maravilhosos! Tem um coelho que é muito assustador. Alguns podem considerar o filme lento e chato. Mas, na verdade, ele tem paciência em construir uma atmosfera de paranoia ao extremo. Já disseram que A Bruxa é uma anti-fábula, que o intuito do filme não é pregar uma moral, mas subvertê-la.

1)Elle

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Este filme francês é o melhor da carreira de Paul Verhoeven, superando até mesmo Robocop, uma violenta sátira ao american way of life e ao capitalismo, mas com um final conservador. Em Elle, Verhoeven está livre para desafiar o espectador até o último segundo. E assim como George Miller, diretor de Mad Max – Estrada da Fúria, o cineasta holandês prova que, aos 78 anos, está em evolução como artista.

Originalmente, Elle era para ser produzido nos EUA e protagonizado por uma estrela de Hollywood. Mas nenhum estúdio e nenhuma atriz se interessaram pelo projeto, considerado polêmico demais. Verhoeven ganhou fama de provocador com filmes, muitas vezes, classificados como apelativos. Mas, em Elle, a provocação é mais complexa. Aqui a rejeição pelo projeto tem mais a ver com o incômodo das verdades expostas, a profunda análise da condição humana.

Verhoeven levou o projeto para a França, terra do autor do romance que deu origem ao filme. O roteiro do americano David Birke foi vertido para o francês. E o cineasta holandês encontrou em Isabelle Huppert sua protagonista perfeita. Huppert é a força motriz dessa mistura de thriller, sátira social e drama familiar. Michèle Leblanc é uma mulher de 50 anos, empresária de sucesso, cercada por homens que questionam sua posição de poder, mãe, avó e alguém que não tem pudores em satisfazer sua libido. O personagem de Huppert é pragmática, irônica, decidida e imperfeita. Além disso, possui um passado sombrio. O interessante é que Verhoeven, em nenhum momento, pretende julgar Michèle. Ela é um mecanismo do diretor para abalar nossas certezas.

A segurança da direção é absurda. Verhoeven varia entre o intenso e o discreto com muita habilidade. A mise-en-scène cria uma atmosfera hitchcockiana, levando para outro nível o que já tinha sido feito em filmes como Instinto Selvagem e O Homem das Sombras. Elle é muito francês em seu conteúdo, mas com formato de suspense americano, na verdade, uma subversão do gênero. Amado ou odiado, considerado feminista ou misógino, Elle é um deleite visual e um veículo de discussão poderoso.

OS 6 MELHORES LIVROS QUE LI EM 2016

6) Série The Elephant and Macaw Banner, de Christopher Kastensmidt, 287 págs., independente.

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O mundo da série The Elephant and Macaw Banner (A Bandeira do Elefante e da Arara), criado pelo americano Christopher Kastensmidt, radicado em Porto Alegre, é um Brasil fantástico do século XVI, onde as lendas e mitologias formadoras do país ganham vida. Saci Pererê, Boitatá, Curumim, Iara, Labatut, Capelobo e outros. Até agora foram publicadas sete aventuras da dupla Gerard van Oost e Oludara. O primeiro um holandês que veio ao Brasil em busca de fortuna. O segundo um africano do Ketu (atual Benin), trazido à força como escravo. Ambos selam um pacto de amizade que é o fio condutor da série. É uma amizade improvável, mesmo numa versão fantástica de nossa História. O período colonial foi um dos mais brutais, com pouquíssimo espaço para sutilezas e compreensões de outras culturas. Mas, no Brasil criado por Kastensmidt, há gente de muito caráter, a começar pela dupla protagonista. Aqui a gentileza tem uma importância fundamental. É uma mentalidade contemporânea num cenário histórico. O autor mostra o esforço de suas pesquisas sobre as culturas e lugares do período com descrições ricas e dinâmicas, geralmente fugindo dos clichês, sem nunca atrapalhar o ritmo da narrativa e o desenrolar da trama. Uma das noveletas foi indicada ao prêmio Nebula. Este é um universo em expansão, com quadrinhos, jogo de RPG e, recentemente, foi publicada a versão em romance das aventuras de Gerard e Oludara em português pela Devir.

5) Ball Jointed Alice, de Priscilla Matsumoto, 212 págs., Draco

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Não é um livro para todos os estômagos ou cabecinhas. Acompanhamos aqui vários tipos de distúrbios mentais, de comportamento e familiar. Drogas, sexo e rock and roll, ou melhor dizendo, punk. Alguns podem classificar a história de emo, pelas atitudes sexuais, estados emocionais e referências à banda My Chemical Romance. Mas isso seria considerar apenas uma parte das influências da autora, que passam por Haruki Murakami e, claro, a Alice de Lewis Carroll. Realidade, sonho e pesadelo se misturam, deixando protagonista e leitor sem chão, desconfiando de tudo. Quem viu o anime Perfect Blue consegue ter uma boa ideia do que se trata. Dois nomes que não me saíram da cabeça enquanto eu avançava a leitura foram Philip K. Dick e Kafka. O pesadelo da paranoia. O maior mérito da autora foi saber dosar momentos de ação, o drama dos personagens sendo exposto, por meio de descrições e diálogos, e momentos de digressão, principalmente, de Frank, o narrador. Ela faz essa dobradinha com muita fluidez e uma poesia dura, de impacto. Além de lançar ideias sobre a vida e o mundo bem consistentes, iluminadas.

4) Binti, de Nnedi Okorafor, 96 págs., Tor

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Binti é uma garota muito curiosa, matemática brilhante e filha de um fabricante de astrolábios. Ela faz parte do povo Himba. Um povo que dá valor ao conhecimento, mas muito fechado em si, bastante apegado às tradições. Quando a jovem decide viajar para outro planeta, onde se encontra a universidade mais prestigiosa da galáxia, gera-se uma crise familiar. Na viagem, o contato com uma raça alienígena será revelador para Binti. A força da prosa da autora está em elaborar um texto simples, fluido, muito gostoso de ler, que levanta ideias pouco convencionais sobre os papéis da mulher, sede de conhecimento, poder do estado, tradição, modernidade e negritude. É uma história principalmente sobre a identidade que escolhemos para nós mesmos, a partir de nossa cultura e da relação com culturas diferentes. É um texto ora brutal, ora cheio de amor. Okorafor subverte as convenções da ficção científica para tornar o gênero mais vibrante. A novela ganhou os prêmios Nebula e Hugo deste ano.

3) Max Perkins – um Editor de Gênios, de A. Scott Berg, 544 págs., Intrínseca

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Perkins se tornou uma lenda no mundo editorial dos EUA no início do século 20. Ele mudou a literatura americana ao descobrir autores como F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Perkins respeitava os autores do passado, mas sua vontade era trabalhar com novas ideias, novas abordagens da vida americana. Mas ele teve que insistir muito na editora onde trabalhava, a tradicional Scribner, para publicar autores talentosos, mas erráticos. A biografia de A. Scott Berg foca nos três mais famosos e encrenqueiros: Fitzgerald, Hemingway e Thomas Wolfe. O caso mais interessante do livro é a relação entre Perkins e Wolfe. Serve principalmente para percebemos como opera um editor dedicado. Claro que o exemplo de Perkins é bastante particular, mas, de maneira geral, todos os mecanismos da função estão presentes. Chegando ao extremo com Wolfe, autor talentoso, indisciplinado e de temperamento difícil. Ele não ligava muito para a coesão de sua escrita. Terminava manuscritos de milhares de páginas e cabia a Perkins achar um livro ali dentro. O editor lia tudo minuciosamente, sugerindo mudança de ordem de capítulos, supressão de outros, desenvolvimento de personagens e cenas, e mais clareza em certas ideias. Mas Perkins sempre afirmava que qualquer livro era fruto do talento do autor, que a discrição do editor era a coisa mais importante do ofício. Ele chegou a dizer: “Gostaria de ser um anãozinho no ombro de um grande general, aconselhando-o sobre o que fazer e o que não fazer, sem que ninguém percebesse”. O livro foi originalmente publicado em 1978. Deve haver novos dados sobre Perkins por aí, mas a biografia não parece datada. Leitura obrigatória para quem deseja conhecer mais sobre um importante episódio da história do mercado editorial e da cultura americana.

2) A Desobediência Civil, de Henry David Thoreau, 150 págs., Companhia das Letras.

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Thoreau foi um dos pensadores mais fascinantes do século 19. Os EUA de sua época eram um país que utilizava o trabalho escravo e a conquista de territórios em nome do progresso. Thoreau era totalmente contra a escravidão e o pagamento de impostos para financiar um estado bélico que se apropriava de porções do México e massacrava povos indígenas. Para ele, a desobediência civil era legítima quando o governo não representasse mais as prioridades de uma sociedade justa. Como o próprio Throreau diz, um governo só é eficiente quando valoriza a vida. Portanto, é dever de cada um fazer algo concreto para tornar as autoridades cientes disso. Ou seja, não corroborar com as normas sociais que fortalecem o estado e rebaixam o ser humano. Quando uma lei é injusta ou imoral, ela deve ser desacatada. Esta edição da Companhia das Letras traz o famoso ensaio e outros textos de Throreau. Um autor de ideias poderosas e estilo sedutor. O livro está repleto de trechos que podem ser destacados, tornar-se máximas afiadas. A leitura não é completamente empolgante. Há passagens descritivas demais ou reflexões menos inspiradas. Porém grande parte do material é cheio de insights também sobre as prioridades na vida individual e em sociedade, as vantagens da solidão e de um cotidiano mais simples para descobrir a si mesmo e a valorização da natureza. Thoreau era um idealista com os pés no chão. Sabia como o mundo funcionava. E, por isso, queria transformá-lo. Em vida, o reconhecimento de sua obra foi restrito. Mas, no século 20, sua influência foi enorme na política, literatura e filosofia, na voz dos descontentes.

1)Kindred, de Octavia E. Butler, 264 págs., Beacon Press

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Acompanhamos a história de Dana, uma jovem escritora negra, na Los Angeles de 1976 (o romance foi publicado em 1979). Recém-casada, ao se mudar para a nova casa com o marido, Kevin, um escritor branco, inexplicavelmente, Dana é transportada no tempo e no espaço para a zona rural de Maryland, em 1815, antes da Guerra Civil Americana. A narração em primeira pessoa emula os relatos de ex-escravos que se tornaram marcantes na literatura americana pós-Abolição. O recurso da viagem no tempo permite um contraste poderoso. A voz de uma mulher negra contemporânea contando sua experiência como escrava. É um discurso articulado, cheio de insights sobre uma variedade de temas (racismo, poder, sexualidade, dominação, escolha…), sempre fazendo conexão com o que acontece com a mulher negra no passado e no presente. O texto é fluido, direto e imersivo. Butler soube muito bem equilibrar pesquisa e invenção. A voz de Dana nos passa toda a verossimilhança daqueles EUA do século 19, de como aquela sociedade funcionava, com seu cheiros, gostos e costumes. Principalmente, tomamos conhecimento da mentalidade de posse sobre a população negra. O elenco de personagens mostra pessoas negras e brancas de maneira complexa, no contexto brutal da escravidão. A relação entre mestres e escravos não é feita entre monstros e pessoas subservientes. E sim entre gente branca comum, que detém o poder sobre os corpos de suas propriedades, apoiada por toda uma sociedade escravocrata, e gente negra aviltada, que detém apenas o poder de cometer suicídio ou tentar uma difícil fuga para a liberdade. Este romance é um triunfo, tanto como peça de ficção quanto de reflexão. Butler flerta com a polêmica ao tratar da escravidão nos EUA de maneira complexa, sem ceder a maniqueísmos. Ganha a autora, por elaborar uma narrativa tão madura. Ganha o leitor, ao se deparar com um texto cheio de nuances e ideias desafiadoras.