BLADE RUNNER 2049: OBRAS-PRIMAS NÃO NASCEM EM ÁRVORES

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Eu queria muito estar errado, mas infelizmente minhas previsões se confirmaram. A sequência de Blade Runner é um bom filme com um visual espetacular, mas inferior a outras produções recentes igualmente ambiciosas, como Mad Max – Estrada da Fúria e A Chegada, do próprio Denis Villeneuve.

Quando anunciaram que haveria uma continuação de Blade Runner, a reação de muitos foi de total descrédito. As lacunas do filme original não precisavam ser respondidas. Quer dizer, vamos ter em mente as muitas versões lançadas ao longo dos anos. A versão que foi para o cinema, em 1982, com a narração de Harrison Ford e o final feliz, mora no meu coração por ter sido a que mais revi, ainda em VHS, depois em DVD. A versão considerada por Ridley Scott como definitiva, The Final Cut, de 2007, também me agrada bastante por ser mais madura e subjetiva.

A melhor maneira de apreciar o filme de Villeneuve é ter visto as versões de 1982 e 2007, lido o romance que originou tudo, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick e ter visto os três curtas lançados antes da estreia do novo Blade Runner, que servem como prelúdios para contextualizar o que aconteceu em Los Angeles (e no mundo) entre 2019 e 2049.

O canadense Denis Villeneuve já se firmou como um dos diretores mais interessantes em atividade, um mestre. Alguém que tem um controle absurdo da mise-en-scène, que sabe deixar o espectador instigado, tenso e mesmerizado. Seus filmes são visualmente desafiadores e provocam a reflexão. Em Blade Runner 2049, um projeto cheio de expectativas e pressões, ele se saiu bem. Entregou uma produção de grande estúdio acima da média, corajosa em bancar uma narrativa mais lenta, em tratar de temas complexos sem muitas concessões.

Não me entendam mal. O filme é bonito e relevante. A fotografia do veterano Roger Deakins é quase indecente de tão esmerada, em tomadas fechadas e abertas, em cores quentes e frias. Os efeitos especiais e sonoros estão totalmente integrados a essa evolução do universo de Blade Runner, com um desenho de produção que soube repaginar o clima noir original para um mundo parte tecnologicamente mais avançado, parte mais apocalíptico. Ryan Gosling carrega o filme nas costas. Seu personagem tem um arco emocional de fundir a cabeça de qualquer um. E ele nos leva junto nessa jornada cheia de dor física e mental. O Deckard coroa de Harrison Ford está ótimo, numa performance muito superior ao Han Solo de O Despertar da Força. Robin Wright, como a chefe do personagem de Gosling na polícia, Ana de Armas, a namorada virtual dele, e Sylvia Hoeks, a braço direito do personagem de Jared Leto, também são presenças marcantes.

Mas o filme tem três problemas: o roteiro, a duração e a trilha sonora. Problemas graves que comprometem as ideias, a coesão e a estética de Blade Runner 2049.

O maior mérito do roteiro foi manter a coisa simples, não investir em grandes conspirações nem em preparar uma futura franquia. Algumas pontas ficam soltas para uma possível sequência, mas isso não compromete a trama. Hampton Fancher (um dos roteiristas do original) e Michael Green (roteirista do ótimo Logan, mas das bombas Lanterna Verde e Alien: Covenant) mantiveram o clima de filme policial, de investigação.

O roteiro aprofunda a questão dos replicantes. Temos aqui um cenário mais complexo e variado, em que temas como preconceito, identidade e escolha são mais urgentes do que no primeiro filme. Mas essa discussão para no meio do caminho pelos equívocos narrativos. Os personagens coadjuvantes são menos interessantes em comparação aos do primeiro filme. A entrada de K, o personagem de Gosling, na história, com a ótima participação de Dave Bautista, é muito conveniente. A subtrama envolvendo a doutora Stelline, a criadora de memórias, me incomodou bastante. Analisando em retrospectiva, não faz muito sentido. E o dilema de ser ou não ser humano foi melhor trabalhado recentemente no filme Ex-Machina e na série Westworld, por exemplo.

Para frustração dos fãs, o aspecto religioso do romance por meio do mercerismo, uma espécie de cristianismo midiático, não foi explorado. Mas talvez a semente tenha sido plantada para ser desenvolvida mais adiante.

Não tenho problema com filmes lentos e longos. Adoro Tarkosvky. Mas, em Blade Runner 2049, 163 minutos se mostraram excessivos. Em certos trechos, os diálogos estão menos inspirados ou o silêncio não causa tanto impacto visual e sonoro.

Depois que Villeneuve foi confirmado como diretor desse filme, fiquei curioso para ver como seu compositor de longa data, o islandês Jóhann Jóhannsson, trabalharia musicalmente o universo de Blade Runner, tendo a icônica trilha sonora de Vangelis para assombrá-lo. Fiquei imaginando o que Jóhannsson poderia criar depois da música assustadora de Sicario e do mistério e da estranheza de A Chegada. Mas, poucos meses antes da estreia, Jóhannsson abandonou o filme, numa história ainda não explicada direito. Então os produtores recorreram ao onipresente Hans Zimmer, às pressas. Ele e seu pupilo Benjamin Wallfisch (responsável pela trilha do novo IT) fizeram uma música que fica entre uma imitação de Vangelis e a trilha do Batman de Nolan, numa pegada eletrônica, investindo mais em sintetizadores. É uma trilha eficiente em seus melhores momentos e irritante em seus piores. Não é memorável. Esse filme precisava de uma trilha sonora memorável.

O Blade Runner de 1982 foi um raro momento do cinema, no qual misturaram sorte e competência para reunir um punhado de pessoas brilhantes na produção de uma obra-prima. Depois o próprio Ridley Scott não conseguiu fazer nada tão bom ou próximo disso.

Blade Runner 2049 mostrou sua razão de ser. O mundo é um lugar melhor com a existência desse filme. E abriu as portas de vez para uma franquia que agora ninguém mais vai torcer o nariz.

Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve, 163 min., Warner Bros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

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A SÉRIE AUBREY/MATURIN, UMA AVENTURA LITERÁRIA

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A série de livros Aubrey/Maturin se tornou minha nova paixão. Eu vi o filme Mestre dos Mares, com Russell Crowe e Paul Bettany, lá em 2003. Lembro de ter sido uma das minhas melhores experiências numa sala de cinema. O filme de Peter Weir tem um ritmo fantástico e personagens cativantes, mas peca por focar na ação, deixando de lado muita coisa das sutilezas dos personagens e do contexto da época. O roteiro foi baseado em alguns volumes da série escrita por Patrick O´Brian. Este é um tipo de material que seria melhor explorado numa série da HBO ou Netflix.

Mestre dos Mares, o livro, é a primeira aventura do capitão da marinha real britânica Jack Aubrey e de seu médico de bordo Stephen Maturin, durante as Guerras Napoleônicas, no século 19. Gosto de livros de aventura, clássicos e contemporâneos, ficção e não-ficção. Mas o que torna a série de O´Brian tão especial é seu caráter híbrido. O autor tem ambição literária sem perder de vista a diversão do leitor.

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Muitos identificam uma forte influência de Jane Austen em O´Brian. O que foi confirmado pelo próprio. E realmente essa influência é bem perceptível no humor cheio de ironia, nos comentários que os personagens fazem uns dos outros, na maneira como as regras sociais são determinantes (no caso, na hierarquia da marinha britânica da época), e no uso de cartas e diários como recursos para o leitor conhecer mais diretamente a personalidade de cada um.

O que logo chama atenção é a obsessiva pesquisa histórica, a marca registrada de O´Brian. Ela está em cada linha desses livros, mas a genialidade do autor permite que a pesquisa não se torne exagerada. Ela sempre está ali para funções narrativas. No início, os termos náuticos podem causar um baita estranhamento no leitor. Mas sua paciência será recompensada.

O worldbuilding aqui é fascinante. Aos poucos, dá para se familiarizar com alguns termos e condutas. Buscas na internet melhoram a compreensão do que acontece durante as batalhas navais. A autora de fantasia e FC Jo Walton é fã dos livros, justamente pela prosa imersiva de O´Brian, pela atmosfera da vida no mar e na marinha britânica, elaborada de maneira tão convincente. Para ela, o mundo criado na série não é muito diferente dos mundos alienígenas de C. J. Cherryh, por exemplo. Outro fã é Kim Stanley Robinson.

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Outro elemento de sucesso (para muitos o mais importante, como eu também acho) são os personagens. A começar pelos protagonistas. Jack Aubrey não é um machão típico. Ora ele é viril, capaz e confiante. Ora é patético, depressivo e vulgar. Um marinheiro desde garoto com um talento para o violino. Seu humor é impagável. Já o doutor Stephen Maturin é mais um tipo intelectual, interessado em Ciências Naturais e Política, e parceiro musical menos talentoso de Jack, quando toca seu violoncelo. Seu humor é mais irônico e seus insights sobre vários temas são deliciosos de acompanhar. Há também todo um elenco de personagens secundários riquíssimo e igualmente cativante. Por menor que seja a participação de cada um deles, ela nunca será rasa.

Outro destaque é a prosa de O´Brian. Sua linguagem é vívida, seus diálogos são marcantes, mesmo os mais inverossímeis e longos. Sua habilidade em mudar sutilmente o ponto de vista de um protagonista para outro protagonista ou para um coadjuvante, no intervalo de uma página ou mesmo em poucas linhas, é notável. Ele também é geralmente bem sucedido quando demora mais numa cena importante, detalhando-a melhor ou resolve mais rapidamente a cena seguinte, dando saltos no tempo, passando de uma sequência para outra em cortes quase cinematográficos, apesar do clima de literatura do século 19. Por isso, mesmo com a incompreensão dos termos náuticos, o ritmo do texto é preservado e, muitas vezes, é empolgante, pelo suspense ou pela ação.

 

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Mestre dos Mares foi publicado originalmente em 1969. A série é composta por 20 romances completos e um inacabado, este último publicado em 2004, após a morte de O´Brian em 2000. Por causa do filme, foram editados por aqui, pela Record, os seis primeiros livros e o décimo. Em 2015, a Record relançou Mestre dos Mares numa edição de bolso. Sem previsão de relançamento dos demais volumes, restam aos interessados os sebos. Há uma edição gringa em e-book de todos os livros com preços que alguns alguns acharão razoáveis, outros, caros. Recentemente adquiri em sebos todos os livros editados no Brasil: Mestre dos Mares (1° livro), O Capitão (2° livro), A Fragata Surprise (3° livro), Expedição à Ilha Maurício (4° livro), A Ilha da Desolação (5° livro), O Butim da Guerra (6° livro) e O Lado Mais Distante do Mundo (10° livro). Além de ter comprado as versões em e-book de The Surgeon´s Mate (7° livro), The Ionian Mission (8° livro) e Treason´s Harbour (9° livro). Já estou no terceiro volume e a série só melhora. Em Mestre dos Mares, quase não existe trama. Praticamente é uma sucessão de aventuras no mar. A partir de O Capitão, tudo se torna mais complexo, com tramas mais elaboradas. Recomenda-se a leitura na ordem de publicação. A série cobre um período de mais ou menos de 15 anos na vida dos protagonistas. Comparei as edições nacionais com trechos das edições em inglês e posso dizer que as traduções são muito competentes, com supervisão técnica e pouquíssimos erros de revisão.

A série Aubrey/Maturin é  muito especial por conseguir reunir, de maneira brilhante, apuro literário e divertimento.

 

REALIDADE E SONHO, DOIS LADOS DA MESMA ARMADILHA

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Virei fanboy do mangaká Inio Asano ao ler Solanin, publicado em dois volumes no Brasil pela L&PM, em edições de bolso muito bem cuidadas. Solanin é uma slice of life, gênero de mangá que trata do cotidiano. Não tem nada de sobrenatural ou heroico. É a vida que segue. E Asano mostra jovens cheios de sonhos, mas paralisados por uma existência sem sentido. As exigências da vida adulta aprofundam essa crise. É triste pra caramba. E também muito sincero. Os personagens não são melancólicos para fazer pose, ser cool. Há uma angústia os devorando por dentro. Esse embate entre a vontade de realizar algo e o sentimento de vazio é o tema central em Solanin.

Em Nijigahara Holograph, temos uma luta mais feroz, entre manter ou perder a sanidade. Aqui Asano leva o leitor a uma jornada, ao mesmo tempo, bela e desumana, num tom muito mais sombrio. É como se David Lynch tivesse resolvido fazer um mangá. Pega-se o cotidiano, banal e repetitivo, e o viram pela avesso, expondo os demônios que carregamos dentro de nós. Há uma alternância entre imagens e sentimentos harmoniosos com cenas de pura violência e degradação. Parece que a todo momento Asano faz sempre a mesma pergunta: como pode haver tanta beleza e brutalidade no mundo? Os personagens de Nijigahara Holograph ou são vítimas, ou algozes. Às vezes, ambas as coisas. Os jovens angustiados estão lá. Mas agora tudo é bem mais sinistro.

Asano é um artista completo. Roteirista de mão cheia e ilustrador genial. Ele sabe a importância do silêncio na página como poucos. Seus personagens não falam muito. O resto é dito por imagens poderosas, seja pela delicadeza ou pela crueldade. Suas tramas são mínimas. O desenvolvimento de personagens é o grande charme do trabalho de Asano. Em Nijigahara Holograph, ele viaja, delira, numa mistura de conto de fadas e história de terror. Como se apenas fosse possível falar dos horrores, bastante humanos, praticados ao longo da narrativa, fragmentada e não-linear, por meio de metáforas. Por isso, as imagens nunca dizem uma única coisa, nunca têm um só sentido, nunca chegam a uma conclusão de fato. Cabe ao leitor interpretá-las, preencher suas próprias lacunas.

A JBC fez um ótimo trabalho nesse volume único. É uma edição gostosa de ter nas mãos. Bonita, prática e com acabamento de primeira. As próximas leituras da obra de Asano já estão engatilhadas: A Girl on the Shore (Vertical Comics) e A Cidade da Luz, que acaba de sair no Brasil pela Panini. Enquanto isso, fico na torcida para a série Goodnight Punpun ganhar uma versão digital gringa com preço acessível ou ser publicada por alguma editora brazuca.

Nijigahara Holograph, de Inio Asano, 296 págs., JBC.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE

VALERIAN: UM FILME RUIM, MAS IMPERDÍVEL

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Tinha tudo para ser um filmaço, mas a promessa ficou no meio do caminho. Luc Besson apostou alto e perdeu, tanto do ponto de vista criativo quanto financeiro. Teve ambição. Produziu, dirigiu e escreveu. Só que se aproximou mais do George Lucas dos prequels de Star Wars do que do James Cameron de Titanic e Avatar. Besson estava apaixonado demais pelo seu projeto dos sonhos para perceber as falhas. Resultado: o espectador, com bastante paciência, tem que garimpar para ver o que há de melhor em Valerian. Apesar de seus graves problemas, o filme deve ser visto no cinema. Traz conceitos e visuais que você só verá nele, de maneira deslumbrante.

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Luc Besson é um diretor brega e piegas, mas já mostrou que sabe criar mundos fora dos padrões e personagens imprevisíveis e cativantes. Nikita ainda é seu melhor trabalho. Um filme de ação francês dos anos 90, cruel, punk, que chamou a atenção de Hollywood pela maneira nada moralista de fazer entretenimento à maneira americana. O Profissional já mostra um Besson mais domesticado. Mas ainda assim, o filme é perverso. Uma história de amor violenta e pra lá de controversa, nas entrelinhas. Em O Quinto Elemento, seu projeto mais ambicioso até então, acompanhamos uma divertida homenagem à ficção científica europeia.

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Visualmente, Valerian é seu filme mais maduro e sofisticado. A abertura, ao som de David Bowie, mostrando a origem de Alpha, a Cidade dos Mil Planetas, é empolgante. E o primeiro terço do filme mostra mais qualidades do que defeitos. Apesar da falta de carisma da dupla protagonista e dos diálogos ruins, o espectador compra a ideia com sua trama basicona e ágil e a estranheza da visão europeia do que é ficção científica no cinema, em seus cenários e criaturas. A sequência do deserto, em que a ação acontece em universos paralelos simultaneamente, é original e muito bem executada.

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A todo momento, assistindo ao filme, pensamos: isso é Star Wars, aquilo é Star Wars. Além de outras referências, como Matrix e Avatar. Mas, na verdade, devemos lembrar que Valerian é inspirado nos quadrinhos clássicos de mesmo nome, da dupla Pierre Christin e Jean Claude Mézières. Referências do próprio George Lucas para a criação do seu universo (alguns dizem que foi roubo de conceitos descarado). Com a adaptação de Valérian, agent spatio-temporel (mais tarde rebatizada de Valérian et Laureline), Luc Besson finalmente pôde realizar um sonho de infância.

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Valerian apresenta uma visão mais ingênua e otimista de uma FC cheia de raças alienígenas e conflitos de interesses. O clima é de sessão da tarde. Mas, no geral, o filme se torna mais ousado do que Star Wars. Primeiro, no visual mais pirado e lisérgico. Segundo, ao dar maior relevância aos personagens aliens. Aqui eles são parte importante da trama e muitas vezes superam a performance dos personagens humanos.

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Os maiores problemas de Valerian são o roteiro, cheio de furos, diálogos terríveis, humor pouco eficiente, subtramas confusas ou desinteressantes, e exposição desnecessária ou repetitiva. O elenco mal escalado ou mal dirigido. E a duração do filme, 137 minutos. Podiam ter cortado uns 30 minutos. Era para ser um ser um filme mais ágil. Assim seu subtexto anti-guerra ganharia maior relevância. Porque o espectador sai meio esgotado da experiência. Parece que Luc Besson teve pena de cortar aquelas cenas deletadas que vão para o Blue-Ray.

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Afinal, vale o ingresso? Para fãs de FC, o filme é obrigatório. Não saí do cinema puto da vida. Já sabia mais ou menos o que esperar. Mesmo assim, fui surpreendido com os melhores momentos.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valerian and the City of a Thousand Planets), de Luc Besson, 137 min., EuropaCorp e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO, EXCELENTE

A HISTÓRIA SECRETA DA MULHER MARAVILHA

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O surgimento da Mulher Maravilha nos quadrinhos é uma mistura de contexto social e vida pessoal. Seu criador, William Moulton Marston, era um entusiasta sincero do movimento feminista, nas primeiras décadas do século 20, nos EUA. Mas também era alguém polêmico e contraditório. E a figura de sua heroína, corpo e mente, foi inspirada em três importantes mulheres de sua vida. O livro de Jill Lepore mostra que a Mulher Maravilha é fruto direto da longa e difícil luta de uma era marcante do feminismo.

Marston nasceu em 1893. Atlético, carismático e multitalentoso, desde garoto, muita gente e, mais do que ninguém, o próprio Marston acreditavam que ele estava destinado a realizar grandes feitos. Aluno de destaque em Harvard, foi líder em várias atividades universitárias. Escritor prodígio de roteiros de cinema, venceu um importante concurso da época. O filme Jack Kennard, Coward foi produzido em 1915, mas teve uma exibição limitada. Anos depois, Marston se tornou consultor do estúdio Universal durante a transição do cinema mudo para o sonoro.

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William Moulton Marston

Em Harvard, estudou Direito e Psicologia. Sua ambição era se dedicar a uma vida acadêmica de prestígio. Mas, ao se formar, as coisas não saíram como planejado. Marston exerceu várias profissões e tocou alguns negócios, fracassando na maioria dos seus projetos. Advogado, pesquisador, professor, romancista, escritor de livros teóricos, publicitário, dentre outras atividades. Também foi processado por credores e investigado pelo FBI por um caso de fraude. Praticamente, por onde ele passava gerava controvérsias por suas ideias nada convencionais sobre a natureza humana (ele não via o homosexualismo e travestismo como desvios) e a relação entre homens e mulheres (para ele, os homens teriam muito mais a ganhar num mundo dominado pelas mulheres). Seus estudos eram considerados pouco científicos. Ele se tornou persona non grata no mundo acadêmico.

Marston advogava a superioridade das mulheres. Ele acreditava que elas tinham uma moral mais elevada por serem mais atentas e honestas. Mas também afirmava que elas possuíam uma docilidade natural, uma tendência para o amor e a submissão, principalmente, no sexo, em práticas como o bondage, em que pessoas são amarradas e imobilizadas.

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A visão que Marston tinha das mulheres estava relacionada com sua criação, cercada por várias tias. E também pelo interesse intelectual despertado pelo aguerrido feminismo, nos EUA e Europa, do início do século 20. Mulheres iam às ruas, levantavam cartazes, enfrentavam a polícia, proferiam discursos, acorrentavam-se em lugares públicos, faziam greve de fome contra as opressões do patriarcado. Era um movimento fortemente influenciado pela mitologia grega, por mitos, como a Ilha de Lesbos, e poemas de Safo, nos quais as mulheres viviam com paz e progresso apenas entre elas. O que influenciou, na literatura, a criação de obras feministas importantes, como o romance Angel Island, de Inez Haynes Gillmore. O universitário Marston acompanhava toda essa revolução social de perto. Tão de perto que ele acabou se envolvendo amorosamente com duas mulheres à frente do seu tempo, de uma só vez.

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Os três acabaram formando uma família fora dos padrões. Uma casa com um marido, duas esposas e vários filhos. Um arranjo mantido em segredo a todo custo. Elizabeth Holloway, amiga de infância de Marston, trabalhou por muitos anos como editora de periódicos científicos e da Enciclopédia Britânica. Olive Byrne era uma estudante universitária quando conheceu o professor Marston. Ela abandonou os estudos para cuidar da casa. Holloway era conhecida por sua sabedoria e firmeza. Byrne por sua inteligência e vivacidade, além de sempre usar braceletes. Byrne era sobrinha de Margaret Sanger, uma pioneira do controle da natalidade. Para Sanger, a mulher devia ter todos os direitos sobre seu corpo, tornando-se mãe quando desejasse, e não encarando a maternidade como uma prisão inevitável. Sanger era uma personalidade reconhecida internacionalmente, com trânsito entre políticos e a elite. Ela não gostava de Marston, por considerá-lo uma fraude e alguém prejudicial à sua sobrinha. Mesmo assim, Marston tomou Sanger como uma das referências para criar a personalidade da Mulher Maravilha.

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Elizabeth Holloway, Olive Byrne, com seus braceletes, e Margaret Sanger

A primeira tentativa de Marston de marcar seu nome na História foi com a invenção do detector de mentiras. Na verdade, com o teste de detecção de mentiras, no qual se media a pressão sanguínea para avaliar alterações de humor. O teste nunca foi levado a sério por autoridades do judiciário e pela polícia, parte por preconceito pela novidade, parte pelas dúvidas de sua eficácia. Em 1921, um concorrente, John Augustus Larson, teve mais sorte. Seu polígrafo utilizava um conjunto de fatores (pressão sanguínea, pulsação, respiração e condutividade da pele) para saber se alguém estava mentindo. Em pouco tempo, Marston viu o polígrafo de Larson ser adotado por vários departamentos de polícia pelos EUA, enquanto seu teste era desacreditado. Anos depois, ao criar a Mulher Maravilha, ele usuraria o Laço da Verdade como uma metáfora ao seu teste. Marston nunca desistiu de promover a eficácia do teste, o que gerou grande repercussão na mídia, mas quase nenhum reconhecimento de fato e pouco retorno financeiro.

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Marston aplicando o teste de detecção de mentiras

Em 1940, já na meia-idade, frustrado profissionalmente, havia anos com a família sendo sustentada pelos empregos mais estáveis de Elizabeth Holloway, Marston deu uma entrevista para a revista Family Circle. O título era Don’t Laugh at the Comics (Não riam dos quadrinhos). Marston enaltecia o potencial educador dos quadrinhos, um fenômeno recente na cultura de massa, que conquistou as crianças (e adultos) e se tornou a maior preocupação de professores e pais. Para muitos, os quadrinhos era violentos, estimulavam a delinquência juvenil e estavam repletos de mensagens subliminares pervertidas. Havia quem considerasse a figura do Superman uma ode ao fascismo. O publisher da All-American Publications (que depois se fundiria com outras editoras para formar a DC Comics) Max Gaines ficou tão impressionado com as palavras de Marston que o contratou como consultor.

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Não demorou muito, Marston sugeriu a Gaines a criação de uma super-heroína. A partir de conversas em casa, Marston surgiu com a ideia de um contraponto aos heróis masculinos, um exemplo para as mulheres de todo o mundo. Alguém que pudesse vencer a guerra com o amor. Seria uma maneira de calar os críticos que achavam os quadrinhos violentos. Mesmo relutante, Gaines aprovou a ideia. Marston convidou Harry G. Peter, veterano ilustrador de revistas feministas, para dar vida a Suprema, the Wonder Woman (o editor da revista do Superman, Sheldon Mayer, achou melhor chamar a nova super-heroína apenas de Wonder Woman). Depois de alguns testes, Marston ficou satisfeito com o visual da Mulher Maravilha, inspirado no Capitão América, lançado um ano antes, e em protagonistas femininas de outros quadrinhos. A princesa amazona estreou em All Star Comics #8, em 1941, e logo se tornou um enorme sucesso. Finalmente, Marston conseguiu a fama e o dinheiro que tanto tinha perseguido ao longo da vida.

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A Mulher Maravilha se tornou tão querida pelos fãs quanto Superman e Batman. Apesar do sucesso da heroína, Gaines estava preocupado. Provavelmente, a revista da Mulher Maravilha foi a mais atacada na era de ouro dos quadrinhos. Autoridades e especialistas, em nome da moral e dos bons costumes, travaram uma guerra contra Marston e sua controversa criação. Para esses críticos, a Mulher Maravilha era um símbolo contra o casamento (a heroína era independente e nunca aceitava os pedidos do galã Steve Trevor) e uma apologia ao lesbianismo e a perversões sexuais. Gaines ficou realmente preocupado quando um homem, leitor entusiasmado da Mulher Maravilha, enviou uma carta elogiando o trabalho de Marston. O leitor era adepto de fetichismos. Marston rebateu todas as críticas, com argumentos pertinentes ou não, e com ajuda de especialistas simpáticos aos quadrinhos. Gaines tentava contornar o problema. Afinal, não podia perder um sucesso de vendas como a Mulher Maravilha. Sucesso resultante de uma mistura da figura determinada e altruísta da Mulher Maravilha com sua imagem, ao mesmo tempo, doce e sensual, inspirada nas pin-ups.

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À esquerda, pin-up desenhada pelo peruano Alberto Vargas (Esquire, 1942). Marston escrevia roteiros detalhados, principalmente, as maneiras de amarrar seus personagens.

Assim como outros super-heróis, a Mulher Maravilha participou dos esforços da 2ª Guerra Mundial contra o Eixo. Qualquer um que leia hoje os quadrinhos escritos por Marston vai notar como a Mulher Maravilha era uma personagem à frente do seu tempo. Infelizmente, ao redor dela, não havia muito do que Marston se orgulhar. As histórias da Mulher Maravilha promoviam um feminismo muito particular, no qual apenas a heroína era uma mulher independente, bela, forte e de bom coração. Nenhuma outra personagem feminina chegava aos seus pés, nem Etta Candy, a melhor amiga, gorda e devoradora de doces, muito menos as vilãs sensuais. Nem mesmo seu alter ego, Diana Prince, uma versão edulcorada da princesa amazona. Para piorar, os roteiros de Marston traziam o mesmo racismo e xenofobia de outros quadrinhos da época. Pessoas negras eram retratadas como bonecos de piche, de fala caipira. Assim como mexicanos eram quase selvagens. Na grande maioria, os vilões eram estrangeiros, principalmente alemães, representando o nazismo, e chineses e japoneses, o perigo amarelo.

Apesar dos ataques e críticas, Marston ficou à frente de sua criação até a morte, em 1947. Depois disso, a princesa amazona deixou a controvérsia de lado. O editor Robert Kanigher, que não gostava da personagem, ficou responsável pela revista. A Mulher Maravilha se tornou uma garota comportada. Nas décadas de 50 e 60, o conceito original de Marston foi bastante descaracterizado. O que só foi recuperado, de certa maneira, nos anos 1970, quando a Mulher Maravilha estampou a primeira capa da revista feminista Ms., as histórias de Marston  foram reeditadas e lançaram a série de TV com Linda Carter.

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Primeira capa da revista Ms. (1972)

The Secret History of Wonder Woman é uma leitura geralmente fluida, com mais informações pertinentes do que desnecessárias, rica em fotos e ilustrações e com alguns comentários afiados. A autora é historiadora, professora em Harvard e colaborada da revista The New Yoker. Nos anos 1970, uma geração de pesquisadoras americanas começou a resgatar os acontecimentos do movimento sufragista e feminista nos EUA, entre a segunda metade do século 19 e início do século 20. Era um tipo de elo perdido da historiografia feminista. Jill Lepore dá sua contribuição com seu livro, publicado em 2014.

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Nos quadrinhos, a volta triunfal da Mulher Maravilha se deu pelas mãos do desenhista e roteirista George Perez, em meados dos anos 1980. Em 75 anos de existência, entre altos e baixos, o brilho da princesa amazona nunca realmente se apagou. Presente em várias mídias e no imaginário popular por décadas, a Mulher Maravilha se tornou um dos símbolos mais relevantes da cultura pop.

The Secret History of Wonder Woman, de Jill Lepore, 410 págs., Knopf.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

HISTÓRIA DO BRASIL ALTERNATIVA

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A história alternativa é um subgênero da ficção científica pouco praticado no Brasil. As histórias alternativas mais interessantes fazem especulações sobre o passado para entender melhor o presente. Por isso, é sempre bem-vindo quando bons romances nacionais imaginam outros Brasis possíveis, como uma criativa reflexão sobre nossa realidade.

No caso de A Segunda Pátria, de Miguel Sanches Neto, e E de Extermínio, de Cirilo S. Lemos, temos obras escritas por um autor do mainstream e outro do fandom, respectivamente.

Como o próprio Sanches Neto reveleou, seu romance foi encomendado pela editora. A proposta era responder à pergunta: e se o presidente Getúlio Vargas se aliasse a Hitler às vésperas da Segunda Guerra Mundial? No universo criado por Sanches Neto, os nazistas dominaram o sul do Brasil. Então acompanhamos, em A Segunda Pátria, a abordagem de uma ficção especulativa escrita por alguém com experiência em romances históricos, mas iniciante na FC.

A maturidade literária é o que mais chama atenção em A Segunda Pátria. Prosa fluente, sagaz, ótima pesquisa histórica, utilizada para reproduzir a atmosfera e a mentalidade da época, com personagens bem desenvolvidos. O aspecto especulativo é sutil, mas assustador. Os protagonistas são um engenheiro negro e uma jovem nazista branca, em Santa Catarina. O interessante é que o autor, a partir de sua pesquisa, extrapola ou dá outros rumos a fatos e comportamentos, de início, reais. Acompanhamos um horror palpável, verossímil. Infelizmente, a trama perde seu rumo por vários capítulos, ao dar-se ênfase apenas ao ponto de vista da jovem nazista. É um estudo de personagem envolvente, muito bem executado, com nuances e dilemas, mas que faz a narrativa deixar de lado o cenário mais amplo. O que vai ser recuperado só no terço final do livro, com toda a força. Terminada a leitura, percebemos que A Segunda Pátria, apesar de sua estrutura irregular, é um romance corajoso.

E de Extermínio foi originalmente publicado como uma noveleta, reproduzida na primeira parte do romance. Cirilo S. Lemos muda acontecimentos da história do Brasil, misturando personagens fictícios com personalidades do passado. As décadas de 1930 e 1940 são retratadas com uma pegada dieselpunk, num contexto retrofuturista, em que a monarquia ainda comanda o país, mesmo que de maneira frágil. Tensões entre monarquistas, militares, comunistas e americanos mostram uma disputa de poder acirrada, num cenário de Dick Tracy e Rocketeer, à nossa maneira, onde o avanço convive com o atraso.

O texto é ágil e cheio de ação. Mas há também belas passagens durante a calmaria ou nos momentos de delírio, nos quais os personagens são aprofundados. A ressalva fica para a falta de coesão do livro, em que as partes formam um todo meio caótico. Porém, isso é um arranhão menor na prosa relevante e divertida do autor.

A literatura brasileira precisa de mais livros como A Segunda Pátria e E de Extermínio. Romances que conseguem, ao mesmo tempo, contar boas histórias e fazer a gente pensar melhor sobre as rachaduras na realidade de nosso país.

A Segunda Pátria, de Miguel Sanches Neto, 320 págs., Intrínseca

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

E de Extermínio, de Cirilo S. Lemos, 248 págs., Draco

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CORRA QUE OS BRANCOS VÊM AÍ!

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Corra! é um filme brilhante. A intenção do diretor e roteirista Jordan Peele era promover uma reflexão sobre a condição do negro americano por meio de uma sátira, uma mistura de terror psicológico e comédia. Também podemos dizer que este é um dos melhores filmes de ficção científica dos últimos anos.

O hype é real. Principalmente, porque Peele conseguiu mostrar seu ponto de vista sem comprometer, em nenhum momento, o envolvimento do espectador com a narrativa, a trama. Corra! faz a gente pensar justamente por causa de sua história muito bem contada. Ao acompanharmos o horror passado pelo protagonista, entendemos todos os temas relevantes levantados pelo filme. O que é estar na pele de uma pessoa negra. Qual a ameaça que isso representa para sua própria vida pelo simples fato de você ser negro.

A grande sacada aqui não é mostrar antagonistas explicitamente racistas, gente que odeia pessoas negras, que quer matá-las violentamente. O contrário é mais assustador. Em Corra! os brancos adoram, idolatram os negros. Mas sua versão distorcida de admiração gera uma violência ainda mais perturbadora. Na verdade, esse fascínio pela figura do negro é superficial. Porque, mais uma vez, a dignidade de pessoas negras é tratada como coisa de quinta categoria, algo a ser descartado.

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Os temas de Corra! são muito sérios. Mas o filme é engraçado demais! Entenda: o humor não é de jeito nenhum leviano, insensível, inapropriado ou fora de lugar. Jordan Peele é um comediante muito famoso nos EUA. Ele é um dos criadores e protagonistas de Key & Peele, um programa no Comedy Central. É imperdível. No show, Peele faz diversos comentários sobre a condição do negro americano em esquetes hilários e afiados. Inclusive, alguns dos esquetes são bem assustadores, verdadeiras peças de comédia do absurdo.

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Então os fãs de Key&Peele podem ver em Corra! uma versão apurada das possibilidades de fazer terror, comédia e nonsense de Peele. É impressionante como no filme o terror não atrapalha a comédia e vice-versa. A habilidade do diretor em mudar o tom é mais um elemento que fez dessa produção barata um enorme sucesso de bilheteria. Custou US$4,5 milhões e até agora faturou mais US$ 214 milhões.

Outro triunfo é a escalação do elenco. Todos estão muito bem, novatos, desconhecidos e veteranos. O britânico Daniel Kaluuya faz o protagonista, o americano Chris, de forma tão convincente, com expressões faciais e corporais discretas, mas marcantes. A performance de Catherine Keener é magnética, numa atuação contida e poderosa. Outro destaque é o comediante Lil Rel Howery, no papel do melhor amigo de Chris. Ele rouba todas as cenas em que aparece.

Mas Corra! também tem seus problemas. Peele foi muito feliz em investir mais no terror psicológico, em mexer mais com nossas cabeças, do que no gore. Mas não evitou certos clichês do terror, certos sustos, principalmente, usando a trilha sonora macabra (aliás, excelente e original, com elementos hitchockianos, um toque de blues, R&B e música africana, sem estereótipos). E no terceiro ato, quando tudo é revelado ao espectador, algumas soluções fazem sentido, outras não. A grande revelação faz sentido. O motivo de Chris estar no meio daquela gente branca tão educada e amistosa. Mas outras revelações laterais não se encaixam, poderiam ter um rumo diferente, um melhor desenvolvimento, mais de acordo com o propósito dos antagonistas. Sim, estou falando do comportamento dos outros personagens negros daquela comunidade.

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Na sua estreia como diretor, Jordan Peele surpreende por sua segurança e ambição. Ele é um cinéfilo. Percebemos isso ao longo da trama, com suas referências a clássicos da ficção científica e do terror.

Corra! é um filme que nunca vimos antes. É uma poderosa reflexão sobre as várias faces do racismo no formato de uma sátira divertida e assustadora.

Corra! (Get Out), de Jordan Peele, 103 min., Blumhouse Productions, QC Entertainment e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

HITLER, ESCRITOR DE FICÇÃO CIENTÍFICA

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Publicado em 1954, Lord of the Swastika é a obra mais conhecida do autor de ficção científica Adolf Hitler. Acompanhamos a história de Feric Jaggar, um homem geneticamente perfeito que tem a ambição de varrer da face do planeta todo tipo de aberração mutante num mundo pós-nuclear.

Na verdade, o romance de Norman Spirad é um livro dentro de um livro, publicado em 1972. The Iron Dream é o texto integral do fictício Lord of the Swastika, acompanhado de um prefácio com a vida e obra do Hitler autor e um ensaio sobre seu clássico. Tudo faz parte do jogo metalinguístico dessa mistura de sátira e fantasia.

Nessa linha do tempo, Hitler deixa a Alemanha, depois de enfrentar problemas políticos, e emigra para os EUA, em 1919. Mas, tanto dentro como fora de Lord of the Swastika, Spinrad não está muito preocupado em criar universos alternativos verossímeis.

A intenção de Spirad foi construir uma ficção heroica exagerada, a partir da mentalidade delirante de Hitler. A linguagem é ridiculamente épica, com frases de efeito e uma sintaxe derramada. Ou seja, o livro é intencionalmente ruim.

O herói de Hitler é determinado, estrategista perfeito e cheio de razão. Os outros personagens são camaradas subordinados ou inimigos da pior espécie, aberrações. As primeiras cem páginas são movimentadas e o leitor consegue desfrutar as várias camadas do romance de Spinrad. Aquele universo leva o herói muito a sério e aí está a graça da coisa.

The Iron Dream é mais fantasia do que ficção científica. Principalmente, porque o herói puro, que se acha acima da maioria das outras criaturas, muitas retratadas como deformadas e vis, comporta-se como os protagonistas das histórias de espada e magia. Lembramos logo de Conan.

Portanto,  The Iron Dream também serve como uma crítica afiada à literatura de fantasia em geral, com seus heróis brancos e destemidos contra inimigos considerados inferiores, bestiais.

O livro não deixa de ser bastante violento, com a representação física da ideologia do herói em banhos de sangue empregando-se cassetetes, armas de fogo, balas de canhão, lança-chamas, bombas aéreas e por aí vai. O que leva o leitor a perceber como o racismo, a xenofobia, o machismo e a megalomania podem transformar o espírito de grupo, toda uma sociedade, numa força de destruição.

Infelizmente, o maior problema de The Iron Dream é que a piada se torna longa demais e vai perdendo a graça. A trama se torna repetitiva e previsível ao acompanharmos a ascensão do herói sem muitos obstáculos, sem nenhum dilema interior. Ainda mais para aqueles que conhecem um pouco da história da ascensão do próprio Hitler. Há toda uma analogia relacionada às disputas internas entre os nazistas, à Segunda Guerra Mundial, à União Soviética e aos judeus. Se The Iron Dream fosse uma novela, reuniria muito bem seus melhores momentos.

O romance se recupera nos capítulos finais com uma reviravolta chocante e provocativa.

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The Iron Dream, de Norman Spinrad, 288 páginas, Gateway.

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LEGION, X-MEN COM LSD

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A série Legion é a coisa mais diferente que já vi, na TV ou cinema, envolvendo super-heróis. O canal FX deu carta branca para o badalado showrunner Noah Hawley virar o universo dos x-men pelo avesso.

A narrativa de Legion é inspirada em diretores como Michel Gondry, David Lynch e Stanley Kubrick. A direção de arte é uma mistureba interessante de referências dos anos 60, 70 e atuais. Uma solução para cortar custos, mas que funcionou muito bem para dar um visual único à série. Outro atrativo é a trilha sonora. Quem curte aqui Pink Floyd?

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Provavelmente, o espectador médio, mesmo fãs da Marvel, vai achar tudo muito estranho e difícil de acompanhar. Há heróis, vilões e superpoderes, mas a atmosfera de sonho, de delírio talvez não agrade quem esperava uma narrativa mais linear, menos subjetiva.

A verdade é que Legion deu um novo fôlego às adaptações de super-heróis. Mesmo que pouca coisa dos quadrinhos tenha sido usada. Mas há uma ligação direta com os x-men, o que pode ser mais explorado no futuro.

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A história gira em torno do protagonista David Haller, interpretado com competência e carisma por Dan Stevens. Ele é o centro de tudo. Mas há espaço para o desenvolvimento dos outros personagens, até dos vilões. Mas quem rouba o show é Aubrey Plaza com sua performance ligada no 220v. Outro que faz a diferença é Jemaine Clement, com seu Oliver Bird irônico e bon-vivant.

Legion não é perfeito. Lá pelo meio, a criatividade dos roteiros cai de rendimento, dando voltas que não levam a lugar nenhum, para se recuperar no final. E quando se exige mais dos efeitos especiais, fica evidente a falta de grana para algo mais sutil. A série acompanha a tendência atual. São oito episódios que focam em um grande arco. Talvez a trama ficasse melhor amarrada em seis episódios.

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A segunda temporada já está confirmada. A questão é saber o que Hawley vai fazer daqui para frente. Os índices de audiência da primeira temporada não foram lá essas coisas para o padrão americano. Na casa de 1 milhão de espectadores ou menos por episódio. O canal FX reconhece a importância artística de Legion, mas sabe que é um produto difícil de vender. Para a série não acabar antes de fechar sua história, ela precisa de mais audiência. E geralmente, mais audiência significa concessões.

Mas não sofra por antecipação. Veja Legion. Abra sua mente e se divirta.

Legion, criada por Noah Hawley, 8 epsiódios (aprox. 50 min. cada), FX Productions, Marvel Television e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

CANIVETE SUÍÇO HUMANO

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Swiss Army Man é o filme mais filosófico sobre peido que você vai encontrar. Na verdade, flatulências são mais uma metáfora no caleidoscópio de significados dessa produção, ao mesmo tempo, tão vulgar e poética. Tecnicamente, o filme é perfeito. A fotografia é bonita sem ser artificial. A montagem é dinâmica, mas não parece videoclipe. A trilha sonora é outro triunfo, numa mistura de melancolia e êxtase. Inclusive vemos aqui uma espécie de musical, bem fora dos padrões. Os efeitos especiais e sonoros são loucos. Acontece um absurdo atrás do outro, mas você compra cada ideia. São muito bem executados e criativos.

Na maior parte do tempo, há um equilíbrio eficiente entre momentos de contemplação e de comédia alucinada. Só que nem sempre o ritmo é acertado. Mesmo sendo curto, o filme perde força lá pelo meio. Mas consegue se reerguer, tornando-se interessante e profundo novamente. A comédia vai dando cada vez mais espaço para o drama até a revelação final.

Paul Dano arrasa mais uma vez, numa performance exigente, sutil, cheia de camadas emocionais. E Daniel Radcliffe prova finalmente que existe vida após Harry Potter. Como um cadáver filosófico peidão, ele mostra que é um ator completo. É divertido na comédia e convincente no drama. E seu trabalho de corpo é incrível.

Os diretores Daniel Scheinert e Daniel Kwan (conhecidos como Daniels) fizeram Swiss Army Man para mostrar sua versão de coisas que odeiam, como piadas de peido no cinema, musicais e filmes de superação, como Náufrago. O título nacional, Um Cadáver para Sobreviver, é horroroso. O título original faz referência ao personagem de Radcliffe, que se transforma num canivete suíço humano literalmente.

Um Cadáver para Sobreviver (Swiss Army Man, 2016), de Daniels, 97 min., Tadmor e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE