DEUSES BRASILEIROS… OU QUASE

Capa-PREMIO

O site Mitografias é um dos mais completos portais sobre mitologias à disposição. Lá você encontra podcasts, resenhas, artigos, trabalhos acadêmicos e outros conteúdos sobre vários aspectos das mitologias ao longo da História. Destaque para o folclore brasileiro. A literatura fantástica ganha bastante espaço no site. Inclusive há a publicação de uma coletânea anual de contos. O edital de submissões da 2ª edição está aberto.

No primeiro volume, vencedor do Prêmio Le Blanc, a coletânea teve como tema mitos modernos. São 14 contos em que diversos mitos ganham uma abordagem contemporânea. Sem dúvida, foi um dos melhores lançamentos de 2017, no Brasil. Uma iniciativa independente e gratuita que não deve nada para o que foi publicado comercialmente no ano passado.

Mitos Modernos é uma bela amostra do que a literatura fantástica nacional é capaz de produzir. Não há nenhuma história ruim na coletânea. Mas algumas se destacam pela criatividade narrativa e tratamento dos temas levantados. Estes são meus contos preferidos:

Calada, de Isa Prospero. Texto fluido e elegante, conduzindo bem uma mistura de fantasia urbana e trama policial. A cativante protagonista tem potencial para novas histórias.

Mãe de Fogo, de Bruno Leandro. O clima é de Harry Potter, mas com um toque original e uma maturidade acima da média. Material promissor para uma obra juvenil de maior fôlego.

Sinfonia da saudade, de Jana P. Bianchi. Este conto por pouco não se tornou o meu n°1. Inspirado na cultura árabe, e tendo um djin como protagonista, acompanhamos uma poderosa história sobre migrações e adaptação. Tocante.

Sem cabeça, de Andriolli Costa. O conto mais redondo do livro. Impressiona a habilidade do autor em combinar folclore nacional com questões contemporâneas. Forma e conteúdo casam perfeitamente. Diverte o leitor e faz pensar.

O voo das deusas-pássaro, de Ana Lúcia Merege. A grande mestra da literatura fantástica nacional nos brinda mais uma vez com um generoso conto envolvendo História e invenção.

A proclamadora, de Alessandra Bacelar. O conto que mais chutou o balde, o mais diferentão. Sem nenhuma preocupação com classificações ou rótulos, o texto experimenta sua narrativa e intriga o leitor.

Intermitências, de Michel Peres. O conto com a estrutura mais inventiva da coletânea. Mitologia e realidade se confundem durante partidas de um game on line. Cada vez mais, o protagonista se enreda numa trama cheia de fascínio e desespero.

Mitos Modernos, vários autores, 205 págs., site Mitografias.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE.

 

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THE PLAYER OF GAMES, UMA UTOPIA NA PRÁTICA

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The Culture é uma série de ficção científica escrita pelo precocemente falecido Ian M. Banks. Na verdade, são livros independentes (com alguns pontos de ligação) dentro de um mesmo universo. The Culture é uma sociedade no futuro, numa galáxia distante, em que humanos aprimorados e inteligências artificiais convivem em harmonia. Eles vivem numa espécie de sociedade utópica. Não há mazelas sociais nem preconceitos. Há apenas prosperidade e aceitação. Mas isso não quer dizer que não existam relações complexas, disputas entre pessoas e máquinas. A delícia de ler as histórias de The Culture é ver como seus habitantes têm uma mente afiada.

O escocês Banks sempre foi conhecido por seu humor, ao mesmo tempo, caloroso e sombrio. A beleza dos romances de The Culture está em tratar de temas sérios, como classe, gênero, raça, estrutura social, individualidade, escolha e acaso, com toques de uma ironia que não deixa prisioneiros, mostrando os absurdos da realidade por ângulos bem diferentes do usual.

Em The Player of Games, acompanhamos o protagonista Jernau Gurgeh, um humano, especialista em jogos, numa missão secreta. Ele vai parar no Império de Azad, considerado bárbaro por autoridades de The Culture pelo extremo sexismo e xenofobia, onde há pobreza e uma hierarquia social estratificada. A civilização de Azad é toda estruturada em função de um jogo. O objetivo de Gurgeh é ser o grande vencedor desse jogo e derrotar essa civilização “por dentro”. As circunstâncias durante e fora das disputas e os próprios dilemas de Gurgeh farão da tarefa algo nada fácil.

The Player of Games é o segundo romance publicado de The Culture, mas é a melhor porta de entrada para esse universo tão rico. É o livro mais curto da série e com uma narrativa mais linear. Banks foi inteligente em não explicar demais as regras de cada jogo, deixando a narrativa ágil e focando nas expectativas e consequências das partidas. A ironia de algumas das inteligências artificiais, por meio dos diálogos, é um show à parte.

The Player of Games, de Iain M. Banks, 405 págs., Orbit

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

THE EXPANSE: GAME OF THRONES NO ESPAÇO

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A série The Expanse é uma espécie de Game of Thrones no espaço. Centenas de anos no futuro, a humanidade colonizou o sistema solar. Mas está longe de ser um futuro pacífico. Há uma disputa de poder entre os terráqueos, os marcianos e os belters. Os terráqueos têm os maiores recursos e as forças armadas mais poderosas. Os marcianos são humanos que colonizaram o planeta vermelho e se tornaram uma sociedade militar, de recursos limitados, independente da Terra. E os belters são basicamente mineiros que vivem em um cinturão de asteroides distante, explorados tanto pela Terra como por Marte. A vontade de independência dos belters é enorme.

Desde o final do reboot de Battlestar Galactica, o canal SYFY tenta emplacar outro sucesso. Várias tentativas ficaram pelo caminho. Até acertarem com The Expanse. É uma space opera mais sombria e realista (claro que com suas liberdades dramáticas se tratando de espaço sideral), com personagens muito bem desenvolvidos e com personalidades complexas. Os heróis fazem coisas terríveis e os vilões não são cartunescos, possuem motivações convincentes. A força da série está justamente nos personagens e na trama, que mistura elementos de suspense, aventura espacial e uma boa pitada de terror.

Outro triunfo de The Expanse é apostar na diversidade. Nisso ela ganha de lavada de GoT. Tendo um worldbuilding tão rico, com várias culturas e línguas ao redor da galáxia, passando pelas mudanças na estrutura corporal e reação à gravidade de terráqueos, marcianos e belters, às tecnologias que permitem a viagem no espaço, há toda uma variedade de gente, seja como protagonistas, coadjuvantes ou para compor cenários de fundo. Há negros, asiáticos, árabes, latinos, indígenas.

Houve uma melhora significativa na qualidade da série na segunda temporada. As mulheres se tornaram personagens mais relevantes. A trama ficou mais interessante. Há uma boa dose de ação, mas este não é o foco. O grande mistério é construído aos poucos, o que pede certa paciência do espectador.

The Expanse ficou conhecida como a melhor série de ficção científica da atualidade que quase ninguém assiste. O que é uma pena. Ela merece mais audiência e reconhecimento. A 3ª temporada está no ar no SYFY. Você pode ver as temporadas 1 e 2 na Netflix.

AVALIAÇÃO:RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

MUITO MAIS DO QUE UMA GUERRA ENTRE CAIPIRAS E HIPPIES

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Precisamos prestar mais atenção aos documentários da Netflix e aos documentários em geral. Sempre fui fã do gênero. E alguns dos melhores filmes nacionais são documentários. A verdade pode ser manipulada, se transformar numa obra de ficção. O diretor de um documentário, por mais talentoso que seja, precisa se ater ao compromisso ético de juntar seu quebra-cabeça de informações para mostrar a verdade ou as verdades possíveis dentro de um contexto social e/ou histórico.

No caso de Wild Wild Country, temos uma obra-prima nesse sentido. Uma história tão rica e real, filmada de maneira tão vibrante. A narrativa desse documentário é superior a muitas séries de ficção badaladas da Netflix. Em seis episódios, conhecemos a fundo um dos casos mais controversos da crônica americana nos anos 80: a chegada do guru Bhagwan Shree Rajneesh (depois conhecido como Osho) e seus seguidores ao estado do Oregon para fundar uma comunidade alternativa, numa área rural, cercada de cowboys.

Como diz um dos “personagens” no documentário, no futuro vão pensar que se trata de pura ficção. Porque a história é muito louca. E os personagens fascinantes. Principalmente, Ma Anand Sheela, a toda poderosa secretária de Osho. Ela era uma força da natureza. A pessoa que fazia as coisas acontecerem. À medida que o número de seguidores aumentava no Oregon, assim como a infra-estrutura da comunidade, os conflitos com os vizinhos se acirravam. Então começa uma guerra entre conversadores americanos contra essa comunidade, cheia de gente cansada do american way of life. Mas não pensem que era uma disputa entre caipiras e hippies. A coisa era mais complexa. Havia muito preparo intelectual de ambos os lados. Por isso, a sofisticação da guerra entre esses dois grupos chegou a níveis inacreditáveis.

O que torna Wild Wild Country tão marcante é a junção de conteúdo e forma. Os diretores Chapman e Maclain Way souberam criar uma narrativa empolgante com o uso de vários recursos audiovisuais, principalmente no trabalho com as imagens de arquivo. Esse documentários faz a gente pensar um pouco mais sobre o valor de nossas convicções. Até que ponto devemos deixá-las de lado ou mantê-las.

Wild Wild Country, de Chapman e Maclain Way, seis episódios, Duplass Brothers Productions

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

VINGADORES: GUERRA INFINITA, UMA MONTANHA-RUSSA DE EMOÇÕES

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Começo logo dizendo que Vingadores: Guerra Infinita é inferior ao primeiro filme e muito superior a Era de Ultron. Em Guerra Infinita, falta a coesão e desenvolvimento de personagens do primeiro. E está longe de ser a bagunça que foi Era de Ultron. Como já apontaram, Guerra Infinita é mais um evento (na verdade, a parte 1 desse evento) do que um filme propriamente dito. Uma saga de quadrinhos no cinema. E como os leitores de HQs bem sabem, dificilmente as sagas mostram o melhor de um universo de super-heróis. Acontece o mesmo com o MCU. Os melhores filmes são aqueles auto-contidos, que contam uma história sem muita ou nenhuma conexão com as outras produções do universo compartilhado.

O inchaço era inevitável em um filme como Guerra Infinita. Mas aqui a Marvel soube entregar um entretenimento que empolgasse. Ao contrário de Era de Ultron, tão preocupado em servir de plataforma para apresentar os novos rumos do MCU em futuros filmes, em Guerra Infinita há apenas um “novo” personagem a ser apresentado e desenvolvido de fato: Thanos. Chega a impressionar a decisão da Marvel em tornar o vilão a coisa mais importante do filme. Thanos não é uma figura caricata. Ele mal levanta a voz. Mas sua tranquilidade é assustadora. E suas motivações, por mais questionáveis que sejam, seguem uma lógica verossímil. Podemos dizer que Thanos acredita nas ideias de Malthus, de que a superpopulação é o motivo de todas as mazelas sociais, no caso, em todo o Universo. Thanos se considera um herói, equivocado, mas herói. O fascinante é ver sua convicção desapaixonada, lutando contra seus mais profundos sentimentos pessoais. Thanos é um vilão atormentado. E tem presença, é miserável e vai fazer você sentir muita raiva.

Passada a montanha-russa de emoções de Guerra Infinita, analisando a coisa friamente, constata-se que é um dos melhores filmes do MCU. Mesmo com seus problemas. A presença dos super-heróis é irregular, e em alguns casos decepciona (heróis fundamentais ficam meio de escanteio). Só uns poucos que fazem a trama avançar têm mais tempo de tela. Por isso, ganharam um bom desenvolvimento e falas marcantes. O que faz Guerra Infinita funcionar são as partes e não o todo, os melhores momentos de cada núcleo de heróis. O bom é que a constante troca de cenários e de times de heróis acelera a trama. O humor geralmente funciona. A ação, no estilo irmãos Russo, é muito competente. E os efeitos especiais são bem convincentes em mostrar a ambição épica desse filme.

A Marvel nunca teve muita coragem em arriscar no MCU. Em termos de mudanças de rumo. Mas há sérias consequências em Guerra Infinita. Houve choro, espanto, silêncio e revolta nos cinemas. Resta saber se a Marvel, daqui para a frente, vai respeitar o investimento emocional do público em relação a algumas das decisões tomadas.

Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War, 2018), de Anthony e Joe Russo, 149 min., Marvel Studios.  

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

MIRANDO NO ALVO ERRADO

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Ricky Gervais se tornou famoso e rico ao faturar em cima do filão da “comédia de choque”. Do tipo, falem mal, mas falem de mim. Então, ele faz piadas controversas sobre pessoas com câncer, AIDS e pessoas trans, por exemplo. Mas ele também ataca ferozmente os criacionistas. Ou seja, ele atira para todos os lados. Gervais já fez muita coisa no cinema, na TV, podcasts, publicou livros, participou de vídeo games, é um notório ativista dos direitos dos animais, ateu e entusiasta da Ciência.

Seu mais recente projeto é o stand-up Humanidade para a Netflix. Uma amostra de suas contradições. É no stand-up que muitos comediantes se soltam. Não é por acaso que ícones como Richard Pryor e Chris Rock brilham ou brilharam nos palcos, enquanto no cinema interpretaram personagens idiotas.

Gervais tem dois grandes méritos na carreira. Ele foi co-criador da versão original de The Office e apresentou várias edições dos Golden Globe. No The Office britânico, ele fazia o chefe sem noção David Brent. A série era uma poderosa sátira à vida corporativa. A versão americana mora no meu coração, mas não tem o mesmo vigor. E eu adorava assistir Gervais apresentando os Golden Globe, com a nata de Hollywood tensa, rezando para não ser alvo de suas piadas corrosivas. Ele deixava toda aquela gente famosa e endinheirada desconfortável. Era lindo de ver.

Mas o maior problema de Humanidade é que Gervais bate muito nos indefesos e pouco nos poderosos. Um comediante geralmente procura pontos em comum com a plateia ou aposta na autodepreciação para arrancar gargalhadas. A estratégia de Gervais é diferente. Ele logo deixa claro que é rico, famoso, mora numa mansão e tem uma vida de privilégios. E começa a atacar toda as bases da classe média, da classe trabalhadora, esfregando na cara das pessoas toda a mediocridade delas. A plateia gargalha. Mas o clima fica pesado. Só que Gervais retoma o controle do show apertando nos botões certos. A plateia é conservadora. Então não tem problema em pegar no pé de Caitlyn Jenner.

Gervais não é burro. Depois de tanta barbaridade, ele quer conquistar o coração da plateia. Então, na segunda metade de Humanidade, ele fala sobre sua origem pobre e conta “causos” de sua família esquisita. E também se autodeprecia um pouco. O conteúdo político do show é bom, quando ele destrói os argumentos dos conservadores religiosos e mostra as vantagens do pensamento fundamentado. Mas aí já é tarde. A coisa perdeu a graça.

Humanidade (Humanity, 2018), de John L. Spencer, 78 min., Netflix.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

PANTERA NEGRA: IMPERFEITO E SUBLIME

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O hype é real! O aguardadíssimo filme do Pantera Negra chegou para abalar as estruturas. Não é um filme perfeito. Mas é algo que você nunca viu antes.

O diretor e roteirista Ryan Coogler se firmou como um dos mais interessantes cineastas dos últimos tempos com seus dois filmes anteriores, o poderoso drama Fruitvale Station e Creed, a incrível reinvenção da franquia Rocky, com Stallone.

O grande talento de Coogler é criar personagens tridimensionais, escolhendo os atores certos para interpretá-los, acertando em cheio em suas motivações e entregando-lhes falas inteligentes, seja para o drama ou o humor.

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O que fica evidente em Pantera Negra é que Coogler ainda está aprendendo a lidar com uma grande produção. Seus dois filmes anteriores eram bem menores. Por isso, ele tinha maior controle sobre a narrativa deles. Sem dúvida, são filmes mais coesos. Creed mostra mais arrojo, com momentos em que o trio fotografia-montagem-trilha sonora entrega cenas muito elegantes e cheias de energia.

Em Pantera Negra, Coogler tenta se encontrar, fazer, na medida do possível, algo com a marca dele, tanto nos detalhes (oi, Oakland!) quanto nas grandes decisões (worldbuilding, conotação política, ligação com o MCU). Para um filme que é parte de uma linha de montagem, podemos dizer que ele se saiu muito bem.

Pantera Negra consegue se sustentar como entretenimento, indo além. Agora ele faz parte do seleto clube de filmes populares e relevantes, como Soldado Invernal e Mad Max, Estrada da Fúria. E, como todo blockbuster, Pantera Negra tem suas falhas.

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Fruivale Station e Creed são filmes muito físicos, com uma pegada realista. Uma fantasia tão colorida e ambiciosa como Pantera Negra exigiu bastante do uso de CGI. E nem sempre a coisa dá certo, principalmente, em cenas em que o herói é mais exigido, em suas acrobacias e golpes espetaculares. Também houve problemas nas coreografias das lutas como um todo. A comparação com Soldado Invernal é inevitável. E Pantera Negra sai perdendo. Mesmo que algumas cenas de ação sejam alguns dos melhores momentos do filme. Além disso, conhecemos pouco do cotidiano, das ruas e do povo de Wakanda.

Como todo roteiro de uma grande produção, há furos e equívocos. O maior deles foi não dar ao vilão principal, Killmonger, ainda mais espaço. Ele aparece e some na primeira metade do filme. Para voltar com tudo e desestabilizar as certezas do herói. Mas o roteiro também tem suas qualidades. E que qualidades! Desenvolve muito bem os personagens, tem um humor inteligente e pontual, e reviravoltas corajosas para um filme pipoca. Alguns personagens ficam sem chão, assim como o espectador.

 

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E que elenco! Que personagens! A combinação perfeita entre talento e avatar. Os personagens masculinos são homens negros que fogem dos estereótipos em que a sociedade geralmente os enquadra. São líderes, pessoas inteligentes, cultas, preparadas. E também complexas, tridimensionais, contraditórias. Mas meu destaque mesmo vai para a representação feminina. A mulher negra sempre foi colocada de escanteio em filmes de ação e aventura, porque a mulher negra sofre um duplo preconceito. Em Pantera Negra, vemos que elas podem ser até mais interessantes como personagens de ação do que os homens. E não é só isso. Há uma variedade de personalidades que mostra o potencial dessas mulheres. Há a badass general Okoye com sua lança de vibranium, a divertida cientista Shuri, a determinada espiã Nakia e muitas outras.

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Killmonger se firma como um dos melhores vilões do MCU, talvez o melhor, por suas motivações serem tão convincentes. Michael B. Jordan o interpreta com uma presença física ameaçadora e falas desconcertantes. Ele é um vilão trágico.

Não podemos esquecer o impagável Klaw de Andy Serkis. É um delicioso vilão cartunesco.

A trilha sonora é empolgante, misturando rap, hip-hop, rock, ritmos africanos, música sinfônica e sintetizadores. O design de produção mostra cenários, figurinos e objetos incomuns para um filme de super-herói. O afrofuturismo se torna mainstream.

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O teor político é bem trabalhado. A denúncia contra o racismo histórico é passada muito mais pela interação entre os personagens, dentro da narrativa, e não com tanta exposição ou monólogos. A Marvel está de parabéns. Mesmo seguindo a fórmula Marvel, Ryan Coogler teve liberdade criativa e de expressão. Agora o estúdio está colhendo os frutos, pela repercussão do filme e pela perspectiva de uma bilheteria avassaladora.

Para uns, Pantera Negra é diversão garantida. Para outros, um sonho que se torna realidade.

Pantera Negra (Black Panther, 2018), de Ryan Coogler, 134 min., Marvel Studios.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

A FANTÁSTICA JORNADA DO ESCRITOR NO BRASIL

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A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil é um livro muito útil para o leitor conhecer mais sobre os bastidores da literatura fantástica nacional. E é obrigatório para o autor que pretende fazer parte dela.

A autora Kátia Regina Souza nos conta, em formato de livro-reportagem, a história recente da literatura nacional de fantasia, terror e ficção científica. Ela entrevistou mais de cinquentas pessoas, entre escritores, editores, críticos e pesquisadores, para falarem sobre suas experiências e avaliações do passado e do futuro dessa parcela do nosso mercado editorial. É uma história de desânimo, derrotas, desistências e prejuízos, por um lado. E de desafio, conquistas, fortalecimento e crescimento, por outro.

A maior contribuição do livro é revelar a verdade nua e crua. Ser escritor no Brasil é difícil. Ser escritor de literatura fantástica é pior ainda. Mas também há outra realidade: o autor nacional de lit fan é muito dedicado, procurando sempre se aperfeiçoar e se profissionalizar; não exatamente para viver de literatura, mas para apresentar ao leitor um produto tão bom quanto os demais livros no mercado, em conteúdo e forma.

Os capítulos de A Jornada Fantástica são divididos emulando as etapas da jornada do herói. Mostra o caminho do autor, do manuscrito à publicação. Na verdade, os caminhos, considerando a autopublicação, a publicação tradicional, as plataformas digitais e a contratação de vanity presses, as polêmicas editoras pagas. O livro também tem um aspecto de utilidade pública. Alerta autores, principalmente, em início de carreira, a refletir melhor sobre suas opções e evitar ciladas. Além de dar preciosas dicas de como deve ser a postura de um autor profissional, que busca reconhecimento no meio e entre os leitores.

A Fantástica Jornada é uma leitura fluida com pouquíssimos erros de revisão. Isso graças ao talento da autora e com certeza de outras pessoas em editar bem o texto, deixando o conteúdo relevante e dinâmico.

Terminado o livro, podemos chegar às seguintes conclusões, principalmente, para quem acompanha a literatura fantástica nacional como leitor: 1) O melhor dessa literatura no Brasil  está sendo produzido por autores independentes e pelas pequenas editoras, salvo raras exceções; 2) O mercado da lit fan nacional ainda está atrasado, mas há uma tentativa constante de recuperação, pelo esforço de muitos autores e de algumas editoras; 3) Esse esforço já está chamando atenção, já há algum tempo, do mercado editorial como um todo; 4) Mas isso não é garantia de crescimento no automático. A História ensina que não existe essa coisa de evolução contínua, a oscilação é um quadro mais realista; 5) A lit fan nacional está sendo mais estudada na academia, quebrando, aos poucos, uma barreira de longa data; e 6) O leitor brasileiro, pelo menos, aquele acostumado a ler, cada vez mais, está entusiasmado pelos autores nacionais de lit fan, num universo em que os autores estrangeiros têm um apelo muito forte.

A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil, de Kátia Regina Souza, 176 págs., editora Metamorfose.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

AS 5 MELHORES HQS QUE EU LI EM 2017

O leitor brasileiro de quadrinhos não tem do que reclamar. Há tantos títulos disponíveis que até fica complicado (e oneroso) acompanhar tudo. Mesmo assim, com promoções de lojas virtuais, algumas coisas interessantes ainda nas bancas e novas ferramentas digitais, é possível acompanhar muita coisa da produção nacional e gringa.  O Social Comics, uma espécie de Netflix de quadrinhos, firma-se como o meio com melhor custo-benefício para ler os quadrinistas brasileiros independentes. Faz tempo que muitos deles não devem nada aos artistas de fora no talento das ilustrações e na criatividade dos roteiros. O Catarse se tornou outra poderosa ferramenta para o autor independente chegar aos leitores. Também devemos aplaudir de pé o trabalho de editoras pequenas, como Mino, Veneta e Zarabatana. E há de se reconhecer que gigantes, como a Panini, trouxeram para o nosso mercado títulos novos e clássicos que o fã brasileiro já merecia ter na sua coleção. Continuo lendo DC e Marvel, porém cada vez mais procuro quadrinhos de super-heróis com propostas diferentes, o que você encontra na Image, Dark Horse e Valiant, por exemplo. As cinco HQs escolhidas por mim como as melhores de 2017 são aquelas que mais me causaram impacto este ano ao mostrar o cotidiano, o realismo, o fantástico, o já conhecido de maneiras nada convencionais.

5) Hitomi

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O charme dessa HQ nacional é sua simplicidade. Acompanhamos o cotidiano conturbado emocionalmente da garotinha Hitomi, numa pequena cidade do Japão, nos anos 80. A relação com a mãe é difícil e o pai está sempre ausente. O contraste entre o drama e a leveza das ilustrações e cores de George Schall cria uma atmosfera curiosa, como se pudéssemos ver o cotidiano sob um novo olhar, com mais atenção. O roteiro de Ricardo Hirsch privilegia o silêncio, dando mais peso à solidão e ao isolamento de Hitomi. A partir do instante em que nossa protagonista encontra uma câmera e sai por aí tirando fotos, ela partirá para uma insólita jornada de amadurecimento.

4) Black Hammer volume 1 – Secret Origins

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Essa HQ de super-heróis é uma ótima surpresa. Alia o visual da Era de Ouro dos quadrinhos, entre os anos 30 e 50, com um roteiro bem contemporâneo, criando uma atmosfera estranha e divertida. Temos um grupo de heróis aposentados, vivendo como uma família disfuncional, num fazenda no meio do nada. Seus dias de glória se foram e agora eles precisam aprender a lidar com as coisas banais da vida, num tipo de exílio forçado.  Suas histórias de origem, ao mesmo tempo, tiram um sarro e fazem homenagem a heróis icônicos da Marvel e DC. O roteiro de Jeff Lemire consegue um ótimo equilíbrio entre o humor e o drama, com reviravoltas intrigantes. A arte de Dean Ormston e as cores de Dave Stewart captam bem o clima de ficção científica das antigas. Black Hammer é uma HQ melancólica, mas engraçada, com seus momentos de pura bizarrice.

3) Nijigahara Holograph

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Em Nijigahara Holograph, temos uma luta feroz, entre manter ou perder a sanidade. Aqui o mangaká Inio Asano leva o leitor a uma jornada, ao mesmo tempo, bela e desumana, num tom muito mais sombrio do que em seus trabalhos anteriores. É como se David Lynch tivesse resolvido fazer um mangá, pegando o cotidiano, banal e repetitivo, e o virando pelo avesso, expondo os demônios que carregamos dentro de nós. Há uma alternância entre imagens e sentimentos harmoniosos com cenas de pura violência e degradação. Parece que a todo momento Asano faz sempre a mesma pergunta: como pode haver tanta beleza e brutalidade no mundo? Os personagens de Nijigahara Holograph ou são vítimas, ou algozes. Às vezes, ambas as coisas. Os jovens angustiados de suas outras obras estão lá. Mas agora tudo é bem mais sinistro.

2) Bulldogma

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O potiguar Wagner Willian se estabelece como um dos grandes nomes dos quadrinhos nacionais com essa obra-prima. Uma graphic novel de 320 páginas, cheia de bizarrices e reflexões sobre a existência e o Universo. À medida que acompanhamos o cotidiano da protagonista, a ilustradora Deisy Mantovani, percebemos como sua vida fica cada vez complicada, entre frustrações profissionais, indefinições amorosas, procrastinação, erros, roubadas, papos, baladas, cachaça, sexo, numa São Paulo efervescente. Para piorar, ela começa a ver coisas que não fazem sentido, acontecimentos estranhíssimos, ligados ao apartamento onde mora. O lugar faz parte da lenda urbana local, envolvendo abduções alienígenas. Aos poucos, Deisy entra numa espiral de paranoia, que vai aumentando, misturando pesadelo e realidade. Bulldogma é uma HQ imprevisível. O estilo da arte varia, tornando-se  impressionista, realista, cartunesco, de acordo com o momento da protagonista, na sua maneira de lidar com os outros e consigo mesma. Existe uma trama, mas o que importa mesmo é a atmosfera, os elementos que a compõe. O suspense avança, com surpresas e reviravoltas bem loucas. Bulldogma é uma visceral homenagem ao cinema, à literatura e aos próprios quadrinhos, uma reflexão alucinada sobre a arte de narrar.

1) Lobo Solitário volumes 1-5

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A maneira mais empolgante de conhecer a história do Japão feudal é lendo o clássico Lobo Solitário, publicado originalmente em revista, na década de 70. As aventuras do estoico ronin Itto Ogami e de seu nem sempre inocente filhinho Daigoro são, ao mesmo tempo, belas e brutais. O roteiro de Kazuo Koike tem soluções narrativas ora sutis, ora de grande força, além da extensa pesquisa sobre o período Edo (1603-1868), o auge do xogunato, uma espécie de ditadura militar. Em Lobo Solitário, a visão de mundo é aparentemente amarga, mas, no fundo, há um senso de justiça. Itto Ogami é um anti-herói à maneira dos cowboys interpretados por Clint Eastwood. Um canalha na superfície, mas com uma ética que procura fazer o certo. A arte de Goseki Kojima transforma todo esse contexto em imagens de um realismo e de uma fluidez cinematográficos. Lobo Solitário (que, na verdade, é um título inadequado para o contexto da HQ) tem um histórico de publicação complicado no Brasil, saindo no passado por várias editoras, em edições incompletas. Mas, em 2017, a Panini começou a republicar o título, direto da versão japonesa. Até agora foram lançado cinco volumes. Lobo Solitário é uma saga obrigatória para fãs de quadrinhos. E, para o público em geral, é uma leitura instrutiva e cheia de emoção.

AS 5 MELHORES SÉRIES QUE EU VI EM 2017

É totalmente compreensível quando alguém prefere ficar em casa, no lugar de ir ao cinema. Hoje em dia, não faltam séries excelentes para assistir no conforto do seu lar, com um custo-benefício muito mais atraente. É até impossível acompanhar o volume de produções de qualidade, entre lançamentos e novas temporadas. As cincos séries escolhidas por mim como as melhores do ano foram aquelas que tentaram quebrar estereótipos sociais e clichês narrativos. Que ousaram na forma e trouxeram conteúdos sob um novo olhar. Em alguns casos, com um impacto digno dos melhores momentos da sétima arte.

5) Master of None (2ª temporada)

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A primeira temporada me conquistou por ter tido a ousadia de fazer uma comédia romântica inteligente do ponto de vista do cara que geralmente é o melhor amigo não-branco do protagonista branco. No caso, um cara de ascendência indiana. Aziz Ansari conseguiu ser divertido e, ao mesmo tempo, não banalizar temas cabeludos, como racismo e diferenças culturais. Na segunda temporada, vemos uma produção mais ambiciosa e madura, sem perder a leveza tão marcante da série. Há mais experimentações de linguagem, o próprio Ansari se mostra um roteirista e diretor mais seguro e inventivo. A coisa fica mais dramática nos últimos episódios. Mas tudo é tão bem executado que nos deixamos levar pelas angústias dos personagens. No final, entre a fantasia e a realidade, percebemos que não existe receita pronta quando o assunto é relacionamentos.

4) Mindhunter

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Se você gostou do filme Zodíaco, de David Fincher, vai amar Mindhunter. Na série, o tema do serial killer é tratado com ainda mais paciência e sutileza. Uma das surpresas do ano, esse drama policial acertou muito bem em concentrar seus esforços nas histórias. Todo o elenco está excelente, mesmo nos menores papéis, mas não há estrelas. A recriação dos EUA dos anos 70 é impecável, mas a direção dos episódios sempre é muito discreta. O ritmo mais lento da série é compensado pelos diálogos ágeis, interessantes e perturbadores. Apesar do fundo histórico, sobre o início do programa de análise de serial killers dentro do FBI, há muita liberdade criativa. O que acaba sendo uma maneira bem acertada de falar sobre o passado sob uma ótica contemporânea. Há muita violência física contra mulheres na série, afinal, são as vítimas preferidas dos serial killers, além do machismo, da violência simbólica, dos homens de bem. Contudo,  as personagens femininas, principalmente as protagonistas, estão longe de ser indefesas, submissas. A série é intensa, mas não é gráfica. O suspense cresce a cada episódio sem ninguém dar um tiro sequer.

3) Legion 

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Essa série é a coisa mais diferente que já vi, na TV ou no cinema, envolvendo super-heróis. O canal FX deu carta branca para o badalado showrunner Noah Hawley virar o universo dos X-Men pelo avesso. A narrativa de Legion é uma mistura de Michel Gondry e David Lynch. A direção de arte também é uma mistureba interessante de referências dos anos 60, 70 e atuais. Uma solução para cortar custos, mas que funcionou muito bem para dar um visual único à produção. Provavelmente, o espectador médio, mesmo fã da Marvel, vai achar tudo muito estranho e difícil de acompanhar. Há heróis, vilões e superpoderes, mas a atmosfera de sonho, de delírio, talvez não agrade quem espera uma narrativa mais linear, menos subjetiva. A verdade é que Legion deu um novo fôlego às adaptações de super-heróis. Mesmo que pouca coisa dos quadrinhos tenha sido usada. Mas há uma ligação direta com os X-Men, que pode ser mais explorada no futuro.

2) Cara Gente Branca

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Essa série da Netflix é uma ótima maneira de qualquer pessoa entender como o racismo opera na sociedade. Mostra a vida de estudantes negros numa universidade americana de elite. A escolha do cenário é certeira. Num ambiente onde o pensamento progressista devia dominar, arma-se um campo de batalha racial depois de uma festa blackface. A partir daí o espectador tem contato com todos os aspectos da vida universitária, principalmente, os menos nobres. A sistematização do racismo no campus não é muito diferente do que acontece em outros espaços sociais. Num lugar onde o jovem negro devia se sentir seguro, a violência simbólica é mais articulada. E a violência física é a mesma do mundo lá fora. Acompanhamos as várias nuances da experiência do jovem negro pelo ponto de vista de um elenco de personagens complexos. À primeira vista, eles podem ser vistos como estereótipos (a ativista, a patricinha, o radical, o capitão do mato). Mas a série dá oportunidade para que o espectador e os próprios personagens reflitam sobre quem eles são, a fundo. A todo momento, esses jovens tentam entender como fazer parte de uma sociedade que assimila e enaltece a cultura negra, mas que não se importa com corpos e mentes de gente negra. O humor aqui não é para gargalhar. Está mais para uma ironia incômoda.

1) Twin Peaks – O Retorno

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Não teve para mais ninguém em 2017 (ainda não vi The Handmaid´s Tale). O que inicialmente parecia uma ideia duvidosa, mesmo se tratando de David Lynch, acabou, no final, explodindo nossas cabeças. A 3ª temporada de Twin Peaks é um revival que nada tem de previsível ou preguiçoso. Lynch não se preocupou muito em agradar aos fãs de Twin Peaks. Há fan service, alguns inclusive aquecem o coração. Mas Lynch aproveitou esta oportunidade de retomar a série para expandir o universo criado por ele e pelo roteirista Mark Frost. Nos anos 90, Lynch revolucionou a televisão com uma 1ª temporada que transformava uma novela, uma soap opera, num pesadelo surrealista. No Retorno, ele vai ainda mais longe, numa narrativa mais fragmentada, mais lenta, mais delirante e mais engraçada. É puro cinema. Um filme de 18 horas, que surpreende a cada episódio. O que importa na obra de Lynch não é encontrar respostas, e sim ficar fascinado e abalado com as maravilhas e os horrores da jornada.