BACURAU, UM MANIFESTO DE RESISTÊNCIA

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Bacurau é um filmaço. Irregular, mas feito com muito tesão. Cheio de consciência estética e política. Porém, para surpresa geral, os diretores afirmam que a violenta trama de resistência não foi pensada como uma metáfora para os atuais tempos sombrios. De fato, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles tiveram a ideia de fazer Bacurau há dez anos, com o roteiro sendo trabalhado nos últimos três.

Os diretores reconhecem e enaltecem a influência do cinema de gênero (terror, western, thriller, ficção científica). Citam mestres como John Carpenter, George Romero, Sergio Leoni, Sergio Corbucci e Sam Peckinpah. Uma intenção evidente de Mendonça e Dornelles é fazer um filme de gênero como metáfora política, mesmo que não que seja colada à indigência vigente, pensando na crise da sociedade brasileira como um processo histórico em andamento. (Mas, no fim das contas, os significados e interpretações fogem do controle de seus autores, como em qualquer obra artística, e, sim, Bacurau é uma manifesto de resistência do povo nordestino contra os fascistas locais, do sul maravilha e estrangeiros.)

Carpenter refletiu sobre a crise capitalista nos EUA dos anos 70 e 80, em Assalto ao 13º Distrito e Eles Vivem. Romero refletiu sobre a tensão social gerada pelo movimento dos direitos civis nos anos 60, em A Noite dos Mortos Vivos. Peckinpah fez algo semelhante com as consequências da guerra do Vietnã, em seu western tardio Meu Ódio Será Sua Herança. E Corbucci, membro do partido comunista italiano, pensou nos movimentos revolucionários espalhados pelo mundo dos anos 60 e 70 ao criar seus Zapata westerns.

Mendonça e Dornelles bebem de todas essas fontes para apresentar um filme vibrante em seus melhores momentos. Bacurau está em cartaz em várias salas pelo Brasil, ganhando espaço no circuito comercial, não se restringindo ao circuito de arte. Pode ser visto por qualquer pessoa. É divertido, tenso, movimentado e reflexivo. O que pode afastar muitos espectadores é a opção, totalmente válida dos diretores, de quebrar expectativas. Bacurau é ação, mas não é. É suspense, mas não é. É gore, mas não é. Há uma constante mudança de propostas. O que para uns pode ser irritante, para outros pode ser desafiador.

É uma obra aberta que estimula diversas interpretações. Contudo, certas inconsistências no roteiro e os rumos tomados no ato final criam um sentimento conflitante na gente. Adoramos o clímax por sua potência, mas, em paralelo, o odiamos pelo ritmo canhestro, pela cinematografia mais pobre. Mesmo que o embate final seja um jogo metalinguístico, carece de mais esmero, algo que foi melhor executado em filmes de John Woo, por exemplo.

A população de Bacurau é marcante (Lunga, Domingas, Pacote, Teresa, Plínio, Damiano, Maciel, Flávio, Sandra, o violeiro gaiato…), só que não espere muito desenvolvimento de nenhum personagem. Isso fica pelo caminho. Mas o que é mostrado se torna suficiente para nos conquistar. Torcer por eles. Sofrer com eles. A verdadeira protagonista é a cidade de Bacurau, com seu povo, sua história, seu senso de comunidade, escassa de recursos (onde falta água, mas há internet), politicamente madura, em prol da diversidade. Uma utopia possível encravada no sertão pernambucano, ameaçada por um poder vil que recusa a dizer seu nome.

Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 132 min., SBS, Cinemascópio, Globo Filmes

AVALIAÇÃO:
RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

SUSPIRIA, FAZER DE NOVO NEM SEMPRE É REPETIR

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Nem sempre um remake é uma perda de tempo, um crime contra a obra original. Suspiria, de 1977, é um clássico do terror italiano, do giallo, o filme mais celebrado do mestre Dario Argento. Em 2018, o também italiano Luca Guadagnino, diretor do aclamado Me chame pelo seu nome, lançou uma nova versão de Suspiria. No final das contas, Guadagnino se saiu muito bem da enrascada em que se meteu. Justamente por ter sido infiel à obra original.

A premissa é a mesma. Uma estudante de balé americana vai para uma prestigiada academia na Alemanha e coisas bizarras começam a acontecer.

O filme de Argento é famoso por sua atmosfera arrepiante e estilosa. Pelo uso de cores primárias, principalmente o vermelho, na direção de arte e fotografia e pela trilha sonora com um rock progressivo, ao mesmo tempo, feérico e macabro. O roteiro é bastante básico e as atuações apenas satisfatórias.

A maior crítica que se pode fazer ao filme (e ao giallo em geral) é o seu sadismo contra as mulheres, pela maneira como morrem, assassinadas violentamente por mãos masculinas, além de mostrá-las como frágeis ou megeras, de maneira bidimensional. E tudo isso mesmo tendo uma protagonista feminina.

Já no remake, há um feminismo muito presente, inclusive, sem a preocupação de mostrar as mulheres como simpáticas. As personagens do novo filme metem medo porque elas têm plena consciência de seu poder. Aqui os homens são os inimigos, os fracos.

Guadagnino foi ambicioso ao ampliar o contexto desse remake. Assim como no original, ele se passa na Alemanha Ocidental da década 1970. Mas Guadagnino procura discutir traumas políticos do passado, relacionados à Segunda Guerra Mundial, e daquele presente, por meio da tensão social causada pelas ações da organização Fração do Exército Vermelho (RAF), mais conhecida como Grupo Baader-Meinhof. Ao invés de tirar o espectador da trama, essas preocupações extras aprofundam a experiência, porque o passado das mulheres da academia de balé tem a ver com repressão e perseguição ao longo da História, contra a plena liberdade delas.

Esteticamente, o remake envolve e assusta. Não se parece em nada com a ambientação estilizada do Suspiria de Argento, artificial, criada em estúdio. E sim com os filmes alemães do período, de cineastas como Fassbinder, Wenders, Herzog, von Trotta e outros. As cores são lavadas e os cenários, sóbrios, realistas.

O Suspiria de Argento fascina pelo clima de delírio, pelo simbólico sobre o subterrâneo da condição humana. E o remake seduz pelo grotesco mais visceral, uma metáfora da condição da mulher contemporânea. Mostra uma crueldade feminina implacável. Porque, mesmo no grotesco, há sabedoria, beleza e libertação.

Como bônus, Tilda Swinton arrasa em dois papeis completamente diferentes, pelo menos.

Suspiria (1977), de Dario Argento, 98 min., Seda Spettacoli 

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

Suspiria (2018), de Luca Guadagnino, 153 min., K Period Media e outros

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

TRILOGIA BINTI: UMA JORNADA NOTÁVEL

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A autora estadunidense, de ascendência nigeriana, Nnedi Okorafor disse, certa vez, que, como não havia ficção para ela ler sobre a África no futuro, ela resolveu escrever suas próprias histórias. A trilogia Binti é um excelente exemplo desse projeto.

Na primeira novela, somos apresentados a Binti, uma garota muito curiosa, matemática brilhante e filha de um fabricante de astrolábios. Ela faz parte do povo Himba, na Terra. Um povo que dá valor ao conhecimento, mas muito fechado em si, bastante apegado às tradições. Quando Binti decide viajar para outro planeta, onde se encontra a universidade mais prestigiosa da galáxia, gera-se uma crise familiar. Os poucos Himba que deixam sua comunidade se tornam párias.

Na nave que a leva, Binti é a única pessoa do povo Himba a bordo, com otjize espalhada pelo rosto e tranças, uma espécie de argila vermelho-alaranjada, símbolo fundamental em sua cultura.

Binti se sente novamente dividida com o acolhimento de um grupo de estudantes, futuros colegas de universidade (depois de um estranhamento inicial) e a curiosidade espantada e racista de tripulantes e passageiros, gente Koush, um povo humano dominante. Então acontece uma reviravolta sanguinolenta. A viagem espacial se torna cenário de uma eletrizante história de terror, com a chegada do povo alien Meduse, inimigos mortais dos Koush.

Binti é uma adolescente muito decidida, mas também frágil na incerteza do que o futuro lhe reserva longe de casa, na universidade, e em seu contato com o povo Meduse. Contato esse que fica mais complexo e tenso à medida que o tempo vai passando na nave, e que vai transformar a vida de Binti para sempre.

Em Binti: Home, segunda novela da trilogia, ela já frequenta a universidade de Umza Ooni. Depois do trauma vivenciado no livro anterior, Binti volta para Terra, a fim de se explicar à sua família por ter fugido. Esse retorno não é fácil. Binti não é mais a mesma pessoa, algo que tanto seus familiares como a própria Binti têm dificuldade em entender.

A expansão desse universo é o maior mérito do segundo volume. Conhecemos mais o povo Himba e a família de Binti, com seus afetos e conflitos. Agora Binti enfrentará mais uma etapa decisiva em seu caminho de autodescoberta, após revelações sobre seus ancestrais e poderes que ela desconhecia. Ao mesmo tempo, há um grande perigo no ar. A rivalidade entre os Meduse e os Koush chega à Terra, ao povo Himba e coloca a vida de Binti em risco.

Na terceira novela, The Night Masquerade, temos uma conclusão épica à jornada de Binti, colocando-a no epicentro de uma guerra iminente entre Meduse e Koush, após anos de trégua. Binti precisa buscar a paz a fim de preservar sua cultura e a vida de seu povo. Além de tentar entender as habilidades que carrega consigo.

A primeira novela é tão empolgante que você consegue terminá-la de um só fôlego. O texto de Okorafor é simples, fluido, muito gostoso de ler. É uma prosa cheia de sabedoria, calorosa, mas que não deixa de lado o aspecto sombrio da natureza humana… e de alienígenas. Isso continua em Binti: Home, mas aqui algo fica faltando, um maior investimento na trama. Não acontece muita coisa, mesmo com um elenco de personagens fascinantes.

Contudo, em The Night Masquerade, Okorafor consegue aproveitar muito bem o fato de escrever a novela mais extensa para, finalmente, entregar ao leitor o cenário completo de toda a saga. É no terceiro livro que temos os melhores momentos de Binti, tanto na interação com os demais personagens, como em suas reflexões sobre seu lugar no mundo (e no universo) e outros temas caros, como os papéis da mulher, sede de conhecimento, estado de guerra, tradição, modernidade e negritude. Himba, Meduse e Koush não são retratados como mocinhos e vilões, mas como gente e seres complexos numa situação-limite, que precisam fazer escolhas difíceis, vencer barreiras e preconceitos. O desfecho é positivo, mas longe de ser ingênuo.

Com a trilogia Binti, Nnedi Okorafor subverte as convenções da ficção científica para tornar o gênero mais vibrante. Ela continua os passos de Octavia Butler e apresenta uma obra de afrofuturismo notável. A primeira novela ganhou o Nebula e o Hugo.

 

Binti, 98 págs, Tor. AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

Binti: Home, 168 págs., Tor. AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

Binti: The Night Masquerade, 202 págs., Tor. AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

QUEM TEM MEDO DO FEMINISMO NEGRO?

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Djamila Ribeiro é um dos nomes mais importantes do pensamento social contemporâneo brasileiro, justamente por fazer, com tanta propriedade, a ponte entre a teoria acadêmica e a população em geral.

Por meio de seus artigos e livros, e como editora e palestrante, ela torna acessível uma pauta urgente: a condição da mulher negra no Brasil. Djamila mostra que a mulher negra, tão massacrada historicamente, sofre em dobro por ser mulher e negra, tendo que enfrentar o racismo, o machismo, o fogo amigo do feminismo da mulher branca, a invisibilidade e outros estereótipos desde a infância.

Este Quem tem medo do feminismo negro? é ótimo, principalmente, para quem ainda não parou para refletir sobre o tema. Para quem já tem outras leituras a respeito, serve como síntese de muitas fontes espalhadas por aí. Além de trazer uma rica bibliografia para que o processo de reflexão continue, mais aprofundado. É um aprendizado realmente.

Quem tem medo do feminismo negro?, de Djamila Ribeiro, 120 págs., Cia das Letras.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

CONTOS SOMBRIOS

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A tradutora, ilustradora e escritora Camila Fernandes é um dos talentos mais sólidos da literatura fantástica nacional, mas infelizmente pouco se fala sobre sua obra, focada em contos.

A autora consegue misturar com muita competência tradição e contemporaneidade. Suas histórias remetem a contos de fadas, seres mitológicos, lendas e medos antigos. O que torna sua prosa cativante é a ligação do passado com o mundo atual, pós-moderno, feminista.

Outro elemento de fascínio é a franqueza da autora. Sua crueldade, que nunca é gratuita. Tem uma razão de ser. É a condição humana olhando para o fundo do poço. Ou olhando para um lugar desconhecido, além de sua compreensão.

Vale destacar também a prosa fluente e cadenciada, que consegue desenvolver personagens e desfechos com destreza, gerando espanto, principalmente nas histórias mais longas.

Contos Sombrios é um livro que precisa ser mais apreciado. O e-book está disponível na Amazon.

Contos Sombrios, de Camila Fernandes, 105 págs., Dandelion.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

A ARTE DA GUERRA

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O romance Use of Weapons é conhecido por sua estrutura peculiar e pela chocante revelação final. Melhor dizendo, pelas duas revelações finais. E uma delas tem a ver com uma cadeira.

Entre os fãs da série The Culture, escrita pelo escocês Iain M. Banks, a avaliação do livro divide opiniões. Tem quem o considere um dos melhores romances de ficção científica já escritos. Outros o admiram, mas com ressalvas. Eu fico com estes últimos. Um livro de Banks sempre é garantia de uma leitura, no mínimo, intrigante, com momentos de reflexões contundentes sobre a condição humana e pérolas de uma ironia refinada e perversa.

A série The Culture, na verdade, são livros independentes (com alguns pontos de ligação) dentro de um mesmo universo. The Culture é uma sociedade no futuro, numa galáxia distante, em que humanos aprimorados e inteligências artificiais convivem em harmonia. Eles vivem numa espécie de sociedade utópica. Não há mazelas sociais nem preconceitos. Há apenas prosperidade e aceitação. Mas isso não quer dizer que não existam relações complexas, disputas entre pessoas e máquinas.

Em Use of Weapons, considerado o terceiro livro da série, acompanhamos uma trama de espionagem política. Zakalwe é um ex-agente da Special Circunstances, mistura de serviço de inteligência e forças especiais de The Culture. Ele é tirado de sua aposentadoria confortável e convocado para uma nova missão: convencer um político exilado a interceder pela paz entre duas sociedades galácticas à beira da guerra. Zakalwe aceita o trabalho. Só que as coisas nunca são fáceis quando The Culture resolve se meter nos conflitos alheios. Suas intenções são nobres, mas nem sempre claras.

O livro é divido em duas linhas narrativas. Acompanhamos o presente, a partir do momento em que Zakalwe é convocado para a missão até o seu final. E paralelamente, temos trechos do passado de Zakalwe, apresentados de forma reversa, de anos antes de sua aposentadoria até a infância. Assim, a cada nova ação dele no presente, entendemos melhor suas motivações pelo o que é revelado de sua vida pregressa. É um recurso engenhoso. Bem sucedido, em parte. Quando funciona, mostra a maturidade de Banks como escritor, em termos de ritmo, construção de cenas e desenvolvimento de ideias. Quando a coisa não funciona, fica como algo gratuito, artificial, excessivo, a técnica pela técnica.

Zakalwe é um personagem fascinante pelo o que ele representa na narrativa. Por meio desse protagonista, Banks mostra que qualquer coisa pode se tornar uma arma. Até mesmo os sentimentos. Zakalwe é uma figura trágica, cabendo ao leitor sentir admiração, raiva ou pena.

Use of Weapons é uma meditação brutal, cheia de uma poesia melancólica e uma ironia afiada, sobre a vontade de subjugar, seja no âmbito pessoal ou coletivo.

3.5/5

Use of Weapons, de Iain M. Banks, 516 págs., Orbit.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

DECEPÇÃO CYBERPUNK

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Saga cyberpunk em 10 volumes, Blame! começa muito promissora, mas termina melancolicamente como uma baita decepção.

Os primeiros cinco volumes mostram um universo contido, mas intrigante e em expansão, envolvendo ciborgues letais e impiedosos de um lado e alguns humanos tentando sobreviver a uma distopia claustrofóbica, dentro de enormes instalações metálicas, com vários níveis e compartimentos, um verdadeiro labirinto vertical.

No início, o estilo lacônico do roteiro do mangaká Tsutomu Nihei estimula o leitor a fazer todos os questionamentos: que lugar é aquele? O que pretendem os robôs? O que aconteceu antes com a humanidade? A cada volume, apenas poucas informações são dadas. Mas tudo bem, porque há a expectativa de novas revelações, que, no final, façam algum sentido.

Mas acontece que, a partir do volume 6, a trama vai ficando cada vez mais vaga, com menos personagens e menos diálogos. E os mistérios se empilham. O que leva mesmo a avançarmos na leitura é a arte criativa e detalhada de Nihei, com suas criaturas bizarras e cenários épicos. Ele também é um mestre da movimentação. Sua cenas de ação são ágeis e potentes. Sua maior dificuldade é o desenvolvimento de personagens.

O desfecho é aberto demais, daqueles que dá vontade de jogar o mangá na parede.

Blame!, de Tsutomu Nihei, 10 volumes, JBC.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

A HORA E A VEZ DOS DESASSISTIDOS

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Itamar Vieira Junior é o mais importante autor baiano da atualidade. Vencedor da última edição do Prêmio Leya, seu romance Torto Arado teve extensa cobertura da mídia portuguesa. O autor foi à terrinha e fez bonito em diversos encontros e entrevistas. O romance será lançado no Brasil pela Todavia.

Itamar segue a tradição dos grandes autores baianos em aliar inquietação política e filosófica com apuro literário. Ele chamou atenção com o livro de contos A Oração do Carrasco. Não se engane com a finura do livro. Apesar de curto, cada conto carrega uma densidade que desafia o leitor, conteúdo e forma.

O triunfo aqui é falar de gente sofrida, os desassistidos, as minorias, mas descartando naturalismos fáceis. É uma poesia dura. Às vezes excessiva. Um ou outro conto poderia ser mais curto, porque a história termina e a linguagem continua meio que solitária, como em “Meu mar (Fé)”.

Mas não é à toa que o livro foi finalista do Jabuti. É o mais impactante livro de contos publicado por um autor baiano na última década, pelo menos. Existe até um flerte com a especulação, com a ficção científica, em “A floresta do adeus”. Os melhores contos são os que aliam, na medida certa, enredo intrigante, personagens cativantes e voz narrativa envolvente, como em “Alma” e “O espírito aboni das coisas”.

A pequena editora Mondrongo, da cidade de Itabuna, no interior aqui da Bahia, está de parabéns por lançar uma edição tão profissional, com bela capa e um projeto gráfico atraente.

A Oração do Carrasco é imperdível.

A Oração do Carrasco, de Itamar Vieira Junior, 167 págs., Mondrongo.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

O INFERNO SOMOS NÓS

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Jordan Peele conseguiu de novo. Entregou ao espectador mais um filme de impacto, tanto do ponto de vista estético quanto reflexivo. Em Corra! ele apresentou uma arriscada combinação de filme tenso, mas muito divertido. E se saiu bem desse desafio, criando algo único, a partir de referências inconfundíveis de mestres do cinema do passado.

Em Nós, Peele se arrisca ainda mais, em nome de um objetivo claro: assustar, deixar o espectador em choque. O humor está presente, porém de maneira mais pontual. Nos seus melhores momentos de sátira, as piadas são ótimas. Há uma cena hilária que usa a música Fuck the Police, do N.W.A. Mas, no fim das contas, o que prevalece é o gore e o slasher. O desespero, os gritos, as mutilações, o sangue.

Como diretor, Peele amadureceu. O primeiro terço do filme tem um ritmo impressionante. Praticamente nada acontece, mas o que vemos tem uma fotografia tão elaborada, uma montagem tão cadenciada e diálogos e atuações tão marcantes, que não importa. Acompanhamos o cotidiano da família protagonista com um sorriso besta na cara, sem desejar que nada se apresse. A influência de Hitchcock é evidente, o diretor que construía seus suspenses sofisticados para o público médio como um reflexo apavorante desse mesmo público. E quando a violência começa, nos deparamos com um dos filmes de terror mais criativos e perturbadores dos últimos tempos. Uma mistura de homenagem e subversão ao cinema de horror dos anos 70 e 80.

É realmente revolucionário ver uma família de negros com tamanha personalidade e desenvoltura como protagonistas de um filme importante, que gerou tanta expectativa. Todos os quatro membros da família Wilson tem uma individualidade bem desenvolvida, provocando afetos e tensões entre si . Eles conquistam a empatia da plateia por suas qualidades e falhas. Ao mesmo tempo, os atores também impressionam quando representam seus duplos assassinos, invertendo a experiência do espectador de forma fascinante. Agora a dona do filme é Lupita Nyong´o. Ela arrasa como a mãe que defende sua família a qualquer custo e como seu duplo, uma personagem nada caricata, carregando uma complexidade surpreendente. No gênero do terror, é uma perfomance histórica para uma mulher negra.

Peele revelou em entrevistas que Nós tem uma reflexão bastante específica, como fica evidente no duplo sentido do título em inglês. Mas ele também admitiu que fez um filme com várias camadas, permitindo outros tipos de interpretações. De fato, Nós é bem mais ambíguo, mesmo havendo algumas revelações no final. O filme já está gerando muita discussão sobre seus significados, pelo o que ficamos sabendo e pelo o que é deixado em aberto.

Nós não é perfeito. O filme sofre uma falta de coesão em suas ideias e estrutura narrativa. Mostra certo cansaço no terço final, quando tudo já pareceu resolvido. Peele criou a atmosfera de uma tensa e afiada alegoria sobre o ser humano, olhando para si mesmo e para a sociedade que ajudou a construir. Portanto, seria bem mais desafiador se essa grande metáfora não fosse explicada. Porque muita coisa relacionada à origem dos duplos não faz o menor sentido.

De qualquer maneira, Nós é um filmaço. É algo inédito no cinema em geral, por trazer uma nova perspectiva, uma nova voz, confirmando Jordan Peele como um mestre do terror.

 Nós (Us, 2019), de Jordan Peele, 116 min., Monkeypaw Productions.

 AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

 

CAPITÃ MARVEL, UM FILME DIVERTIDO E INSPIRADOR

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Então vamos lá, sem spoilers. Capitã Marvel é um filme divertido e inspirador. Num mundo onde existe o primeiro Thor, Hulk 2, Homem de Ferro 2 e Era de Ultron, este está longe de ser um dos piores do MCU.

Brie Larson convence como Capitã Marvel/Carol Danvers. Ela tem uma atitude inédita para uma personagem feminina da Marvel no cinema. A confiança dela desestabiliza quem está ao redor. E é isso o que causa a fúria dos haters. Ela está se divertindo fazendo o papel e consegue transmitir essa vibração para a plateia.

Tecnicamente, está tudo impecável, com efeitos especiais muito convincentes. O rejuvenescimento de Samuel L. Jackson e de Clark Gregg está incrível. E a recriação dos anos 90 é outro charme do filme. Há ótimas piadas sobre os perrengues tecnológicos da época.

Infelizmente, os Skrulls e Krees são mal aproveitados. E a Marvel mais uma vez não entrega vilões realmente marcantes. Há um problema de ritmo lá pelo meio. O roteiro tem aqueles furos já esperados de grandes produções. E as cenas de ação não são o melhor do filme, e sim a interação entre os personagens, na comédia (Brie Larson, Samuel L. Jackson, a gata Goose e Ben Mendelsohn são hilários quando as piadas funcionam) e no drama, com destaque para Lashana Lynch, como Maria Rambeau, a piloto melhor amiga de Carol.

O fato é que o filme da Capitã Marvel se tornou a Batalha de Yavin do MCU. Com direito a plot twist gigante, que vai mudar tudo o que pensávamos sobre o futuro desse universo e cena pós-crédito de cair o queixo. O grande desafio agora é saber como vamos continuar conectados a uma super-heroína tão poderosa. 

Capitã Marvel (2019), de Anna Boden e Ryan Fleck, 128 min., Marvel Studios

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.