HOMECOMING, A RECICLAGEM DOS FILMES DE CONSPIRAÇÃO DOS ANOS 70

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Homecoming é uma série estrelada por Julia Roberts. Na verdade, é a estreia dela na TV como protagonista. Vocês podem pensar que, pelo título e pela fama de queridinha da América da atriz, a série seja uma comédia água com açúcar. Mas vocês vão ficar de queixo caído já no primeiro episódio. Homecoming é um thriller tenso pra burro, com todos os episódios dirigidos por Sam Esmail, o criador de Mr. Robot.

Aqui Julia Roberts é uma terapeuta, coordenadora de um centro de recuperação para veteranos de guerra. Sua função é ajudar esses jovens traumatizados a lidar com as sequelas psicológicas dos horrores vivenciados no campo de batalha. Mas, aos poucos, alguns clientes, como os soldados são chamados, começam a desconfiar dos reais propósitos da empresa que financia o projeto.

Homecoming se passa em duas linhas temporais, nos dias de hoje e em um futuro próximo. A série funciona muito bem porque as partes que a compõem formam um todo coeso e intrigante. São dez episódios com cerca de 30 minutos cada. A tensão está presente do primeiro ao último minuto de cada episódio. Os roteiros dos criadores da série, Micah Bloomberg e Eli Horowitz, têm diálogos ora penetrantes, ora casualmente irônicos, além de montar um quebra-cabeça que, ao final, faz sentido e de, certa maneira, explode nossas cabeças.

A direção estilizada de Sam Esmail eleva a qualidade do texto. Esmail pegou, sem nenhum pudor, a estética dos filmes de conspiração dos anos 70, misturou com outro tanto de Hitchcock, um pouquinho de cyberpunk, bateu e saiu com escolhas visuais e sonoras que são ao mesmo tempo homenagem, paródia e evolução de filmes como Todos os Homens do Presidente, Maratona da Morte e Três Dias do Condor. Julia Roberts está muito bem, despida de qualquer glamour, num personagem bastante humano, ou seja, ambíguo. O final da série é surpreendente porque quebra expectativas ao entregar o que o espectador não pediu, mas que é interessante mesmo assim.

O perigo é real, só que não do jeito que você pensa. A cena pós-crédito do season finale deixa um belo gancho para a 2ª temporada, que já ganhou o sinal verde.

Homecoming (2018), 10 episódios, aprox. 30 min., Amazon Studios e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

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AQUAMAN, UM FILME B DE LUXO

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Adorei o filme da Mulher-Maravilha. E gostei de Aquaman. Se você odiou o filme de James Wan ou achou regular, não vou tirar sua razão. Comparado a outras superproduções, Aquaman é uma bagunça, tem problemas de ritmo, personagens são subaproveitados e é um pouco longo. Mas é uma bagunça divertida e bonita de ver.

O roteiro não faz o menor sentido ao cruzar informações do passado e do presente, de Atlantis e dos personagens. A maioria dos diálogos é constrangedora. As atuações são quase todas canastronas. Mas o grande mérito aqui é que todos os envolvidos abraçaram a cafonice da proposta sem medo. E essa cafonice dá certo porque não rimos dela, mas com ela. Vem embalada numa produção de primeira, com clima de anos 80. Os efeitos especiais e sonoros são impressionantes, mostrando um universo subaquático rico. As cenas de ação são brutais, muito bem coreografadas. A trilha sonora, usando sintetizadores, à maneira synthwave, e orquestra e percussão, é envolvente, ora ameaçadora, ora cheia de fantasia. O tema do Arraia Negra é de arrepiar.

Apesar dos problemas do roteiro, o terceiro ato é o melhor dos filmes da DC desde O Cavaleiro das Trevas. Na verdade, no papel, Aquaman não convence. O talento de James Wan tirou leite de pedra ao transformar um personagem secundário e motivo de piadas num herói carismático. Além do diretor enfrentar a complicada logística de filmar e pós-produzir cenas envolvendo água.

É muito bacana ver um filme desse porte com um protagonista que não é branco. O Aquaman/Arthur Curry de Jason Momoa ganha o público pelo apelo de astro de rock bombado, mas também por ser vulnerável emocionalmente, pelo humor e por ser um herói falho. Os vilões marcaram presença, principalmente, o rei Orm de Patrick Wilson, um lobo em pele de cordeiro. Agora Wan ficou devendo nas personagens femininas. Elas são badass e mais espertas do que os homens, mas são colocadas em segundo plano em momentos decisivos.

Aquaman é um filme B de luxo, o Flash Gordon do séc.21.

Aquaman, de James Wan, 2018, 143 min., Warner Bros. e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

PERSON OF INTEREST: ANTES DE WESTWORLD

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Christopher Nolan é um diretor muito talentoso, mas metade de seu sucesso se deve ao irmão e roteirista Jonathan Nolan. É como se o irmão mais velho Chris fosse o frontman da banda e Johnny, o guitarrista misterioso.

Desde o inventivo roteiro do filme Memento virei fã de Jonathan Nolan. Depois ele, em parceria com David S. Goyer, escreveu aquela maravilha chamada O Cavaleiro das Trevas. E então veio Westworld. Junto com sua esposa Lisa Joy, Jonathan Nolan mostrou do que era realmente capaz de fazer com total liberdade criativa.

Mas antes houve Person of Interest. Uma série de TV que teve cinco temporadas (2011-2016) e que também falava sobre inteligência artificial. Já faz algum tempo que não tenho mais paciência para assistir série de canal aberto com vinte e tantos episódios. Mesmo assim resolvi tentar e fiquei viciado. Que série incrível!

O que me atraiu em Person of Interest foram os personagens carismáticos (inclusive os vilões), os diálogos afiados e o worldbuilding desenvolvido. Após o ataque às Torres Gêmeas, o cientista Harold Finch (Michael Emerson) cria um supercomputador para prever ameaças aos EUA. As coisas dão errado e ele se torna um fugitivo do governo americano que agora usa sua criação para ajudar as pessoas ao invés de prejudicá-las. Para isso, Finch conta com a ajuda do ex-militar e ex-agente da CIA John Reese (Jim Caviezel), um homem em crise.

Destaque para as personagens femininas: sábias, irônicas, determinadas, guerreiras, violentas e imperfeitas. A policial Joss Carter (Taraji P. Henson), a hacker Root (Amy Acker), a espiã Sameen Shaw (Sarah Shahi), a fixer Zoe Morgan (Page Turco) , a criminosa Harper Rose (Annie Ilonzeh), a dirigente da CIA Control (Camryn Manheim), a agente da CIA Kara Stanton (Annie Parisse), a assassina Martine Rousseau (Cara Buono) e outras. Mesmo havendo uma atenção quanto à diversidade, aconteceram na série mortes desnecessárias, reforçando estereótipos.

Person of Interest começa como um procedural, muito acima da média, e evolui para uma trama de ficção científica das mais relevantes. Temas como liberdade, escolha, determinismo e vigilância são recorrentes, fazendo o espectador pensar melhor sobre as consequências do comportamento humano, como indivíduo e sociedade.

A série também é muito divertida, cheia de humor nerd, suspense e ação. Por ter tido mais de 100 episódios, é óbvio que a qualidade oscila. Mas há episódios memoráveis em cada temporada. E, pra mim, a 4ª atinge o auge. Toda ela praticamente voltada para o arco principal.

Outro destaque é a trilha sonora imersiva do sempre ótimo Ramin Djawadi (Pacific Rim, Westworld, Game of Thrones). Além de músicas do Radiohead, Pink Floyd e Massive Attack.

Person of Interest (2011-2016), 5 temporadas, criador Jonathan Nolan, Warner, Bad Robot e Kilter Films

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

UM ALERTA URGENTE A FAVOR DA DEMOCRACIA

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Nesses tempos de ameaça à democracia (e mesmo que o sempre afiado Vladimir Safatle diga que vivemos, na verdade, numa república oligárquica), O Ódio como Política é um livro que convida para uma reflexão urgente. Composto de textos curtos, introdutórios para obras de maior fôlego, o livro serve muito bem como um alerta sobre quem comanda de fato o destino do país.

A esquerda errou, o PT errou. Mas o que os neoliberais e protofascistas sempre pretenderam foi criar uma manada de consumidores ávidos e eleitores confusos. Em nome da ordem e do progresso investem numa visão de mundo excludente e rasa, na qual o livre pensamento tem limite e os preconceitos são combustível para a prática de barbaridades institucionais, psicológicas e físicas.

O Ódio como Política não trata os conservadores de maneira simplista. A simplicação apenas joga uma cortina de fumaça que retarda uma melhor compreensão de quem são os eleitores de Bolsonaro, por exemplo. Há os extremistas que estão fechados com seu líder, dispostos a derramar sangue nas ruas por uma ideologia nefasta. Há os oportunistas, que buscam ganhar dinheiro, cargos em empresas e eleitores. Mas há também muita gente frustrada com os rumos da política tradicional, que perdeu o emprego, o poder de compra, o status social, inclusive petistas de carteirinha, convertidos ao bolsonarismo. O eleitor protofascista do Coiso é coerente em seu discurso do ódio. O eleitor médio dele, não, tornando-se uma contradição ambulante. Há gay, negros e mulheres que o apoiam. Porém há evangélicos que o desprezam.

Bolsonaro é um avatar de forças econômicas maiores. Institutos neoliberais com um verniz democrático, de livre mercado, como Mises e Ethos, promovem sistematicamente uma doutrina falaciosa, enaltecendo a meritocracia e o esforço individual, contrários à organização coletiva da sociedade. Ao mesmo tempo, políticas governamentais de austeridade fragilizam os serviços públicos, levando a população, acuada, a recorrer às alternativas oferecidas pela iniciativa privada. As estruturas judiciárias mantêm, desde a escravidão, seu ranço histórico de “naturalização da desigualdade e da hierarquização das pessoas”, produzindo decisões midiáticas e populistas, geralmente, contra o direito do cidadão “comum”.

O problema não é só Bolsonaro. Ele é um sintoma de nossas injustiças e mazelas jogadas para debaixo do tapete por décadas e que agora veio cobrar o preço pelo o que não fizemos, não corrigimos, sob a forma de uma espécie de “ditadura voluntária”. A versão em e-book de O Ódio como Política pode ser lida gratuitamente até o fim do 2º turno.

O Ódio como Política, org. Esther Solano, 180 págs., Boitempo.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

ENTRE A BELEZA E A BRUTALIDADE

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Se você vai assistir a You Were Never Really Here pensando em se divertir com mais um filme de ação, pode dar meia volta. A diretora e roteirista escocesa Lynne Ramsay pega todos os clichês dos filmes policiais e joga pela janela. Ela evita glamourizar o derramamento de sangue e mostra que outros tipos de violência podem ser mais cruéis.

Mais do que qualquer outra coisa, esse filme curto e tenso é um estudo da personalidade perturbada de seu protagonista, o ex-soldado, ex-agente do FBI e agora matador de aluguel Joe, numa interpretação soberba de Joaquin Phoenix. Contudo, You Were Never Really Here não é uma daquelas produções independentes preguiçosas que se concentram apenas na performance de um grande ator ou atriz. O filme é tecnicamente perfeito e as soluções narrativas, visuais e sonoras orquestradas por Ramsay são a outra força dessa espécie de conto de fadas, ao mesmo tempo, tocante e brutal.

A todo momento há uma variação entre cenas delicadas, de interações humanas afetuosas, com a mais pura violência, seja física, psicológica ou simbólica. A narrativa é um quebra-cabeça, um jogo proposto pela diretora para fazer o espectador pensar. Há peças faltando e cabe a nós preenchê-las.

Montagem e fotografia são elusivas, sugerem mais do que mostram. O som é outro personagem. A trilha sonora do guitarrista do Radiohead Jonny Greewood soube captar muito bem a atmosfera oscilante com cordas, percussão e batidas eletrônicas, compondo uma música ora suave, onírica, ora nervosa, em clima de pesadelo. A edição de som é incrível ao transformar cada som captado (programas de televisão, pessoas falando, veículos passando, a natureza, barulhos da cidade, tiros) em mais um elemento dramático.

Para quem se apaixonar pelo filme, recomendo a leitura da novela de mesmo nome, escrita por Jonathan Ames. É um interessante complemento para conhecer melhor o passado e as motivações dos personagens. O filme não é adaptação tão fiel. Inclusive, considero este mais um raro caso em que o filme é melhor do que o livro. O final elaborado por Ramsay é o último tampa na cara dessa obra-prima.

You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay, 90 min., Film4 e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

You Were Never Really Here, de Jonathan Ames, 100 págs., Vintage.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

 

IT´S ALIVE! IT´S ALIVE!

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Este livro é uma apaixonada defesa do romance realista. Com muita elegância e propriedade, num texto acessível, mas rigoroso, Wood rebate a ideia de que o realismo na ficção vai mal das pernas já há algum tempo. Ele tenta provar isso, analisando a origem do realismo moderno, com a revolução literária promovida por Flaubert, até os dias atuais, separando o que ele considera o joio do trigo, ou seja, os autores que evoluíram o conceito de realismo na literatura e os que se tornaram meros mimetizadores da realidade.

Para Wood, o realismo literário não é uma cópia da vida real, mas uma recriação, uma seleção de detalhes e modos de dizer que estimulam o leitor a (re)imaginar essa realidade. Por isso, para ele, a musicalidade da prosa, a profundidade dos personagens e a maneira de o escritor-narrador se inserir no texto, enfim, a atmosfera ficcional, são mais importantes do que a trama. Nesse sentido, a melhor literatura é aquela que discorre sobre o mundo real de uma forma arrojada e viva, dando-lhe outro significado.

Wood defende sua tese muito bem. Há reflexões essenciais sobre o discurso indireto livre (um dos pontos altos do livro), onisciência do narrador, cuidado com a linguagem, funções do diálogo e a importância do detalhe. Pensamentos úteis para qualquer um aprimorar sua escrita, inclusive, autores de terror, fantasia, ficção científica e policial. Contudo, o problema na visão de mundo de Wood é a falta de generosidade.

Ao terminar Como Funciona a Ficção, fica claro, mesmo que Wood não diga isso explicitamente, que ler literatura de gênero é uma perda de tempo. Porque há autores mais interessantes para o leitor se dedicar. Autores mais exigentes , que proporcionam uma recompensa estética e filosófica mais enriquecedora. Mesmo que, por exemplo, Wood reconheça John le Carré como um autor de suspense acima da média, ainda assim seus romances de espionagem, com personagens e tramas complexas, ficariam devendo em relação à linguagem, considerada convencional.

Essa má vontade de Wood tira um pouco do brilho de Como Funciona a Ficção. Mas naquilo em que autor se propõe, ou seja, provar ao leitor a importância da ficção realista, ele é tão bem sucedido que transformou seu livro numa leitura obrigatória.

Como Funciona a Ficção, de James Wood, 232 págs., SESI-SP.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE

O PREÇO DO FIM DO NAZISMO

1945

Radiografia da vida privada e pública logo após a 2ª Guerra Mundial. Acompanhamos as implicações políticas, administrativas e econômicas que afetaram o rumo de países vitoriosos e derrotados por meio do cotidiano de sua gente. Em muitas passagens, acompanhamos um retrato mais íntimo desses personagens históricos. Então temos contato com comportamentos tanto nobres como sórdidos. Estupros, racismo, xenofobia, mas também a redefinição do papel da mulher, no ocidente e no oriente.

Este livro mostra como de fato a 2ª Guerra Mundial afetou praticamente todos os povos do planeta, uns mais diretamente do que outros. E reforça o drama vivido não só pela Europa, palco principal do conflito, mas em outras regiões, como o Oriente Médio e o Sudeste Asiático. A 2ª Guerra foi o ápice de uma série de disputas políticas e econômicas, de há pelo menos um século, envolvendo potências europeias e suas colônias. No fim da Guerra, houve um sentimento de alívio, tanto das autoridades internacionais como de populações massacradas, mas também foi o começo de um período conturbado.

A Guerra Fria entre EUA e União Soviética se tornou evidente. As colônicas europeias gritavam por independência. Aconteceram vinganças e retaliações, nem sempre justificáveis. A vida ainda era difícil para muita gente, e cada um se virava como podia, inclusive por meio da prostituição e do contrabando. Heróis de guerra foram traídos, presos e executados. Militares japoneses e nazistas, assim como empresários simpatizantes do Eixo, foram poupados para ajudar a reerguer a economia e a infra-estrutura da Europa e do Japão. A triste ironia da derrota do nazismo foi que abriram uma caixa de Pandora, que resultou na Guerra da Coreia e na divisão do país em Norte e Sul, na Guerra do Vietnã, na Guerra da Síria etc.

Buruma avalia que houve uma sincera vontade de muitos líderes, principalmente, americanos e europeus, em aproveitar o fim da 2ª Guerra para também promover uma “reconstrução moral”, com a criação da ONU, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, do estado de bem-estar social, de instituições mais sólidas que garantisse uma nova era de prosperidade e fraternidade. Mas tudo isso acabou disputando espaço com a realidade, com o que há de pior no ser humano, tanto em relação aos poderosos quanto ao chamado cidadão comum. A partir de 1945, houve conquistas significativas, e não só os europeus e americanos as usufruíram, num sentindo amplo. Mas, como podemos perceber no contexto atual, essas conquistas foram constantemente ameaçadas, ao longo dos anos.

Ano Zero – uma história de 1945, de Ian Buruma, 472 páginas, Cia das Letras.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE

UMA BELA JORNADA, MAS INCOMPLETA

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Minha expectativa era enorme em relação ao Caçador Cibernético da Rua 13. Eu já tinha lido contos do autor Fábio Kabral, inclusive, um passado no universo do livro. Terminada a leitura, cheguei à conclusão de que a jornada valeu a pena, mas ela podia ter sido bem mais completa.

O Caçador foi lançado meses antes da estreia do filme Pantera Negra. Depois de ver a produção da Marvel, muita gente ficou entusiasmada com o afrofuturismo, a mistura de tecnologia não-branca com ancestralidade africana. E o romance de Kabral estava ali pronto para saciar essa vontade do público.

Quem acompanha Kabral nas redes sociais sabe como ele é fã de quadrinhos, RPGs, filmes, séries e literatura, principalmente, de autores negros, que falam com orgulho de sua negritude e denunciam o racismo histórico até os dias de hoje. Portanto, as referências são muitas. Mas O Caçador mostra originalidade ao criar o mundo de Ketu Três. E essa é a grande força do livro.

O tom é mais leve, a violência não é tão gráfica, porém acompanhamos as terríveis maquinações dos poderosos. Elas existem até mesmo em um lugar onde a promessa da utopia é palpável.

Kabral é um pioneiro ao levar para um número maior de leitores o conceito do afrofuturismo, torná-lo presente na literatura brasileira, uma referência pop por aqui. Apesar de já existir exemplos do movimento em nosso cinema (Branco Sai, Preto Fica), artes plásticas (Dúdús) e música (Senzala Hi-Tech), antes do lançamento de O Caçador.

Contudo, no que o livro tem de fascinante em seu worldbuilding, com o uso de uma imaginação vibrante para valorizar a diversidade e transformar mulheres e homens negros em protagonistas de suas próprias histórias, ele não preenche todas as expectativas em termos narrativos.

Mesmo com a agilidade do texto cinematográfico, em certos capítulos, o leitor pode se aborrecer com as digressões do protagonista, que não fazem a história avançar. Os longos flashbacks quebram o ritmo da trama. E o texto poderia ter uma melhor revisão, principalmente, em relação à pontuação e à repetição de palavras que não tem nenhuma função estilística.

O Caçador Cibernético da Rua 13 mistura referências do candomblé com tecnologias inovadoras, fantasia e ficção científica. É um livro que reflete sobre o pesadelo do passado, a transformação do presente e as possibilidades para o futuro de quem que ainda luta por igualdade.

O romance de Fábio Kabral deve ser celebrado como algo novo na literatura brasileira, um aviso do que estar por vir.

O Caçador Cibernético da Rua 13, de Fábio Kabral, 208 págs., Malê.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

DEUSES BRASILEIROS… OU QUASE

Capa-PREMIO

O site Mitografias é um dos mais completos portais sobre mitologias à disposição. Lá você encontra podcasts, resenhas, artigos, trabalhos acadêmicos e outros conteúdos sobre vários aspectos das mitologias ao longo da História. Destaque para o folclore brasileiro. A literatura fantástica ganha bastante espaço no site. Inclusive há a publicação de uma coletânea anual de contos. O edital de submissões da 2ª edição está aberto.

No primeiro volume, vencedor do Prêmio Le Blanc, a coletânea teve como tema mitos modernos. São 14 contos em que diversos mitos ganham uma abordagem contemporânea. Sem dúvida, foi um dos melhores lançamentos de 2017, no Brasil. Uma iniciativa independente e gratuita que não deve nada para o que foi publicado comercialmente no ano passado.

Mitos Modernos é uma bela amostra do que a literatura fantástica nacional é capaz de produzir. Não há nenhuma história ruim na coletânea. Mas algumas se destacam pela criatividade narrativa e tratamento dos temas levantados. Estes são meus contos preferidos:

Calada, de Isa Prospero. Texto fluido e elegante, conduzindo bem uma mistura de fantasia urbana e trama policial. A cativante protagonista tem potencial para novas histórias.

Mãe de Fogo, de Bruno Leandro. O clima é de Harry Potter, mas com um toque original e uma maturidade acima da média. Material promissor para uma obra juvenil de maior fôlego.

Sinfonia da saudade, de Jana P. Bianchi. Este conto por pouco não se tornou o meu n°1. Inspirado na cultura árabe, e tendo um djin como protagonista, acompanhamos uma poderosa história sobre migrações e adaptação. Tocante.

Sem cabeça, de Andriolli Costa. O conto mais redondo do livro. Impressiona a habilidade do autor em combinar folclore nacional com questões contemporâneas. Forma e conteúdo casam perfeitamente. Diverte o leitor e faz pensar.

O voo das deusas-pássaro, de Ana Lúcia Merege. A grande mestra da literatura fantástica nacional nos brinda mais uma vez com um generoso conto envolvendo História e invenção.

A proclamadora, de Alessandra Bacelar. O conto que mais chutou o balde, o mais diferentão. Sem nenhuma preocupação com classificações ou rótulos, o texto experimenta sua narrativa e intriga o leitor.

Intermitências, de Michel Peres. O conto com a estrutura mais inventiva da coletânea. Mitologia e realidade se confundem durante partidas de um game on line. Cada vez mais, o protagonista se enreda numa trama cheia de fascínio e desespero.

Mitos Modernos, vários autores, 205 págs., site Mitografias.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE.

 

THE PLAYER OF GAMES, UMA UTOPIA NA PRÁTICA

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The Culture é uma série de ficção científica escrita pelo precocemente falecido Ian M. Banks. Na verdade, são livros independentes (com alguns pontos de ligação) dentro de um mesmo universo. The Culture é uma sociedade no futuro, numa galáxia distante, em que humanos aprimorados e inteligências artificiais convivem em harmonia. Eles vivem numa espécie de sociedade utópica. Não há mazelas sociais nem preconceitos. Há apenas prosperidade e aceitação. Mas isso não quer dizer que não existam relações complexas, disputas entre pessoas e máquinas. A delícia de ler as histórias de The Culture é ver como seus habitantes têm uma mente afiada.

O escocês Banks sempre foi conhecido por seu humor, ao mesmo tempo, caloroso e sombrio. A beleza dos romances de The Culture está em tratar de temas sérios, como classe, gênero, raça, estrutura social, individualidade, escolha e acaso, com toques de uma ironia que não deixa prisioneiros, mostrando os absurdos da realidade por ângulos bem diferentes do usual.

Em The Player of Games, acompanhamos o protagonista Jernau Gurgeh, um humano, especialista em jogos, numa missão secreta. Ele vai parar no Império de Azad, considerado bárbaro por autoridades de The Culture pelo extremo sexismo e xenofobia, onde há pobreza e uma hierarquia social estratificada. A civilização de Azad é toda estruturada em função de um jogo. O objetivo de Gurgeh é ser o grande vencedor desse jogo e derrotar essa civilização “por dentro”. As circunstâncias durante e fora das disputas e os próprios dilemas de Gurgeh farão da tarefa algo nada fácil.

The Player of Games é o segundo romance publicado de The Culture, mas é a melhor porta de entrada para esse universo tão rico. É o livro mais curto da série e com uma narrativa mais linear. Banks foi inteligente em não explicar demais as regras de cada jogo, deixando a narrativa ágil e focando nas expectativas e consequências das partidas. A ironia de algumas das inteligências artificiais, por meio dos diálogos, é um show à parte.

The Player of Games, de Iain M. Banks, 405 págs., Orbit

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE