O INFERNO SOMOS NÓS

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Jordan Peele conseguiu de novo. Entregou ao espectador mais um filme de impacto, tanto do ponto de vista estético quanto reflexivo. Em Corra! ele apresentou uma arriscada combinação de filme tenso, mas muito divertido. E se saiu bem desse desafio, criando algo único, a partir de referências inconfundíveis de mestres do cinema do passado.

Em Nós, Peele se arrisca mais, em nome de um objetivo claro: assustar, deixar o espectador em choque. O humor está presente, porém de maneira mais pontual. Nos seus melhores momentos de sátira, as piadas são ótimas. Há uma cena hilária que usa a música Fuck the Police, do N.W.A. Mas, no fim das contas, o que prevalece é o gore e o slash. O desespero, os gritos, as mutilações, o sangue.

Como diretor, Peele amadureceu. O primeiro terço do filme tem um ritmo impressionante. Praticamente nada acontece, mas o que vemos tem uma fotografia tão elaborada, uma montagem tão cadenciada e diálogos e atuações tão marcantes, que não importa. Acompanhamos o cotidiano da família protagonista com um sorriso besta na cara, sem desejar que nada se apresse. A influência de Hitchcock é evidente, o diretor que construía seus suspenses sofisticados para o público médio como um reflexo apavorante desse mesmo público. E quando a violência começa, nos deparamos com um dos filmes de terror mais criativos e perturbadores dos últimos tempos. Uma mistura de homenagem e subversão ao cinema de horror dos anos 70 e 80.

É realmente revolucionário ver uma família de negros com tamanha personalidade e desenvoltura como protagonistas de um filme importante, que gerou tanta expectativa. Todos os quatro membros da família Wilson tem uma individualidade bem desenvolvida, provocando afetos e tensões entre si . Eles conquistam a empatia da plateia por suas qualidades e falhas. Ao mesmo tempo, os atores também impressionam quando representam seus duplos assassinos, invertendo a experiência do espectador de forma fascinante. Agora a dona do filme é Lupita Nyong´o. Ela arrasa como a mãe que defende sua família a qualquer custo e como seu duplo, uma personagem nada caricata, carregando uma complexidade surpreendente. No gênero do terror, é uma perfomance histórica para uma mulher negra.

Peele revelou em entrevistas que Nós tem uma reflexão bastante específica, como fica evidente no duplo sentido do título em inglês. Mas ele também admitiu que fez um filme com várias camadas, permitindo outros tipos de interpretações. De fato, Nós é bem mais ambíguo, mesmo havendo algumas revelações no final. O filme já está gerando muita discussão sobre seus significados, pelo o que ficamos sabendo e pelo o que é deixado em aberto.

Nós não é perfeito. O filme sofre uma falta de coesão em suas ideias e estrutura narrativa. Mostra certo cansaço no terço final, quando tudo já pareceu resolvido. Peele criou a atmosfera de uma tensa e afiada alegoria sobre o ser humano, olhando para si mesmo e para a sociedade que ajudou a construir. Portanto, seria bem mais desafiador se essa grande metáfora não fosse explicada. Porque muita coisa relacionada à origem dos duplos não faz o menor sentido.

De qualquer maneira, Nós é um filmaço. É algo inédito no cinema em geral, por trazer uma nova perspectiva, uma nova voz para Hollywood, confirmando Jordan Peele como um mestre do terror.

 Nós (Us, 2019), de Jordan Peele, 116 min., Monkeypaw Productions.

 AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

 

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CAPITÃ MARVEL, UM FILME DIVERTIDO E INSPIRADOR

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Então vamos lá, sem spoilers. Capitã Marvel é um filme divertido e inspirador. Num mundo onde existe o primeiro Thor, Hulk 2, Homem de Ferro 2 e Era de Ultron, este está longe de ser um dos piores do MCU.

Brie Larson convence como Capitã Marvel/Carol Danvers. Ela tem uma atitude inédita para uma personagem feminina da Marvel no cinema. A confiança dela desestabiliza quem está ao redor. E é isso o que causa a fúria dos haters. Ela está se divertindo fazendo o papel e consegue transmitir essa vibração para a plateia.

Tecnicamente, está tudo impecável, com efeitos especiais muito convincentes. O rejuvenescimento de Samuel L. Jackson e de Clark Gregg está incrível. E a recriação dos anos 90 é outro charme do filme. Há ótimas piadas sobre os perrengues tecnológicos da época.

Infelizmente, os Skrulls e Krees são mal aproveitados. E a Marvel mais uma vez não entrega vilões realmente marcantes. Há um problema de ritmo lá pelo meio. O roteiro tem aqueles furos já esperados de grandes produções. E as cenas de ação não são o melhor do filme, e sim a interação entre os personagens, na comédia (Brie Larson, Samuel L. Jackson, a gata Goose e Ben Mendelsohn são hilários quando as piadas funcionam) e no drama, com destaque para Lashana Lynch, como Maria Rambeau, a piloto melhor amiga de Carol.

O fato é que o filme da Capitã Marvel se tornou a Batalha de Yavin do MCU. Com direito a plot twist gigante, que vai mudar tudo o que pensávamos sobre o futuro desse universo e cena pós-crédito de cair o queixo. O grande desafio agora é saber como vamos continuar conectados a uma super-heroína tão poderosa. 

Capitã Marvel (2019), de Anna Boden e Ryan Fleck, 128 min., Marvel Studios

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

O AUGE DE CONSTANTINE

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Hábitos Perigosos é mais um ótimo exemplo para esfregar na cara de quem acha que quadrinhos são uma arte menor. O volume funciona praticamente como uma graphic novel, com uma história fechada. E que história!

Para quem nunca leu os casos sobrenaturais protagonizados pelo cínico mago John Constantine, este arco é perfeito. Considerado o melhor momento do personagem, ironicamente, acompanhamos o começo do fim. Constantine, fumante inveterado, está morrendo de câncer nos pulmões. Sim, essa HQ serviu de base para o filme com Keanu Reeves. É um bom filme, mas não compara ao material de origem.

Em Hábitos Perigosos, Constatine vai usar suas conexões com o além para tentar salvar sua vida. Será um caminho tortuoso e cheio de questionamentos.

A grande sacada do lendário roteirista Garth Ennis foi dar um ritmo de romance aos sete números da revista que compõem o encadernado. Nada é apressado. Mas também nada é entediante. A arte de William Simpson transforma as ideias de Ennis sobre céu e inferno em imagens de impacto.

Vemos o cínico Constantine fragilizado, reavaliando suas escolhas, ao mesmo tempo em que enfrenta demônios e seres humanos desprezíveis.

Hábitos Perigosos, de Garth Ennis, William Simpson e outros, 208 págs., Panini.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

TRISTE SÁTIRA SOBRE A MULHER CONTEMPORÂNEA

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The Pisces é um romance que te prende pelo texto ágil, coloquial, mas que consegue ter fôlego para tratar de temas muito sérios, misturando lucidez, ironia e desespero.

Lucy é uma acadêmica de 38 anos que está em crise. Sua dissertação sobre a poeta Safo não vai para frente. E ela acabou de terminar um relacionamento de oito anos. A irmã a convida para passar um tempo em sua casa, na Califórnia.

Certa noite, sozinha na praia, Lucy conhece Theo, um nadador deslumbrante de vinte e poucos anos. Para espanto e admiração dela, ele acaba se revelando um sereio. O que faz desse romance uma leitura envolvente é a voz narrativa. Lucy conta sua história em primeira pessoa, revelando com muita honestidade seu caos emocional.

De maneira rasa, Lucy por ser taxada de desagradável, sarcástica, maldosa. Mas isso seria uma injustiça. Primeiro, porque sua ironia é um dos grandes trunfos do livro. E segundo, há momentos de tristeza e de reflexão que a torna muita tridimensional. Momentos em que perguntas difíceis são feitas e verdades duras são ditas. Acompanhamos por páginas e páginas as digressões de Lucy e dificilmente ficamos entediados.

Fala-se de amor, sexo, carreira, maternidade, expectativa social e outros temas caros às mulheres, sob a perspectiva de alguém que questiona tudo e todos. The Pisces é sobre uma mulher no limite justamente por não saber direito seu lugar no mundo.

The Pisces, de Melissa Broder, 288 págs., Bloomsbury.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

4 LIVROS DE CONTOS INCRÍVEIS ESCRITOS POR MULHERES

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Esses quatro livros de contos dão voz às mulheres da maneira completa possível. Ou seja, mostram que elas podem ser o que bem entender. O que muitos consideram ser loucura, vulgaridade, petulância e desvio, as mulheres chamam de liberdade e igualdade de direitos. Nem todas as mulheres desses contos têm plena consciência do seu feminismo, mas todas são personagens tridimensionais. Sabem o que querem e não querem para si.

Em O que Acontece Quando um Homem Cai do Céu, de Lesley Nneka Arimah, acompanhamos o livro com as histórias mais variadas em seus temas. A autora é britânica, criada na Nigéria e hoje mora nos EUA. É uma nerd declarada. E suas histórias refletem isso. Há de tudo um pouco, o fantástico, ficção cientifica, fábula, terror. Há também contos realistas. O que chamou tanto a atenção para esse livro largamente premiado é a sensibilidade de Arimah em conectar invenção e realidade de maneira tão intensa, profunda e sábia em poucas páginas. A visão geral é de desencanto. As personagens são mulheres ora sofridas, ora opressoras. Por isso, aqui não há lugar para ingenuidade. Outro aspecto interessante é ver como essas meninas e mulheres negras têm uma vida interior vibrante, provocando nelas todo tipo de sentimentos. A edição da editora Kapulana é bem cuidada. Não há muitos erros de revisão. Mas, às vezes, o espaçamento entre as palavras atrapalha a leitura. E a capa podia ser mais bonita. O que Acontece Quando um Homem Cai do Céu traz uma vigorosa perspectiva de pessoas que dificilmente são vistas em sua plenitude.

Já a autora argentina Mariana Enriquez apresenta ao leitor brasileiro um dos livros de ficção mais impactantes da última década. O seu As Coisas que Perdemos no Fogo investe no terror de forma visceral. É assustador porque a autora transforma os horrores do cotidiano da classe média e da periferia de Buenos Aires e da história recente da Argentina numa literatura claustrofóbica de primeira, ampliando significados e efeitos do comportamento humano e de mazelas sociais e políticas. Aqui também o foco são meninas e mulheres. Desta vez, as protagonistas estão mais à vontade na posição de gente branca com algum dinheiro, mesmo que meio decadente. Mas Enriquez nunca é leviana. Aliás, é por meio de sua extrema consciência que ela aperta os botões certos para nos apavorar. Estas protagonistas geralmente se colocam em situações perturbadoras, testemunhas do que há de pior na sociedade. Em ritmo de suspense, cada conto nos envolve e desestabiliza, à medida que avançamos em atmosferas pesadas, com lugares sujos, escuros e abandonados, habitados por personagens trágicos. A edição impecável da editora Intrínseca não nos distrai, não nos deixa sair desse mundo. Leitura para estômagos fortes.

O Corpo Dela e Outras Farras, da cubano-americana Carmen Maria Machado, conseguiu a proeza de ser finalista do National Book Award, o segundo prêmio literário mais importante dos EUA, depois do Pulitzer. É uma enorme conquista para um livro tão influenciado pelo fantástico e pelo terror. Não podia deixar de ser, mulheres são as protagonistas, geralmente lésbicas. Seus contos são alegorias poderosas a respeito de vários aspectos da vida da mulher contemporânea, principalmente, sobre agressões físicas, psicológicas e simbólicas, como a violência doméstica, o estupro, os papéis femininos na sociedade, a frustração sexual, a ditadura da beleza, a aceitação do corpo. Infelizmente, no geral, foi o livro de que menos gostei dos quatro, por sua irregularidade. Pela variação entre contos excelentes e cansativos, longos além da conta. Mas isso não significa que você deva ignorar a obra. Ela vale muito a pena por seus melhores momentos. E para completar, a edição da editora Planeta do Brasil é a mais bonita de todas, com uma lindíssima capa dura e um projeto gráfico ao mesmo tempo elegante e sombrio.

No caso da gaúcha Natália Borges Polesso, acompanhamos algo muito interessante. Amora é um livro de contos com tema único, relações lésbicas, mas com várias abordagens. O mais bacana é que os contos trazem uma consciência feminista muito presente, mas não há nada de panfletário. As personagens se comportam de maneira complexa, não se limitando a ser uma coisa só, uma metáfora, uma condição. O desenvolvimento realista de cada narradora ou personagem central convence o leitor que se trata de gente de carne e osso, com todas as suas potencialidades e contradições. Tem conto que você dá altas gargalhadas pelo humor sacana e tem conto que é emocionante pra burro pela força do afeto. Natália é a autora que mais experimenta em conteúdo e forma, sendo que algumas histórias são verdadeiros poemas em prosa. A edição da Não Editora é caprichada, em capa dura, muito gostosa de ter em mãos e com uma diagramação que facilita a leitura. O livro ganhou o prêmio Jabuti com todos os méritos. É um marco da literatura nacional.

Esses quatro livros são exemplos do que há de novo na literatura contemporânea. São visões de mundo que não pedem licença para existir. Trazem autoras que aliam o apuro narrativo com ideias arrojadas, colocando o tão relegado conto no centro da cena literária.

O que Acontece Quando um Homem Cai do Céu, de Lesley Nneka Arimah, 168 págs., Kapulana.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

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As Coisas que Perdemos no Fogo, de Mariana Enriquez, 192 págs., Intrínseca.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

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O Corpo Dela e Outras Farras, de Carmen Maria Machado, 240 págs., Planeta do Brasil, selo Minotauro.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

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Amora, de Natália Borges Polesso, 256 págs., Não Editora.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

CRIANÇAS LOBO PARA AMAR

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Wolf Children é um slice of life com um discreto toque de fantasia. Conta a história de uma mãe humana que tem de criar dois filhos lobisomens no Japão contemporâneo. Longe de ser um filme de terror, o anime dá medo por ser muito humano. Na verdade, assim como a vida, há de tudo um pouco: drama, comédia, tensão, tragédia e esperança.

O diretor e co-roteirista Mamoru Hosoda é um dos grandes mestres da animação japonesa. Sem dúvida, muito influenciado por Hayao Miyazaki, tanto na fluidez da animação quanto no desenvolvimento dos personagens. A luta de Hana, a mãe, para criar os dois filhos é cativante e bastante realista. Ela tenta cuidar da saúde, da alimentação e da educação deles, ao mesmo tempo em que precisa protegê-los de um mundo que pode machucá-los, física e psicologicamente.

Acompanhamos o crescimento da mais velha Yuki e do caçula Ame com curiosidade, encanto e apreensão. Afinal, os dois passam pelos mesmos problemas de outras crianças e adolescentes em sociedade, mas com um elemento a mais que torna suas vidas mais difíceis. Não por culpa deles, mas dos outros que não os compreendem. Há também momentos de extrema beleza e emoção, quando as crianças aproveitam todo o potencial de liberdade por serem lobisomens, num inspirador contato com a natureza.

Wolf Children é para todas as idades, mas, com certeza, são os adultos que vão melhor captar seus significados. Fala-se principalmente sobre identidade, pertencimento, sobre encontrar um lugar no mundo. Disponível na Netflix.

Wolf Children (2012), de Mamoru Hosoda, 117 min., Studio Chizu e Madhouse.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO, EXCELENTE

HOMECOMING, A RECICLAGEM DOS FILMES DE CONSPIRAÇÃO DOS ANOS 70

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Homecoming é uma série estrelada por Julia Roberts. Na verdade, é a estreia dela na TV como protagonista. Vocês podem pensar que, pelo título e pela fama de queridinha da América da atriz, a série seja uma comédia água com açúcar. Mas vocês vão ficar de queixo caído já no primeiro episódio. Homecoming é um thriller tenso pra burro, com todos os episódios dirigidos por Sam Esmail, o criador de Mr. Robot.

Aqui Julia Roberts é uma terapeuta, coordenadora de um centro de recuperação para veteranos de guerra. Sua função é ajudar esses jovens traumatizados a lidar com as sequelas psicológicas dos horrores vivenciados no campo de batalha. Mas, aos poucos, alguns clientes, como os soldados são chamados, começam a desconfiar dos reais propósitos da empresa que financia o projeto.

Homecoming se passa em duas linhas temporais, nos dias de hoje e em um futuro próximo. A série funciona muito bem porque as partes que a compõem formam um todo coeso e intrigante. São dez episódios com cerca de 30 minutos cada. A tensão está presente do primeiro ao último minuto de cada episódio. Os roteiros dos criadores da série, Micah Bloomberg e Eli Horowitz, têm diálogos ora penetrantes, ora casualmente irônicos, além de montar um quebra-cabeça que, ao final, faz sentido e de, certa maneira, explode nossas cabeças.

A direção estilizada de Sam Esmail eleva a qualidade do texto. Esmail pegou, sem nenhum pudor, a estética dos filmes de conspiração dos anos 70, misturou com outro tanto de Hitchcock, um pouquinho de cyberpunk, bateu e saiu com escolhas visuais e sonoras que são ao mesmo tempo homenagem, paródia e evolução de filmes como Todos os Homens do Presidente, Maratona da Morte e Três Dias do Condor. Julia Roberts está muito bem, despida de qualquer glamour, num personagem bastante humano, ou seja, ambíguo. O final da série é surpreendente porque quebra expectativas ao entregar o que o espectador não pediu, mas que é interessante mesmo assim.

O perigo é real, só que não do jeito que você pensa. A cena pós-crédito do season finale deixa um belo gancho para a 2ª temporada, que já ganhou o sinal verde.

Homecoming (2018), 10 episódios, aprox. 30 min., Amazon Studios e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

AQUAMAN, UM FILME B DE LUXO

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Adorei o filme da Mulher-Maravilha. E gostei de Aquaman. Se você odiou o filme de James Wan ou achou regular, não vou tirar sua razão. Comparado a outras superproduções, Aquaman é uma bagunça, tem problemas de ritmo, personagens são subaproveitados e é um pouco longo. Mas é uma bagunça divertida e bonita de ver.

O roteiro não faz o menor sentido ao cruzar informações do passado e do presente, de Atlantis e dos personagens. A maioria dos diálogos é constrangedora. As atuações são quase todas canastronas. Mas o grande mérito aqui é que todos os envolvidos abraçaram a cafonice da proposta sem medo. E essa cafonice dá certo porque não rimos dela, mas com ela. Vem embalada numa produção de primeira, com clima de anos 80. Os efeitos especiais e sonoros são impressionantes, mostrando um universo subaquático rico. As cenas de ação são brutais, muito bem coreografadas. A trilha sonora, usando sintetizadores, à maneira synthwave, e orquestra e percussão, é envolvente, ora ameaçadora, ora cheia de fantasia. O tema do Arraia Negra é de arrepiar.

Apesar dos problemas do roteiro, o terceiro ato é o melhor dos filmes da DC desde O Cavaleiro das Trevas. Na verdade, no papel, Aquaman não convence. O talento de James Wan tirou leite de pedra ao transformar um personagem secundário e motivo de piadas num herói carismático. Além do diretor enfrentar a complicada logística de filmar e pós-produzir cenas envolvendo água.

É muito bacana ver um filme desse porte com um protagonista que não é branco. O Aquaman/Arthur Curry de Jason Momoa ganha o público pelo apelo de astro de rock bombado, mas também por ser vulnerável emocionalmente, pelo humor e por ser um herói falho. Os vilões marcaram presença, principalmente, o rei Orm de Patrick Wilson, um lobo em pele de cordeiro. Agora Wan ficou devendo nas personagens femininas. Elas são badass e mais espertas do que os homens, mas são colocadas em segundo plano em momentos decisivos.

Aquaman é um filme B de luxo, o Flash Gordon do séc.21.

Aquaman, de James Wan, 2018, 143 min., Warner Bros. e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

PERSON OF INTEREST: ANTES DE WESTWORLD

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Christopher Nolan é um diretor muito talentoso, mas metade de seu sucesso se deve ao irmão e roteirista Jonathan Nolan. É como se o irmão mais velho Chris fosse o frontman da banda e Johnny, o guitarrista misterioso.

Desde o inventivo roteiro do filme Memento virei fã de Jonathan Nolan. Depois ele, em parceria com David S. Goyer, escreveu aquela maravilha chamada O Cavaleiro das Trevas. E então veio Westworld. Junto com sua esposa Lisa Joy, Jonathan Nolan mostrou do que era realmente capaz de fazer com total liberdade criativa.

Mas antes houve Person of Interest. Uma série de TV que teve cinco temporadas (2011-2016) e que também falava sobre inteligência artificial. Já faz algum tempo que não tenho mais paciência para assistir série de canal aberto com vinte e tantos episódios. Mesmo assim resolvi tentar e fiquei viciado. Que série incrível!

O que me atraiu em Person of Interest foram os personagens carismáticos (inclusive os vilões), os diálogos afiados e o worldbuilding desenvolvido. Após o ataque às Torres Gêmeas, o cientista Harold Finch (Michael Emerson) cria um supercomputador para prever ameaças aos EUA. As coisas dão errado e ele se torna um fugitivo do governo americano que agora usa sua criação para ajudar as pessoas ao invés de prejudicá-las. Para isso, Finch conta com a ajuda do ex-militar e ex-agente da CIA John Reese (Jim Caviezel), um homem em crise.

Destaque para as personagens femininas: sábias, irônicas, determinadas, guerreiras, violentas e imperfeitas. A policial Joss Carter (Taraji P. Henson), a hacker Root (Amy Acker), a espiã Sameen Shaw (Sarah Shahi), a fixer Zoe Morgan (Page Turco) , a criminosa Harper Rose (Annie Ilonzeh), a dirigente da CIA Control (Camryn Manheim), a agente da CIA Kara Stanton (Annie Parisse), a assassina Martine Rousseau (Cara Buono) e outras. Mesmo havendo uma atenção quanto à diversidade, aconteceram na série mortes desnecessárias, reforçando estereótipos.

Person of Interest começa como um procedural, muito acima da média, e evolui para uma trama de ficção científica das mais relevantes. Temas como liberdade, escolha, determinismo e vigilância são recorrentes, fazendo o espectador pensar melhor sobre as consequências do comportamento humano, como indivíduo e sociedade.

A série também é muito divertida, cheia de humor nerd, suspense e ação. Por ter tido mais de 100 episódios, é óbvio que a qualidade oscila. Mas há episódios memoráveis em cada temporada. E, pra mim, a 4ª atinge o auge. Toda ela praticamente voltada para o arco principal.

Outro destaque é a trilha sonora imersiva do sempre ótimo Ramin Djawadi (Pacific Rim, Westworld, Game of Thrones). Além de músicas do Radiohead, Pink Floyd e Massive Attack.

Person of Interest (2011-2016), 5 temporadas, criador Jonathan Nolan, Warner, Bad Robot e Kilter Films

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

UM ALERTA URGENTE A FAVOR DA DEMOCRACIA

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Nesses tempos de ameaça à democracia (e mesmo que o sempre afiado Vladimir Safatle diga que vivemos, na verdade, numa república oligárquica), O Ódio como Política é um livro que convida para uma reflexão urgente. Composto de textos curtos, introdutórios para obras de maior fôlego, o livro serve muito bem como um alerta sobre quem comanda de fato o destino do país.

A esquerda errou, o PT errou. Mas o que os neoliberais e protofascistas sempre pretenderam foi criar uma manada de consumidores ávidos e eleitores confusos. Em nome da ordem e do progresso investem numa visão de mundo excludente e rasa, na qual o livre pensamento tem limite e os preconceitos são combustível para a prática de barbaridades institucionais, psicológicas e físicas.

O Ódio como Política não trata os conservadores de maneira simplista. A simplicação apenas joga uma cortina de fumaça que retarda uma melhor compreensão de quem são os eleitores de Bolsonaro, por exemplo. Há os extremistas que estão fechados com seu líder, dispostos a derramar sangue nas ruas por uma ideologia nefasta. Há os oportunistas, que buscam ganhar dinheiro, cargos em empresas e eleitores. Mas há também muita gente frustrada com os rumos da política tradicional, que perdeu o emprego, o poder de compra, o status social, inclusive petistas de carteirinha, convertidos ao bolsonarismo. O eleitor protofascista do Coiso é coerente em seu discurso do ódio. O eleitor médio dele, não, tornando-se uma contradição ambulante. Há gay, negros e mulheres que o apoiam. Porém há evangélicos que o desprezam.

Bolsonaro é um avatar de forças econômicas maiores. Institutos neoliberais com um verniz democrático, de livre mercado, como Mises e Ethos, promovem sistematicamente uma doutrina falaciosa, enaltecendo a meritocracia e o esforço individual, contrários à organização coletiva da sociedade. Ao mesmo tempo, políticas governamentais de austeridade fragilizam os serviços públicos, levando a população, acuada, a recorrer às alternativas oferecidas pela iniciativa privada. As estruturas judiciárias mantêm, desde a escravidão, seu ranço histórico de “naturalização da desigualdade e da hierarquização das pessoas”, produzindo decisões midiáticas e populistas, geralmente, contra o direito do cidadão “comum”.

O problema não é só Bolsonaro. Ele é um sintoma de nossas injustiças e mazelas jogadas para debaixo do tapete por décadas e que agora veio cobrar o preço pelo o que não fizemos, não corrigimos, sob a forma de uma espécie de “ditadura voluntária”. A versão em e-book de O Ódio como Política pode ser lida gratuitamente até o fim do 2º turno.

O Ódio como Política, org. Esther Solano, 180 págs., Boitempo.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE