ENTRE A BELEZA E A BRUTALIDADE

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Se você vai assistir a You Were Never Really Here pensando em se divertir com mais um filme de ação, pode dar meia volta. A diretora e roteirista escocesa Lynne Ramsay pega todos os clichês dos filmes policiais e joga pela janela. Ela evita glamourizar o derramamento de sangue e mostra que outros tipos de violência podem ser mais cruéis.

Mais do que qualquer outra coisa, esse filme curto e tenso é um estudo da personalidade perturbada de seu protagonista, o ex-soldado, ex-agente do FBI e agora matador de aluguel Joe, numa interpretação soberba de Joaquin Phoenix. Contudo, You Were Never Really Here não é uma daquelas produções independentes preguiçosas que se concentram apenas na performance de um grande ator ou atriz. O filme é tecnicamente perfeito e as soluções narrativas, visuais e sonoras orquestradas por Ramsay são a outra força dessa espécie de conto de fadas, ao mesmo tempo, tocante e brutal.

A todo momento há uma variação entre cenas delicadas, de interações humanas afetuosas, com a mais pura violência, seja física, psicológica ou simbólica. A narrativa é um quebra-cabeça, um jogo proposto pela diretora para fazer o espectador pensar. Há peças faltando e cabe a nós preenchê-las.

Montagem e fotografia são elusivas, sugerem mais do que mostram. O som é outro personagem. A trilha sonora do guitarrista do Radiohead Jonny Greewood soube captar muito bem a atmosfera oscilante com cordas, percussão e batidas eletrônicas, compondo uma música ora suave, onírica, ora nervosa, em clima de pesadelo. A edição de som é incrível ao transformar cada som captado (programas de televisão, pessoas falando, veículos passando, a natureza, barulhos da cidade, tiros) em mais um elemento dramático.

Para quem se apaixonar pelo filme, recomendo a leitura da novela de mesmo nome, escrita por Jonathan Ames. É um interessante complemento para conhecer melhor o passado e as motivações dos personagens. O filme não é adaptação tão fiel. Inclusive, considero este mais um raro caso em que o filme é melhor do que o livro. O final elaborado por Ramsay é o último tampa na cara dessa obra-prima.

You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay, 90 min., Film4 e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

You Were Never Really Here, de Jonathan Ames, 100 págs., Vintage.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

 

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IT´S ALIVE! IT´S ALIVE!

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Este livro é uma apaixonada defesa do romance realista. Com muita elegância e propriedade, num texto acessível, mas rigoroso, Wood rebate a ideia de que o realismo na ficção vai mal das pernas já há algum tempo. Ele tenta provar isso, analisando a origem do realismo moderno, com a revolução literária promovida por Flaubert, até os dias atuais, separando o que ele considera o joio do trigo, ou seja, os autores que evoluíram o conceito de realismo na literatura e os que se tornaram meros mimetizadores da realidade.

Para Wood, o realismo literário não é uma cópia da vida real, mas uma recriação, uma seleção de detalhes e modos de dizer que estimulam o leitor a (re)imaginar essa realidade. Por isso, para ele, a musicalidade da prosa, a profundidade dos personagens e a maneira de o escritor-narrador se inserir no texto, enfim, a atmosfera ficcional, são mais importantes do que a trama. Nesse sentido, a melhor literatura é aquela que discorre sobre o mundo real de uma forma arrojada e viva, dando-lhe outro significado.

Wood defende sua tese muito bem. Há reflexões essenciais sobre o discurso indireto livre (um dos pontos altos do livro), onisciência do narrador, cuidado com a linguagem, funções do diálogo e a importância do detalhe. Pensamentos úteis para qualquer um aprimorar sua escrita, inclusive, autores de terror, fantasia, ficção científica e policial. Contudo, o problema na visão de mundo de Wood é a falta de generosidade.

Ao terminar Como Funciona a Ficção, fica claro, mesmo que Wood não diga isso explicitamente, que ler literatura de gênero é uma perda de tempo. Porque há autores mais interessantes para o leitor se dedicar. Autores mais exigentes , que proporcionam uma recompensa estética e filosófica mais enriquecedora. Mesmo que, por exemplo, Wood reconheça John le Carré como um autor de suspense acima da média, ainda assim seus romances de espionagem, com personagens e tramas complexas, ficariam devendo em relação à linguagem, considerada convencional.

Essa má vontade de Wood tira um pouco do brilho de Como Funciona a Ficção. Mas naquilo em que autor se propõe, ou seja, provar ao leitor a importância da ficção realista, ele é tão bem sucedido que transformou seu livro numa leitura obrigatória.

Como Funciona a Ficção, de James Wood, 232 págs., SESI-SP.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE

O PREÇO DO FIM DO NAZISMO

1945

Radiografia da vida privada e pública logo após a 2ª Guerra Mundial. Acompanhamos as implicações políticas, administrativas e econômicas que afetaram o rumo de países vitoriosos e derrotados por meio do cotidiano de sua gente. Em muitas passagens, acompanhamos um retrato mais íntimo desses personagens históricos. Então temos contato com comportamentos tanto nobres como sórdidos. Estupros, racismo, xenofobia, mas também a redefinição do papel da mulher, no ocidente e no oriente.

Este livro mostra como de fato a 2ª Guerra Mundial afetou praticamente todos os povos do planeta, uns mais diretamente do que outros. E reforça o drama vivido não só pela Europa, palco principal do conflito, mas em outras regiões, como o Oriente Médio e o Sudeste Asiático. A 2ª Guerra foi o ápice de uma série de disputas políticas e econômicas, de há pelo menos um século, envolvendo potências europeias e suas colônias. No fim da Guerra, houve um sentimento de alívio, tanto das autoridades internacionais como de populações massacradas, mas também foi o começo de um período conturbado.

A Guerra Fria entre EUA e União Soviética se tornou evidente. As colônicas europeias gritavam por independência. Aconteceram vinganças e retaliações, nem sempre justificáveis. A vida ainda era difícil para muita gente, e cada um se virava como podia, inclusive por meio da prostituição e do contrabando. Heróis de guerra foram traídos, presos e executados. Militares japoneses e nazistas, assim como empresários simpatizantes do Eixo, foram poupados para ajudar a reerguer a economia e a infra-estrutura da Europa e do Japão. A triste ironia da derrota do nazismo foi que abriram uma caixa de Pandora, que resultou na Guerra da Coreia e na divisão do país em Norte e Sul, na Guerra do Vietnã, na Guerra da Síria etc.

Buruma avalia que houve uma sincera vontade de muitos líderes, principalmente, americanos e europeus, em aproveitar o fim da 2ª Guerra para também promover uma “reconstrução moral”, com a criação da ONU, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, do estado de bem-estar social, de instituições mais sólidas que garantisse uma nova era de prosperidade e fraternidade. Mas tudo isso acabou disputando espaço com a realidade, com o que há de pior no ser humano, tanto em relação aos poderosos quanto ao chamado cidadão comum. A partir de 1945, houve conquistas significativas, e não só os europeus e americanos as usufruíram, num sentindo amplo. Mas, como podemos perceber no contexto atual, essas conquistas foram constantemente ameaçadas, ao longo dos anos.

Ano Zero – uma história de 1945, de Ian Buruma, 472 páginas, Cia das Letras.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE

UMA BELA JORNADA, MAS INCOMPLETA

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Minha expectativa era enorme em relação ao Caçador Cibernético da Rua 13. Eu já tinha lido contos do autor Fábio Kabral, inclusive, um passado no universo do livro. Terminada a leitura, cheguei à conclusão de que a jornada valeu a pena, mas ela podia ter sido bem mais completa.

O Caçador foi lançado meses antes da estreia do filme Pantera Negra. Depois de ver a produção da Marvel, muita gente ficou entusiasmada com o afrofuturismo, a mistura de tecnologia não-branca com ancestralidade africana. E o romance de Kabral estava ali pronto para saciar essa vontade do público.

Quem acompanha Kabral nas redes sociais sabe como ele é fã de quadrinhos, RPGs, filmes, séries e literatura, principalmente, de autores negros, que falam com orgulho de sua negritude e denunciam o racismo histórico até os dias de hoje. Portanto, as referências são muitas. Mas O Caçador mostra originalidade ao criar o mundo de Ketu Três. E essa é a grande força do livro.

O tom é mais leve, a violência não é tão gráfica, porém acompanhamos as terríveis maquinações dos poderosos. Elas existem até mesmo em um lugar onde a promessa da utopia é palpável.

Kabral é um pioneiro ao levar para um número maior de leitores o conceito do afrofuturismo, torná-lo presente na literatura brasileira, uma referência pop por aqui. Apesar de já existir exemplos do movimento em nosso cinema (Branco Sai, Preto Fica), artes plásticas (Dúdús) e música (Senzala Hi-Tech), antes do lançamento de O Caçador.

Contudo, no que o livro tem de fascinante em seu worldbuilding, com o uso de uma imaginação vibrante para valorizar a diversidade e transformar mulheres e homens negros em protagonistas de suas próprias histórias, ele não preenche todas as expectativas em termos narrativos.

Mesmo com a agilidade do texto cinematográfico, em certos capítulos, o leitor pode se aborrecer com as digressões do protagonista, que não fazem a história avançar. Os longos flashbacks quebram o ritmo da trama. E o texto poderia ter uma melhor revisão, principalmente, em relação à pontuação e à repetição de palavras que não tem nenhuma função estilística.

O Caçador Cibernético da Rua 13 mistura referências do candomblé com tecnologias inovadoras, fantasia e ficção científica. É um livro que reflete sobre o pesadelo do passado, a transformação do presente e as possibilidades para o futuro de quem que ainda luta por igualdade.

O romance de Fábio Kabral deve ser celebrado como algo novo na literatura brasileira, um aviso do que estar por vir.

O Caçador Cibernético da Rua 13, de Fábio Kabral, 208 págs., Malê.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

DEUSES BRASILEIROS… OU QUASE

Capa-PREMIO

O site Mitografias é um dos mais completos portais sobre mitologias à disposição. Lá você encontra podcasts, resenhas, artigos, trabalhos acadêmicos e outros conteúdos sobre vários aspectos das mitologias ao longo da História. Destaque para o folclore brasileiro. A literatura fantástica ganha bastante espaço no site. Inclusive há a publicação de uma coletânea anual de contos. O edital de submissões da 2ª edição está aberto.

No primeiro volume, vencedor do Prêmio Le Blanc, a coletânea teve como tema mitos modernos. São 14 contos em que diversos mitos ganham uma abordagem contemporânea. Sem dúvida, foi um dos melhores lançamentos de 2017, no Brasil. Uma iniciativa independente e gratuita que não deve nada para o que foi publicado comercialmente no ano passado.

Mitos Modernos é uma bela amostra do que a literatura fantástica nacional é capaz de produzir. Não há nenhuma história ruim na coletânea. Mas algumas se destacam pela criatividade narrativa e tratamento dos temas levantados. Estes são meus contos preferidos:

Calada, de Isa Prospero. Texto fluido e elegante, conduzindo bem uma mistura de fantasia urbana e trama policial. A cativante protagonista tem potencial para novas histórias.

Mãe de Fogo, de Bruno Leandro. O clima é de Harry Potter, mas com um toque original e uma maturidade acima da média. Material promissor para uma obra juvenil de maior fôlego.

Sinfonia da saudade, de Jana P. Bianchi. Este conto por pouco não se tornou o meu n°1. Inspirado na cultura árabe, e tendo um djin como protagonista, acompanhamos uma poderosa história sobre migrações e adaptação. Tocante.

Sem cabeça, de Andriolli Costa. O conto mais redondo do livro. Impressiona a habilidade do autor em combinar folclore nacional com questões contemporâneas. Forma e conteúdo casam perfeitamente. Diverte o leitor e faz pensar.

O voo das deusas-pássaro, de Ana Lúcia Merege. A grande mestra da literatura fantástica nacional nos brinda mais uma vez com um generoso conto envolvendo História e invenção.

A proclamadora, de Alessandra Bacelar. O conto que mais chutou o balde, o mais diferentão. Sem nenhuma preocupação com classificações ou rótulos, o texto experimenta sua narrativa e intriga o leitor.

Intermitências, de Michel Peres. O conto com a estrutura mais inventiva da coletânea. Mitologia e realidade se confundem durante partidas de um game on line. Cada vez mais, o protagonista se enreda numa trama cheia de fascínio e desespero.

Mitos Modernos, vários autores, 205 págs., site Mitografias.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE.

 

THE PLAYER OF GAMES, UMA UTOPIA NA PRÁTICA

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The Culture é uma série de ficção científica escrita pelo precocemente falecido Ian M. Banks. Na verdade, são livros independentes (com alguns pontos de ligação) dentro de um mesmo universo. The Culture é uma sociedade no futuro, numa galáxia distante, em que humanos aprimorados e inteligências artificiais convivem em harmonia. Eles vivem numa espécie de sociedade utópica. Não há mazelas sociais nem preconceitos. Há apenas prosperidade e aceitação. Mas isso não quer dizer que não existam relações complexas, disputas entre pessoas e máquinas. A delícia de ler as histórias de The Culture é ver como seus habitantes têm uma mente afiada.

O escocês Banks sempre foi conhecido por seu humor, ao mesmo tempo, caloroso e sombrio. A beleza dos romances de The Culture está em tratar de temas sérios, como classe, gênero, raça, estrutura social, individualidade, escolha e acaso, com toques de uma ironia que não deixa prisioneiros, mostrando os absurdos da realidade por ângulos bem diferentes do usual.

Em The Player of Games, acompanhamos o protagonista Jernau Gurgeh, um humano, especialista em jogos, numa missão secreta. Ele vai parar no Império de Azad, considerado bárbaro por autoridades de The Culture pelo extremo sexismo e xenofobia, onde há pobreza e uma hierarquia social estratificada. A civilização de Azad é toda estruturada em função de um jogo. O objetivo de Gurgeh é ser o grande vencedor desse jogo e derrotar essa civilização “por dentro”. As circunstâncias durante e fora das disputas e os próprios dilemas de Gurgeh farão da tarefa algo nada fácil.

The Player of Games é o segundo romance publicado de The Culture, mas é a melhor porta de entrada para esse universo tão rico. É o livro mais curto da série e com uma narrativa mais linear. Banks foi inteligente em não explicar demais as regras de cada jogo, deixando a narrativa ágil e focando nas expectativas e consequências das partidas. A ironia de algumas das inteligências artificiais, por meio dos diálogos, é um show à parte.

The Player of Games, de Iain M. Banks, 405 págs., Orbit

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

THE EXPANSE: GAME OF THRONES NO ESPAÇO

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A série The Expanse é uma espécie de Game of Thrones no espaço. Centenas de anos no futuro, a humanidade colonizou o sistema solar. Mas está longe de ser um futuro pacífico. Há uma disputa de poder entre os terráqueos, os marcianos e os belters. Os terráqueos têm os maiores recursos e as forças armadas mais poderosas. Os marcianos são humanos que colonizaram o planeta vermelho e se tornaram uma sociedade militar, de recursos limitados, independente da Terra. E os belters são basicamente mineiros que vivem em um cinturão de asteroides distante, explorados tanto pela Terra como por Marte. A vontade de independência dos belters é enorme.

Desde o final do reboot de Battlestar Galactica, o canal SYFY tenta emplacar outro sucesso. Várias tentativas ficaram pelo caminho. Até acertarem com The Expanse. É uma space opera mais sombria e realista (claro que com suas liberdades dramáticas se tratando de espaço sideral), com personagens muito bem desenvolvidos e com personalidades complexas. Os heróis fazem coisas terríveis e os vilões não são cartunescos, possuem motivações convincentes. A força da série está justamente nos personagens e na trama, que mistura elementos de suspense, aventura espacial e uma boa pitada de terror.

Outro triunfo de The Expanse é apostar na diversidade. Nisso ela ganha de lavada de GoT. Tendo um worldbuilding tão rico, com várias culturas e línguas ao redor da galáxia, passando pelas mudanças na estrutura corporal e reação à gravidade de terráqueos, marcianos e belters, às tecnologias que permitem a viagem no espaço, há toda uma variedade de gente, seja como protagonistas, coadjuvantes ou para compor cenários de fundo. Há negros, asiáticos, árabes, latinos, indígenas.

Houve uma melhora significativa na qualidade da série na segunda temporada. As mulheres se tornaram personagens mais relevantes. A trama ficou mais interessante. Há uma boa dose de ação, mas este não é o foco. O grande mistério é construído aos poucos, o que pede certa paciência do espectador.

The Expanse ficou conhecida como a melhor série de ficção científica da atualidade que quase ninguém assiste. O que é uma pena. Ela merece mais audiência e reconhecimento. A 3ª temporada está no ar no SYFY. Você pode ver as temporadas 1 e 2 na Netflix.

AVALIAÇÃO:RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

MUITO MAIS DO QUE UMA GUERRA ENTRE CAIPIRAS E HIPPIES

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Precisamos prestar mais atenção aos documentários da Netflix e aos documentários em geral. Sempre fui fã do gênero. E alguns dos melhores filmes nacionais são documentários. A verdade pode ser manipulada, se transformar numa obra de ficção. O diretor de um documentário, por mais talentoso que seja, precisa se ater ao compromisso ético de juntar seu quebra-cabeça de informações para mostrar a verdade ou as verdades possíveis dentro de um contexto social e/ou histórico.

No caso de Wild Wild Country, temos uma obra-prima nesse sentido. Uma história tão rica e real, filmada de maneira tão vibrante. A narrativa desse documentário é superior a muitas séries de ficção badaladas da Netflix. Em seis episódios, conhecemos a fundo um dos casos mais controversos da crônica americana nos anos 80: a chegada do guru Bhagwan Shree Rajneesh (depois conhecido como Osho) e seus seguidores ao estado do Oregon para fundar uma comunidade alternativa, numa área rural, cercada de cowboys.

Como diz um dos “personagens” no documentário, no futuro vão pensar que se trata de pura ficção. Porque a história é muito louca. E os personagens fascinantes. Principalmente, Ma Anand Sheela, a toda poderosa secretária de Osho. Ela era uma força da natureza. A pessoa que fazia as coisas acontecerem. À medida que o número de seguidores aumentava no Oregon, assim como a infra-estrutura da comunidade, os conflitos com os vizinhos se acirravam. Então começa uma guerra entre conversadores americanos contra essa comunidade, cheia de gente cansada do american way of life. Mas não pensem que era uma disputa entre caipiras e hippies. A coisa era mais complexa. Havia muito preparo intelectual de ambos os lados. Por isso, a sofisticação da guerra entre esses dois grupos chegou a níveis inacreditáveis.

O que torna Wild Wild Country tão marcante é a junção de conteúdo e forma. Os diretores Chapman e Maclain Way souberam criar uma narrativa empolgante com o uso de vários recursos audiovisuais, principalmente no trabalho com as imagens de arquivo. Esse documentários faz a gente pensar um pouco mais sobre o valor de nossas convicções. Até que ponto devemos deixá-las de lado ou mantê-las.

Wild Wild Country, de Chapman e Maclain Way, seis episódios, Duplass Brothers Productions

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

VINGADORES: GUERRA INFINITA, UMA MONTANHA-RUSSA DE EMOÇÕES

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Começo logo dizendo que Vingadores: Guerra Infinita é inferior ao primeiro filme e muito superior a Era de Ultron. Em Guerra Infinita, falta a coesão e desenvolvimento de personagens do primeiro. E está longe de ser a bagunça que foi Era de Ultron. Como já apontaram, Guerra Infinita é mais um evento (na verdade, a parte 1 desse evento) do que um filme propriamente dito. Uma saga de quadrinhos no cinema. E como os leitores de HQs bem sabem, dificilmente as sagas mostram o melhor de um universo de super-heróis. Acontece o mesmo com o MCU. Os melhores filmes são aqueles auto-contidos, que contam uma história sem muita ou nenhuma conexão com as outras produções do universo compartilhado.

O inchaço era inevitável em um filme como Guerra Infinita. Mas aqui a Marvel soube entregar um entretenimento que empolgasse. Ao contrário de Era de Ultron, tão preocupado em servir de plataforma para apresentar os novos rumos do MCU em futuros filmes, em Guerra Infinita há apenas um “novo” personagem a ser apresentado e desenvolvido de fato: Thanos. Chega a impressionar a decisão da Marvel em tornar o vilão a coisa mais importante do filme. Thanos não é uma figura caricata. Ele mal levanta a voz. Mas sua tranquilidade é assustadora. E suas motivações, por mais questionáveis que sejam, seguem uma lógica verossímil. Podemos dizer que Thanos acredita nas ideias de Malthus, de que a superpopulação é o motivo de todas as mazelas sociais, no caso, em todo o Universo. Thanos se considera um herói, equivocado, mas herói. O fascinante é ver sua convicção desapaixonada, lutando contra seus mais profundos sentimentos pessoais. Thanos é um vilão atormentado. E tem presença, é miserável e vai fazer você sentir muita raiva.

Passada a montanha-russa de emoções de Guerra Infinita, analisando a coisa friamente, constata-se que é um dos melhores filmes do MCU. Mesmo com seus problemas. A presença dos super-heróis é irregular, e em alguns casos decepciona (heróis fundamentais ficam meio de escanteio). Só uns poucos que fazem a trama avançar têm mais tempo de tela. Por isso, ganharam um bom desenvolvimento e falas marcantes. O que faz Guerra Infinita funcionar são as partes e não o todo, os melhores momentos de cada núcleo de heróis. O bom é que a constante troca de cenários e de times de heróis acelera a trama. O humor geralmente funciona. A ação, no estilo irmãos Russo, é muito competente. E os efeitos especiais são bem convincentes em mostrar a ambição épica desse filme.

A Marvel nunca teve muita coragem em arriscar no MCU. Em termos de mudanças de rumo. Mas há sérias consequências em Guerra Infinita. Houve choro, espanto, silêncio e revolta nos cinemas. Resta saber se a Marvel, daqui para a frente, vai respeitar o investimento emocional do público em relação a algumas das decisões tomadas.

Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War, 2018), de Anthony e Joe Russo, 149 min., Marvel Studios.  

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

MIRANDO NO ALVO ERRADO

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Ricky Gervais se tornou famoso e rico ao faturar em cima do filão da “comédia de choque”. Do tipo, falem mal, mas falem de mim. Então, ele faz piadas controversas sobre pessoas com câncer, AIDS e pessoas trans, por exemplo. Mas ele também ataca ferozmente os criacionistas. Ou seja, ele atira para todos os lados. Gervais já fez muita coisa no cinema, na TV, podcasts, publicou livros, participou de vídeo games, é um notório ativista dos direitos dos animais, ateu e entusiasta da Ciência.

Seu mais recente projeto é o stand-up Humanidade para a Netflix. Uma amostra de suas contradições. É no stand-up que muitos comediantes se soltam. Não é por acaso que ícones como Richard Pryor e Chris Rock brilham ou brilharam nos palcos, enquanto no cinema interpretaram personagens idiotas.

Gervais tem dois grandes méritos na carreira. Ele foi co-criador da versão original de The Office e apresentou várias edições dos Golden Globe. No The Office britânico, ele fazia o chefe sem noção David Brent. A série era uma poderosa sátira à vida corporativa. A versão americana mora no meu coração, mas não tem o mesmo vigor. E eu adorava assistir Gervais apresentando os Golden Globe, com a nata de Hollywood tensa, rezando para não ser alvo de suas piadas corrosivas. Ele deixava toda aquela gente famosa e endinheirada desconfortável. Era lindo de ver.

Mas o maior problema de Humanidade é que Gervais bate muito nos indefesos e pouco nos poderosos. Um comediante geralmente procura pontos em comum com a plateia ou aposta na autodepreciação para arrancar gargalhadas. A estratégia de Gervais é diferente. Ele logo deixa claro que é rico, famoso, mora numa mansão e tem uma vida de privilégios. E começa a atacar toda as bases da classe média, da classe trabalhadora, esfregando na cara das pessoas toda a mediocridade delas. A plateia gargalha. Mas o clima fica pesado. Só que Gervais retoma o controle do show apertando nos botões certos. A plateia é conservadora. Então não tem problema em pegar no pé de Caitlyn Jenner.

Gervais não é burro. Depois de tanta barbaridade, ele quer conquistar o coração da plateia. Então, na segunda metade de Humanidade, ele fala sobre sua origem pobre e conta “causos” de sua família esquisita. E também se autodeprecia um pouco. O conteúdo político do show é bom, quando ele destrói os argumentos dos conservadores religiosos e mostra as vantagens do pensamento fundamentado. Mas aí já é tarde. A coisa perdeu a graça.

Humanidade (Humanity, 2018), de John L. Spencer, 78 min., Netflix.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE