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Meu pai está morto. Foi enterrado há alguns anos. Mas hoje ele está vivo. Preciso ver seu rosto pela última vez. Trocar as últimas palavras.

Lembro bem de nossas tardes de sábado quando eu era criança. Ele gostava de contar histórias sobre as viagens de sua juventude.

Ele correra o mundo, carregando sua mochila surrada.Tinha enfrentado sol e chuva, sentido fome e saciedade, testemunhado beleza e violência.

Eu não parava de perguntar sobre os lugares, as paisagens, as pessoas.

Eu não entendia tudo o que ele me contava. Mas a graça de seu discurso me fazia sorrir, feito um idiota embevecido.

Meu pai e minha mãe tanto se amavam quanto se odiavam.

Quando a guerra deles começava, eu começava a minha: ia para meu quarto brincar com meus bonecos e soldadinhos de plástico.

Um dia, meu pai arrumou a mala e partiu. Antes de ir, ele beijou o topo da minha cabeça, prometendo voltar em breve.

Dias se passaram. O silêncio distante do meu pai não me deixava dormir. Às vezes, minha mãe chorava trancada em seu quarto.

Uma noite, o cansaço pela espera me venceu.

Sonhei que eu e meu pai andávamos sozinhos numa roda-gigante mágica, cortando nuvens, vendo pássaros e aviões de perto.

Até que surgiram crianças felizes nas cadeirinhas da roda-gigante e meu pai sumiu sem dizer adeus.

Algum tempo depois de meu pai ir embora, minha mãe começou a sair com um sujeito. Os dois acabaram se casando.

Fisicamente, ele até lembrava meu pai. Mas o cara não sabia contar histórias. E não gostava de assistir filmes de terror e de ficção científica.

Meu pai adorava rir das múmias, lobisomens e aliens que víamos nas madrugadas. Eu morria de medo.

Foi me dada a chance de rever meu pai, de falar com ele novamente. Mas não sei onde encontrá-lo. Estou perdido.

Não conheço essas ruas, essas esquinas, esses prédios. A cidade está deserta. Uma metrópole fantasma.

Não há sinal de catástrofe, de devastação. Tudo está em seu lugar.

Para meu espanto, um garoto aparece na minha frente do nada. Reconheço-o. Sou eu quando tinha nove, dez anos.

Ele estica o braço e aponta para o céu. Um disco voador de filme B se aproxima. Ele aterrissa no meio da avenida.

O garoto segura na minha mão. Partimos.

Não sei como vim parar nesse deserto. Efeitos colaterais da Máquina.

Não havia como programá-la para simplesmente colocar meu pai e eu, cara a cara, numa praia paradisíaca?

O Homem da Máquina me alertou: “Não será fácil”.

Sinto uma sede terrível. O sol é inclemente. Não há nada ao meu redor, apenas areia.

Não sei se continuo a caminhar, seguindo com meus passos cada vez mais débeis. Ou se me rendo em definitivo ao cansaço febril.

Será esse o fim da minha jornada? Não vou poder xingar meu pai, dar-lhe um soco, beijá-lo?

Meu corpo não aguenta mais. Vou ao chão.

Mesmo com os sentidos confusos, sinto algo entre meus dedos. Ao abrir a mão, a areia se esvai, revelando uma chave antiga, enferrujada.

O trecho de areia sob mim começa a tremer. Consigo forças para me afastar, me jogar para o lado.

Uma pequena duna emerge. Na verdade, é um velho baú.

Me arrasto até ele. Levanto o corpo com dificuldade. Afasto com o braço vacilante a areia acumulada sobre sua tampa.

Coloco a chave na tranca e abro.

O baú está cheio de água. E boiando, há uma garrafa de vidro fechada, com um rolo de papel dentro.

Bebo a água sofregamente. Ela é tão cristalina, tão fresca.

Depois de saciado, presto atenção na garrafa de vidro. A curiosidade me faz abri-la.

O rolo de papel é um antigo mapa. Mares, montanhas, florestas.

Ao final de uma linha pontilhada, uma inscrição indica: SEU PAI ESTÁ AQUI.

O deserto se torna sombrio. As nuvens se fecham. Começa a chover forte. Os grossos pingos de água fazem da areia lama.

Para proteger o mapa, coloco-o de volta na garrafa de vidro.

Meus pés estão cobertos de lama. Meus passos ficam pesados. Mas vou adiante, insisto, agora sei para onde ir.

Tudo o que tenho a fazer é esperar. Pelo momento certo.

O sinal são os raios, cortando o céu, atingindo o solo.

Lá estão eles! À minha frente, no horizonte, emitindo sua música assustadora.

Para ver melhor, enxugo o rosto com a mão várias vezes. Não dou muita importância aos grossos pingos de chuva me atingindo.

Os raios são tão brancos. Sinto uma mistura de medo e prazer ao contemplá-los.

Entre os raios, já posso vê-los, batendo suas enormes nadadeiras, lenta e graciosamente.

São bagres gigantes, multicolores. As tonalidades mudam a todo momento.

Preciso seguir as instruções do mapa.

Para montar nos bagres gigantes, a pessoa tem de gritar muito, muito alto. Para chamar a atenção deles. Fazê-los voar bem baixo.

Assim é possível agarrar-me a um dos bagres e seguir meu caminho.

Uma carona direto para A Montanha de Todos os Saberes, como indica o mapa.

Os bagres gigantes estão se aproximando. Os raios estrondosos os acompanham.

Coloco a garrafa na cintura, dentro da calça folgada.

Inspiro fundo, encho os pulmões, fecho os olhos.

Nunca gritei com tanta força. A chuva não me atrapalha. Eu continuo a gritar, a gritar, a gritar.

Quando termino, um acesso de tosses acaba comigo.

Deu certo. Os bagres gigantes estão se aproximando, diminuem cada vez mais de altitude.

Agora tenho que me concentrar. Não posso perder a chance de montar em um deles.

Mesmo eu estando todo molhado, mesmo com suas escamas escorregadias, tenho de conseguir.

Eles vêm ao meu encontro. Os raios fazem a terra tremer. É agora.

Agarro-me à nadadeira de um dos primeiros bagres do cardume. Com dificuldade, monto nele. Faço de seus bigodes rédeas.

Ganhamos altitude. Agora sou eu quem atinge a chuva. O som dos raios à minha volta é ensurdecedor.

Agora meu coração está acelerado por outro motivo. O medo deu lugar ao êxtase.

Seguro-me ao bagre gigante com um pouco mais de destreza, de segurança.

O que me permite curtir a viagem. Mesmo com a chuva me encharcando, e os raios explodindo.

A cena me faz lembrar do dia em que eu e meu pai saímos de moto.

Numa manhã ensolarada, meu pai apareceu em casa com a moto de um amigo.

Aproveitamos a ausência de minha mãe para andarmos por estradas no litoral.

Fiquei na garupa, agarrado à sua cintura. Como era gostoso sentir o vento forte no rosto, o coração acelerar.

Foi nossa última aventura antes de ele partir.

Uma noite, alguém bateu na porta de nossa casa. Minha mãe foi atendê-la e deu um grito.

Fui correndo socorrê-la, e vi o mesmo que ela: um fantasma. Meu pai estava de volta.

Ele não queria ser o homem da casa novamente. Queria dar explicações, me reconquistar, ser o pai que fora ou melhor.

Porém suas palavras não me seduziam mais. Eu não era mais uma criança.

Ele retornou outras vezes. Me recusava a vê-lo.

Até o dia em que escrevi uma carta para minha mãe, revelando os motivos da minha partida (não todos).

Fui embora de casa. Não sem antes beijá-la na testa, enquanto dormia.

Peguei a estrada, sem rumo definido.

Eu sempre falava com minha mãe. Ela me contava como andava sua vida e eu contava da minha. Eu não revelava tudo, não queria magoá-la.

Toda vez ela me pedia para voltar para casa. Eu não fazia promessas que não podia cumprir.

Às vezes, ela falava sobre meu pai, de como ele estava sempre preocupado comigo.

Eu não queria saber. Falava para ela mudar de assunto, me irritava com ela. Depois pedia desculpas.

De uma maneira ou de outra, nunca fiquei sem ter notícias do meu pai. Mas fiquei sem vê-lo por anos.

O Homem da Máquina recomendou que eu não lutasse contra os caprichos da jornada.

Falar é fácil.

Agora estou numa sala ampla com móveis luxuosos e antigos. Estou completamente seco. Nem sinal dos bagres gigantes, da chuva, dos raios.

A garrafa de vidro com o mapa sumiu da minha cintura. Será que cheguei ao meu destino?

Pelas janelas altas, vejo uma noite de lua cheia. Parece não ter ninguém na casa.

Mas logo uma sombra volumosa e disforme vem caminhando em minha direção.

Sob a luz, acaba o mistério, mas não o espanto: é um palhaço corpulento, de cara branca e de nariz e cabelo violeta.

Em silêncio, ele levanta os ombros, mexe os braços e as mãos, faz uma careta me convidando a entrar.

Ele segue o caminho de volta. Eu vou logo atrás. Nos deparamos com uma robusta porta fechada.

Antes de o palhaço abri-la, ele sorri para mim de forma assustadora.

Atrás da porta, há uma sala de jantar, onde outros palhaços nos esperam.

Todos estão de pé, ao redor de uma mesa comprida e farta, com dez ou doze deles de cada lado.

Palhaços de maquiagens, roupas e tamanhos diferentes me encarando. Tento disfarçar meu medo.

O palhaço de nariz e cabelo violeta aponta para a cadeira vazia da cabeceira.

Eu me sento. Os outros palhaços fazem o mesmo. Meu anfitrião permanece de pé.

Os palhaços se põem a comer, beber, conversar e rir. Eu apenas como e bebo, cauteloso, observando tudo.

Eles parecem não se importar com minha presença. Imaginei que eu fosse o convidado especial.

Olho para o lado e vejo que o palhaço de nariz e cabelo violeta desapareceu.

Começo a pensar em como sair dali, como posso continuar minha busca, e o que aquele lugar tem a ver com ela.

Percebo que um dos palhaços, de quando em quando, me encara, firme.

Sempre o encaro de volta, hesitante.

Os outros palhaços continuam a aproveitar o banquete.

O palhaço me encara uma última vez, e levanta-se.

Os outros palhaços parecem não se importar com sua ausência.

O palhaço se aproxima de uma porta lateral, e desaparece na escuridão de outro cômodo.

A porta fica aberta.

Me levanto. Vou em direção à porta.

Os outros palhaços também não dão a mínima.

O cômodo é tão escuro, não tem como ver seu verdadeiro tamanho. Deve ser enorme.

O palhaço está distante, sentado numa cadeira, no único ponto iluminado do recinto. Ele está de costas para mim.

Vou ao seu encontro.

Lembro de quando meu pai me levou ao circo pela primeira vez.

Minha expectativa era imensa. Nunca tinha visto animais selvagens de perto. Estava lá para ver macacos, leões e elefantes.

Mas, para minha surpresa, acabei me encantando com uma jovem trapezista. Acho que foi minha primeira paixão.

Estou mais perto do palhaço. Percebo que ele está sentado numa cadeira modesta.

A fonte de luz são lampadazinhas fracas em volta do espelho da mesa de pernas finas.

O palhaço começa a tirar a maquiagem. Sua verdadeira pele se revela aos poucos. Ele me olha através do espelho.

São olhos tão familiares.

Um susto. É óbvio, imbecil.

Uma voz feminina me avisa: “Tempo encerrado. Para continuar a sessão, renove seus créditos… “.

VIAGEM NOTURNA

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Minha intenção foi bater perna por aí, ir adiante quase sem rumo, não planejar muito as coisas. Viajei sozinho para ver e ouvir melhor. Foram duas semanas de andanças pelo interior da Bahia, entre setembro e outubro de 2007. Uma temporada em que esqueci um pouco quem eu sou e me rendi à vivência de outros.

O livro de viagens “Homem com Mochila” foi publicado em 2008. O texto abaixo é um dos capítulos do livro.

VIAGEM NOTURNA

Quando se está num ônibus, à noite, tendo pela frente uma viagem de três horas e meia, quatro horas, podemos fazer poucas coisas, como conversar com o vizinho de poltrona, ouvir música, dormir, comer ou pensar na vida. Já que não havia ninguém ao meu lado, eu não tinha um mp3, estava sem sono e sem fome, só me restou pensar na vida. Mais especificamente no ato de viajar.

No filme O Céu Que Nos Protege, de Bernardo Bertolucci, baseado no romance homônimo do norte-americano Paul Bowles, um casal de ricos nova-iorquinos (Kit e Port) vai ao norte da África do pós-Segunda Guerra em busca de uma aventura existencial. Eles levam a tiracolo um amigo, Tunner. Logo ao chegarem, ocorre o seguinte diálogo:

Tunner: “Nós provavelmente somos os primeiros turistas deles depois da guerra.”

Kit: “Tunner, não somos turistas. Somos viajantes.”

Tunner: “Qual é a diferença?”

Port: “Um turista pensa em ir para casa assim que chega em algum lugar.”

Kit: “Enquanto que um viajante pode nunca voltar para casa.”

Tunner: “Você quer dizer que sou um turista.”

Kit: “Sim, Tunner. E eu sou meio a meio.”

Acredito que Kit e Port estejam certos. Ao passar férias numa praia do Nordeste, por exemplo, apenas flanando, tomando água de coco, cerveja e banho de mar, comendo deliciosas moquecas e peixe frito, lendo na rede e fazendo sexo durante à tarde, queremos mais é recarregar nossas baterias, para suportar novamente o cotidiano. Ou mesmo para voltar a amá-lo. Ao sair de férias, varremos nosso dia-a-dia para debaixo do tapete. Mas sabemos que ele estará lá, nos esperando quando chegarmos em casa.

Para o escritor inglês Alain de Botton, a arte de viajar, como ele chama, nada mais é do que a possibilidade mais concreta de buscar a felicidade, algo que supere, nem que seja por um dia, todos os valores do mundo dos negócios, das cobranças e dos compromissos.

Então, é de espantar como muitas pessoas burocratizam suas viagens, tornando-as tão parecidas com a vida cotidiana. Elas embarcam em excursões cheias de regras, regulamentos e horários a cumprir.

A experiência do viajante é outra, é mais radical – e não falo de trilheiros e montanhistas, que também retornam à civilização no fim de suas aventuras. Porque o viajante torna sua vida uma grande jornada, um desafio inexorável. Para ele, não é suficiente aproveitar uma praia do Nordeste como hóspede de uma pousada ou resort. Ele quer vivenciar, o mais próximo possível, a experiência de ser um local, um habitante do lugar. Passar meses ou talvez anos construindo um novo cotidiano. Mas ele não para, porque há muito o quê conhecer. Ele se considera um nômade. Um colecionador de cotidianos. Possivelmente, o viajante é o último dos românticos.

O caso do escritor inglês Bruce Chatwin demonstra bem isso. Nascido em 1940, de uma família próspera, desde garoto Chatwin sonhou em ser um viajante, como os personagens das histórias de Jack London e Herman Melville, que tanto adorava. Em férias, ele viajava muito com os pais e os irmãos, para a Espanha, Grécia, País de Gales, Suécia, Itália, Oriente Médio e outros países.

Aluno não muito brilhante, seus professores o consideravam um sonhador acordado. Para fugir da rigidez da criação familiar, decide, aos 19 anos, arranjar um emprego na Sotheby´s, a famosa casa de leilões inglesa. Chatwin entendia de antiguidades, uma de suas paixões. Aos 26 anos, largou o emprego e passou um tempo na universidade de Edimburgo (Escócia) estudando Arqueologia, e se mantendo com a venda de peças de sua coleção particular de antiguidades. Realizou trabalhos de campo no Afeganistão e na África.

Em 1973, sem dinheiro, Chatwin aceitou o convite de uma revista inglesa para escrever sobre arte e arquitetura. Era outra oportunidade de viajar pelo mundo. Numa viagem à Patagônia (região entre o Chile e a Argentina), ele ligou para seu editor se demitindo. Passou seis meses por lá. A experiência resultou no relato de viagem Na Patagônia, um best-seller internacional. A partir de então, Chatwin escreveu muitos livros de viagem, romances, artigos e ensaios, consagrando-se como um festejado escritor-nômade.

Nunca parou de viajar. Morou em vários lugares no mundo. Chatwin acreditava que o homem é nômade por natureza, que o movimento é algo muito importante, que a rotina atrofia a percepção. Para os amigos, ele era um grande-papo e um companheiro. Para os detratores, um egocêntrico e mitômano. Chatwin morreu em 1989, na França.

Eu me sinto nessa viagem como a socialite Kit, meio a meio. Porque quero voltar para casa são e salvo, como todo turista. E também quero aproveitar a viagem para experimentar o que não conheço mais a fundo, como um viajante. Mas sei que ter o melhor dos dois mundos é difícil. Porque, na hora de correr riscos, vem a hesitação.

A REVOLTA DE SEU JOSÉ

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Minha intenção foi bater perna por aí, ir adiante quase sem rumo, não planejar muito as coisas. Viajei sozinho para ver e ouvir melhor. Foram duas semanas de andanças pelo interior da Bahia, entre setembro e outubro de 2007. Uma temporada em que esqueci um pouco quem eu sou me rendi à vivência de outros.

O livro de viagens “Homem com Mochila” foi publicado em 2008. O texto abaixo é um dos capítulos do livro.

A REVOLTA DE SEU JOSÉ

“Como o senhor se chama?”

“José.”

“José de quê?”

“José de Souza.”

O homem na poltrona vizinha se mostra disposto a tornar a viagem menos maçante. Não levo comigo nenhum aparelho de mp3 nem a paisagem me interessa. É uma repetição de cenas que já conheço: o sol inclemente castigando a terra seca, pós-apocalíptica.

O ônibus está lotado, inclusive com algumas pessoas em pé. Mas ninguém reclama. As viagens são curtas, rumo a povoados e municípios próximos de Vitória da Conquista. O ônibus não é dos melhores, mas está inteiro. Por não existir concorrência em boa parte dos trajetos que faz, a empresa se acha no direito de prestar um péssimo serviço aos seus passageiros.

“A vida não é brincadeira não. A gente dá um duro danado pra, no final, dá só um pouquinho”, diz seu José, me olhando com firmeza. Os olhos ternos dão mais gravidade às suas palavras.

Ele tem 60 anos. Foi agricultor quase a vida toda. As mãos calejadas comprovam isso. Assim como as dores nas costas e no joelho direito, que o levam todo mês do município de Caraíbas, onde mora com a mulher e dois filhos, a Vitória da Conquista; um trajeto de 65 km.

“A verdade é que a médica disse que eu tinha de fazer fisioterapia duas vezes por semana… Mas me diga como, meu amigo? Como eu faço essa mágica? Dois ônibus pra ir, dois pra voltar… toda semana.”

O filho que vive em São Paulo, dono de uma pequena lanchonete em Jundiaí, paga seu plano de saúde.

A seca em 2007 foi uma das piores dos últimos anos. Em alguns municípios baianos, não choveu por oito meses ou mais. Principalmente no norte, nordeste e sudoeste do estado. O governo federal, auxiliado pelo Exército, pôs em prática ações de abastecimento de água e distribuição de cestas básicas na maioria dos estados do Nordeste. No mês de setembro, o governador Jacques Wagner declarou situação de emergência em 90 municípios baianos.

“Nunca precisei da caridade de ninguém. Sempre o que tive, tive com o suor do meu trabalho. Isso é desde molequinho. Meu pai era um bicho perverso danado, mas ele respeitava trabalhador.”

Para seu José, tanto os eleitores como os governos são culpados, igualmente, pela pobreza do povo, pela falta de perspectivas:

“Prefeito, governador, presidente, tudo uma decepção. Mas o povo também é besta. O problema é que ninguém pensa pra frente. Só quer saber do agora. Aí o cidadão vota por qualquer agradozinho. E o político para a obra do outro pra começar a sua. E a gente fica nisso a vida inteira.”

A seca também o atingiu. Ele perdeu plantações de feijão e milho. Seu alento foram as criações de galinhas e de cabras. E alguns serviços gerais, principalmente, como pedreiro e eletricista.

“Aprendi tudo em São Paulo.”

Segundo ele, ter ido para lá, há mais de trinta anos, foi, ao mesmo tempo, sua fortuna e desgraça:

“Muito trabalho, muita humilhação. Mas aprendi tudo o que eu sei. Assim, coisa que não é da roça…”

“E por que voltou pra Bahia?”

“Cansaço… Foi 8 anos.”

Voltaram ele, dois filhos e a mulher. O filho mais velho resolveu ficar.

“A seca tem jeito, seu José?”

Ele me garantiu que sim. E, para provar isso, começou a falar sobre sistemas de irrigação:

“A terra é boa, homem. O que falta é cuidado. Interesse dos político… Funciona assim: a gente aqui da região tem que puxar água do poço com bomba, de óleo diesel, ou na bateria, porque o lugar é acidentado, a plantação fica no alto. É um atraso. Coisa de antigamente. É tudo na mão, com mangueira. O ideal seria a irrigação de gotejamento. A água é levada de tubo até a raiz da planta. Fica pingando o tempo todo. É uma beleza. A gente economiza água e energia. Mas é um troço caro danado. Precisa de investimento. Mas cadê?”

Ele não tem mais tempo para completar a resposta, para eu ouvi-la. A viagem termina para mim, tenho de descer do ônibus.