RANI E O SINO DA DIVISÃO

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Rani e o Sino da Divisão tem um dos textos mais deliciosos da literatura nacional, em qualquer gênero. Jim Anotsu tem enorme talento para escolher palavras, montar parágrafos e capítulos,  um ouvido apuradíssimo para empregar um ritmo quase hipnótico à narrativa, bom manejo do suspense, criatividade no worldbuilding e cuidado na pesquisa. Infelizmente, o livro não é perfeito.

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Jim Anotsu

Tive problemas para acreditar nos personagens. Tudo bem que Rani, seu amigos, parentes e adversários estão envolvidos em situações estranhas, num mundo fantástico. Mas, mesmo numa ficção delirante, o leitor quer acompanhar personagens que causem nele algum sentimento, alguma sensação, seja admiração, raiva, medo, repulsa e por aí vai. E tudo isso é consequência dos conflitos da trama, do choque entre os objetivos dos personagens, como indivíduos ou grupos.

Bons conflitos geram uma forte conexão com os personagens, seja para amá-los ou odiá-los. Portanto, em Rani…, senti a ausência de conflitos mais exigentes, que tirassem os personagens da zona de conforto. Mesmo numa trama sobre o fim do mundo.

O conflito central, o embate entre a heroína-mor, Rani, e o vilão-mor, Aiba, carece de liga, não convence. É algo parecido com a relação Harry Potter/Voldemort. Mas, no caso da obra de Rowling, o peso para Harry e também para Voldemort de buscar cada um seu objetivo é enorme. Falta esse peso nos principais conflitos em Rani…, levando o leitor a não se importar muito com o destino dos personagens. A todo instante, o drama parece que vai partir os personagens ao meio, mas acaba aliviando a tensão. Então tudo volta praticamente ao ponto de origem, sem grandes transformações.

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Para não ser injusto com a construção de personagens do livro, o melhor deles de fato é Rani, uma menina negra fora dos padrões, com seus dramas de adolescente esquisita e ironia afiada. Ela funciona melhor quando se ocupa de seus próprios pensamentos, em seu monólogo interior.

O livro vale a leitura para conhecermos um talento em ascensão, numa edição muito bem cuidada, com uma revisão competente, um projeto gráfico divertido e uma capa pop, ao mesmo tempo, bad ass e fofa.

Rani e O Sino da Divisão, de Jim Anotsu, 320 págs., Gutenberg

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

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