MOSTRA LITERÁRIA DE SALVADOR

mostra

Participei ontem da Mostra Literária de Salvador, como espectador, leitor e entusiasta da cena literária baiana. Um evento pequeno, mas bem organizado. O teatro SESI é um espaço aconchegante, cercado pela atmosfera boêmia e cultural do bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Nada melhor do que respirar literatura à beira do mar.

Fiquei sabendo do evento poucos dias antes. Achei estranho, já que tento ficar ligado às movimentações literárias da cidade. Parece que não houve muita divulgação. E só quando cheguei lá, fiquei sabendo da polêmica sobre falta de representatividade.

A programação inicial contava apenas com convidados, de Salvador e de outros estados, brancos ou considerados brancos. Houve uma revolta nas redes sociais, questionando como poderia acontecer um evento literário em Salvador sem autores e influenciadores negros. A bronca era justíssima.

A organização reconheceu o erro e reformulou a programação. Autores, quadrinistas, contadores de histórias, blogueiros e youtubers negros participaram das mesas de debate e ministraram oficinas. Todos ganharam com isso. Percebi um ambiente muito mais plural e uma troca mais rica de experiências literárias. Como disse o poeta e editor Alex Simões em um das mesas, os autores negros têm que forçar a barra e ocupar os espaços, sim.

A Mostra durou o dia inteiro com mesas, oficinas, sessões de autógrafos, sorteios de livros, doação de livros, vendas de livros. O mais bacana para mim foi entrar em contato com editoras e autores baianos que eu não conhecia. Em Salvador, há uma cena literária de guerrilha, como disseram nas mesas. Sempre houve uma tradição de pequenas editoras, que procuraram dar vazão à produção local, tentando levar ao leitor edições de qualidade. Já vi editoras daqui morrerem por vários motivos. E, vez ou outra, vejo outras nascerem. E a melhor forma de conhecê-las é circular pelos eventos literários.

Foi um prazer prestigiar o amigo Ian Fraser. Conhecer pessoalmente Alex Simões. Saber da existência da maravilhosa Lorena Ribeiro, com seu necessário canal Passos entre Linhas, daqui de Salvador, focado em literatura nacional. Bater um papo com o poeta Anderson Shon e falar sobre a urgência em consumir autores negros baianos vivos.

Nas duas mesas a que assisti, falou-se muito da crise do nosso mercado editorial, das transformações que estão ocorrendo e do papel do autor independente, capitaneando uma nova maneira de divulgar, vender e distribuir livros. O cenário é complicado, mas também o abalo do mercado pode gerar oportunidades para os autores nacionais, até mesmo em relação às grandes editoras.

Como disse o mediador Pedro Duarte, um cara que conhece muito os bastidores do mercado editorial: se está caro investir em autor estrangeiro, agora é a hora de investir em autor nacional, mais barato e acessível. As grandes editoras já acordaram para essa realidade, pelo menos, no gênero YA, para jovens adultos. Mas foi consenso na Mostra que as grandes editoras, as grandes livrarias e as distribuidoras têm que repensar suas práticas ultrapassadas para que o próprio mercado continue a existir.

A primeira edição da Mostra Literária de Salvador apresentou o potencial do evento. Tem tudo para crescer, incluir cada vez mais gente e ser uma referência na cena literária baiana.

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