A REVOLTA DE SEU JOSÉ

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Minha intenção foi bater perna por aí, ir adiante quase sem rumo, não planejar muito as coisas. Viajei sozinho para ver e ouvir melhor. Foram duas semanas de andanças pelo interior da Bahia, entre setembro e outubro de 2007. Uma temporada em que esqueci um pouco quem eu sou me rendi à vivência de outros.

O livro de viagens “Homem com Mochila” foi publicado em 2008. O texto abaixo é um dos capítulos do livro.

A REVOLTA DE SEU JOSÉ

“Como o senhor se chama?”

“José.”

“José de quê?”

“José de Souza.”

O homem na poltrona vizinha se mostra disposto a tornar a viagem menos maçante. Não levo comigo nenhum aparelho de mp3 nem a paisagem me interessa. É uma repetição de cenas que já conheço: o sol inclemente castigando a terra seca, pós-apocalíptica.

O ônibus está lotado, inclusive com algumas pessoas em pé. Mas ninguém reclama. As viagens são curtas, rumo a povoados e municípios próximos de Vitória da Conquista. O ônibus não é dos melhores, mas está inteiro. Por não existir concorrência em boa parte dos trajetos que faz, a empresa se acha no direito de prestar um péssimo serviço aos seus passageiros.

“A vida não é brincadeira não. A gente dá um duro danado pra, no final, dá só um pouquinho”, diz seu José, me olhando com firmeza. Os olhos ternos dão mais gravidade às suas palavras.

Ele tem 60 anos. Foi agricultor quase a vida toda. As mãos calejadas comprovam isso. Assim como as dores nas costas e no joelho direito, que o levam todo mês do município de Caraíbas, onde mora com a mulher e dois filhos, a Vitória da Conquista; um trajeto de 65 km.

“A verdade é que a médica disse que eu tinha de fazer fisioterapia duas vezes por semana… Mas me diga como, meu amigo? Como eu faço essa mágica? Dois ônibus pra ir, dois pra voltar… toda semana.”

O filho que vive em São Paulo, dono de uma pequena lanchonete em Jundiaí, paga seu plano de saúde.

A seca em 2007 foi uma das piores dos últimos anos. Em alguns municípios baianos, não choveu por oito meses ou mais. Principalmente no norte, nordeste e sudoeste do estado. O governo federal, auxiliado pelo Exército, pôs em prática ações de abastecimento de água e distribuição de cestas básicas na maioria dos estados do Nordeste. No mês de setembro, o governador Jacques Wagner declarou situação de emergência em 90 municípios baianos.

“Nunca precisei da caridade de ninguém. Sempre o que tive, tive com o suor do meu trabalho. Isso é desde molequinho. Meu pai era um bicho perverso danado, mas ele respeitava trabalhador.”

Para seu José, tanto os eleitores como os governos são culpados, igualmente, pela pobreza do povo, pela falta de perspectivas:

“Prefeito, governador, presidente, tudo uma decepção. Mas o povo também é besta. O problema é que ninguém pensa pra frente. Só quer saber do agora. Aí o cidadão vota por qualquer agradozinho. E o político para a obra do outro pra começar a sua. E a gente fica nisso a vida inteira.”

A seca também o atingiu. Ele perdeu plantações de feijão e milho. Seu alento foram as criações de galinhas e de cabras. E alguns serviços gerais, principalmente, como pedreiro e eletricista.

“Aprendi tudo em São Paulo.”

Segundo ele, ter ido para lá, há mais de trinta anos, foi, ao mesmo tempo, sua fortuna e desgraça:

“Muito trabalho, muita humilhação. Mas aprendi tudo o que eu sei. Assim, coisa que não é da roça…”

“E por que voltou pra Bahia?”

“Cansaço… Foi 8 anos.”

Voltaram ele, dois filhos e a mulher. O filho mais velho resolveu ficar.

“A seca tem jeito, seu José?”

Ele me garantiu que sim. E, para provar isso, começou a falar sobre sistemas de irrigação:

“A terra é boa, homem. O que falta é cuidado. Interesse dos político… Funciona assim: a gente aqui da região tem que puxar água do poço com bomba, de óleo diesel, ou na bateria, porque o lugar é acidentado, a plantação fica no alto. É um atraso. Coisa de antigamente. É tudo na mão, com mangueira. O ideal seria a irrigação de gotejamento. A água é levada de tubo até a raiz da planta. Fica pingando o tempo todo. É uma beleza. A gente economiza água e energia. Mas é um troço caro danado. Precisa de investimento. Mas cadê?”

Ele não tem mais tempo para completar a resposta, para eu ouvi-la. A viagem termina para mim, tenho de descer do ônibus.

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