O DIÁLOGO

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Se eu previsse o que estava por vir, talvez não desse falta do Maigret que devorava de manhã na cama, e que segui lendo na praça de alimentação do shopping, enquanto esperava Cristina. Talvez não lembrasse que o havia deixado em sua bolsa quando nos encontramos para almoçar, porque eu estava de folga e não queria carregar nada nas mãos. Talvez não quisesse saber logo quem matou o Senhor Charles. Talvez não fosse ao trabalho de Cristina para pegar o livro. Só que não acredito em vida após a morte, destino ou premonições. O que acontece, acontece.

Cristina é vendedora numa loja de roupas. Enquanto eu atravessava os corredores do shopping, driblando um e outro, não parava de pensar no programa que ela tinha inventado para aquela noite. A despedida de um amigo dela. O sujeito vai morar em Portugal. Não suporto a maioria de suas amizades. Riem muito alto, falam muita merda. Assim como ela não suporta a maioria das minhas. Para ela, são um bando de boçais.

Entro na loja e Cristina logo me vê. Ela se mostra mais surpresa do que contente. Quer saber o que estou fazendo ali. Digo que vim atrás do livro que deixei em sua bolsa. Ela vai pegá-lo. Na volta, confirmamos o diabo do programa da noite. Trocamos um selinho. Saio da loja disposto a terminar o romance num canto menos barulhento do shopping.

Dois corredores depois, meu plano foi frustrado. Eu estava distraído e só fui perceber quando era tarde demais, quando já olhávamos um para o outro. Não sei por que paramos, frente a frente. Não sei por que não seguimos nossos caminhos.

Ela estava com o cabelo mais longo, deliciosamente gorda e acompanhada de uma menininha e um sujeito alto.

“Como vai?”, ela disse, serena.

As palavras quase não saíram da minha boca. Minha recuperação foi lenta.

Ela me apresentou ao marido e à filhinha.

A conversa não rendeu muito. Ela perguntou por minha família. Respondi com poucas palavras, tentando mostrar tranquilidade, equilíbrio. Em seguida, instalou-se um silêncio constrangedor. A gente se despediu.

Fui direto para o carro e joguei o Maigret no banco do carona.

Tomei fôlego para não dar ignição de uma vez e arrancar com tudo.

No primeiro sinal vermelho, apareceu um garoto e me pediu um trocado.

“Eu não tenho nada”, disse a ele. Quis ser gentil ao invés de usá-lo como bode expiatório da minha raiva, da minha frustração.

O garoto segurou o passo. Olhou para mim e deu uma gargalhada, erguendo a cabeça. Depois seguiu seu caminho.

O sinal ficou verde. Fui embora.

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