QUEM TEM MEDO DO FEMINISMO NEGRO?

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Djamila Ribeiro é um dos nomes mais importantes do pensamento social contemporâneo brasileiro, justamente por fazer, com tanta propriedade, a ponte entre a teoria acadêmica e a população em geral.

Por meio de seus artigos e livros, e como editora e palestrante, ela torna acessível uma pauta urgente: a condição da mulher negra no Brasil. Djamila mostra que a mulher negra, tão massacrada historicamente, sofre em dobro por ser mulher e negra, tendo que enfrentar o racismo, o machismo, o fogo amigo do feminismo da mulher branca, a invisibilidade e outros estereótipos desde a infância.

Este Quem tem medo do feminismo negro? é ótimo, principalmente, para quem ainda não parou para refletir sobre o tema. Para quem já tem outras leituras a respeito, serve como síntese de muitas fontes espalhadas por aí. Além de trazer uma rica bibliografia para que o processo de reflexão continue, mais aprofundado. É um aprendizado realmente.

Quem tem medo do feminismo negro?, de Djamila Ribeiro, 120 págs., Cia das Letras.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

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CONTOS SOMBRIOS

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A tradutora, ilustradora e escritora Camila Fernandes é um dos talentos mais sólidos da literatura fantástica nacional, mas infelizmente pouco se fala sobre sua obra, focada em contos.

A autora consegue misturar com muita competência tradição e contemporaneidade. Suas histórias remetem a contos de fadas, seres mitológicos, lendas e medos antigos. O que torna sua prosa cativante é a ligação do passado com o mundo atual, pós-moderno, feminista.

Outro elemento de fascínio é a franqueza da autora. Sua crueldade, que nunca é gratuita. Tem uma razão de ser. É a condição humana olhando para o fundo do poço. Ou olhando para um lugar desconhecido, além de sua compreensão.

Vale destacar também a prosa fluente e cadenciada, que consegue desenvolver personagens e desfechos com destreza, gerando espanto, principalmente nas histórias mais longas.

Contos Sombrios é um livro que precisa ser mais apreciado. O e-book está disponível na Amazon.

Contos Sombrios, de Camila Fernandes, 105 págs., Dandelion.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

A ARTE DA GUERRA

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O romance Use of Weapons é conhecido por sua estrutura peculiar e pela chocante revelação final. Melhor dizendo, pelas duas revelações finais. E uma delas tem a ver com uma cadeira.

Entre os fãs da série The Culture, escrita pelo escocês Iain M. Banks, a avaliação do livro divide opiniões. Tem quem o considere um dos melhores romances de ficção científica já escritos. Outros o admiram, mas com ressalvas. Eu fico com estes últimos. Um livro de Banks sempre é garantia de uma leitura, no mínimo, intrigante, com momentos de reflexões contundentes sobre a condição humana e pérolas de uma ironia refinada e perversa.

A série The Culture, na verdade, são livros independentes (com alguns pontos de ligação) dentro de um mesmo universo. The Culture é uma sociedade no futuro, numa galáxia distante, em que humanos aprimorados e inteligências artificiais convivem em harmonia. Eles vivem numa espécie de sociedade utópica. Não há mazelas sociais nem preconceitos. Há apenas prosperidade e aceitação. Mas isso não quer dizer que não existam relações complexas, disputas entre pessoas e máquinas.

Em Use of Weapons, considerado o terceiro livro da série, acompanhamos uma trama de espionagem política. Zakalwe é um ex-agente da Special Circunstances, mistura de serviço de inteligência e forças especiais de The Culture. Ele é tirado de sua aposentadoria confortável e convocado para uma nova missão: convencer um político exilado a interceder pela paz entre duas sociedades galácticas à beira da guerra. Zakalwe aceita o trabalho. Só que as coisas nunca são fáceis quando The Culture resolve se meter nos conflitos alheios. Suas intenções são nobres, mas nem sempre claras.

O livro é divido em duas linhas narrativas. Acompanhamos o presente, a partir do momento em que Zakalwe é convocado para a missão até o seu final. E paralelamente, temos trechos do passado de Zakalwe, apresentados de forma reversa, de anos antes de sua aposentadoria até a infância. Assim, a cada nova ação dele no presente, entendemos melhor suas motivações pelo o que é revelado de sua vida pregressa. É um recurso engenhoso. Bem sucedido, em parte. Quando funciona, mostra a maturidade de Banks como escritor, em termos de ritmo, construção de cenas e desenvolvimento de ideias. Quando a coisa não funciona, fica como algo gratuito, artificial, excessivo, a técnica pela técnica.

Zakalwe é um personagem fascinante pelo o que ele representa na narrativa. Por meio desse protagonista, Banks mostra que qualquer coisa pode se tornar uma arma. Até mesmo os sentimentos. Zakalwe é uma figura trágica, cabendo ao leitor sentir admiração, raiva ou pena.

Use of Weapons é uma meditação brutal, cheia de uma poesia melancólica e uma ironia afiada, sobre a vontade de subjugar, seja no âmbito pessoal ou coletivo.

3.5/5

Use of Weapons, de Iain M. Banks, 516 págs., Orbit.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

DECEPÇÃO CYBERPUNK

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Saga cyberpunk em 10 volumes, Blame! começa muito promissora, mas termina melancolicamente como uma baita decepção.

Os primeiros cinco volumes mostram um universo contido, mas intrigante e em expansão, envolvendo ciborgues letais e impiedosos de um lado e alguns humanos tentando sobreviver a uma distopia claustrofóbica, dentro de enormes instalações metálicas, com vários níveis e compartimentos, um verdadeiro labirinto vertical.

No início, o estilo lacônico do roteiro do mangaká Tsutomu Nihei estimula o leitor a fazer todos os questionamentos: que lugar é aquele? O que pretendem os robôs? O que aconteceu antes com a humanidade? A cada volume, apenas poucas informações são dadas. Mas tudo bem, porque há a expectativa de novas revelações, que, no final, façam algum sentido.

Mas acontece que, a partir do volume 6, a trama vai ficando cada vez mais vaga, com menos personagens e menos diálogos. E os mistérios se empilham. O que leva mesmo a avançarmos na leitura é a arte criativa e detalhada de Nihei, com suas criaturas bizarras e cenários épicos. Ele também é um mestre da movimentação. Sua cenas de ação são ágeis e potentes. Sua maior dificuldade é o desenvolvimento de personagens.

O desfecho é aberto demais, daqueles que dá vontade de jogar o mangá na parede.

Blame!, de Tsutomu Nihei, 10 volumes, JBC.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

A HORA E A VEZ DOS DESASSISTIDOS

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Itamar Vieira Junior é o mais importante autor baiano da atualidade. Vencedor da última edição do Prêmio Leya, seu romance Torto Arado teve extensa cobertura da mídia portuguesa. O autor foi à terrinha e fez bonito em diversos encontros e entrevistas. O romance será lançado no Brasil pela Todavia.

Itamar segue a tradição dos grandes autores baianos em aliar inquietação política e filosófica com apuro literário. Ele chamou atenção com o livro de contos A Oração do Carrasco. Não se engane com a finura do livro. Apesar de curto, cada conto carrega uma densidade que desafia o leitor, conteúdo e forma.

O triunfo aqui é falar de gente sofrida, os desassistidos, as minorias, mas descartando naturalismos fáceis. É uma poesia dura. Às vezes excessiva. Um ou outro conto poderia ser mais curto, porque a história termina e a linguagem continua meio que solitária, como em “Meu mar (Fé)”.

Mas não é à toa que o livro foi finalista do Jabuti. É o mais impactante livro de contos publicado por um autor baiano na última década, pelo menos. Existe até um flerte com a especulação, com a ficção científica, em “A floresta do adeus”. Os melhores contos são os que aliam, na medida certa, enredo intrigante, personagens cativantes e voz narrativa envolvente, como em “Alma” e “O espírito aboni das coisas”.

A pequena editora Mondrongo, da cidade de Itabuna, no interior aqui da Bahia, está de parabéns por lançar uma edição tão profissional, com bela capa e um projeto gráfico atraente.

A Oração do Carrasco é imperdível.

A Oração do Carrasco, de Itamar Vieira Junior, 167 págs., Mondrongo.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

CYBERPUNK NO CATARSE

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Vem aí meu mais novo livro! Que honra participar dessa coletânea e fazer parte desse timaço de autores. O cyberpunk não morreu. Virou outra coisa. Está competindo com a realidade de futuro incerto e presente voltando para trás. Minha noveleta se chama Caos Tranquilo. A história se passa numa Salvador alternativa, em 1987. Zima é uma ex-militar que busca dar um outro sentido para sua vida e habilidades. Edmo é um jornalista medíocre de dia e um escritor subversivo à noite. Numa cidade considerada um paraíso, mas onde ser feliz custa caro, nossos dois protagonistas negros enfrentarão inimigos brutais e suas próprias consciências. Uma mistura de homenagem e tiração de sarro de um subgênero tão marcante e influente. Clique na imagem e conheça a campanha de financiamento coletivo no Catarse. Apoie. Saia da Matrix.

ESTRANHA BAHIA ESTÁ CHEGANDO!

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Houve um pequeno contratempo no cronograma da 2ª edição da Estranha Bahia, mas voltamos aos trilhos. Estamos fazendo a última revisão do miolo antes de mandarmos os arquivos para a gráfica. A capa completa está pronta. Houve pequenas modificações em relação à edição anterior. Tudo para deixar os elementos da capa, quarta capa, lombada e orelhas mais nítidos. Lançamento em julho!

MOSTRA LITERÁRIA DE SALVADOR

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Participei ontem da Mostra Literária de Salvador, como espectador, leitor e entusiasta da cena literária baiana. Um evento pequeno, mas bem organizado. O teatro SESI é um espaço aconchegante, cercado pela atmosfera boêmia e cultural do bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Nada melhor do que respirar literatura à beira do mar.

Fiquei sabendo do evento poucos dias antes. Achei estranho, já que tento ficar ligado às movimentações literárias da cidade. Parece que não houve muita divulgação. E só quando cheguei lá, fiquei sabendo da polêmica sobre falta de representatividade.

A programação inicial contava apenas com convidados, de Salvador e de outros estados, brancos ou considerados brancos. Houve uma revolta nas redes sociais, questionando como poderia acontecer um evento literário em Salvador sem autores e influenciadores negros. A bronca era justíssima.

A organização reconheceu o erro e reformulou a programação. Autores, quadrinistas, contadores de histórias, blogueiros e youtubers negros participaram das mesas de debate e ministraram oficinas. Todos ganharam com isso. Percebi um ambiente muito mais plural e uma troca mais rica de experiências literárias. Como disse o poeta e editor Alex Simões em um das mesas, os autores negros têm que forçar a barra e ocupar os espaços, sim.

A Mostra durou o dia inteiro com mesas, oficinas, sessões de autógrafos, sorteios de livros, doação de livros, vendas de livros. O mais bacana para mim foi entrar em contato com editoras e autores baianos que eu não conhecia. Em Salvador, há uma cena literária de guerrilha, como disseram nas mesas. Sempre houve uma tradição de pequenas editoras, que procuraram dar vazão à produção local, tentando levar ao leitor edições de qualidade. Já vi editoras daqui morrerem por vários motivos. E, vez ou outra, vejo outras nascerem. E a melhor forma de conhecê-las é circular pelos eventos literários.

Foi um prazer prestigiar o amigo Ian Fraser. Conhecer pessoalmente Alex Simões. Saber da existência da maravilhosa Lorena Ribeiro, com seu necessário canal Passos entre Linhas, daqui de Salvador, focado em literatura nacional. Bater um papo com o poeta Anderson Shon e falar sobre a urgência em consumir autores negros baianos vivos.

Nas duas mesas a que assisti, falou-se muito da crise do nosso mercado editorial, das transformações que estão ocorrendo e do papel do autor independente, capitaneando uma nova maneira de divulgar, vender e distribuir livros. O cenário é complicado, mas também o abalo do mercado pode gerar oportunidades para os autores nacionais, até mesmo em relação às grandes editoras.

Como disse o mediador Pedro Duarte, um cara que conhece muito os bastidores do mercado editorial: se está caro investir em autor estrangeiro, agora é a hora de investir em autor nacional, mais barato e acessível. As grandes editoras já acordaram para essa realidade, pelo menos, no gênero YA, para jovens adultos. Mas foi consenso na Mostra que as grandes editoras, as grandes livrarias e as distribuidoras têm que repensar suas práticas ultrapassadas para que o próprio mercado continue a existir.

A primeira edição da Mostra Literária de Salvador apresentou o potencial do evento. Tem tudo para crescer, incluir cada vez mais gente e ser uma referência na cena literária baiana.

O INFERNO SOMOS NÓS

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Jordan Peele conseguiu de novo. Entregou ao espectador mais um filme de impacto, tanto do ponto de vista estético quanto reflexivo. Em Corra! ele apresentou uma arriscada combinação de filme tenso, mas muito divertido. E se saiu bem desse desafio, criando algo único, a partir de referências inconfundíveis de mestres do cinema do passado.

Em Nós, Peele se arrisca ainda mais, em nome de um objetivo claro: assustar, deixar o espectador em choque. O humor está presente, porém de maneira mais pontual. Nos seus melhores momentos de sátira, as piadas são ótimas. Há uma cena hilária que usa a música Fuck the Police, do N.W.A. Mas, no fim das contas, o que prevalece é o gore e o slasher. O desespero, os gritos, as mutilações, o sangue.

Como diretor, Peele amadureceu. O primeiro terço do filme tem um ritmo impressionante. Praticamente nada acontece, mas o que vemos tem uma fotografia tão elaborada, uma montagem tão cadenciada e diálogos e atuações tão marcantes, que não importa. Acompanhamos o cotidiano da família protagonista com um sorriso besta na cara, sem desejar que nada se apresse. A influência de Hitchcock é evidente, o diretor que construía seus suspenses sofisticados para o público médio como um reflexo apavorante desse mesmo público. E quando a violência começa, nos deparamos com um dos filmes de terror mais criativos e perturbadores dos últimos tempos. Uma mistura de homenagem e subversão ao cinema de horror dos anos 70 e 80.

É realmente revolucionário ver uma família de negros com tamanha personalidade e desenvoltura como protagonistas de um filme importante, que gerou tanta expectativa. Todos os quatro membros da família Wilson tem uma individualidade bem desenvolvida, provocando afetos e tensões entre si . Eles conquistam a empatia da plateia por suas qualidades e falhas. Ao mesmo tempo, os atores também impressionam quando representam seus duplos assassinos, invertendo a experiência do espectador de forma fascinante. Agora a dona do filme é Lupita Nyong´o. Ela arrasa como a mãe que defende sua família a qualquer custo e como seu duplo, uma personagem nada caricata, carregando uma complexidade surpreendente. No gênero do terror, é uma perfomance histórica para uma mulher negra.

Peele revelou em entrevistas que Nós tem uma reflexão bastante específica, como fica evidente no duplo sentido do título em inglês. Mas ele também admitiu que fez um filme com várias camadas, permitindo outros tipos de interpretações. De fato, Nós é bem mais ambíguo, mesmo havendo algumas revelações no final. O filme já está gerando muita discussão sobre seus significados, pelo o que ficamos sabendo e pelo o que é deixado em aberto.

Nós não é perfeito. O filme sofre uma falta de coesão em suas ideias e estrutura narrativa. Mostra certo cansaço no terço final, quando tudo já pareceu resolvido. Peele criou a atmosfera de uma tensa e afiada alegoria sobre o ser humano, olhando para si mesmo e para a sociedade que ajudou a construir. Portanto, seria bem mais desafiador se essa grande metáfora não fosse explicada. Porque muita coisa relacionada à origem dos duplos não faz o menor sentido.

De qualquer maneira, Nós é um filmaço. É algo inédito no cinema em geral, por trazer uma nova perspectiva, uma nova voz, confirmando Jordan Peele como um mestre do terror.

 Nós (Us, 2019), de Jordan Peele, 116 min., Monkeypaw Productions.

 AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE