THE PLAYER OF GAMES, UMA UTOPIA NA PRÁTICA

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The Culture é uma série de ficção científica escrita pelo precocemente falecido Ian M. Banks. Na verdade, são livros independentes (com alguns pontos de ligação) dentro de um mesmo universo. The Culture é uma sociedade no futuro, numa galáxia distante, em que humanos aprimorados e inteligências artificiais convivem em harmonia. Eles vivem numa espécie de sociedade utópica. Não há mazelas sociais nem preconceitos. Há apenas prosperidade e aceitação. Mas isso não quer dizer que não existam relações complexas, disputas entre pessoas e máquinas. A delícia de ler as histórias de The Culture é ver como seus habitantes têm uma mente afiada.

O escocês Banks sempre foi conhecido por seu humor, ao mesmo tempo, caloroso e sombrio. A beleza dos romances de The Culture está em tratar de temas sérios, como classe, gênero, raça, estrutura social, individualidade, escolha e acaso, com toques de uma ironia que não deixa prisioneiros, mostrando os absurdos da realidade por ângulos bem diferentes do usual.

Em The Player of Games, acompanhamos o protagonista Jernau Gurgeh, um humano, especialista em jogos, numa missão secreta. Ele vai parar no Império de Azad, considerado bárbaro por autoridades de The Culture pelo extremo sexismo e xenofobia, onde há pobreza e uma hierarquia social estratificada. A civilização de Azad é toda estruturada em função de um jogo. O objetivo de Gurgeh é ser o grande vencedor desse jogo e derrotar essa civilização “por dentro”. As circunstâncias durante e fora das disputas e os próprios dilemas de Gurgeh farão da tarefa algo nada fácil.

The Player of Games é o segundo romance publicado de The Culture, mas é a melhor porta de entrada para esse universo tão rico. É o livro mais curto da série e com uma narrativa mais linear. Banks foi inteligente em não explicar demais as regras de cada jogo, deixando a narrativa ágil e focando nas expectativas e consequências das partidas. A ironia de algumas das inteligências artificiais, por meio dos diálogos, é um show à parte.

The Player of Games, de Iain M. Banks, 405 págs., Orbit

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

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THE EXPANSE: GAME OF THRONES NO ESPAÇO

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A série The Expanse é uma espécie de Game of Thrones no espaço. Centenas de anos no futuro, a humanidade colonizou o sistema solar. Mas está longe de ser um futuro pacífico. Há uma disputa de poder entre os terráqueos, os marcianos e os belters. Os terráqueos têm os maiores recursos e as forças armadas mais poderosas. Os marcianos são humanos que colonizaram o planeta vermelho e se tornaram uma sociedade militar, de recursos limitados, independente da Terra. E os belters são basicamente mineiros que vivem em um cinturão de asteroides distante, explorados tanto pela Terra como por Marte. A vontade de independência dos belters é enorme.

Desde o final do reboot de Battlestar Galactica, o canal SYFY tenta emplacar outro sucesso. Várias tentativas ficaram pelo caminho. Até acertarem com The Expanse. É uma space opera mais sombria e realista (claro que com suas liberdades dramáticas se tratando de espaço sideral), com personagens muito bem desenvolvidos e com personalidades complexas. Os heróis fazem coisas terríveis e os vilões não são cartunescos, possuem motivações convincentes. A força da série está justamente nos personagens e na trama, que mistura elementos de suspense, aventura espacial e uma boa pitada de terror.

Outro triunfo de The Expanse é apostar na diversidade. Nisso ela ganha de lavada de GoT. Tendo um worldbuilding tão rico, com várias culturas e línguas ao redor da galáxia, passando pelas mudanças na estrutura corporal e reação à gravidade de terráqueos, marcianos e belters, às tecnologias que permitem a viagem no espaço, há toda uma variedade de gente, seja como protagonistas, coadjuvantes ou para compor cenários de fundo. Há negros, asiáticos, árabes, latinos, indígenas.

Houve uma melhora significativa na qualidade da série na segunda temporada. As mulheres se tornaram personagens mais relevantes. A trama ficou mais interessante. Há uma boa dose de ação, mas este não é o foco. O grande mistério é construído aos poucos, o que pede certa paciência do espectador.

The Expanse ficou conhecida como a melhor série de ficção científica da atualidade que quase ninguém assiste. O que é uma pena. Ela merece mais audiência e reconhecimento. A 3ª temporada está no ar no SYFY. Você pode ver as temporadas 1 e 2 na Netflix.

AVALIAÇÃO:RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

MUITO MAIS DO QUE UMA GUERRA ENTRE CAIPIRAS E HIPPIES

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Precisamos prestar mais atenção aos documentários da Netflix e aos documentários em geral. Sempre fui fã do gênero. E alguns dos melhores filmes nacionais são documentários. A verdade pode ser manipulada, se transformar numa obra de ficção. O diretor de um documentário, por mais talentoso que seja, precisa se ater ao compromisso ético de juntar seu quebra-cabeça de informações para mostrar a verdade ou as verdades possíveis dentro de um contexto social e/ou histórico.

No caso de Wild Wild Country, temos uma obra-prima nesse sentido. Uma história tão rica e real, filmada de maneira tão vibrante. A narrativa desse documentário é superior a muitas séries de ficção badaladas da Netflix. Em seis episódios, conhecemos a fundo um dos casos mais controversos da crônica americana nos anos 80: a chegada do guru Bhagwan Shree Rajneesh (depois conhecido como Osho) e seus seguidores ao estado do Oregon para fundar uma comunidade alternativa, numa área rural, cercada de cowboys.

Como diz um dos “personagens” no documentário, no futuro vão pensar que se trata de pura ficção. Porque a história é muito louca. E os personagens fascinantes. Principalmente, Ma Anand Sheela, a toda poderosa secretária de Osho. Ela era uma força da natureza. A pessoa que fazia as coisas acontecerem. À medida que o número de seguidores aumentava no Oregon, assim como a infra-estrutura da comunidade, os conflitos com os vizinhos se acirravam. Então começa uma guerra entre conversadores americanos contra essa comunidade, cheia de gente cansada do american way of life. Mas não pensem que era uma disputa entre caipiras e hippies. A coisa era mais complexa. Havia muito preparo intelectual de ambos os lados. Por isso, a sofisticação da guerra entre esses dois grupos chegou a níveis inacreditáveis.

O que torna Wild Wild Country tão marcante é a junção de conteúdo e forma. Os diretores Chapman e Maclain Way souberam criar uma narrativa empolgante com o uso de vários recursos audiovisuais, principalmente no trabalho com as imagens de arquivo. Esse documentários faz a gente pensar um pouco mais sobre o valor de nossas convicções. Até que ponto devemos deixá-las de lado ou mantê-las.

Wild Wild Country, de Chapman e Maclain Way, seis episódios, Duplass Brothers Productions

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

VINGADORES: GUERRA INFINITA, UMA MONTANHA-RUSSA DE EMOÇÕES

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Começo logo dizendo que Vingadores: Guerra Infinita é inferior ao primeiro filme e muito superior a Era de Ultron. Em Guerra Infinita, falta a coesão e desenvolvimento de personagens do primeiro. E está longe de ser a bagunça que foi Era de Ultron. Como já apontaram, Guerra Infinita é mais um evento (na verdade, a parte 1 desse evento) do que um filme propriamente dito. Uma saga de quadrinhos no cinema. E como os leitores de HQs bem sabem, dificilmente as sagas mostram o melhor de um universo de super-heróis. Acontece o mesmo com o MCU. Os melhores filmes são aqueles auto-contidos, que contam uma história sem muita ou nenhuma conexão com as outras produções do universo compartilhado.

O inchaço era inevitável em um filme como Guerra Infinita. Mas aqui a Marvel soube entregar um entretenimento que empolgasse. Ao contrário de Era de Ultron, tão preocupado em servir de plataforma para apresentar os novos rumos do MCU em futuros filmes, em Guerra Infinita há apenas um “novo” personagem a ser apresentado e desenvolvido de fato: Thanos. Chega a impressionar a decisão da Marvel em tornar o vilão a coisa mais importante do filme. Thanos não é uma figura caricata. Ele mal levanta a voz. Mas sua tranquilidade é assustadora. E suas motivações, por mais questionáveis que sejam, seguem uma lógica verossímil. Podemos dizer que Thanos acredita nas ideias de Malthus, de que a superpopulação é o motivo de todas as mazelas sociais, no caso, em todo o Universo. Thanos se considera um herói, equivocado, mas herói. O fascinante é ver sua convicção desapaixonada, lutando contra seus mais profundos sentimentos pessoais. Thanos é um vilão atormentado. E tem presença, é miserável e vai fazer você sentir muita raiva.

Passada a montanha-russa de emoções de Guerra Infinita, analisando a coisa friamente, constata-se que é um dos melhores filmes do MCU. Mesmo com seus problemas. A presença dos super-heróis é irregular, e em alguns casos decepciona (heróis fundamentais ficam meio de escanteio). Só uns poucos que fazem a trama avançar têm mais tempo de tela. Por isso, ganharam um bom desenvolvimento e falas marcantes. O que faz Guerra Infinita funcionar são as partes e não o todo, os melhores momentos de cada núcleo de heróis. O bom é que a constante troca de cenários e de times de heróis acelera a trama. O humor geralmente funciona. A ação, no estilo irmãos Russo, é muito competente. E os efeitos especiais são bem convincentes em mostrar a ambição épica desse filme.

A Marvel nunca teve muita coragem em arriscar no MCU. Em termos de mudanças de rumo. Mas há sérias consequências em Guerra Infinita. Houve choro, espanto, silêncio e revolta nos cinemas. Resta saber se a Marvel, daqui para a frente, vai respeitar o investimento emocional do público em relação a algumas das decisões tomadas.

Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War, 2018), de Anthony e Joe Russo, 149 min., Marvel Studios.  

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

DIRTY COMPUTER, UM ÁLBUM VISUAL

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Álbum visual. É assim como o novo trabalho de Janelle Monáe está sendo anunciado. Ao assistir Dirty Computer você vai entender o motivo. Nesse média-metragem de ficção científica musical de 48 minutos, Monáe mostra porque ela é uma artista de vanguarda na música, na moda e na atitude. Suas canções são políticas, mas sem perder o charme. Ela escancara como o black é beautiful, como a diversidade é cheia de energia e não deve nada a ninguém. E mais uma vez, ela reafirma sua paixão pela ficção científica. Dirty Computer é um álbum conceitual, com uma trama distópica que amarra tudo, dando mais relevância aos temas levantados por cada canção. Visionário.

THE QUIET WORLD (POEMA FANTÁSTICO 1)

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The Quiet World

BY JEFFREY MCDANIEL

In an effort to get people to look
into each other’s eyes more,
and also to appease the mutes,
the government has decided
to allot each person exactly one hundred
and sixty-seven words, per day.

When the phone rings, I put it to my ear
without saying hello. In the restaurant
I point at chicken noodle soup.
I am adjusting well to the new way.

Late at night, I call my long distance lover,
proudly say I only used fifty-nine today.
I saved the rest for you.

When she doesn’t respond,
I know she’s used up all her words,
so I slowly whisper I love you
thirty-two and a third times.
After that, we just sit on the line
and listen to each other breathe.

O BOOM DO CONTO FANTÁSTICO NACIONAL

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No Brasil, não temos uma tradição de sites de contos de ficção científica, terror e fantasia, como em língua inglesa. Lightspeed, Clarckesworld, Apex e outros publicam atualmente o que há de melhor na produção mundial de ficção fantástica. Até brasileiros podem participar de suas submissões e ser selecionados. Isso já aconteceu com os escritores Fábio Fernandes e Jacques Barcia.

Sites semelhantes nacionais existem. Dois que merecem destaque são A Tarvena e Leitor Cabuloso. Mas o que chama cada vez mais atenção é o ótimo momento das revistas de contos e das coletâneas.

O conto é a porta de entrada do leitor para conhecer novos autores. É o cartão de visita do escritor iniciante. Ou um dos poucos espaços para o autor veterano menos convencional. Faz seu nome circular, abre portas para futuros projetos. Num mercado editorial profissionalíssimo e concorrido como o americano, geralmente, o conto é por onde tudo começa. Pelo menos, para autores de ficção fantástica.

Tento acompanhar as revistas e coletâneas mais interessantes. O fato de existir, há algum tempo, mais material de qualidade do que posso ler é uma mostra da evolução da produção nacional.

Entre coletâneas e revistas de contos gratuitas e à venda, em e-book e livro físico, o nível das histórias vai do regular ao excepcional. Vale muito a pena investir nesses autores novatos ou já com uma boa estrada percorrida. Você encontrará verdadeiros tesouros escondidos, que não devem nada ao que é produzido pelo mainstream e publicado pelas grandes editoras.

Abaixo você poderá conferir onde encontrar alguns dos melhores contos nacionais de ficção científica, terror e fantasia:

Somnium: É a revista de contos de ficção científica mais tradicional da literatura brasileira. É a publicação oficial do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), sediado no Rio de Janeiro. Nas décadas de 80 e 90, a Somnium chegou a sair em papel numa edição semi-profissional.  Já há alguns anos, ela sai apenas em formato digital. Além de contos, reúne artigos, resenhas e crônicas sobre temas científicos, acadêmicos e da cultura pop.

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Trasgo: Das publicações mais recentes, a revista Trasgo é uma espécie de pioneira. Ela surgiu para injetar ânimo nos novos autores, nesse problemático mercado de literatura fantástica nacional. Com um formato inédito no Brasil, a proposta do criador da Trasgo, o escritor e redator publicitário Rodrigo van Kampen, é dar um tratamento profissional aos contos publicados, com curadoria e pagando aos autores.

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A Taverna: Um dos sites mais populares do fandom. Há resenhas de livros, filmes, quadrinhos e séries de TV, dicas de escrita, dicas de como melhorar a leitura em inglês e contos! Até já publicaram a primeira coletânea deles, Manuscritos Herdados.

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Leitor Cabuloso: Outro site bastante conhecido entre os nerds. Praticamente um portal. Aqui há uma variedade maior de conteúdo, com destaque para o Cabulosocast/Perdidos na Estante, um podcast que faz abordagens críticas e aprofundadas de vários temas da cultura pop. E claro, eles publicam contos! Com direito a primeira coletânea, Realidades Cabulosas.

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Mafagafo: A mais nova revista a chegar no cenário fantástico nacional. Criada pela escritora Jana P. Bianchi, a proposta é publicar histórias de maior fôlego em partes, algo como um folhetim 2.0. Cada texto tem curadoria de um editor convidado e ilustrações.

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Mitografias: Site muito bacana sobre mitologias. Existe muito conteúdo sobre a relação entre as diferentes mitologias e a literatura. Destaque para o folclore brasileiro. Tem podcast, artigos, resenhas, oficinas e muito mais. A seção de contos não aceita submissões, mas anualmente é publicada uma coletânea.

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Universo desconstruído: Organizada pelas escritoras Aline Valek e Lady Sybylla, a proposta dessa coletânea é desafiar o status quo do fantástico nacional. Ficção científica, terror e fantasia não são coisas só de homem branco cis. Aqui a diversidade toma de assalto o fandom, na tentativa de transformá-lo em algo mais plural e conectado com o mundo lá fora.

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Crônicas da Guerra dos Muitos Mundos: A poeta, escritora e roteirista de quadrinhos Rita Maria Félix da Silva criou um multiverso colaborativo. Ela sempre convida outros autores, roteiristas e ilustradores para brincar com seus personagens. Meu romance juvenil Um Jardim de Maravilhas e Pesadelos faz parte desse multiverso. Em Crônicas…, são reunidos textos de alguns dos melhores nomes da ficção fantástica nacional. O único conto estrangeiro é do roteirista americano John Ostrander! Sim, Rita Maria conseguiu a participação dessa lenda dos quadrinhos.

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Editora Draco:  É a editora que mais aposta no autor nacional de FC, terror e fantasia. Suas coletâneas já se tornaram referências de apuro editorial e qualidade literária, revelando muitos nomes para nossos leitores.

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Editora Avec: O editor Arthur Vecchi brinca dizendo que publicar romances é um negócio arriscado, publicar livro de contos mais ainda e publicar coletâneas nem se fala… Mesmo assim, ele é um apaixonado pela literatura fantástica nacional. Por isso, vemos, no catálogo de sua editora, contistas de respeito.

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Editora Argonautas: Criada pelos escritores Cesar Alcázar e Duda Falcão, a ideia era abrir a editora para publicar os próprios livros de ambos e outros projetos que os interessassem. O fato é que a Argonautas lançou algumas das melhores coletâneas do fantástico nacional, com um cuidado editorial primoroso.

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Aquário Editorial: Editora encabeçada pela guerreira das letras fantásticas Ana Cristina Rodrigues.

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Llyr Editorial: Selo da editora Vermelho Marinho, dedicado à literatura fantástica nacional.

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EX! Editora: A partir de uma iniciativa do escritor e editor Alec Silva, foi criado esse coletivo de autores independentes. O objetivo é publicar os próprios livros do grupo e oferecer serviços editoriais.

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Editora 9Bravos: Criada pelo escritor, editor e arquivologista Ricardo Sodré Andrade. Apesar de a editora estar atualmente voltada para livros técnicos, vale muito a pena conhecer o que já foi publicado em ficção.

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Flash Fiction: No site do escritor e tradutor Santiago Santos, encontramos alguns dos mais apurados e impactantes contos da literatura nacional contemporânea. O cara escreve muito bem e é prolífico. Tem de tudo: comédia, faroeste, fantasia, policial, ficção científica, mainstream, ficção histórica e muito mais. O site tem um visual elegante e é de fácil navegação. Ainda quero ver Santiago ganhar um Prêmio São Paulo da vida!

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Fuleiragem Científica: Site de contos novinho em folha, que une ficção científica com a safadeza brasileira, tão peculiar quanto o humor irlandês.

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Vale também conferir: Retrônicos, Piratas, Contos Sombrios, Reino das Névoas, Fábulas do Tempo e da Eternidade, O Desejo de Ser como um Rio, Páginas do Imaginário, Trópicos Fantásticos, Guerras Cthulhu, Linea Nigra, Sonho Ruim.

 

O DRAMA DA POPULAÇÃO SÍRIA

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Quem sofre com o fogo cruzado entre as potências é o povo da Síria. A cobiça por aquele território é histórica, por causa de seus campos de petróleo e de gás e a localização estratégica entre Oriente e Ocidente. A Síria, como país, surgiu depois da Primeira Guerra Mundial, uma imposição europeia. Na última década, países ocidentais, encabeçados pelos EUA, com apoio da Turquia e Arábia Saudita, disputam o controle político e econômico da região contra a China, Irã e, principalmente, a Rússia, que apoiam o presidente Bashar al-Assad. Ele governa com mão de ferro, para revolta da população, empobrecida pelo desemprego e a decadência da infraestrutura do país. Por isso, começou a guerra civil, com parte da oposição financiada pelo Ocidente. E a repressão do governo aumentou bastante. Para piorar a situação, o Estado Islâmico e a Al-Qaeda viram uma oportunidade de se aproveitar do caos na Síria para recrutar gente e expandir seu poder de influência.

O contexto da região é complexo, remonta há milhares de anos, sob o domínio de impérios orientais e ocidentais. Mas o que é fácil entender é que o povo da Síria, os civis que não pegam em armas, sofre todos os horrores dessa guerra, causando as migrações em massa, inclusive para a Europa. A ONU, que deveria ter um papel moral e humanitário decisivo nessa questão, rende-se às vontades dos governos dos EUA, França e Grã-Bretanha, que afirmam que a única maneira de resolver o problema é pela força. A cruel verdade é que Assad massacra a população síria. Os extremistas islâmicos fazem lavagem cerebral em meninos e transformam meninas em escravas sexuais. E o Ocidente ou fica de braços cruzados, ou fecha as fronteiras, ou joga bombas em suas cabeças, como está acontecendo agora.

QUANDO A SOLUÇÃO É DESOBEDECER

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Thoreau foi um dos pensadores mais fascinantes do século 19. Os EUA de sua época eram um país que utilizava o trabalho escravo e a conquista de territórios em nome do progresso. Thoreau era totalmente contra a escravidão e o pagamento de impostos para financiar um estado bélico que se apropriava de porções do México e massacrava povos indígenas. Para ele, a desobediência civil era legítima quando o governo não representasse mais as prioridades de uma sociedade justa. Como o próprio Throreau diz, um governo só é eficiente quando valoriza a vida. Portanto, é dever de cada um fazer algo concreto para tornar as autoridades cientes disso. Ou seja, não corroborar com as normas sociais que fortalecem o estado e rebaixam o ser humano. Quando uma lei é injusta ou imoral, ela deve ser desacatada. Thoreau era um idealista com os pés no chão. Sabia como o mundo funcionava. E, por isso, queria transformá-lo. Em vida, o reconhecimento de sua obra foi restrito. Mas, a partir do século 20, sua influência foi enorme na política, literatura e filosofia, na voz dos descontentes.

MIRANDO NO ALVO ERRADO

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Ricky Gervais se tornou famoso e rico ao faturar em cima do filão da “comédia de choque”. Do tipo, falem mal, mas falem de mim. Então, ele faz piadas controversas sobre pessoas com câncer, AIDS e pessoas trans, por exemplo. Mas ele também ataca ferozmente os criacionistas. Ou seja, ele atira para todos os lados. Gervais já fez muita coisa no cinema, na TV, podcasts, publicou livros, participou de vídeo games, é um notório ativista dos direitos dos animais, ateu e entusiasta da Ciência.

Seu mais recente projeto é o stand-up Humanidade para a Netflix. Uma amostra de suas contradições. É no stand-up que muitos comediantes se soltam. Não é por acaso que ícones como Richard Pryor e Chris Rock brilham ou brilharam nos palcos, enquanto no cinema interpretaram personagens idiotas.

Gervais tem dois grandes méritos na carreira. Ele foi co-criador da versão original de The Office e apresentou várias edições dos Golden Globe. No The Office britânico, ele fazia o chefe sem noção David Brent. A série era uma poderosa sátira à vida corporativa. A versão americana mora no meu coração, mas não tem o mesmo vigor. E eu adorava assistir Gervais apresentando os Golden Globe, com a nata de Hollywood tensa, rezando para não ser alvo de suas piadas corrosivas. Ele deixava toda aquela gente famosa e endinheirada desconfortável. Era lindo de ver.

Mas o maior problema de Humanidade é que Gervais bate muito nos indefesos e pouco nos poderosos. Um comediante geralmente procura pontos em comum com a plateia ou aposta na autodepreciação para arrancar gargalhadas. A estratégia de Gervais é diferente. Ele logo deixa claro que é rico, famoso, mora numa mansão e tem uma vida de privilégios. E começa a atacar toda as bases da classe média, da classe trabalhadora, esfregando na cara das pessoas toda a mediocridade delas. A plateia gargalha. Mas o clima fica pesado. Só que Gervais retoma o controle do show apertando nos botões certos. A plateia é conservadora. Então não tem problema em pegar no pé de Caitlyn Jenner.

Gervais não é burro. Depois de tanta barbaridade, ele quer conquistar o coração da plateia. Então, na segunda metade de Humanidade, ele fala sobre sua origem pobre e conta “causos” de sua família esquisita. E também se autodeprecia um pouco. O conteúdo político do show é bom, quando ele destrói os argumentos dos conservadores religiosos e mostra as vantagens do pensamento fundamentado. Mas aí já é tarde. A coisa perdeu a graça.

Humanidade (Humanity, 2018), de John L. Spencer, 78 min., Netflix.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE