OS 6 MELHORES LIVROS QUE LI EM 2016

6) Série The Elephant and Macaw Banner, de Christopher Kastensmidt, 287 págs., independente.

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O mundo da série The Elephant and Macaw Banner (A Bandeira do Elefante e da Arara), criado pelo americano Christopher Kastensmidt, radicado em Porto Alegre, é um Brasil fantástico do século XVI, onde as lendas e mitologias formadoras do país ganham vida. Saci Pererê, Boitatá, Curumim, Iara, Labatut, Capelobo e outros. Até agora foram publicadas sete aventuras da dupla Gerard van Oost e Oludara. O primeiro um holandês que veio ao Brasil em busca de fortuna. O segundo um africano do Ketu (atual Benin), trazido à força como escravo. Ambos selam um pacto de amizade que é o fio condutor da série. É uma amizade improvável, mesmo numa versão fantástica de nossa História. O período colonial foi um dos mais brutais, com pouquíssimo espaço para sutilezas e compreensões de outras culturas. Mas, no Brasil criado por Kastensmidt, há gente de muito caráter, a começar pela dupla protagonista. Aqui a gentileza tem uma importância fundamental. É uma mentalidade contemporânea num cenário histórico. O autor mostra o esforço de suas pesquisas sobre as culturas e lugares do período com descrições ricas e dinâmicas, geralmente fugindo dos clichês, sem nunca atrapalhar o ritmo da narrativa e o desenrolar da trama. Uma das noveletas foi indicada ao prêmio Nebula. Este é um universo em expansão, com quadrinhos, jogo de RPG e, recentemente, foi publicada a versão em romance das aventuras de Gerard e Oludara em português pela Devir.

5) Ball Jointed Alice, de Priscilla Matsumoto, 212 págs., Draco

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Não é um livro para todos os estômagos ou cabecinhas. Acompanhamos aqui vários tipos de distúrbios mentais, de comportamento e familiar. Drogas, sexo e rock and roll, ou melhor dizendo, punk. Alguns podem classificar a história de emo, pelas atitudes sexuais, estados emocionais e referências à banda My Chemical Romance. Mas isso seria considerar apenas uma parte das influências da autora, que passam por Haruki Murakami e, claro, a Alice de Lewis Carroll. Realidade, sonho e pesadelo se misturam, deixando protagonista e leitor sem chão, desconfiando de tudo. Quem viu o anime Perfect Blue consegue ter uma boa ideia do que se trata. Dois nomes que não me saíram da cabeça enquanto eu avançava a leitura foram Philip K. Dick e Kafka. O pesadelo da paranoia. O maior mérito da autora foi saber dosar momentos de ação, o drama dos personagens sendo exposto, por meio de descrições e diálogos, e momentos de digressão, principalmente, de Frank, o narrador. Ela faz essa dobradinha com muita fluidez e uma poesia dura, de impacto. Além de lançar ideias sobre a vida e o mundo bem consistentes, iluminadas.

4) Binti, de Nnedi Okorafor, 96 págs., Tor

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Binti é uma garota muito curiosa, matemática brilhante e filha de um fabricante de astrolábios. Ela faz parte do povo Himba. Um povo que dá valor ao conhecimento, mas muito fechado em si, bastante apegado às tradições. Quando a jovem decide viajar para outro planeta, onde se encontra a universidade mais prestigiosa da galáxia, gera-se uma crise familiar. Na viagem, o contato com uma raça alienígena será revelador para Binti. A força da prosa da autora está em elaborar um texto simples, fluido, muito gostoso de ler, que levanta ideias pouco convencionais sobre os papéis da mulher, sede de conhecimento, poder do estado, tradição, modernidade e negritude. É uma história principalmente sobre a identidade que escolhemos para nós mesmos, a partir de nossa cultura e da relação com culturas diferentes. É um texto ora brutal, ora cheio de amor. Okorafor subverte as convenções da ficção científica para tornar o gênero mais vibrante. A novela ganhou os prêmios Nebula e Hugo deste ano.

3) Max Perkins – um Editor de Gênios, de A. Scott Berg, 544 págs., Intrínseca

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Perkins se tornou uma lenda no mundo editorial dos EUA no início do século 20. Ele mudou a literatura americana ao descobrir autores como F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Perkins respeitava os autores do passado, mas sua vontade era trabalhar com novas ideias, novas abordagens da vida americana. Mas ele teve que insistir muito na editora onde trabalhava, a tradicional Scribner, para publicar autores talentosos, mas erráticos. A biografia de A. Scott Berg foca nos três mais famosos e encrenqueiros: Fitzgerald, Hemingway e Thomas Wolfe. O caso mais interessante do livro é a relação entre Perkins e Wolfe. Serve principalmente para percebemos como opera um editor dedicado. Claro que o exemplo de Perkins é bastante particular, mas, de maneira geral, todos os mecanismos da função estão presentes. Chegando ao extremo com Wolfe, autor talentoso, indisciplinado e de temperamento difícil. Ele não ligava muito para a coesão de sua escrita. Terminava manuscritos de milhares de páginas e cabia a Perkins achar um livro ali dentro. O editor lia tudo minuciosamente, sugerindo mudança de ordem de capítulos, supressão de outros, desenvolvimento de personagens e cenas, e mais clareza em certas ideias. Mas Perkins sempre afirmava que qualquer livro era fruto do talento do autor, que a discrição do editor era a coisa mais importante do ofício. Ele chegou a dizer: “Gostaria de ser um anãozinho no ombro de um grande general, aconselhando-o sobre o que fazer e o que não fazer, sem que ninguém percebesse”. O livro foi originalmente publicado em 1978. Deve haver novos dados sobre Perkins por aí, mas a biografia não parece datada. Leitura obrigatória para quem deseja conhecer mais sobre um importante episódio da história do mercado editorial e da cultura americana.

2) A Desobediência Civil, de Henry David Thoreau, 150 págs., Companhia das Letras.

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Thoreau foi um dos pensadores mais fascinantes do século 19. Os EUA de sua época eram um país que utilizava o trabalho escravo e a conquista de territórios em nome do progresso. Thoreau era totalmente contra a escravidão e o pagamento de impostos para financiar um estado bélico que se apropriava de porções do México e massacrava povos indígenas. Para ele, a desobediência civil era legítima quando o governo não representasse mais as prioridades de uma sociedade justa. Como o próprio Throreau diz, um governo só é eficiente quando valoriza a vida. Portanto, é dever de cada um fazer algo concreto para tornar as autoridades cientes disso. Ou seja, não corroborar com as normas sociais que fortalecem o estado e rebaixam o ser humano. Quando uma lei é injusta ou imoral, ela deve ser desacatada. Esta edição da Companhia das Letras traz o famoso ensaio e outros textos de Throreau. Um autor de ideias poderosas e estilo sedutor. O livro está repleto de trechos que podem ser destacados, tornar-se máximas afiadas. A leitura não é completamente empolgante. Há passagens descritivas demais ou reflexões menos inspiradas. Porém grande parte do material é cheio de insights também sobre as prioridades na vida individual e em sociedade, as vantagens da solidão e de um cotidiano mais simples para descobrir a si mesmo e a valorização da natureza. Thoreau era um idealista com os pés no chão. Sabia como o mundo funcionava. E, por isso, queria transformá-lo. Em vida, o reconhecimento de sua obra foi restrito. Mas, no século 20, sua influência foi enorme na política, literatura e filosofia, na voz dos descontentes.

1)Kindred, de Octavia E. Butler, 264 págs., Beacon Press

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Acompanhamos a história de Dana, uma jovem escritora negra, na Los Angeles de 1976 (o romance foi publicado em 1979). Recém-casada, ao se mudar para a nova casa com o marido, Kevin, um escritor branco, inexplicavelmente, Dana é transportada no tempo e no espaço para a zona rural de Maryland, em 1815, antes da Guerra Civil Americana. A narração em primeira pessoa emula os relatos de ex-escravos que se tornaram marcantes na literatura americana pós-Abolição. O recurso da viagem no tempo permite um contraste poderoso. A voz de uma mulher negra contemporânea contando sua experiência como escrava. É um discurso articulado, cheio de insights sobre uma variedade de temas (racismo, poder, sexualidade, dominação, escolha…), sempre fazendo conexão com o que acontece com a mulher negra no passado e no presente. O texto é fluido, direto e imersivo. Butler soube muito bem equilibrar pesquisa e invenção. A voz de Dana nos passa toda a verossimilhança daqueles EUA do século 19, de como aquela sociedade funcionava, com seu cheiros, gostos e costumes. Principalmente, tomamos conhecimento da mentalidade de posse sobre a população negra. O elenco de personagens mostra pessoas negras e brancas de maneira complexa, no contexto brutal da escravidão. A relação entre mestres e escravos não é feita entre monstros e pessoas subservientes. E sim entre gente branca comum, que detém o poder sobre os corpos de suas propriedades, apoiada por toda uma sociedade escravocrata, e gente negra aviltada, que detém apenas o poder de cometer suicídio ou tentar uma difícil fuga para a liberdade. Este romance é um triunfo, tanto como peça de ficção quanto de reflexão. Butler flerta com a polêmica ao tratar da escravidão nos EUA de maneira complexa, sem ceder a maniqueísmos. Ganha a autora, por elaborar uma narrativa tão madura. Ganha o leitor, ao se deparar com um texto cheio de nuances e ideias desafiadoras.

AS 6 MELHORES SÉRIES QUE VI EM 2016

Já faz algum tempo que as séries de TV (e agora também dos serviços de streaming) superaram o cinema (principalmente, o americano) em termos de maturidade narrativa. Hoje em dia, não tenho mais saco nem tempo para assistir séries com temporadas longas, com vinte e tantos episódios; produto típico da TV aberta. Canais fechados geralmente produzem séries mais curtas, com tramas mais amarradas. Com o surgimento da Netflix e outros serviços semelhantes, o formato se transformou de vez, adequando-se mais à história que quer se contar e não o contrário.

6) Sherlock Holmes: A Noiva Abominável

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É uma delícia ver Cumberbatch e Freeman numa adaptação de época de Sherlock. O roteiro de Mark Gattis, que também interpreta Mycroft, conteve as pirotecnias narrativas de Steven Mofatt. A ciranda de reviravoltas está lá, porém é mais eficiente, orgânica e com propósito, sem deus ex machina. Há soluções para a trama bastante criativas, algumas realmente impressionantes. O clima de terror funciona. Outro elemento intrigante é a brincadeira metalinguística com o próprio ato de pensar, de escrever ficção, com acontecimentos dos episódios anteriores e com a vida e obra de Conan Doyle. Há problemas (principalmente, uma visão equivocada do feminismo). Mas, no fim, deixou o gostinho de que a série pode voltar a ser divertida.

5) Master of None

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Aziz Ansari foi inteligente em criar e estrelar uma série cômica que não fosse estúpida, como The Big Bang Theory, nem escrota, como South Park. Ele calibrou os riscos da empreitada, entregando uma produção diferente, mas que não deixasse de ser fofa, de criar empatia. O que Ansari traz de novo à comédia romântica é a visão de um protagonista que não é branco. É muito interessante ver um cara, descendente de indianos, tentando viver uma vida normal. Claro que temas importantes como racismo, misoginia, feminismo e estereótipos culturais estão presentes na série, em destaque. Porém esses temas são trabalhados de maneira orgânica no roteiro, sem parecer forçado e sem perder sua urgência. A série tem uma pegada pop, com uma pitada hipster, cheia de ótimas músicas. É uma atração leve. Alguns diriam leve demais para um mundo em explosão, considerando a intolerância a minorias e culturas não brancas. Mas a série não é desonesta. Entrega o que propõe, sem ser esquecer o contexto diverso e complicado em que vivemos.

4) Stranger Things

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A série sensação de 2016 foi uma surpresa que ninguém tinha previsto. Depois do lançamento na Netflix, o boca-a-boca incendiou a internet. Os criadores, os irmãos Duffer, fizeram direitinho o dever de casa. É uma nostalgia da cultura pop dos anos 80 que eles não vivenciaram, por serem mais novos, mas que convence. A trilha sonora original é ótima, lembrando as de John Carpenter, assim como as músicas de artistas da época. Destaque também para os efeitos sonoros e a edição de som. Há problemas de roteiro, o horror não assusta tanto, porém o mistério estimula a gente a ir logo para o episódio seguinte. E os personagens mirins arrasam. É uma produção que tem o passado como conteúdo, mas que, em termos de formato, mostra os novos rumos da TV.

3) Luke Cage

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O verdadeiro poder da série é mostrar como a cultura pop pode abordar temas relevantes de uma maneira acessível. O foco aqui está na questão da negritude, de como é ser negro num mundo racista. O criador da série, Cheo Hodari Coker, teve a benção da Marvel para mostrar sua visão, mas seguindo certas regras. Mesmo assim, ele conseguiu realizar a produção mais adulta da Casa das Ideias até agora. A série empolga mais do que decepciona. É vibrante e autêntica. A ação pode não ser tão coreografada como na série do Demolidor. Mas acompanhamos alguns dos diálogos mais afiados da TV ou do cinema americano recente. Outro destaque são as personagens femininas. Mulheres negras em posições de poder, sejam heroínas ou vilãs, com atitudes que desafiam estereótipos. Luke Cage é um poderoso manifesto pop. Como um rap que diz a real entre uma batida e outra.

2) Mr. Robot

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A primeira temporada expõe as vísceras das megacorporações, a razão de ser do capitalismo. A série tem um clima cyberpunk, tantos pelas ideias anti-establishment como pela estética soturna. É um retrato realista da cultura hacker (na medida do possível, segundo especialistas). É a série pop mais tensa dos últimos tempos. A trilha sonora eletrônica retrô de Mac Quayle é decisiva para causar esse efeito. E as músicas de artistas de décadas anteriores, como Echo and The Bunnymen, Pixies, Tangerine Dream e Neil Diamond, contribui para reforçar o tom de ironia nervosa, de desconforto com os tempos atuais. Os roteiros possuem diálogos perturbadores e a trama se desenvolve fugindo de clichês, com reviravoltas convincentes e que deixa o espectador sem chão. Eliott, o hacker protagonista, vivido por Rami Malek, incorpora monstruosamente bem a atmosfera de desesperança e paranoia da série. À medida que os episódios avançam, você reconhece referências de filmes que todo mundo já viu. Mas o criador, Sam Esmail, também se inspirou no mundo real, no Movimento Occuppy, na Primavera Árabe, na era pós-Snowden. Em termos de produção e narrativa, a série é praticamente perfeita. Mas há uma contradição de fundo, no mínimo, estranha: como considerar a autenticidade de uma série sobre derrubar o sistema que é financiada por um canal de TV pertencente a uma corporação de mídia?

1) Westworld

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Apesar das incertezas do público e da própria HBO antes do lançamento, Westworld se tornou a melhor série do ano. A produção foi interrompida, a data de estreia adiada. Geralmente, atrasos são sinônimos de problemas. Mas, agora sabemos, a pausa serviu principalmente para aprimorar os rumos da série. Os criadores Lisa Joy e Jonathan Nolan conseguiram superar expectativas. Westworld é o ápice da TV, em termos de produção e proposta. E mostra que a HBO não está morta, mesmo com a perda de espaço para serviços de streaming como a Netflix. E que o formato do episódio semanal ainda funciona, criando um buzz potente.

Os criadores da série conseguiram tirar leite de pedra de uma premissa muito básica (a interação de humanos e robôs num parque temático do velho oeste no futuro). As possibilidades narrativas eram inúmeras. Ao invés de se perder, o casal Joy/Nolan fez escolhas interessantes e corajosas. Souberam misturar, na medida certa, discussões filosóficas, antropológicas e sociais com uma trama envolvente.

O sucesso de Westworld se deve também ao alto nível da produção. Fotografia, direção de arte, figurinos, locações, trilha sonora, efeitos especiais e sonoros transformaram a atmosfera da série em algo complexo e excitante. E as atuações foram o que ganharam de vez o espectador. Personagens muito bem desenvolvidos e interpretados. Anthony Hopkins deu um show, provando que ainda está em forma. Outros atores tiveram as performances de suas vidas, como Jeffrey Wright , Thandie Newton e Evan Rachel Wood. E eu nunca vi Rodrigo Santoro tão bem! Westworld veio para ficar e explodir nossas cabeças.

EVOLUÇÃO DA FC NACIONAL

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Aline Valek fez uma aposta ousada em sua estreia como romancista. As águas-vivas não sabem de si é uma obra de ficção científica com o apuro da chamada alta literatura. Algo bastante incomum nas letras nacionais.

Corina é uma mergulhadora experiente, contratada por uma empresa para testar trajes no mar profundo. Na estação Auris, ela se junta a uma equipe formada por outro mergulhador e pesquisadores. Durante o confinamento, Corina desconfia que há uma missão maior em curso. Ao mesmo tempo, ela também tem algo a esconder.

Logo nas primeiras páginas é inevitável lembrar de filmes como O Segredo do Abismo e Esfera. Os mistérios do oceano ampliados por uma assustadora presença além da compreensão humana. O fundo do mar é um universo em si, ainda bastante inexplorado. Causa tanto fascínio quanto o espaço sideral. Muitas vezes, sua fauna e flora são vistas como coisas de outro mundo.

A ideia do romance não é original, mas Aline Valek quer seduzir o leitor pela maneira de contar a história. Sua intenção é bem-sucedida em parte. Ao escrever o livro, ela tinha nas mãos um cenário com muito potencial para criar uma ficção cativante. Aproveitando a escuridão e a luminescência, essa atmosfera seria perfeita para elaborar uma leitura imersiva, em que cada linha, cada parágrafo, transmitisse a beleza e o perigo daquele lugar.

Essa tensão deveria ser predominante. Porém, os conflitos pessoais e com o ambiente perdem força em certos trechos. Páginas e páginas são preenchidas com digressões dos personagens,  estendendo-se além do necessário. Outro recurso que quebra o ritmo da leitura é dar a alguns animais a condução da narrativa, mostrar o ponto de vista deles, suas observações da ação humana.

Ao longo do romance, há uma oscilação entre um texto maduro e outro, descuidado. Os melhores momentos são quando a interação dos personagens funciona, os pensamentos de cada um têm algo relevante a manifestar, o desenvolvimento da trama convence, a pesquisa da autora sobre aquele mundo envolve o leitor e a prosa está tão afiada, cada frase tão bem construída, que soa como poesia. Nos piores momentos, quase nada funciona, podendo estimular alguém a abandonar o livro.

Pelo fato do cenário ser muito recortado, a estação Auris e o entorno dela, e do pequeno número de personagens, as possibilidades de enredo são reduzidas.  Um texto mais curto poderia reunir apenas o que houvesse de melhor no romance.

A editora Rocco caprichou na edição física. É um dos livros mais bonitos lançados em 2016. Capa e miolo.

Ao final da leitura, fica a certeza de que As águas-vivas não sabem de si é um livro corajoso e pioneiro. É um romance que renova a ficção científica nacional e, ao mesmo tempo, procura se comunicar com um contexto literário mais amplo.

As Águas-Vivas não Sabem de Si, de Aline Valek, 296 págs., Rocco.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

AS (IM)POSSIBILIDADES DA COMUNICAÇÃO

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A Chegada é um corpo estranho no cinema atual. Um filme com ambição kubrickiana, mas consciente de que também precisa vender pipoca e refrigerante. É uma produção que pode estar de olho no Oscar. Porém, diferente de outros candidatos recentes no gênero da ficção científica (Gravidade, Perdido em Marte), A Chegada se arrisca mais.

Minha expectativa para o filme, de certa maneira, estava comprometida. Eu já tinha lido a novela Story of your life, de Ted Chiang, na qual A Chegada se baseou (recentemente a editora Intrínseca publicou uma coletânea do autor). A grande revelação do filme não foi nenhuma surpresa para mim. Minha curiosidade estava em saber como fariam a adaptação da história de Chiang, por causa de sua estrutura peculiar. E também como tratariam as ideias e discussões científicas.

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Posso dizer que A Chegada é uma bela adaptação, fiel na medida do possível. E mesmo quem já leu a novela vai se surpreender com algumas novidades.

Ted Chiang é um dos autores mais cultuados da ficção científica, nos últimos trinta anos. Ele não é um escritor prolífico. Sua obra é focada em contos e novelas. São narrativas muito engenhosas, uma interessante mescla de ficção sedutora e poderosa especulação científica. Por isso, cada história dele ganha um ar de genialidade. Por muitos anos, tentaram adaptar Story of your life para o cinema.

O diretor canadense Denis Villeneuve é um nome ascendente em Hollywood. Conhecido pela extrema segurança ao filmar, pela beleza de suas produções e por provocar o espectador com situações desconfortáveis, questionamentos morais. Alguns o chamam de brilhante, um novo mestre do cinema. Outros de farsa, com domínio técnico demais e ideias de menos.

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Em A Chegada, ele provoca o espectador a repensar conceitos, no que talvez seja seu filme mais caloroso. Porque o que vemos aqui é uma melancólica peça de reflexão sobre comunicação e convívio. Na verdade, é um filme otimista. Emocionante, sem ser piegas.

Em relação ao conteúdo científico, as ideias de FC hard da novela foram simplificadas, tornadas mais visuais (afinal estamos falando de cinema). O infodump é mais enxuto e verossímil do que em Interestelar, por exemplo. Não vemos explicações básicas de astrofísica entre cientistas de alto nível. E sim explicações de conceitos um pouco mais complexos entre cientistas de áreas bem diferentes. Aliás, as soluções visuais e sonoras para representar o universo dos heptapods, dos alienígenas, são criativas, de grande impacto, meio lovecraftianas. A trilha sonora deixa tudo ora mais tenso e misterioso, ora mais melancólico e tocante.

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A única atuação que realmente se destaca é a de Amy Adams. Ela domina o filme. É um papel exigente, sutil, cheio de nuances e variações emocionais. Não há gritaria nem caras e bocas. Ela foi mais do que convincente.

Um tema central da novela de Chiang é a discussão entre escolha e determinismo. E isso também é um elemento importante em A Chegada. Novela e filme são bons pontos de partida para reflexões sobre as possibilidades de conhecimento, aceitação e mudança de nossas próprias vidas e de uma melhor compreensão do Universo.

A Chegada é bem-sucedido em traduzir, num fenomenal trabalho de montagem, a estrutura menos convencional de Story of your life. Contudo, em certos momentos, o filme peca por fazer concessões um tanto baratas. Não para tornar a história mais acessível. E sim por preguiça mesmo do roteirista. Há algumas explosões e tiros desnecessários. E todo o ritmo acertado, paciente, na interação com os alienígenas se perde numa resolução acelerada, com a grande revelação da trama sendo simplesmente jogada ao espectador.

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Alguns podem dizer que o filme é pretensioso. Muita pompa para ideias que não se sustentam. Discordo. A Chegada é um entretenimento visualmente arrojado com substância. Estimula o debate de temas relevantes com honestidade. Já entrou para a lista dos melhores filmes de FC de todos os tempos.

A Chegada (Arrival), de Denis Villeneuve, 116 min., FilmNation e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE

ESTOU NO PACOTÃO LITERÁRIO

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O Pacotão Literário é um projeto que procura dar visibilidade a autores nacionais independentes de forma prática com valores a partir de R$1,00. Você decide quanto vai pagar. As obras foram avaliadas por uma curadoria e estão disponibilizadas em vários formatos, inclusive em versão física.

A edição #4: Aventuras do Brasil reúne um time de autores de várias partes do país.

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Participo com o e-book O Fim do Medo. São contos de terror, mistério e suspense. Nos três contos desta coletânea, os protagonistas testam os limites da sanidade. Em A Decisão, um executivo tem seu cotidiano invadido por uma ameaça aterradora. O jovem de Uma Noite Qualquer é atormentado por uma emergência na velha pensão onde trabalha. Em Óculos Escuros, um homem vai à praia para relaxar, mas se depara com um trauma do passado. Esta é uma Salvador que não está nos cartões postais.

A Decisão foi originalmente publicado na antologia The King vol.II (Multifoco, 2013), em homenagem a Stephen King. Na época, para mim, foi algo muito importante. O conto foi selecionado por seus próprios méritos. Não paguei para publicar nem conhecia os organizadores. E também foi meu primeiro conto publicado em papel, em livro. Foi uma espécie de recomeço, quando decidi levar essa loucura de escrever ficção bem mais a sério. Para a nova coletânea, reescrevi o conto, mudando um pouco sua estrutura, deixando-o mais enxuto e dinâmico. Foi bacana revisitar esta história e constatar que estou evoluindo como escritor.

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Uma Noite Qualquer foi publicado no meu blog para o Halloween de 2015. Em 2016, foi enviado para o canal/site Homo Literatus. O editor Vilto Reis criou a série Pitacos, na qual o público manda contos para seleção e análise. Meu conto participou do segundo episódio. Fiquei muito gratificado pela, ao mesmo tempo, implacável e generosa avaliação (assista ao vídeo). Vilto soube criticar com propriedade. Apontou problemas e reconheceu qualidades. Ele sugeriu que eu reescrevesse o conto. Foi o que fiz. O resultado está em O Fim do Medo.

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Os Inocentes, de Jack Clayton, adaptação para o cinema de A Volta do Parafuso

Óculos Escuros é um conto inédito. É minha tentativa de homenagear uma obra que admiro bastante. Na novela gótica A Volta do Parafuso, de Henry James, uma preceptora vai para o interior da Inglaterra do séc.19 cuidar de um casal de irmãos. A chegada da jovem causa tensão entre patrões e empregados. Ela acredita que as crianças estão em perigo pela presença de fantasmas. A narrativa nunca deixa claro se o horror sobrenatural existe ou tudo é invenção da mente da preceptora. Tentei um efeito semelhante no meu conto. Que também fala sobre o mesmo tema da infância ameaçada. Também com uma narração ambígua.

A coletânea O Fim do Medo é um e-book exclusivo do Pacotão Literário. Você não vai achar esses contos em nenhum outro lugar.

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A COR DA JUSTIÇA É NEGRA

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Participei de um concurso de textos em prosa e verso, em celebração ao dia da Consciência Negra, com um tema envolvendo negritude e Justiça. O resultado saiu hoje. Não ganhei, mas fiquei feliz pelas vencedoras. Elas mandaram bem. Leiam abaixo meu conto.

1.

Coloco a cara de adolescente ou de homem fora de casa, de manhã cedo, para ir trabalhar, para ir estudar, carregando comigo certa ansiedade. O que será desta vez? Vão me deixar em paz hoje? Vão deixar eu tocar minha vida como qualquer outra pessoa? Vão me enxergar além da minha pele?

2.

Meu dever de professora é ensinar aos meus alunos o seguinte: no Brasil, é a polícia quem decide se você é negro ou não. Branco sai, preto fica. Branco vive, preto morre. O preconceito não é apenas social, não é apenas contra quem é pobre e se chama Silva, Santos ou Conceição.

3.

Minha família é bastante miscigenada, com toda uma variação de cores. Há gente de pele clara e de pele escura, com cabelo crespo e cabelo liso, com narizes e bocas e rostos de todos os formatos, gente que mora nos subúrbios e em bairros de classe média. Dizem que sou pardo (odeio essa expressão). Então me pergunto: eu sou negro? Não sofro o mesmo preconceito que alguém de pele mais escura. Porém em ambientes onde eu sou o mais escuro, o não-branco, o cara de lábios grossos e cabelo crespo, o racismo acontece, o mais velado possível, principalmente, nos olhares.

4.

Quanto mais escura for minha pele, pior será o julgamento. Triste dizer, mas é simples assim. Não importa se sou rico ou pobre. A cor da minha pele sempre será assunto de debate. Discutir meu caráter? Não me faça gargalhar. Vamos deixar isso pra depois.

5.

Não pense, cidadão, não pensem, autoridades, que já nasci bandido só porque minha pele é preta. Pensem nos meus ancestrais (que talvez sejam seus também, mesmo que não façamos ideia de quem eles eram), trazidos contra a vontade para o Brasil. Durante a travessia infernal, não morreram de escorbuto, de fome, de tantos açoites, de epidemias, não cometeram suicídio, não foram jogados ao mar, ainda com vida, acorrentados a outros iguais por se tornarem um estorvo. Chegaram aqui como mercadoria: força braçal e moeda de troca. Sofreram todo tipo de violência para gerar riqueza. Depois foram libertados, a mando das potências industriais, para virar mão de obra barata. Os negros libertos fundaram as periferias, subúrbios e favelas. Segregados pelos muros do racismo institucional. O Estado, a iniciativa privada, os detentores do poder sempre viram a população negra como um mal necessário. Empregadas domésticas, babás, motoristas particulares, de ônibus, limpadores de banheiro, garis, operários da construção civil, policiais, soldados, eleitores, consumidores. Que não se atrevessem a sair de suas posições demarcadas. Mesmo que houvesse uma grande revolta pela carência de tudo. Sem saneamento para todos, sem boa educação, sem saúde eficaz, sem emprego decente. Mas as forças de segurança, os tribunais, as cadeias sempre estiveram aí para quem ousasse abalar a ordem das coisas, para quem discordasse dessa pax social.

6.

Atravesso a rua às pressas. Estou de chinelo, boné, camiseta e atrasado para encontrar com minha namorada. Uma senhora me olha apreensiva. Ela acha que vou assaltá-la? Minha filhinha vai sozinha ao caixa da lanchonete comprar um sorvete. Funcionários se aproximam. Pensam que ela está ali para pedir comida, importunar os clientes. Ocupamos uma sala de aula na universidade para falar sobre os casos de racismo na instituição, cometidos por alunos e professores, já que aqueles estudantes brancos nunca vão aos debates marcados para ouvir e discutir sobre o tema. Somos chamados de vitimistas. Numa noite fria, cubro a cabeça com o gorro do meu casaco. Ando sozinho pelo meu bairro. Uma viatura encosta, policiais me abordam. Não sei se voltarei para casa com minha dignidade intacta ou a vida.

8 LIVROS PARA O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Este ano, o dia da Consciência Negra cai num domingo.  Amanhã será uma ótima oportunidade para pegar um livro, conhecer diversas realidades negras e refletir sobre o passado, o presente e o futuro. A proposta é indicar romances, novelas e um livro de contos que podem ser lidos em um dia. Na verdade, são sete regras e uma exceção. Os autores são nacionais e estrangeiros, homens e mulheres. Quatro mestras e quatro mestres, de antes e de hoje. Porque o racismo sempre deve ser combatido junto a todos os outros preconceitos. E enaltecer a cultura negra é uma forma de exigir respeito e igualdade de condições.

AUTORES ESTRANGEIROS

O MUNDO SE DESPEDAÇA, de Chinua Achebe, 240 págs., Cia das Letras.

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Publicado em 1958, fala sobre os conflitos da cultura tribal nigeriana com a cultura missionária europeia. Historicamente, o livro tem uma importância enorme. Tornou-se a maior referência da literatura africana dentro e fora do continente.

O romance não é politicamente correto. Não é panfletário. Acima de tudo, é uma competente obra de ficção. Seu maior mérito foi ter sido escrito com a intenção de ser lido, principalmente, pelo povo nigeriano. É um livro curto, escrito numa linguagem clara. Chinua Achebe poderia ter escrito um livro mais ambicioso, em tamanho e experimentação narrativa, para agradar acadêmicos e intelectuais estrangeiros. Mas ele preferiu escrever um livro acessível. Mas sem facilidades. Sua visão é bastante crítica, tanto em relação aos nigerianos quanto aos europeus.

BINTI, de Nnedi Okorafor, 96 págs., Tor.

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Binti é uma garota muito curiosa, matemática brilhante e filha de um fabricante de astrolábios. Ela faz parte do povo Himba. Um povo que dá valor ao conhecimento, mas muito fechado em si, bastante apegado às tradições. Quando a jovem decide viajar para outro planeta, onde se encontra a universidade mais prestigiosa da galáxia, gera-se uma crise familiar. Na viagem, o contato com uma raça alienígena será revelador para Binti.

A força da prosa da autora está em elaborar um texto simples, fluido, muito gostoso de ler, que levanta ideias pouco convencionais sobre os papéis da mulher, sede de conhecimento, poder do estado, tradição, modernidade e negritude. É uma história principalmente sobre a identidade que escolhemos para nós mesmos, a partir de nossa cultura e da relação com culturas diferentes. É um texto ora brutal, ora cheio de amor. Okorafor subverte as convenções da ficção científica para tornar o gênero mais vibrante.

UM JEITO TRANQUILO DE MATAR, de Chester Himes, 200 páginas, L&PM.

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Ao mesmo tempo brutal e delicado, mostra a comunidade negra do Harlem, nos anos 50, como um universo à parte, com suas próprias regras. Um cenário que é um misto de afirmação de identidade e consequência do racismo praticado pelas autoridades, pela sociedade em geral.

O talento de Himes está em mostrar esse universo por dentro, indo além das páginas policiais. A trama começa da forma mais violenta possível para terminar com um sopro de esperança. Essa virada radical é construída ao longo do livro sem ser forçada ou inverossímil, com a habilidade de um mestre.

KINDRED, de Octavia E. Butler, 264 págs., Beacon Press.

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Acompanhamos a história de Dana, uma jovem escritora negra, na Los Angeles de 1976 (o romance foi publicado em 1979). Recém-casada, ao se mudar para a nova casa com o marido, Kevin, um escritor branco, inexplicavelmente, Dana é transportada no tempo e no espaço para a zona rural de Maryland, em 1815, antes da Guerra Civil Americana.

Este romance é um triunfo, tanto como peça de ficção quanto de reflexão. Butler flerta com a polêmica ao tratar da escravidão nos EUA de maneira complexa, sem ceder a maniqueísmos. Ganha a autora, por elaborar uma narrativa tão madura. Ganha o leitor, ao se deparar com um texto cheio de nuances e ideias desafiadoras.

AUTORES NACIONAIS

CLARA DOS ANJOS, de Lima Barreto, 304 págs., selo Penguin (Cia das Letras).

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Lima Barreto é obrigatório nesta lista. Em Clara dos Anjos, ele consegue a proeza de aliar o registro jornalístico, em sua descrição e opinião do Brasil da República Velha, modernizador, mas negligente, e o apuro literário, na construção de personagens cativantes pelo o que são, malandros, iludidos ou éticos.

Lima Barreto era um apaixonado pelo subúrbio carioca, a terra dos desassistidos. Mas, como disse um especialista, era uma paixão crítica, porque ele criticava todo mundo, os poderosos e o povo. É espantosa a atualidade de um texto escrito há quase cem anos, em sua percepção de mazelas que ainda persistem com um engajamento refinado contra o racismo. A novela é curta, mas essa edição da Penguin traz valiosos ensaios sobre a obra e muitas notas de rodapé.

OLHOS D´ÁGUA, de Conceição Evaristo, 116 págs., Pallas.

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Um livrinho poderoso. Os contos desta coletânea são como tapas na cara. A autora dá voz àquelas que sofrem tanto com o racismo e o machismo da sociedade: as mulheres negras em situações de risco. São empregadas domésticas, prostitutas, parceiras de bandidos, moradoras de rua, meninas, filhas, mães, avós, esposas, amantes.

Mas não pensem que o tom aqui é de lamento barato. São histórias fortes, violentas, menos convencionais, surpreendentes, contadas numa prosa de cheia lucidez e fúria. O contraste entre a forma poética e o conteúdo brutal é muito interessante.

RIO NEGRO, 50, de Nei Lopes, 288 págs., Record.

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Ficção com cara de crônica escrita por uma autoridade da cultura afro-brasileira. O polivalente Nei Lopes mistura pesquisa histórica e invenção, personagens reais e fictícios, para mostrar o protagonismo negro na criação da cultura popular do país, a partir do Rio de Janeiro dos anos 50.

Vemos o cotidiano rico e problemático de gente negra e suburbana. Gente que influenciou a identidade de toda uma nação, mas quase sempre invisível para a classe média e a elite. Em meio à adversidade, ao descaso social, nasceram o samba, o carnaval, a dança folclórica, o teatro negro, as artes plásticas negras, as expressões das religiões afro-brasileiras, os intelectuais da negritude.

UM DEFEITO DE COR, de Ana Maria Gonçalves, 952 págs., Record.

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A exceção da lista é um romance que já se tornou um clássico contemporâneo da literatura brasileira. Afinal, é complicado ler um tijolo de quase mil páginas em um dia! Mas podemos ler as primeiras 100, 200, 300 páginas desse épico tão íntimo.

O texto é fluido e os capítulos são divididos por subtítulos, o que torna a leitura bem ágil. É o relato de uma mulher negra no fim da vida, que viveu todas as violências possíveis, mas também ricas experiências, na África e no Brasil, no século 19. O mais fascinante da obra é acompanharmos tudo muito de perto, junto com a narradora, dentro de sua cabeça. Uma História viva, desmitificadora, muito além dos livros didáticos.

REPORTAGEM DE PRIMEIRA

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Reportagem em quadrinhos sobre uma lenda urbana cearense da década de 80. Na época, os moradores do bairro popular Prefeito José Walter, em Fortaleza, ficaram aterrorizados com os ataques do Cortabundas, um maníaco que invadia casas para ferir com objetos cortantes meninas e mulheres.

O jovem roteirista e ilustrador Talles Rodrigues, nascido e criado no bairro, resolveu investigar o caso, já esquecido por muitos. À maneira de Joe Sacco, Talles se coloca como personagem-condutor da história. Ao mesmo tempo em que conta os bastidores de sua empreitada, ele mostra os fatos levantados e faz especulações.

Talles fez pesquisas em arquivos públicos, leu reportagens antigas e entrevistou vítimas, parentes, moradores, policiais, jornalistas e especialistas, tudo para entender o que de fato aconteceu, tentando separar o mito da realidade.

Apesar de ter sido um caso de pouca repercussão fora dos limites do José Walter, era uma história complexa. O leitor perceberá que o pânico geral serviu de combustível para uma série de absurdos, que atrapalhou ainda mais a solucionar o mistério. Sensacionalismo da imprensa, vontade de fazer justiça e preconceito racial da população, vaidade e truculência policiais, negligência dos políticos locais.

A execução da HQ tem mais qualidades do que problemas. O roteiro tem muitos diálogos e reflexões pertinentes (outros nem tanto) e as soluções para os enquadramentos das ilustrações, no geral, são orgânicas e criativas; em algumas páginas, há elementos demais, confundindo o leitor. A ilustração é bem no estilo jornalístico, sem chamar muita atenção para si.

Esta é uma HQ nacional talentosa que merece uma maior repercussão.

Cortabundas – O maníaco do José Walter, de Talles Rodrigues, 156 págs., Draco.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

CONTO MEU NA SOMNIUM

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A Somnium é a revista de ficção científica mais tradicional do país. Publicada on line pelo Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), traz resenhas, notícias, artigos, relatos. Em cada número, são propostos temas para submissão de contos. Nomes de peso da FC nacional e da portuguesa já publicaram na revista. Saiu a lista dos autores selecionados para a edição n°113, cujos temas foram TRANS-HUMANISMO e WEIRD, e que será lançada em breve. Meu conto Aynin Candé, uma mistura cyberpunk, afrofuturismo e new weird, foi um dos escolhidos!! É uma honra estar ao lado de mestres como Carlos Orsi, Gerson Lodi-Ribeiro e Luiz Bras.

Sesstelo, de Carlos Orsi

Eutanásia, de David Machado

Quarteirão, de Fabio Barreto

Pantagruelicídio, de Frederico De Oliveira Toscano

Moça da Mão Perfeita, de Gerson Lodi-Ribeiro

Um Último Dia Perfeito, de Gilson Luis da Cunha

Loja de Peças, de Graham Brand (traduzido por Santiago Santos)

Utopia Pandemia, de Luiz Bras

Madeleines & Micro-ondas, de Paulo Elache

Aynin Candé, de Ricardo Santos

De trilhos enferrujados e cachorros mancos, de Santiago Santos

MAPA DA PALAVRA

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Fui selecionado para fazer parte do projeto Mapa da Palavra com o conto “Videoclipe”. É uma iniciativa do Governo da Bahia com o objetivo de fazer uma radiografia da produção cultural no estado. O bacana é que muitos autores do interior foram contemplados. Há muita poesia de qualidade rolando nas cidades baianas. Também fico feliz em ver tantos rostos diferentes. O site do Mapa foi lançado hoje na Flica, o Festival Literário de Cachoeira. Clique na imagem para ter acesso ao site.