A COVARDIA DO OSCAR

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Os filmes do Oscar já deixaram de ser relevantes para a indústria. Não geram mais tendências, não guiam mais os estúdios para o que será produzido no ano seguinte. Para os executivos que dão o sinal verde, soltam a grana, fazem as ideias no papel acontecer, são os blockbusters que importam, há pelo menos uma década.

Claro que ganhar Oscar dá prestígio para produtores, diretores e roteiristas, pode mudar a carreira de atrizes e atores e até reforçar a bilheteria. Este ano, a maioria dos indicados a melhor filme foi sucesso de público do cinema independente, dando excelente retorno financeiro para seus investidores. Mas o público médio de cinema não se importa com esses filmes. E o faturamento deles fica bem atrás dos grandes sucessos, por exemplo, da Disney (Marvel/Star Wars), Universal (Velozes e Furiosos/Meu Malvado Favorito) e Warner (Animais Fantásticos/DC).

É por isso que o Oscar devia ser mais ousado em suas indicações e vencedores. O franco favorito deste ano é La La Land. Um filme que me desinteressou por completo por feder a nostalgia. Seria incrível se Moonlight, sobre autoconhecimento, homossexualidade, negritude e maravilhosamente executado, fosse o grande vencedor da noite. 

O Oscar devia sair do limbo, deixar de ser um clube vip. Devia indicar e premirar filmes de fato relevantes. Tornar-se uma referência crítica, a consciência de Hollywood. Porque o prêmio já deixou de ser o termômetro da indústria há muito tempo.

CANIVETE SUÍÇO HUMANO

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Swiss Army Man é o filme mais filosófico sobre peido que você vai encontrar. Na verdade, flatulências são mais uma metáfora no caleidoscópio de significados dessa produção, ao mesmo tempo, tão vulgar e poética. Tecnicamente, o filme é perfeito. A fotografia é bonita sem ser artificial. A montagem é dinâmica, mas não parece videoclipe. A trilha sonora é outro triunfo, numa mistura de melancolia e êxtase. Inclusive vemos aqui uma espécie de musical, bem fora dos padrões. Os efeitos especiais e sonoros são loucos. Acontece um absurdo atrás do outro, mas você compra cada ideia. São muito bem executados e criativos.

Na maior parte do tempo, há um equilíbrio eficiente entre momentos de contemplação e de comédia alucinada. Só que nem sempre o ritmo é acertado. Mesmo sendo curto, o filme perde força lá pelo meio. Mas consegue se reerguer, tornando-se interessante e profundo novamente. A comédia vai dando cada vez mais espaço para o drama até a revelação final.

Paul Dano arrasa mais uma vez, numa performance exigente, sutil, cheia de camadas emocionais. E Daniel Radcliffe prova finalmente que existe vida após Harry Potter. Como um cadáver filosófico peidão, ele mostra que é um ator completo. É divertido na comédia e convincente no drama. E seu trabalho de corpo é incrível.

Os diretores Daniel Scheinert e Daniel Kwan (conhecidos como Daniels) fizeram Swiss Army Man para mostrar sua versão de coisas que odeiam, como piadas de peido no cinema, musicais e filmes de superação, como Náufrago. O título nacional, Um Cadáver para Sobreviver, é horroroso. O título original faz referência ao personagem de Radcliffe, que se transforma num canivete suíço humano literalmente.

Um Cadáver para Sobreviver (Swiss Army Man, 2016), de Daniels, 97 min., Tadmor e outros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

PROBLEMÃO MADE IN CHINA

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Depois de muitos anos, revi Os Aventureiros do Bairro Proibido, do mestre John Carpenter. Um filme obrigatório na Sessão da Tarde. Muitas vezes, não é uma boa ideia revisitar coisas amadas do passado, na infância e na adolescência. A decepção pode ser difícil de suportar. Mas também é tão legal quando o sonho não acaba. Revi Os Aventureiros… na Netflix com a dublagem clássica, que para mim já faz parte do filme.

Continua divertido. As falhas agora ficaram mais evidentes, principalmente, o roteiro basicão (com uma ligação rasa e apressada dos eventos), além do machismo que coloca donzelas em perigo. O barato são os diálogos bregas e a mise-en-scène pop sem pé nem cabeça, com artes marciais, monstros subterrâneos e alta magia.

O filme é uma mistura de estereótipos e homenagens à cultura chinesa. Com um elemento ousado para os anos 80 de Reagan: o herói de ação é o sidekick chinês, enquanto que o protagonista branco é o alívio cômico. Os efeitos especiais, a maquiagem e a trilha sonora marcaram toda uma geração de fãs.

ESTRANHA BAHIA, UM DOS MELHORES LIVROS DE 2016

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Estou chocado! A antologia Estranha Bahia, na qual participo como organizador e autor, foi selecionada por César Silva, uma das maiores autoridades em ficção especulativa no país, como um dos LIVROS ESSENCIAIS DE 2016, AUTORES BRASILEIROS. O blog de César tem de ser acompanhado por todos que se interessam pela fatia do nosso mercado editorial voltada para FC, fantasia e terror. Ele é um analista atento e sincero. Por isso, suas avaliações têm tanto peso. Muito orgulhoso de fazer parte de uma equipe tão talentosa (Alec Silva, Rochett Tavares, Nanuka Andrade, Isabelle Neves, Evelyn Postali, Tarcísio Silva, Alexandre Alex Mendes, Cristiane Schwinden), que transformou uma ideia vaga em algo muito concreto e especial. A edição em papel está esgotada, mas a versão em e-book está disponível na Amazon. Para adquiri-la é só clicar na capa. Leia e diga pra gente o que achou.

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EU SOU ATEU

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Recentemente saiu uma matéria sobre a dificuldade de aceitação dos ateus no Brasil por serem minoria em um país tão religioso. Primeiro, devo dizer que sou ateu. Segundo, que isso pouco afeta meu dia a dia. E terceiro, que não gostei da matéria. Achei-a muito genérica. Claro que ateus em cidades menores têm suas vidas mais afetadas por suas convicções. No interior, geralmente, a vida social gira em torno das igrejas. Mas a matéria vacila ao não ouvir gente das periferias, que sofre a mesma pressão religiosa. Colocaram entrevistados de classe média como os mais oprimidos. E ainda citaram o escritor Richard Dawkins como referência, um ateu fundamentalista, que se acha o dono da verdade.

Não acredito que religião seja o ópio do povo. É uma questão complexa, parte da cultura humana. Se todas as religiões fossem apagadas da cabeça das pessoas hoje, amanhã outras surgiriam. Envolve uma série de questões da relação das pessoas consigo mesmas, com os outros, a natureza, o planeta, o Universo. Religiões são interpretações dos mistérios da existência e representações culturais da vida em sociedade. Neste caso, meu ateísmo acaba sendo mais uma interpretação, a partir do que procurei investigar e do que me foi apresentado ao longo da vida.

Agora fico irado com qualquer fundamentalista e aproveitador que explora a fé das pessoas, gera violência e interfere na vida pública para atingir direitos. O estado deve ser laico e qualquer um que diga o contrário vai comprar briga comigo. Não deve existir no currículo da rede pública aula de religião e nenhuma outra prática que favoreça essa ou aquela crença. Para isso, existem escolas específicas e os ambientes de convívio da família do aluno. Devem existir aulas ou oportunidades na escola pública em que todas as religiões sejam debatidas e todos os pontos de vista apresentados. As mulheres devem ter os mesmos direitos que os homens de tomar decisões sobre sua mente e seu corpo e nenhuma religião pode interferir nisso.  

Fico triste, enojado e revoltado com a intolerância geral, que é histórica e não uma invenção recente. Agora dizer que já fui discriminado porque sou ateu seria mentir. Como disse a escritora e editora Clara Madrigano, tente ser umbandista no Brasil para ver o que é discriminação.

ESCREVA CONTOS

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Escrever contos só traz vantagens. Você aprende a apurar o texto. Conquista os primeiros leitores. Tem as primeiras críticas sobre seu trabalho. As primeiras chances de visibilidade. Mas escrever contos nunca vai te ensinar a escrever romances. Acertar o ritmo de um romance é algo complicado. Por isso, escreva seus romances, mesmo que nunca saiam da gaveta. Um dia algo bom pode surgir. E continue escrevendo contos. Todo autor deve ter a ambição de escrever, pelo menos, um conto memorável na vida.

JOHN HURT MORREU

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Era impossível ficar indiferente quando John Hurt estava em cena. Mesmo o filme sendo medíocre, sua presença elevava a qualidade da produção. Ator prolífico, com um corpo esguio, rosto delicado e sua voz marcante, ele sabia como poucos mostrar fragilidade e ameaça. Pra mim, sua grande atuação foi o John Merrick, de O Homem de Elefante. A mais icônica, claro, o Kane, de Alien. A última que mais me impressionou foi no papel de Control, em O Espião Que Sabia Demais. Ele morreu, mas ainda vamos vê-lo em alguns filmes que estão sendo finalizados. E ele estava filmando uma produção de Joe Wright, em que Gary Oldman faz Churchill. Hurt não tinha preconceitos na hora de aceitar um papel, fosse um personagem de Shakespeare no palco ou a dublagem de uma animação de fantasia. Além de ser respeitado como ator, ele era uma pessoa muito querida, conhecido por seu humor e humildade. Abaixo estão suas atuações de que mais gosto:

Max, em O Expresso da Meia-Noite (1978)

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Kane, em Alien (1979)

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John Merrick, em O Homem Elefante (1980)

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Braddock, em The Hit (1984)

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Wiston Smith, em 1984 (1984)

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S. R. Hadden, em Contato (1997)

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O narrador em Dogville (2003)

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Control, em O Espião Que Sabia Demais (2011)

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O Doutor da Guerra, em Doctor Who (2013)

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FAROESTE NO JAPÃO

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A maneira mais empolgante de conhecer a história do Japão feudal é lendo o clássico Lobo Solitário. As aventuras do estoico ronin Itto Ogami e de seu nem sempre inocente filhinho Daigoro são, ao mesmo tempo, belas e brutais.

O roteiro de Kazuo Koike tem soluções narrativas ora sutis, ora de grande força, além da extensa pesquisa sobre o período Edo (1603-1868), o auge do xogunato, uma espécie de ditadura militar. Como o xogum comandava o país com mão de ferro, os daimiôs (senhores feudais) eram mantidos sob controle, até com o uso da violência. Os daimiôs rebeldes eram massacrados e o nome de sua família caía em desgraça. Os samurais sobreviventes, agora sem um senhor para servir, tornavam-se ronins, figuras errantes, assassinos de aluguel, bandidos de todo tipo. A arte de Goseki Kojima transforma todo esse contexto em imagens de um realismo e de uma fluidez cinematográficos.

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Em Lobo Solitário, a visão de mundo é aparentemente amarga, mas, no fundo, há um senso de justiça. Itto Ogami é um anti-herói à maneira dos cowboys interpretados por Clint Eastwood. Um canalha na superfície, mas que, no final, procura fazer o certo.

Este primeiro volume, relançado recentemente pela Panini, tem nove histórias fechadas, que dá para ler em um dia, de tão viciante. Terá periodicidade bimestral. A saga completa tem 28 volumes. (Quem não tiver tanta paciência pode investir nas edições omnibus da Dark Horse, em 12 volumes.)

A Panini lançou a série pela primeira vez no Brasil há mais de dez anos. Esta nova edição está bem cuidada. Bom papel, boa encadernação, revisão atenta. A diferença para a primeira versão está na contra capa, que agora tem a arte de Kojima. Na anterior, ambas as capas tinham a mesma arte de Frank Miller & Lynn Varley. Infelizmente, esta nova versão não tem os textos no posfácio sobre os autores do mangá, os bastidores da criação da série e o contexto do período Edo. Sugiro que baixem o scan da versão antiga apenas para ler estes textos, são bem interessantes.

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As aventuras do Lobo Solitário foram originalmente publicadas em revista, de 1970-1976. O formato de história curta casa muito bem com o estilo seco de seus criadores. Claro que existem certas liberdades para aumentar a dramaticidade dos acontecimentos (cabeças de cavalos, pernas e braços de inimigos são arrancados com um golpe de espada) e a estrutura das histórias segue uma formulazinha. Mas está valendo. A única coisa que incomodou mesmo foi o tratamento às personagens femininas. Elas ou são frágeis ou são mau-caráter.

Lobo Solitário é uma saga obrigatória para fãs de quadrinhos. E, para o público em geral, é uma leitura instrutiva e cheia de emoção.

Lobo Solitário volume 1, de Kazuo Koike e Goseki Kojima, 288 págs., Panini

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

AS 6 MELHORES HQS QUE LI EM 2016

6)Black Panther –A Nation Under Our Feet vol.1, de Ta-Nehisi Coates, Brian Stelfreeze e Laura Martin, 144 págs., Marvel.

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Não é a primeira vez que a Marvel convida um outsider para assumir um título. Ta-Nehisi Coates é um dos mais aclamados jornalistas americanos, principalmente, por suas reflexões sobre a condição do negro nos EUA. A ideia de ele escrever a nova fase da revista do Pantera Negra é muito interessante e oportuna. E o que Coates propõe é algo bastante ambicioso. Ele questiona a própria razão de ser de T´Challa/Pantera Negra como rei e protetor de Wakanda. Coates coloca o povo em primeiro plano, com seus medos e expectativas, questionando por que devem se submeter a uma monarquia. Este primeiro volume é o prenúncio de uma guerra civil? Coates é um jornalista, não é um ficcionista. Isso fica evidente na maneira como ele conduz a trama. Mais por diálogos do que pela ação. Muitas vezes, as falas têm um tom shakespeariano, épico. Visualmente, tudo é muito lindo e vibrante. As ilustrações de Brian Stelfreeze com as cores de Laura Martin criam uma atmosfera única, numa mistura de tradição com alta tecnologia, que o leitor só vai encontrar em Wakanda. Estou muito curioso para acompanhar a evolução do Pantera Negra como herói e de Coates como roteirista.

5) Blame! vol.1, Tsutomi Nihei, 248 págs., JBC.

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Primeira obra de destaque de Nihei, Blame! foi lançado no Japão há quase vinte anos. O próprio autor considera embaraçoso um trabalho de sua juventude ser publicado agora no Brasil. Mas ele não tem nada do que se envergonhar. Blame! é um mangá de visual impactante e ideias robustas. Inspira-se no cyberpunk para criar uma estética, ao mesmo tempo, fascinante e bizarra. Os personagens falam o mínimo. Humanos, ciborgues, seres geneticamente modificados. Há uma disputa de todos contra todos num lugar inteiramente de metal, com muitos andares, túneis e salas, uma estrutura que parece infinita. Nihei usa sua formação como arquiteto para deslumbrar o leitor com cenários incrivelmente detalhados. Para completar, a trama nos prende por seus mistérios e sua crueldade. Neste mundo, o sentido da vida é algo que precisa ser reconquistado.

4)Batman – A Corte das Corujas vol.1, de Scott Snyder, Greg Capullo e Jonathan Glapion, 176 págs., Panini.

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Scott Snyder é um dos melhores roteiristas de quadrinhos da última década. Em A Corte das Corujas, ele revigora o universo de Batman, criando uma das melhores fases do protetor mais obcecado de Gotham. São roteiros mais adultos e cheios de pesquisa, dando um peso e uma verossimilhança que tornam o drama e a ação mais intensos. A composição das páginas, as soluções visuais, são muito bonitas, de grande impacto, chegando ao visceral. Trabalho magnífico do ilustrador Greg Capullo e do colorista Jonathan Glapion. Batman enfrenta adversários à altura, que testam sua sanidade e seu corpo ao extremo e o fazem questionar suas convicções.

3) Pílulas Azuis, de Frederik Peeters, 208 págs., Nemo.

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HQ autobiográfica em que o autor conta a história de sua relação com a esposa e o enteado soropositivos. O grande mérito aqui é desmistificar a AIDS, humanizando as pessoas atingidas pela doença. Vamos saber como a paranoia social e o preconceito podem ser quebrados com a informação sobre maneiras de contágio, tratamento e a saúde dos soropositivos. No geral, o tom da HQ é leve, o relato de um cotidiano quase normal, mas há os momentos de angústia, dúvida, tristeza e desespero. Outra característica importante é a autocrítica. A HQ usa a metalinguagem. Uma obra consciente de que é uma obra. O autor fala sobre o dilema de expor ou não sua vida, as pessoas que ama. Mas, por outro lado, a HQ não poderia ajudar muita gente a entender melhor a AIDS, a não surtarem no convívio com soropositivos, a dar aos próprios soropositivos uma oportunidade de dizer que são pessoas iguais às outras, que também querem tocar a vida?, pensa o autor. O traço cru das ilustrações, em preto e branco, funciona muito bem ao mostrar, com franqueza, o cotidiano diferente de uma família comum.

2)Nimona, de Noelle Stevenson, 272 págs., Intrínseca.

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Todo mundo devia ler Ninoma. As meninas para se inspirarem numa figura feminina que não aceita classificações de nenhuma forma. Os meninos para admirarem uma garota fora dos padrões que vai fazê-los repensar muita coisa sobre o universo das mulheres. Esta é uma graphic novel que não se leva a sério, na superfície, mas que possui um subtexto muito consciente e rico, sem pesar a mão. A mistura inusitada de fantasia medieval e ficção científica resulta numa paródia com cara de desenho animado, tipo Hora de Aventura. A ilustradora e roteirista Noelle Stevenson tem um timing de comédia afiado. Há muito nonsense tanto nos diálogos quanto nas tiradas visuais. O que começa como algo divertidíssimo vai ficando cada vez mais sombrio. É uma transição que funciona. É isso que faz toda a diferença, tornando Ninoma uma obra relevante. Diverte, emociona e faz pensar.

1)Tungstênio, de Marcello Quintanilha, 184 págs., Veneta.

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Esta graphic novel foi lançada em 2014, mas só este ano tive conhecimento dela pela notícia da premiação em Angoulême, o mais importante festival de quadrinhos da Europa. Aproveitei uma promoção na internet e comprei. Senhoras e senhores, que HQ sensacional! O roteiro complexo, mas de uma clareza impressionante, amplia a força do traço realista. Marcello Quintanilha conseguiu transformar histórias do cotidiano numa trama cheia de suspense e significados. Outro destaque é como o autor carioca soube captar tão bem a fala e o comportamento da gente de Salvador. Como soteropolitano, nascido e criado na cidade, posso dizer que ele fez direitinho o dever de casa. Monte Serrat, um dos lugares mais icônicos da capital baiana, torna-se palco central de um drama de tirar o fôlego, que começa com um fato corriqueiro e, aos poucos, vai se complicando. É um retrato além do noticiário, além do senso comum, de gente negra, suburbana, que tem de se virar, com suas angústias e frustrações. O olhar de Quintanilha não é clínico. Ele procura dar voz aos personagens, para que o leitor acompanhe os acontecimentos pelo ponto de vista deles. Depois de ler Tungstênio, dá vontade de procurar tudo o que esse cara já publicou.

OS 6 MELHORES FILMES QUE VI EM 2016

Este ano vi filmes muito bons, no cinema, na TV a cabo e na Netflix. Darei destaque apenas aos que assisti na telona. Inclusive às ciladas. A maior delas foi Batman vs Superman. Eu já estava desanimado pelo filme ser obra de Zack Snyder. Mesmo assim, eu tinha que ver a coisa com meus próprios olhos. Ao sair do cinema, tive vontade de arrancá-los. Outra grande decepção foi Star Trek – Sem Fronteiras, uma trama frouxa com os personagens tão subaproveitados. Outro exercício de masoquismo foi ver Esquadrão Suicida, aquela colagem de cenas sem sentido, sem graça. Pra fechar a sessão de tortura, o quadradão e racista A Lenda de Tarzan. Para compensar, teve o sempre acima da média Tarantino com Os Oito Odiados. Capitão América: Guerra Civil, num pegada deliciosa de saga de quadrinhos. O divertido e maduro Zootopia. E o sombrio e deslumbrante Rogue One. Os seis filmes escolhidos como os melhores do ano são aqueles que me causaram aquela sensação de arrebatamento, que não saíram da minha cabeça por dias ou semanas por sua excelência técnica e abordagem fora dos padrões.

6)Deadpool

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Como a adaptação de um personagem de quadrinhos pouco conhecido, com um orçamento muito abaixo das grandes produções, tornou-se sucesso de crítica, de público e de bilheteria? A resposta não é tão simples, mas pode ser resumida: liberdade de criação. Os realizadores de Deadpool foram inteligentes em criar uma comédia de ação muito bem azeitada. Ryan Reynolds tem aqui a interpretação de sua vida. Um ator que muitos consideram insuportável, mas que arrasa como Wade Wilson/Deadpool. Totalmente despido de ego. Afinal, ele se matou dentro e fora da tela para que esse projeto vingasse. Era praticamente sua última chance como astro de cinema. O diretor estreante em longas Tim Miller mostra muita segurança. Ele entrega um filme com timing de comédia e de ação impressionantes. A montagem tanto acompanha a agilidade dos diálogos quanto a destreza e força das lutas, em coreografias excitantes e claras. O orçamento menor fica evidente em alguns momentos, principalmente, nos efeitos especiais. Não existe nada malfeito, e sim com menos textura. Mas o espectador não está nem aí. A atmosfera do filme é tão legal que certos aspectos mais toscos combinam bastante com toda a zoeira. Agora os verdadeiros heróis de Deadpool, como a hilária sequência de abertura ressalta, são os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick. Sem esse roteiro, Deadpool seria uma boa comédia de ação apenas. O roteiro tem diálogos afiadíssimos e escrachados  em suas autoreferências e metalinguagem, recursos derivados do personagem nas HQs. Outro ponto inteligente é a estrutura, usando de forma dinâmica os flashbacks. A trama é convencional. Herói ou anti-herói quer se vingar de bandido. O grande barato está na maneira como isso é feito. Deadpool mostra o ridículo do universo dos super-heróis, mas também reconhece que sem eles o mundo seria mais chato.

5)A Chegada

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O diretor canadense Denis Villeneuve é um nome ascendente em Hollywood. Conhecido pela extrema segurança ao filmar, pela beleza de suas produções e por provocar o espectador com questionamentos morais. Alguns o chamam de brilhante, um novo mestre do cinema. Outros de farsa, com domínio técnico demais e ideias de menos. Em A Chegada, ele provoca o espectador a repensar conceitos como vida, morte, escolha e destino. É um filme otimista. Emocionante, sem ser piegas. Eu já tinha lido a novela Story of your life, de Ted Chiang, na qual A Chegada se baseou (recentemente a editora Intrínseca publicou uma coletânea do autor). A grande revelação do filme não foi nenhuma surpresa para mim. Minha curiosidade estava em saber como fariam a adaptação da história de Chiang, por causa de sua estrutura peculiar. E também como tratariam as ideias e discussões científicas. Posso dizer que A Chegada é uma bela adaptação, fiel na medida do possível. E mesmo quem já leu a novela vai se surpreender com algumas novidades. A Chegada é bem-sucedido em traduzir, num fenomenal trabalho de montagem, a estrutura menos convencional de Story of your life. A única atuação que realmente se destaca é a de Amy Adams. Ela domina o filme. É um papel exigente, sutil, cheio de nuances e variações emocionais. Não há gritaria nem caras e bocas. Ela foi mais do que convincente. Alguns podem dizer que o filme é pretensioso. Muita pompa para ideias que não se sustentam. Discordo. A Chegada é um entretenimento visualmente arrojado com substância. Estimula o debate de temas relevantes com honestidade. Já entrou para a lista dos melhores filmes de FC de todos os tempos.

4) Creed

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O filme sabe dosar bem momentos de drama, sem apelar para a pieguice, e momentos de ação, cheios de energia. O diretor Ryan Coogler mostra muita habilidade em criar uma atmosfera que te deixa ligado na tela o tempo todo, usando fotografia, montagem, efeitos sonoros e música, numa pegada bem contemporânea. Mas não é videoclipe. A direção das lutas coloca o espectador quase em primeira pessoa, em planos-sequência muito bem coreografados, que não parecem encenados. O filme a todo instante faz referência à franquia Rocky. Mas os elementos do passado são integrados à trama de uma maneira bem orgânica. Além de um empolgante filme de boxe, Creed é um tocante drama familiar, que também não deixa de ser divertido. O trio principal está muito bem (Stallone, Michael B. Jordan e Tessa Thompson). B. Jordan tem muita presença física, carisma e um arco complexo. Tessa Thompson interpreta uma personagem cheia de atitude. E não vejo Stallone tão bem há muitos anos. Ele está atuando mesmo, e não fazendo pose de astro de Hollywood. Esse é um Rocky frágil, doce, mas cheio de experiência sobre boxe, sobre a vida. Gonna fly now, o  tema clássico de Rocky, toca apenas uma vez durante o filme. E é de arrepiar.

3) Boi Neon

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O diretor pernambucano Gabriel Mascaro reinventou o imaginário do Nordeste ao mostrar a realidade contemporânea da região, onde progresso, miséria, tradição e cultura pop andam lado a lado. Na superfície, acompanhamos o cotidiano das vaquejadas, onde a virilidade de homens e animais é tão presente. Mas o interesse aqui é mostrar outro olhar sobre esse universo, considerado brutal por muitos. O filme não tem propriamente uma trama. É um estudo de personagens. E eles são tão ricos, tão bem representados, que nos ganham a cada cena. A entrega do elenco é total, dos atores profissionais e dos não-atores. Vemos um questionamento constante de papéis e de dinâmicas sociais, do que é ser masculino e feminino. Iremar, um vaqueiro, almeja ser estilista de moda. Enquanto Galega dirige um caminhão e cria a filha sozinha. Mas há muito mais. Cada personagem tem seu encanto e sua subversão. A transição entre comédia e drama não é forçada. Os diálogos divertidos, tensos, ou delicados nunca tiram o espectador desse mundo. A montagem é paciente, mas vigorosa, com o uso frequente de longas tomadas. A direção de arte é enganosamente simples, recriando o ambiente rural, em locações reais. A fotografia estiliza o sertão sem parecer artificial, falso, com planos abertos durante o dia e o uso de cores fortes à noite. A trilha sonora, com sucessos nacionais, canções estrangeiras e música original, amplia o impacto das imagens. Boi Neon fala sobre sonhos, mas nunca de maneira romântica.

2)A Bruxa

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Filmes de terror marcantes não são aqueles que dão os maiores sustos, mas os que mexem com nossos mais profundos medos. Em A Bruxa, vemos o que acontece quando a sociedade patriarcal não funciona como o esperado. Numa produção de baixo orçamento, mas visualmente sofisticada, o diretor e roteirista estreante Robert Eggers perturba o espectador com um olhar perspicaz, analisando como o fracasso e a frustração podem colocar em teste até as certezas mais inabaláveis. O filme faz um embate constate entre norma, caos, sanidade e delírio. E isso afeta nossa própria percepção do que estamos vendo. As imagens sobrenaturais são reais, ou são projeções dos personagens, uma forma do diretor tornar mais evidentes os medos de cada um deles? A produção cria uma cenário verossímil e claustrofóbico. Acreditamos nas dúvidas dos personagens porque as atuações são incríveis, principalmente, dos quatro filhos. Até os animais estão maravilhosos! Tem um coelho que é muito assustador. Alguns podem considerar o filme lento e chato. Mas, na verdade, ele tem paciência em construir uma atmosfera de paranoia ao extremo. Já disseram que A Bruxa é uma anti-fábula, que o intuito do filme não é pregar uma moral, mas subvertê-la.

1)Elle

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Este filme francês é o melhor da carreira de Paul Verhoeven, superando até mesmo Robocop, uma violenta sátira ao american way of life e ao capitalismo, mas com um final conservador. Em Elle, Verhoeven está livre para desafiar o espectador até o último segundo. E assim como George Miller, diretor de Mad Max – Estrada da Fúria, o cineasta holandês prova que, aos 78 anos, está em evolução como artista.

Originalmente, Elle era para ser produzido nos EUA e protagonizado por uma estrela de Hollywood. Mas nenhum estúdio e nenhuma atriz se interessaram pelo projeto, considerado polêmico demais. Verhoeven ganhou fama de provocador com filmes, muitas vezes, classificados como apelativos. Mas, em Elle, a provocação é mais complexa. Aqui a rejeição pelo projeto tem mais a ver com o incômodo das verdades expostas, a profunda análise da condição humana.

Verhoeven levou o projeto para a França, terra do autor do romance que deu origem ao filme. O roteiro do americano David Birke foi vertido para o francês. E o cineasta holandês encontrou em Isabelle Huppert sua protagonista perfeita. Huppert é a força motriz dessa mistura de thriller, sátira social e drama familiar. Michèle Leblanc é uma mulher de 50 anos, empresária de sucesso, cercada por homens que questionam sua posição de poder, mãe, avó e alguém que não tem pudores em satisfazer sua libido. O personagem de Huppert é pragmática, irônica, decidida e imperfeita. Além disso, possui um passado sombrio. O interessante é que Verhoeven, em nenhum momento, pretende julgar Michèle. Ela é um mecanismo do diretor para abalar nossas certezas.

A segurança da direção é absurda. Verhoeven varia entre o intenso e o discreto com muita habilidade. A mise-en-scène cria uma atmosfera hitchcockiana, levando para outro nível o que já tinha sido feito em filmes como Instinto Selvagem e O Homem das Sombras. Elle é muito francês em seu conteúdo, mas com formato de suspense americano, na verdade, uma subversão do gênero. Amado ou odiado, considerado feminista ou misógino, Elle é um deleite visual e um veículo de discussão poderoso.