NERDICE BAIANA CRIANDO CORPO

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Há alguns meses, numa entrevista de rádio, afirmei três coisas: 1) O romance O Sorriso do Lagarto, de João Ubaldo Ribeiro, era a maior obra de ficção especulativa baiana, apesar de ser uma ficção-científica fraca para os iniciados; 2) Havia muita dificuldade dos autores baianos de ficção especulativa trocarem ideias e se encontrarem, era difícil achá-los; e 3) O maior nome da ficção especulativa baiana não era um autor, e sim um editor, o lendário e polêmico Gumercindo Rocha Dórea.

Agora, por meio da repercussão da coletânea Estranha Bahia, que ajudei a organizar, pela interação com o pessoal do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica) e com os escritores e amigos do fandom no Facebook, posso dizer que a coisa evoluiu e muito. Além dos autores da Estranha Bahia, descobri nomes que já estão por aí há algum tempo e se consolidando.

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Ainda não terminei de ler O Esplendor, de Alexey Dodsworth, mas já posso afirmar tranquilamente que é a maior obra da ficção especulativa baiana. Mesmo se passando em outro planeta, tem muita da Bahia ali. E é uma obra de ficção-científica com FC maiúsculos. Ainda temos o romance Araruama, de Ian Fraser. Outro cara que está ganhando cada vez mais espaço. E Hugo Canuto com seus quadrinhos de fama internacional. Todos baianos boca-de-zero-nove! Agora Gumercindo ainda continua como o maior. Afinal, o cara fundou a Geração GRD.

A nerdice baiana está criando corpo!!!

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ESTRANHA BAHIA NO PRÊMIO ARGOS 2017

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O Prêmio Argos é o mais importante da ficção especulativa nacional. Ele é promovido pelo CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica). Seguem abaixo as regras para participar da edição deste ano, seja você leitor ou escritor de terror, fantasia e ficção científica. Publicado em 2016, o livro Estranha Bahia, no qual participei como organizador e autor, pode ser votado na CATEGORIA ANTOLOGIA/COLETÂNEA. Visite o site do CLFC. Leia a revista gratuita Somnium. Participe do grupo no Facebook. Filie-se. A votação já começou!
PRÊMIO ARGOS 2017 DO CLFC
MELHOR ROMANCE, MELHOR ANTOLOGIA/COLETÂNEA E MELHOR CONTO DO GÊNERO FANTÁSTICO EM PORTUGUÊS PUBLICADOS EM 2016
EM QUEM SE VOTA?
Obras do gênero fantástico publicadas pela primeira vez e originalmente em português no ano de 2016, no Brasil e países lusófonos. Estarão ANULADOS os votos no Harry Potter, George R. R. Martin, obras de 10 anos atrás e outras demonstrações de constrangimentos cognitivos. Portanto, certifiquem-se (ficha catalográfica no começo, ou procurem no google, site da editora, etc) do ano, ao votar.
QUEM VOTA?
Os sócios ativos do CLFC, isto é, os sócios do CLFC que estão registrados na lista oficial do CLFC no Yahoogroups. A votação será exclusivamente virtual através dos emails registrados na lista oficial do CLFC. Votos recebidos de outros emails serão ANULADOS em sua totalidade, mesmo que sejam de sócios do CLFC. Conforme estabelecido pela diretoria em 2009 quando o clube se tornou 100% virtual, sócios do CLFC que não sejam membros da lista oficial são considerados sócios inativos sem direito a voto no Argos e nas demais atividades virtuais do clube.
QUANDO SE VOTA?
De 08 a 26 de Novembro. A divulgação de três finalistas de cada categoria será ao longo da semana. O dia da premiação será 17 (domingo) de Dezembro, das 16h às 18h, no Planetário da Gávea, Rio de Janeiro (A CONFIRMAR O LOCAL).
COMO SE VOTA?
No email cadastrado na lista oficiall do CLFC vcs receberão um link para votarem. Portanto, VERIFIQUEM FILTRO DE SPAM, caixa de lixo, etc. Seguindo o link, vocês encontrarão uma cédula eletrônica. SIGAM AS INSTRUÇÕES nela também contidas. Há 3 categorias do Prêmio Argos 2017: Melhor Romance, Melhor Antologia/Coletânea, Melhor Conto. Vocês votarão até 2 vezes nas 3 categorias, para o favorito e o vice-favorito. A primeira escolha ganha 2 pontos, a segunda escolha ganha 1 pontos (para questões de desempate).Os votos serão digitados por vocês, por extenso, portanto certifiquem-se que os nomes de cada obra e autor estejam corretos. Em caso de imprecisão que impeça identificação clara o voto será anulado. Cada uma das 3 categorias terá 2 páginas no formulário, uma para cada escolha. Terminará com um feedback opcional de vcs, sendo 7 páginas no total. O segundo voto de cada categoria também é opcional. A cédula é montada no Google Forms, o que significa que é necessário acessar sua conta Google. Caso não tenham uma conta Google, não queiram ter ou se embananem com essas modernices, alternativamente vcs poderão mandar seus votos DIRETAMENTE para o email premioargos2017@gmail.com .(NÃO USEM A LISTA PARA MANDAR OS VOTOS!!!), no mesmo formato do formulário: até duas escolhas (por ordem de preferência) nas categorias oferecidas, o votante enviando o voto do seu email válido. Na cédula, haverá explicações sobre como votar. LEIAM.
E A APURAÇÃO?
A recepção e apuração dos votos será feita pela Comissão Organizadora, que também resolverá eventuais casos omissos. Não caberá recurso das decisões da Comissão Organizadora.
Qualquer dúvida sobre o processo, contactar o presidente da Comissão Argos 2017 Luiz Felipe Vasques no email premioargos2017@gmail.com
OBS: Para se filiar ao CLFC enviar email ao Presidente Clinton Davisson em fafia7@gmail.com com nome e endereço completos, telefone com DDD para contato e informando o email com o qual quer ser registrado no cadastro e na lista oficial. A filiação ao CLFC implica no compromisso de cumprir e fazer cumprir seu estatuto e envidar os melhores esforços pelo engrandecimento e fortalecimento do Gênero Fantástico no Brasil. O CLFC não cobra taxa de inscrição nem mensalidades. Não haverá prazo de carência para os novos sócios votarem para o Argos 2017.
Comissão Organizadora do Prêmio Argos 2017 do CLFC:
-Luiz Felipe Vasques (Presidente)
-Jorge Pereira
-Eduardo Torres

ESTRANHA BAHIA NO RÁDIO

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Participei, na Rádio Showtime, do programa O Marco de Hoje, comandado por Marco Antonio Santos Freitas. Falei um pouco sobre minhas origens como viciado em cultura pop, referências literárias, novos autores e a coletânea Estranha Bahia. Na primeira metade do programa, há uma deliciosa seleção de canções dos anos 50 a 80, que tinham tudo para fazer sucesso, mas não decolaram. Minha entrevista começa em 35:10. Para ouvir o programa é só clicar na imagem.

AULAS DE UM MESTRE REBELDE

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Luiz Bras é um provocador. Em seu manual de escrita, ele propõe o seguinte: não dê tanta bola para regras. Na verdade, ele propõe que a gente aprenda a construir para depois desconstruir. Seu discurso rebelde não é vazio. Bras mostra muito conhecimento de causa, muita leitura. O pulo do gato é o que ele faz com toda essa bagagem. Segundo ele, devemos ler muito, de tudo, para nos tornamos leitores mais completos, e, por tabela, escritores menos convencionais, avessos a preconceitos. O melhor leitor/escritor é aquele que não coloca hierarquias, por exemplo, em Thomas Pynchon e Stephen King, reconhecendo o valor de cada um. Seu Ateliê de Criação não segue a estrutura de outros manuais. É uma colagem de textos que cabe de tudo: propostas para uma oficina literária, com sugestões de leitura e exercícios práticos; reflexões teóricas na forma de poesia; artigos e crônicas sobre vários temas pertinentes da literatura. O livro está repleto daqueles insights sobre escrever que tanto adoramos nesse tipo de obra. Eu mesmo marquei várias passagens. É uma leitura curta, prazerosa e sábia.

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MEU CONTO NA TRASGO

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Acaba de sair a revista Trasgo n°15. Principal publicação de ficção científica e fantasia no Brasil, ela foi idealizada pelo editor Rodrigo van Kampen. Ele se inspirou em publicações estrangeiras que valorizam a produção de contos de novos autores e nomes consagrados. Por aqui, a iniciativa é ainda mais necessária pelo menor espaço que a literatura de gênero (policial, ficção científica, terror…) tem na mídia e no meio editorial.

Nesta edição, vocês podem ler meu conto de ficção científica Wonder. Num futuro próximo, um casal descobre que seu bebê em gestação será uma criança com superinteligência, muito acima dos atuais superdotados. Wonders são celebridades, gerando fascínio e medo nos adultos.

A Trasgo pode ser lida de graça, em vários formatos. É só clicar na capa.

5 LIVROS IMPORTANTES DA FC BRASILEIRA

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O mestre Luiz Bras/Nelson de Oliveira me convidou para participar da enquete sobre os 5 livros mais importantes da FC nacional, do blog Ficção Científica Brasileira. O bacana do blog é resgatar clássicos do gênero no Brasil e dar visibilidade a autores contemporâneos menos conhecidos do grande público. Vale muito a pena conferir as resenhas. Você também pode mandar suas resenhas e participar da enquete. Eis minha lista:

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1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
[Primeiro livraço da FC nacional que li. Só então percebi que era possível fazer FC no Brasil. Merece uma reedição urgente.]

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2. Método prático da guerrilha, de Marcelo Ferroni (2010)
[O autor pode achar que não fez FC, mas pra mim é. Uma história alternativa da campanha de Che Guevara na Bolívia. Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, categoria estreante, de 2011.]

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3. Encruzilhada, de Lúcio Manfredi (2015)
[O caçula da lista. Mas com porte de gente grande. Mistura impecável de FC, terror e o fantástico. Ler apenas uma vez é pouco.]

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4. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyolla Brandão (1981) [O autor é um dos grandes da literatura brasileira. Tem talento e ousadia para escrever romances que tiram o leitor da zona de conforto da estrutura muitas vezes certinha do realismo. Anda meio esquecido. Um absurdo.]

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5. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008) [São contos sábios, escritos com conhecimento de causa, afinal, a autora é/foi uma cientista. Esperando pelo próximo livro há alguns anos.]

A MONTAGEM PERFEITA DE MATRIX

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A transição de cenas é um dos aspectos mais importantes de um filme. É a mudança de uma cena para a próxima. Ela pode ser feita de várias maneiras. Exemplo 1 de transição: uma luta de boxe termina, o boxeador protagonista é derrotado CORTA PARA o boxeador se lamentando no chuveiro. Exemplo 2: um casal tem uma briga CORTA PARA uma praia CORTA PARA a mulher conversando com uma amiga. No caso de Matrix, as transições são brilhantes e essa é uma das razões do sucesso narrativo do filme. É uma história contada com paixão em cada detalhe, o que faltou nas sequências. As transições de Matrix mostram como edição de imagens, edição de som, diálogos, roteiro e storyboard podem fazer para cativar o espectador do começo ao fim. O vídeo do youtuber Patrick Willems explica como Matrix é um filme tecnicamente perfeito e o que isso contribuiu para que se tornasse um clássico.

DEADPOOL NA UNIVERSIDADE

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O escritor Clinton Davisson acabou de publicar um artigo do seu mestrado, Deadpool e A Quarta Parede – Uma Análise das Narrativas de Metalinguagem. Ele fala sobre o poder do cinema, especialmente o americano, no imaginário popular, e a influência que os filmes têm em nossas vidas, como fuga e retorno à realidade. Mostra como a sétima arte se transformou bastante nos últimos anos, apostando em novas formas de narrativa, interagindo com outras plataformas e dando ao público maior poder de decisão (na verdade, sendo forçada a isso), ao ponto de acabar com a reputação de um filme ou fazê-lo acontecer. E, recentemente, Deadpool se tornou a fusão mais bem sucedida de todos esses elementos. O artigo tem reflexões e insights bem interessantes sobre a relação cinema-linguagem-espectador. Pessoalmente, fiquei feliz em ver uma resenha minha sobre Deadpool entre as citações. O artigo é curtinho e pode ser baixado de graça. Vale muito a pena a leitura.

AS 6 MELHORES HQS QUE LI EM 2016

6)Black Panther –A Nation Under Our Feet vol.1, de Ta-Nehisi Coates, Brian Stelfreeze e Laura Martin, 144 págs., Marvel.

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Não é a primeira vez que a Marvel convida um outsider para assumir um título. Ta-Nehisi Coates é um dos mais aclamados jornalistas americanos, principalmente, por suas reflexões sobre a condição do negro nos EUA. A ideia de ele escrever a nova fase da revista do Pantera Negra é muito interessante e oportuna. E o que Coates propõe é algo bastante ambicioso. Ele questiona a própria razão de ser de T´Challa/Pantera Negra como rei e protetor de Wakanda. Coates coloca o povo em primeiro plano, com seus medos e expectativas, questionando por que devem se submeter a uma monarquia. Este primeiro volume é o prenúncio de uma guerra civil? Coates é um jornalista, não é um ficcionista. Isso fica evidente na maneira como ele conduz a trama. Mais por diálogos do que pela ação. Muitas vezes, as falas têm um tom shakespeariano, épico. Visualmente, tudo é muito lindo e vibrante. As ilustrações de Brian Stelfreeze com as cores de Laura Martin criam uma atmosfera única, numa mistura de tradição com alta tecnologia, que o leitor só vai encontrar em Wakanda. Estou muito curioso para acompanhar a evolução do Pantera Negra como herói e de Coates como roteirista.

5) Blame! vol.1, Tsutomi Nihei, 248 págs., JBC.

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Primeira obra de destaque de Nihei, Blame! foi lançado no Japão há quase vinte anos. O próprio autor considera embaraçoso um trabalho de sua juventude ser publicado agora no Brasil. Mas ele não tem nada do que se envergonhar. Blame! é um mangá de visual impactante e ideias robustas. Inspira-se no cyberpunk para criar uma estética, ao mesmo tempo, fascinante e bizarra. Os personagens falam o mínimo. Humanos, ciborgues, seres geneticamente modificados. Há uma disputa de todos contra todos num lugar inteiramente de metal, com muitos andares, túneis e salas, uma estrutura que parece infinita. Nihei usa sua formação como arquiteto para deslumbrar o leitor com cenários incrivelmente detalhados. Para completar, a trama nos prende por seus mistérios e sua crueldade. Neste mundo, o sentido da vida é algo que precisa ser reconquistado.

4)Batman – A Corte das Corujas vol.1, de Scott Snyder, Greg Capullo e Jonathan Glapion, 176 págs., Panini.

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Scott Snyder é um dos melhores roteiristas de quadrinhos da última década. Em A Corte das Corujas, ele revigora o universo de Batman, criando uma das melhores fases do protetor mais obcecado de Gotham. São roteiros mais adultos e cheios de pesquisa, dando um peso e uma verossimilhança que tornam o drama e a ação mais intensos. A composição das páginas, as soluções visuais, são muito bonitas, de grande impacto, chegando ao visceral. Trabalho magnífico do ilustrador Greg Capullo e do colorista Jonathan Glapion. Batman enfrenta adversários à altura, que testam sua sanidade e seu corpo ao extremo e o fazem questionar suas convicções.

3) Pílulas Azuis, de Frederik Peeters, 208 págs., Nemo.

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HQ autobiográfica em que o autor conta a história de sua relação com a esposa e o enteado soropositivos. O grande mérito aqui é desmistificar a AIDS, humanizando as pessoas atingidas pela doença. Vamos saber como a paranoia social e o preconceito podem ser quebrados com a informação sobre maneiras de contágio, tratamento e a saúde dos soropositivos. No geral, o tom da HQ é leve, o relato de um cotidiano quase normal, mas há os momentos de angústia, dúvida, tristeza e desespero. Outra característica importante é a autocrítica. A HQ usa a metalinguagem. Uma obra consciente de que é uma obra. O autor fala sobre o dilema de expor ou não sua vida, as pessoas que ama. Mas, por outro lado, a HQ não poderia ajudar muita gente a entender melhor a AIDS, a não surtarem no convívio com soropositivos, a dar aos próprios soropositivos uma oportunidade de dizer que são pessoas iguais às outras, que também querem tocar a vida?, pensa o autor. O traço cru das ilustrações, em preto e branco, funciona muito bem ao mostrar, com franqueza, o cotidiano diferente de uma família comum.

2)Nimona, de Noelle Stevenson, 272 págs., Intrínseca.

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Todo mundo devia ler Ninoma. As meninas para se inspirarem numa figura feminina que não aceita classificações de nenhuma forma. Os meninos para admirarem uma garota fora dos padrões que vai fazê-los repensar muita coisa sobre o universo das mulheres. Esta é uma graphic novel que não se leva a sério, na superfície, mas que possui um subtexto muito consciente e rico, sem pesar a mão. A mistura inusitada de fantasia medieval e ficção científica resulta numa paródia com cara de desenho animado, tipo Hora de Aventura. A ilustradora e roteirista Noelle Stevenson tem um timing de comédia afiado. Há muito nonsense tanto nos diálogos quanto nas tiradas visuais. O que começa como algo divertidíssimo vai ficando cada vez mais sombrio. É uma transição que funciona. É isso que faz toda a diferença, tornando Ninoma uma obra relevante. Diverte, emociona e faz pensar.

1)Tungstênio, de Marcello Quintanilha, 184 págs., Veneta.

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Esta graphic novel foi lançada em 2014, mas só este ano tive conhecimento dela pela notícia da premiação em Angoulême, o mais importante festival de quadrinhos da Europa. Aproveitei uma promoção na internet e comprei. Senhoras e senhores, que HQ sensacional! O roteiro complexo, mas de uma clareza impressionante, amplia a força do traço realista. Marcello Quintanilha conseguiu transformar histórias do cotidiano numa trama cheia de suspense e significados. Outro destaque é como o autor carioca soube captar tão bem a fala e o comportamento da gente de Salvador. Como soteropolitano, nascido e criado na cidade, posso dizer que ele fez direitinho o dever de casa. Monte Serrat, um dos lugares mais icônicos da capital baiana, torna-se palco central de um drama de tirar o fôlego, que começa com um fato corriqueiro e, aos poucos, vai se complicando. É um retrato além do noticiário, além do senso comum, de gente negra, suburbana, que tem de se virar, com suas angústias e frustrações. O olhar de Quintanilha não é clínico. Ele procura dar voz aos personagens, para que o leitor acompanhe os acontecimentos pelo ponto de vista deles. Depois de ler Tungstênio, dá vontade de procurar tudo o que esse cara já publicou.

OS 6 MELHORES FILMES QUE VI EM 2016

Este ano vi filmes muito bons, no cinema, na TV a cabo e na Netflix. Darei destaque apenas aos que assisti na telona. Inclusive às ciladas. A maior delas foi Batman vs Superman. Eu já estava desanimado pelo filme ser obra de Zack Snyder. Mesmo assim, eu tinha que ver a coisa com meus próprios olhos. Ao sair do cinema, tive vontade de arrancá-los. Outra grande decepção foi Star Trek – Sem Fronteiras, uma trama frouxa com os personagens tão subaproveitados. Outro exercício de masoquismo foi ver Esquadrão Suicida, aquela colagem de cenas sem sentido, sem graça. Pra fechar a sessão de tortura, o quadradão e racista A Lenda de Tarzan. Para compensar, teve o sempre acima da média Tarantino com Os Oito Odiados. Capitão América: Guerra Civil, num pegada deliciosa de saga de quadrinhos. O divertido e maduro Zootopia. E o sombrio e deslumbrante Rogue One. Os seis filmes escolhidos como os melhores do ano são aqueles que me causaram aquela sensação de arrebatamento, que não saíram da minha cabeça por dias ou semanas por sua excelência técnica e abordagem fora dos padrões.

6)Deadpool

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Como a adaptação de um personagem de quadrinhos pouco conhecido, com um orçamento muito abaixo das grandes produções, tornou-se sucesso de crítica, de público e de bilheteria? A resposta não é tão simples, mas pode ser resumida: liberdade de criação. Os realizadores de Deadpool foram inteligentes em criar uma comédia de ação muito bem azeitada. Ryan Reynolds tem aqui a interpretação de sua vida. Um ator que muitos consideram insuportável, mas que arrasa como Wade Wilson/Deadpool. Totalmente despido de ego. Afinal, ele se matou dentro e fora da tela para que esse projeto vingasse. Era praticamente sua última chance como astro de cinema. O diretor estreante em longas Tim Miller mostra muita segurança. Ele entrega um filme com timing de comédia e de ação impressionantes. A montagem tanto acompanha a agilidade dos diálogos quanto a destreza e força das lutas, em coreografias excitantes e claras. O orçamento menor fica evidente em alguns momentos, principalmente, nos efeitos especiais. Não existe nada malfeito, e sim com menos textura. Mas o espectador não está nem aí. A atmosfera do filme é tão legal que certos aspectos mais toscos combinam bastante com toda a zoeira. Agora os verdadeiros heróis de Deadpool, como a hilária sequência de abertura ressalta, são os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick. Sem esse roteiro, Deadpool seria uma boa comédia de ação apenas. O roteiro tem diálogos afiadíssimos e escrachados  em suas autoreferências e metalinguagem, recursos derivados do personagem nas HQs. Outro ponto inteligente é a estrutura, usando de forma dinâmica os flashbacks. A trama é convencional. Herói ou anti-herói quer se vingar de bandido. O grande barato está na maneira como isso é feito. Deadpool mostra o ridículo do universo dos super-heróis, mas também reconhece que sem eles o mundo seria mais chato.

5)A Chegada

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O diretor canadense Denis Villeneuve é um nome ascendente em Hollywood. Conhecido pela extrema segurança ao filmar, pela beleza de suas produções e por provocar o espectador com questionamentos morais. Alguns o chamam de brilhante, um novo mestre do cinema. Outros de farsa, com domínio técnico demais e ideias de menos. Em A Chegada, ele provoca o espectador a repensar conceitos como vida, morte, escolha e destino. É um filme otimista. Emocionante, sem ser piegas. Eu já tinha lido a novela Story of your life, de Ted Chiang, na qual A Chegada se baseou (recentemente a editora Intrínseca publicou uma coletânea do autor). A grande revelação do filme não foi nenhuma surpresa para mim. Minha curiosidade estava em saber como fariam a adaptação da história de Chiang, por causa de sua estrutura peculiar. E também como tratariam as ideias e discussões científicas. Posso dizer que A Chegada é uma bela adaptação, fiel na medida do possível. E mesmo quem já leu a novela vai se surpreender com algumas novidades. A Chegada é bem-sucedido em traduzir, num fenomenal trabalho de montagem, a estrutura menos convencional de Story of your life. A única atuação que realmente se destaca é a de Amy Adams. Ela domina o filme. É um papel exigente, sutil, cheio de nuances e variações emocionais. Não há gritaria nem caras e bocas. Ela foi mais do que convincente. Alguns podem dizer que o filme é pretensioso. Muita pompa para ideias que não se sustentam. Discordo. A Chegada é um entretenimento visualmente arrojado com substância. Estimula o debate de temas relevantes com honestidade. Já entrou para a lista dos melhores filmes de FC de todos os tempos.

4) Creed

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O filme sabe dosar bem momentos de drama, sem apelar para a pieguice, e momentos de ação, cheios de energia. O diretor Ryan Coogler mostra muita habilidade em criar uma atmosfera que te deixa ligado na tela o tempo todo, usando fotografia, montagem, efeitos sonoros e música, numa pegada bem contemporânea. Mas não é videoclipe. A direção das lutas coloca o espectador quase em primeira pessoa, em planos-sequência muito bem coreografados, que não parecem encenados. O filme a todo instante faz referência à franquia Rocky. Mas os elementos do passado são integrados à trama de uma maneira bem orgânica. Além de um empolgante filme de boxe, Creed é um tocante drama familiar, que também não deixa de ser divertido. O trio principal está muito bem (Stallone, Michael B. Jordan e Tessa Thompson). B. Jordan tem muita presença física, carisma e um arco complexo. Tessa Thompson interpreta uma personagem cheia de atitude. E não vejo Stallone tão bem há muitos anos. Ele está atuando mesmo, e não fazendo pose de astro de Hollywood. Esse é um Rocky frágil, doce, mas cheio de experiência sobre boxe, sobre a vida. Gonna fly now, o  tema clássico de Rocky, toca apenas uma vez durante o filme. E é de arrepiar.

3) Boi Neon

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O diretor pernambucano Gabriel Mascaro reinventou o imaginário do Nordeste ao mostrar a realidade contemporânea da região, onde progresso, miséria, tradição e cultura pop andam lado a lado. Na superfície, acompanhamos o cotidiano das vaquejadas, onde a virilidade de homens e animais é tão presente. Mas o interesse aqui é mostrar outro olhar sobre esse universo, considerado brutal por muitos. O filme não tem propriamente uma trama. É um estudo de personagens. E eles são tão ricos, tão bem representados, que nos ganham a cada cena. A entrega do elenco é total, dos atores profissionais e dos não-atores. Vemos um questionamento constante de papéis e de dinâmicas sociais, do que é ser masculino e feminino. Iremar, um vaqueiro, almeja ser estilista de moda. Enquanto Galega dirige um caminhão e cria a filha sozinha. Mas há muito mais. Cada personagem tem seu encanto e sua subversão. A transição entre comédia e drama não é forçada. Os diálogos divertidos, tensos, ou delicados nunca tiram o espectador desse mundo. A montagem é paciente, mas vigorosa, com o uso frequente de longas tomadas. A direção de arte é enganosamente simples, recriando o ambiente rural, em locações reais. A fotografia estiliza o sertão sem parecer artificial, falso, com planos abertos durante o dia e o uso de cores fortes à noite. A trilha sonora, com sucessos nacionais, canções estrangeiras e música original, amplia o impacto das imagens. Boi Neon fala sobre sonhos, mas nunca de maneira romântica.

2)A Bruxa

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Filmes de terror marcantes não são aqueles que dão os maiores sustos, mas os que mexem com nossos mais profundos medos. Em A Bruxa, vemos o que acontece quando a sociedade patriarcal não funciona como o esperado. Numa produção de baixo orçamento, mas visualmente sofisticada, o diretor e roteirista estreante Robert Eggers perturba o espectador com um olhar perspicaz, analisando como o fracasso e a frustração podem colocar em teste até as certezas mais inabaláveis. O filme faz um embate constate entre norma, caos, sanidade e delírio. E isso afeta nossa própria percepção do que estamos vendo. As imagens sobrenaturais são reais, ou são projeções dos personagens, uma forma do diretor tornar mais evidentes os medos de cada um deles? A produção cria uma cenário verossímil e claustrofóbico. Acreditamos nas dúvidas dos personagens porque as atuações são incríveis, principalmente, dos quatro filhos. Até os animais estão maravilhosos! Tem um coelho que é muito assustador. Alguns podem considerar o filme lento e chato. Mas, na verdade, ele tem paciência em construir uma atmosfera de paranoia ao extremo. Já disseram que A Bruxa é uma anti-fábula, que o intuito do filme não é pregar uma moral, mas subvertê-la.

1)Elle

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Este filme francês é o melhor da carreira de Paul Verhoeven, superando até mesmo Robocop, uma violenta sátira ao american way of life e ao capitalismo, mas com um final conservador. Em Elle, Verhoeven está livre para desafiar o espectador até o último segundo. E assim como George Miller, diretor de Mad Max – Estrada da Fúria, o cineasta holandês prova que, aos 78 anos, está em evolução como artista.

Originalmente, Elle era para ser produzido nos EUA e protagonizado por uma estrela de Hollywood. Mas nenhum estúdio e nenhuma atriz se interessaram pelo projeto, considerado polêmico demais. Verhoeven ganhou fama de provocador com filmes, muitas vezes, classificados como apelativos. Mas, em Elle, a provocação é mais complexa. Aqui a rejeição pelo projeto tem mais a ver com o incômodo das verdades expostas, a profunda análise da condição humana.

Verhoeven levou o projeto para a França, terra do autor do romance que deu origem ao filme. O roteiro do americano David Birke foi vertido para o francês. E o cineasta holandês encontrou em Isabelle Huppert sua protagonista perfeita. Huppert é a força motriz dessa mistura de thriller, sátira social e drama familiar. Michèle Leblanc é uma mulher de 50 anos, empresária de sucesso, cercada por homens que questionam sua posição de poder, mãe, avó e alguém que não tem pudores em satisfazer sua libido. O personagem de Huppert é pragmática, irônica, decidida e imperfeita. Além disso, possui um passado sombrio. O interessante é que Verhoeven, em nenhum momento, pretende julgar Michèle. Ela é um mecanismo do diretor para abalar nossas certezas.

A segurança da direção é absurda. Verhoeven varia entre o intenso e o discreto com muita habilidade. A mise-en-scène cria uma atmosfera hitchcockiana, levando para outro nível o que já tinha sido feito em filmes como Instinto Selvagem e O Homem das Sombras. Elle é muito francês em seu conteúdo, mas com formato de suspense americano, na verdade, uma subversão do gênero. Amado ou odiado, considerado feminista ou misógino, Elle é um deleite visual e um veículo de discussão poderoso.