A ARTE DA GUERRA

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O romance Use of Weapons é conhecido por sua estrutura peculiar e pela chocante revelação final. Melhor dizendo, pelas duas revelações finais. E uma delas tem a ver com uma cadeira.

Entre os fãs da série The Culture, escrita pelo escocês Iain M. Banks, a avaliação do livro divide opiniões. Tem quem o considere um dos melhores romances de ficção científica já escritos. Outros o admiram, mas com ressalvas. Eu fico com estes últimos. Um livro de Banks sempre é garantia de uma leitura, no mínimo, intrigante, com momentos de reflexões contundentes sobre a condição humana e pérolas de uma ironia refinada e perversa.

A série The Culture, na verdade, são livros independentes (com alguns pontos de ligação) dentro de um mesmo universo. The Culture é uma sociedade no futuro, numa galáxia distante, em que humanos aprimorados e inteligências artificiais convivem em harmonia. Eles vivem numa espécie de sociedade utópica. Não há mazelas sociais nem preconceitos. Há apenas prosperidade e aceitação. Mas isso não quer dizer que não existam relações complexas, disputas entre pessoas e máquinas.

Em Use of Weapons, considerado o terceiro livro da série, acompanhamos uma trama de espionagem política. Zakalwe é um ex-agente da Special Circunstances, mistura de serviço de inteligência e forças especiais de The Culture. Ele é tirado de sua aposentadoria confortável e convocado para uma nova missão: convencer um político exilado a interceder pela paz entre duas sociedades galácticas à beira da guerra. Zakalwe aceita o trabalho. Só que as coisas nunca são fáceis quando The Culture resolve se meter nos conflitos alheios. Suas intenções são nobres, mas nem sempre claras.

O livro é divido em duas linhas narrativas. Acompanhamos o presente, a partir do momento em que Zakalwe é convocado para a missão até o seu final. E paralelamente, temos trechos do passado de Zakalwe, apresentados de forma reversa, de anos antes de sua aposentadoria até a infância. Assim, a cada nova ação dele no presente, entendemos melhor suas motivações pelo o que é revelado de sua vida pregressa. É um recurso engenhoso. Bem sucedido, em parte. Quando funciona, mostra a maturidade de Banks como escritor, em termos de ritmo, construção de cenas e desenvolvimento de ideias. Quando a coisa não funciona, fica como algo gratuito, artificial, excessivo, a técnica pela técnica.

Zakalwe é um personagem fascinante pelo o que ele representa na narrativa. Por meio desse protagonista, Banks mostra que qualquer coisa pode se tornar uma arma. Até mesmo os sentimentos. Zakalwe é uma figura trágica, cabendo ao leitor sentir admiração, raiva ou pena.

Use of Weapons é uma meditação brutal, cheia de uma poesia melancólica e uma ironia afiada, sobre a vontade de subjugar, seja no âmbito pessoal ou coletivo.

3.5/5

Use of Weapons, de Iain M. Banks, 516 págs., Orbit.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE.

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