OS 5 MELHORES LIVROS QUE EU LI EM 2017

Este foi mais um ano de boas leituras, no geral. A Amazon, por meio de seus e-books e seu sistema de empréstimo, firma-se como a melhor maneira  para acompanhar a produção independente nacional. Li muitos contos avulsos, daqui e de fora. Algumas coletâneas, como Crimes Fantásticos, da editora Argonautas. Edições das revistas Trasgo, Somnium e Zzzumbido. Clássicos e contemporâneos. Ficção de gênero e mainstream. Não-ficção e poesia. Algumas menções honrosas: The Iron Dream, de Norman Spinrad; A Canção dos Shenlongs, de Diogo Andrade; Rua da Padaria, de Bruna Beber; Escritos em Verbal de Ave, de Manoel de Barros; Opus, de Saitoshi Kon; Ateliê de Criação Literária, de Luiz Bras. Os cinco livros escolhidos como os melhores de 2017 foram os que mais me surpreenderam, no tema, nas ideias e, principalmente, na execução.

5) All Systems Red

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Um murderbot, uma inteligência artificial com um corpo humanoide, é responsável pela segurança de um grupo de pesquisadores num planeta desconhecido. Na verdade, ela/ele não tem gênero. Ela/ele faz muito bem seu trabalho, mas não se interessa pelo contato com humanos. O que adora mesmo é assistir séries de TV. Mas as coisas se complicam. A equipe corre risco de vida. O murderbot tem que tomar decisões difíceis. E, aos poucos, descobrimos mais sobre seu passado sombrio. A grande atração do livro é a voz do murderbot. Sua narração é irônica e cheia de personalidade. Os outros personagens cumprem bem seus papéis de coadjuvantes, com destaque para a Dra. Mensah, a chefe da equipe. O texto é fluido, o mistério é envolvente e o ritmo é ágil. Contudo, no final, tudo é resolvido  rápido demais. Ficou a sensação de peças faltando. Mas as últimas páginas, após o clímax, fecharam muito bem o livro. Deu gostinho de quero mais. As duas próximas novelas da série serão lançadas em 2018!

4) The Sorcerer of the Wildeeps

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Com certeza, você nunca leu uma fantasia heroica, de espada e magia ou sword and soul como essa. Kai Ashante Wilson renova o subgênero, historicamente dominado por protagonistas viris e brutais, com algumas variações mais complexas (Elric, Kane, Geralt). Em The Sorcerer of the Wildeeps temos Demane, um jovem feiticeiro, e Captain, o líder de um grupo de mercenários. Ambos são responsáveis pela escolta de uma caravana de mercadores. E secretamente são amantes. É uma relação bonita, de respeito e cuidado mútuos. Mas também de conflitos. Nos anos 60, Michael Moorcock quis subverter o estereótipo do herói viril de Conan com seu Elric, um anti-herói fisicamente frágil, viciado em drogas mágicas, um pensador torturado. Moorcock também brincou com forma e conteúdo com tramas e personagens inspirados no surrealismo e psicodelia. Ashante Wilson leva essa subversão para outro nível. The Sorcerer… é uma história de fantasia (com elementos de ficção científica e terror) sem nenhuma vergonha de se assumir como tal, mas também é literariamente desafiadora. A linguagem é outro personagem aqui. Uma mistura de coloquialismo, norma culta e poesia. Não é uma leitura fácil. E infelizmente nem sempre dá certo. Essa experimentação funciona muito bem em certos trechos. Em outros, quebra o ritmo da trama. Leitor de fantasia ou não vai encontrar nesse livro uma história complexa e cativante.

3) Quatro Soldados

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Eu sempre quis ler um romance nacional como Quatro Soldados. Samir Machado de Machado mistura sem nenhuma cerimônia e com muita habilidade referências da chamada alta literatura a outras do puro entretenimento. Assim, ele cria uma obra híbrida e muito particular. Tem trama interessante? Tem. Tem protagonistas bem desenvolvidos? Tem. Tem worldbuilding e sense of wonder convincentes? Tem. O texto tem apuro literário? Tem. O romance é episódico. Aventuras passadas num Brasil do século 18 fantástico e brutal. Na verdade, outra delícia do livro é sua autoconsciência irônica, como um bom romance pós-moderno. Parece chato dizendo isso. Pelo contrário. É divertido, sem perder a lucidez, a elegância. Tem seus problemas: falta de personagens femininas de fato relevantes, uma sensação de obra incompleta, conclusão insatisfatória do arco de alguns protagonistas. Quatro Soldados mostra um Brasil mítico para falar sobre o absurdo da realidade, com ecos no país de hoje. Não bastasse o texto cativante, o projeto gráfico da edição em papel é um luxo só.

2) Dois Anos, Oito Meses e 28 Noites

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Volta e meia, autores mainstream pegam emprestados elementos de ficção científica, terror ou fantasia para escrever um romance. Poucas dessas obras apresentam algo de novo, ou relevante para tais gêneros. Salman Rushdie é um autor diferente. Alguém que consegue transitar com desenvoltura entre o erudito e o pop, fazendo uma ponte consistente entre mundos que, no geral, procuram se evitar. No seu divertido, delirante e afiado Dois Anos, Oito Meses e 28 Noites temos uma história cheia de fantasia, ficção científica e terror, uma deliciosa fábula. Na verdade, o livro traz um comentário muito lúcido, mas não pessimista, do caos da vida contemporânea. Passada na Nova York atual, a trama envolve pessoas com super poderes, djins e deuses, procriação e morte, amor e sexo, razão e fé. Com seus personagens carismáticos (inclusive os vilões) e sua maneira sedutora de narrar, como uma Sherazade moderna, Rushdie nos leva pelo braço e mostra um mundo louco, fora de controle, mas também belo e fascinante, pelo qual vale a pena lutar.

1) The Secret History of Wonder woman

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O surgimento da Mulher Maravilha nos quadrinhos é uma mistura de contexto social e vida pessoal. Seu criador, William Moulton Marston, era um entusiasta sincero do movimento feminista, nas primeiras décadas do século 20, nos EUA. Mas também era alguém polêmico e contraditório. E a figura de sua heroína, corpo e mente, foi inspirada em três importantes mulheres de sua vida. O livro de Jill Lepore mostra que a Mulher Maravilha é fruto direto da longa e difícil luta de uma era marcante do feminismo. The Secret History of Wonder Woman é uma leitura geralmente fluida, com mais informações pertinentes do que desnecessárias, rica em fotos e ilustrações e com alguns comentários afiados. A autora é historiadora, professora em Harvard e colaborada da revista The New Yoker. Nos anos 1970, uma geração de pesquisadoras americanas começou a resgatar os acontecimentos do movimento sufragista e feminista nos EUA, entre a segunda metade do século 19 e início do século 20. Era um tipo de elo perdido da historiografia feminista. Jill Lepore dá sua contribuição com seu livro, publicado em 2014. Presente em várias mídias e no imaginário popular por décadas, a Mulher Maravilha se tornou um dos símbolos mais relevantes da cultura pop.

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