BLADE RUNNER 2049: OBRAS-PRIMAS NÃO NASCEM EM ÁRVORES

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Eu queria muito estar errado, mas infelizmente minhas previsões se confirmaram. A sequência de Blade Runner é um bom filme com um visual espetacular, mas inferior a outras produções recentes igualmente ambiciosas, como Mad Max – Estrada da Fúria e A Chegada, do próprio Denis Villeneuve.

Quando anunciaram que haveria uma continuação de Blade Runner, a reação de muitos foi de total descrédito. As lacunas do filme original não precisavam ser respondidas. Quer dizer, vamos ter em mente as muitas versões lançadas ao longo dos anos. A versão que foi para o cinema, em 1982, com a narração de Harrison Ford e o final feliz, mora no meu coração por ter sido a que mais revi, ainda em VHS, depois em DVD. A versão considerada por Ridley Scott como definitiva, The Final Cut, de 2007, também me agrada bastante por ser mais madura e subjetiva.

A melhor maneira de apreciar o filme de Villeneuve é ter visto as versões de 1982 e 2007, lido o romance que originou tudo, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick e ter visto os três curtas lançados antes da estreia do novo Blade Runner, que servem como prelúdios para contextualizar o que aconteceu em Los Angeles (e no mundo) entre 2019 e 2049.

O canadense Denis Villeneuve já se firmou como um dos diretores mais interessantes em atividade, um mestre. Alguém que tem um controle absurdo da mise-en-scène, que sabe deixar o espectador instigado, tenso e mesmerizado. Seus filmes são visualmente desafiadores e provocam a reflexão. Em Blade Runner 2049, um projeto cheio de expectativas e pressões, ele se saiu bem. Entregou uma produção de grande estúdio acima da média, corajosa em bancar uma narrativa mais lenta, em tratar de temas complexos sem muitas concessões.

Não me entendam mal. O filme é bonito e relevante. A fotografia do veterano Roger Deakins é quase indecente de tão esmerada, em tomadas fechadas e abertas, em cores quentes e frias. Os efeitos especiais e sonoros estão totalmente integrados a essa evolução do universo de Blade Runner, com um desenho de produção que soube repaginar o clima noir original para um mundo parte tecnologicamente mais avançado, parte mais apocalíptico. Ryan Gosling carrega o filme nas costas. Seu personagem tem um arco emocional de fundir a cabeça de qualquer um. E ele nos leva junto nessa jornada cheia de dor física e mental. O Deckard coroa de Harrison Ford está ótimo, numa performance muito superior ao Han Solo de O Despertar da Força. Robin Wright, como a chefe do personagem de Gosling na polícia, Ana de Armas, a namorada virtual dele, e Sylvia Hoeks, a braço direito do personagem de Jared Leto, também são presenças marcantes.

Mas o filme tem três problemas: o roteiro, a duração e a trilha sonora. Problemas graves que comprometem as ideias, a coesão e a estética de Blade Runner 2049.

O maior mérito do roteiro foi manter a coisa simples, não investir em grandes conspirações nem em preparar uma futura franquia. Algumas pontas ficam soltas para uma possível sequência, mas isso não compromete a trama. Hampton Fancher (um dos roteiristas do original) e Michael Green (roteirista do ótimo Logan, mas das bombas Lanterna Verde e Alien: Covenant) mantiveram o clima de filme policial, de investigação.

O roteiro aprofunda a questão dos replicantes. Temos aqui um cenário mais complexo e variado, em que temas como preconceito, identidade e escolha são mais urgentes do que no primeiro filme. Mas essa discussão para no meio do caminho pelos equívocos narrativos. Os personagens coadjuvantes são menos interessantes em comparação aos do primeiro filme. A entrada de K, o personagem de Gosling, na história, com a ótima participação de Dave Bautista, é muito conveniente. A subtrama envolvendo a doutora Stelline, a criadora de memórias, me incomodou bastante. Analisando em retrospectiva, não faz muito sentido. E o dilema de ser ou não ser humano foi melhor trabalhado recentemente no filme Ex-Machina e na série Westworld, por exemplo.

Para frustração dos fãs, o aspecto religioso do romance por meio do mercerismo, uma espécie de cristianismo midiático, não foi explorado. Mas talvez a semente tenha sido plantada para ser desenvolvida mais adiante.

Não tenho problema com filmes lentos e longos. Adoro Tarkosvky. Mas, em Blade Runner 2049, 163 minutos se mostraram excessivos. Em certos trechos, os diálogos estão menos inspirados ou o silêncio não causa tanto impacto visual e sonoro.

Depois que Villeneuve foi confirmado como diretor desse filme, fiquei curioso para ver como seu compositor de longa data, o islandês Jóhann Jóhannsson, trabalharia musicalmente o universo de Blade Runner, tendo a icônica trilha sonora de Vangelis para assombrá-lo. Fiquei imaginando o que Jóhannsson poderia criar depois da música assustadora de Sicario e do mistério e da estranheza de A Chegada. Mas, poucos meses antes da estreia, Jóhannsson abandonou o filme, numa história ainda não explicada direito. Então os produtores recorreram ao onipresente Hans Zimmer, às pressas. Ele e seu pupilo Benjamin Wallfisch (responsável pela trilha do novo IT) fizeram uma música que fica entre uma imitação de Vangelis e a trilha do Batman de Nolan, numa pegada eletrônica, investindo mais em sintetizadores. É uma trilha eficiente em seus melhores momentos e irritante em seus piores. Não é memorável. Esse filme precisava de uma trilha sonora memorável.

O Blade Runner de 1982 foi um raro momento do cinema, no qual misturaram sorte e competência para reunir um punhado de pessoas brilhantes na produção de uma obra-prima. Depois o próprio Ridley Scott não conseguiu fazer nada tão bom ou próximo disso.

Blade Runner 2049 mostrou sua razão de ser. O mundo é um lugar melhor com a existência desse filme. E abriu as portas de vez para uma franquia que agora ninguém mais vai torcer o nariz.

Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve, 163 min., Warner Bros.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

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