REALIDADE E SONHO, DOIS LADOS DA MESMA ARMADILHA

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Virei fanboy do mangaká Inio Asano ao ler Solanin, publicado em dois volumes no Brasil pela L&PM, em edições de bolso muito bem cuidadas. Solanin é uma slice of life, gênero de mangá que trata do cotidiano. Não tem nada de sobrenatural ou heroico. É a vida que segue. E Asano mostra jovens cheios de sonhos, mas paralisados por uma existência sem sentido. As exigências da vida adulta aprofundam essa crise. É triste pra caramba. E também muito sincero. Os personagens não são melancólicos para fazer pose, ser cool. Há uma angústia os devorando por dentro. Esse embate entre a vontade de realizar algo e o sentimento de vazio é o tema central em Solanin.

Em Nijigahara Holograph, temos uma luta mais feroz, entre manter ou perder a sanidade. Aqui Asano leva o leitor a uma jornada, ao mesmo tempo, bela e desumana, num tom muito mais sombrio. É como se David Lynch tivesse resolvido fazer um mangá. Pega-se o cotidiano, banal e repetitivo, e o viram pela avesso, expondo os demônios que carregamos dentro de nós. Há uma alternância entre imagens e sentimentos harmoniosos com cenas de pura violência e degradação. Parece que a todo momento Asano faz sempre a mesma pergunta: como pode haver tanta beleza e brutalidade no mundo? Os personagens de Nijigahara Holograph ou são vítimas, ou algozes. Às vezes, ambas as coisas. Os jovens angustiados estão lá. Mas agora tudo é bem mais sinistro.

Asano é um artista completo. Roteirista de mão cheia e ilustrador genial. Ele sabe a importância do silêncio na página como poucos. Seus personagens não falam muito. O resto é dito por imagens poderosas, seja pela delicadeza ou pela crueldade. Suas tramas são mínimas. O desenvolvimento de personagens é o grande charme do trabalho de Asano. Em Nijigahara Holograph, ele viaja, delira, numa mistura de conto de fadas e história de terror. Como se apenas fosse possível falar dos horrores, bastante humanos, praticados ao longo da narrativa, fragmentada e não-linear, por meio de metáforas. Por isso, as imagens nunca dizem uma única coisa, nunca têm um só sentido, nunca chegam a uma conclusão de fato. Cabe ao leitor interpretá-las, preencher suas próprias lacunas.

A JBC fez um ótimo trabalho nesse volume único. É uma edição gostosa de ter nas mãos. Bonita, prática e com acabamento de primeira. As próximas leituras da obra de Asano já estão engatilhadas: A Girl on the Shore (Vertical Comics) e A Cidade da Luz, que acaba de sair no Brasil pela Panini. Enquanto isso, fico na torcida para a série Goodnight Punpun ganhar uma versão digital gringa com preço acessível ou ser publicada por alguma editora brazuca.

Nijigahara Holograph, de Inio Asano, 296 págs., JBC.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM , MUITO BOM, EXCELENTE

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