OS 6 MELHORES FILMES QUE VI EM 2016

Este ano vi filmes muito bons, no cinema, na TV a cabo e na Netflix. Darei destaque apenas aos que assisti na telona. Inclusive às ciladas. A maior delas foi Batman vs Superman. Eu já estava desanimado pelo filme ser obra de Zack Snyder. Mesmo assim, eu tinha que ver a coisa com meus próprios olhos. Ao sair do cinema, tive vontade de arrancá-los. Outra grande decepção foi Star Trek – Sem Fronteiras, uma trama frouxa com os personagens tão subaproveitados. Outro exercício de masoquismo foi ver Esquadrão Suicida, aquela colagem de cenas sem sentido, sem graça. Pra fechar a sessão de tortura, o quadradão e racista A Lenda de Tarzan. Para compensar, teve o sempre acima da média Tarantino com Os Oito Odiados. Capitão América: Guerra Civil, num pegada deliciosa de saga de quadrinhos. O divertido e maduro Zootopia. E o sombrio e deslumbrante Rogue One. Os seis filmes escolhidos como os melhores do ano são aqueles que me causaram aquela sensação de arrebatamento, que não saíram da minha cabeça por dias ou semanas por sua excelência técnica e abordagem fora dos padrões.

6)Deadpool

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Como a adaptação de um personagem de quadrinhos pouco conhecido, com um orçamento muito abaixo das grandes produções, tornou-se sucesso de crítica, de público e de bilheteria? A resposta não é tão simples, mas pode ser resumida: liberdade de criação. Os realizadores de Deadpool foram inteligentes em criar uma comédia de ação muito bem azeitada. Ryan Reynolds tem aqui a interpretação de sua vida. Um ator que muitos consideram insuportável, mas que arrasa como Wade Wilson/Deadpool. Totalmente despido de ego. Afinal, ele se matou dentro e fora da tela para que esse projeto vingasse. Era praticamente sua última chance como astro de cinema. O diretor estreante em longas Tim Miller mostra muita segurança. Ele entrega um filme com timing de comédia e de ação impressionantes. A montagem tanto acompanha a agilidade dos diálogos quanto a destreza e força das lutas, em coreografias excitantes e claras. O orçamento menor fica evidente em alguns momentos, principalmente, nos efeitos especiais. Não existe nada malfeito, e sim com menos textura. Mas o espectador não está nem aí. A atmosfera do filme é tão legal que certos aspectos mais toscos combinam bastante com toda a zoeira. Agora os verdadeiros heróis de Deadpool, como a hilária sequência de abertura ressalta, são os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick. Sem esse roteiro, Deadpool seria uma boa comédia de ação apenas. O roteiro tem diálogos afiadíssimos e escrachados  em suas autoreferências e metalinguagem, recursos derivados do personagem nas HQs. Outro ponto inteligente é a estrutura, usando de forma dinâmica os flashbacks. A trama é convencional. Herói ou anti-herói quer se vingar de bandido. O grande barato está na maneira como isso é feito. Deadpool mostra o ridículo do universo dos super-heróis, mas também reconhece que sem eles o mundo seria mais chato.

5)A Chegada

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O diretor canadense Denis Villeneuve é um nome ascendente em Hollywood. Conhecido pela extrema segurança ao filmar, pela beleza de suas produções e por provocar o espectador com questionamentos morais. Alguns o chamam de brilhante, um novo mestre do cinema. Outros de farsa, com domínio técnico demais e ideias de menos. Em A Chegada, ele provoca o espectador a repensar conceitos como vida, morte, escolha e destino. É um filme otimista. Emocionante, sem ser piegas. Eu já tinha lido a novela Story of your life, de Ted Chiang, na qual A Chegada se baseou (recentemente a editora Intrínseca publicou uma coletânea do autor). A grande revelação do filme não foi nenhuma surpresa para mim. Minha curiosidade estava em saber como fariam a adaptação da história de Chiang, por causa de sua estrutura peculiar. E também como tratariam as ideias e discussões científicas. Posso dizer que A Chegada é uma bela adaptação, fiel na medida do possível. E mesmo quem já leu a novela vai se surpreender com algumas novidades. A Chegada é bem-sucedido em traduzir, num fenomenal trabalho de montagem, a estrutura menos convencional de Story of your life. A única atuação que realmente se destaca é a de Amy Adams. Ela domina o filme. É um papel exigente, sutil, cheio de nuances e variações emocionais. Não há gritaria nem caras e bocas. Ela foi mais do que convincente. Alguns podem dizer que o filme é pretensioso. Muita pompa para ideias que não se sustentam. Discordo. A Chegada é um entretenimento visualmente arrojado com substância. Estimula o debate de temas relevantes com honestidade. Já entrou para a lista dos melhores filmes de FC de todos os tempos.

4) Creed

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O filme sabe dosar bem momentos de drama, sem apelar para a pieguice, e momentos de ação, cheios de energia. O diretor Ryan Coogler mostra muita habilidade em criar uma atmosfera que te deixa ligado na tela o tempo todo, usando fotografia, montagem, efeitos sonoros e música, numa pegada bem contemporânea. Mas não é videoclipe. A direção das lutas coloca o espectador quase em primeira pessoa, em planos-sequência muito bem coreografados, que não parecem encenados. O filme a todo instante faz referência à franquia Rocky. Mas os elementos do passado são integrados à trama de uma maneira bem orgânica. Além de um empolgante filme de boxe, Creed é um tocante drama familiar, que também não deixa de ser divertido. O trio principal está muito bem (Stallone, Michael B. Jordan e Tessa Thompson). B. Jordan tem muita presença física, carisma e um arco complexo. Tessa Thompson interpreta uma personagem cheia de atitude. E não vejo Stallone tão bem há muitos anos. Ele está atuando mesmo, e não fazendo pose de astro de Hollywood. Esse é um Rocky frágil, doce, mas cheio de experiência sobre boxe, sobre a vida. Gonna fly now, o  tema clássico de Rocky, toca apenas uma vez durante o filme. E é de arrepiar.

3) Boi Neon

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O diretor pernambucano Gabriel Mascaro reinventou o imaginário do Nordeste ao mostrar a realidade contemporânea da região, onde progresso, miséria, tradição e cultura pop andam lado a lado. Na superfície, acompanhamos o cotidiano das vaquejadas, onde a virilidade de homens e animais é tão presente. Mas o interesse aqui é mostrar outro olhar sobre esse universo, considerado brutal por muitos. O filme não tem propriamente uma trama. É um estudo de personagens. E eles são tão ricos, tão bem representados, que nos ganham a cada cena. A entrega do elenco é total, dos atores profissionais e dos não-atores. Vemos um questionamento constante de papéis e de dinâmicas sociais, do que é ser masculino e feminino. Iremar, um vaqueiro, almeja ser estilista de moda. Enquanto Galega dirige um caminhão e cria a filha sozinha. Mas há muito mais. Cada personagem tem seu encanto e sua subversão. A transição entre comédia e drama não é forçada. Os diálogos divertidos, tensos, ou delicados nunca tiram o espectador desse mundo. A montagem é paciente, mas vigorosa, com o uso frequente de longas tomadas. A direção de arte é enganosamente simples, recriando o ambiente rural, em locações reais. A fotografia estiliza o sertão sem parecer artificial, falso, com planos abertos durante o dia e o uso de cores fortes à noite. A trilha sonora, com sucessos nacionais, canções estrangeiras e música original, amplia o impacto das imagens. Boi Neon fala sobre sonhos, mas nunca de maneira romântica.

2)A Bruxa

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Filmes de terror marcantes não são aqueles que dão os maiores sustos, mas os que mexem com nossos mais profundos medos. Em A Bruxa, vemos o que acontece quando a sociedade patriarcal não funciona como o esperado. Numa produção de baixo orçamento, mas visualmente sofisticada, o diretor e roteirista estreante Robert Eggers perturba o espectador com um olhar perspicaz, analisando como o fracasso e a frustração podem colocar em teste até as certezas mais inabaláveis. O filme faz um embate constate entre norma, caos, sanidade e delírio. E isso afeta nossa própria percepção do que estamos vendo. As imagens sobrenaturais são reais, ou são projeções dos personagens, uma forma do diretor tornar mais evidentes os medos de cada um deles? A produção cria uma cenário verossímil e claustrofóbico. Acreditamos nas dúvidas dos personagens porque as atuações são incríveis, principalmente, dos quatro filhos. Até os animais estão maravilhosos! Tem um coelho que é muito assustador. Alguns podem considerar o filme lento e chato. Mas, na verdade, ele tem paciência em construir uma atmosfera de paranoia ao extremo. Já disseram que A Bruxa é uma anti-fábula, que o intuito do filme não é pregar uma moral, mas subvertê-la.

1)Elle

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Este filme francês é o melhor da carreira de Paul Verhoeven, superando até mesmo Robocop, uma violenta sátira ao american way of life e ao capitalismo, mas com um final conservador. Em Elle, Verhoeven está livre para desafiar o espectador até o último segundo. E assim como George Miller, diretor de Mad Max – Estrada da Fúria, o cineasta holandês prova que, aos 78 anos, está em evolução como artista.

Originalmente, Elle era para ser produzido nos EUA e protagonizado por uma estrela de Hollywood. Mas nenhum estúdio e nenhuma atriz se interessaram pelo projeto, considerado polêmico demais. Verhoeven ganhou fama de provocador com filmes, muitas vezes, classificados como apelativos. Mas, em Elle, a provocação é mais complexa. Aqui a rejeição pelo projeto tem mais a ver com o incômodo das verdades expostas, a profunda análise da condição humana.

Verhoeven levou o projeto para a França, terra do autor do romance que deu origem ao filme. O roteiro do americano David Birke foi vertido para o francês. E o cineasta holandês encontrou em Isabelle Huppert sua protagonista perfeita. Huppert é a força motriz dessa mistura de thriller, sátira social e drama familiar. Michèle Leblanc é uma mulher de 50 anos, empresária de sucesso, cercada por homens que questionam sua posição de poder, mãe, avó e alguém que não tem pudores em satisfazer sua libido. O personagem de Huppert é pragmática, irônica, decidida e imperfeita. Além disso, possui um passado sombrio. O interessante é que Verhoeven, em nenhum momento, pretende julgar Michèle. Ela é um mecanismo do diretor para abalar nossas certezas.

A segurança da direção é absurda. Verhoeven varia entre o intenso e o discreto com muita habilidade. A mise-en-scène cria uma atmosfera hitchcockiana, levando para outro nível o que já tinha sido feito em filmes como Instinto Selvagem e O Homem das Sombras. Elle é muito francês em seu conteúdo, mas com formato de suspense americano, na verdade, uma subversão do gênero. Amado ou odiado, considerado feminista ou misógino, Elle é um deleite visual e um veículo de discussão poderoso.

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