OS 6 MELHORES LIVROS QUE LI EM 2016

6) Série The Elephant and Macaw Banner, de Christopher Kastensmidt, 287 págs., independente.

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O mundo da série The Elephant and Macaw Banner (A Bandeira do Elefante e da Arara), criado pelo americano Christopher Kastensmidt, radicado em Porto Alegre, é um Brasil fantástico do século XVI, onde as lendas e mitologias formadoras do país ganham vida. Saci Pererê, Boitatá, Curumim, Iara, Labatut, Capelobo e outros. Até agora foram publicadas sete aventuras da dupla Gerard van Oost e Oludara. O primeiro um holandês que veio ao Brasil em busca de fortuna. O segundo um africano do Ketu (atual Benin), trazido à força como escravo. Ambos selam um pacto de amizade que é o fio condutor da série. É uma amizade improvável, mesmo numa versão fantástica de nossa História. O período colonial foi um dos mais brutais, com pouquíssimo espaço para sutilezas e compreensões de outras culturas. Mas, no Brasil criado por Kastensmidt, há gente de muito caráter, a começar pela dupla protagonista. Aqui a gentileza tem uma importância fundamental. É uma mentalidade contemporânea num cenário histórico. O autor mostra o esforço de suas pesquisas sobre as culturas e lugares do período com descrições ricas e dinâmicas, geralmente fugindo dos clichês, sem nunca atrapalhar o ritmo da narrativa e o desenrolar da trama. Uma das noveletas foi indicada ao prêmio Nebula. Este é um universo em expansão, com quadrinhos, jogo de RPG e, recentemente, foi publicada a versão em romance das aventuras de Gerard e Oludara em português pela Devir.

5) Ball Jointed Alice, de Priscilla Matsumoto, 212 págs., Draco

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Não é um livro para todos os estômagos ou cabecinhas. Acompanhamos aqui vários tipos de distúrbios mentais, de comportamento e familiar. Drogas, sexo e rock and roll, ou melhor dizendo, punk. Alguns podem classificar a história de emo, pelas atitudes sexuais, estados emocionais e referências à banda My Chemical Romance. Mas isso seria considerar apenas uma parte das influências da autora, que passam por Haruki Murakami e, claro, a Alice de Lewis Carroll. Realidade, sonho e pesadelo se misturam, deixando protagonista e leitor sem chão, desconfiando de tudo. Quem viu o anime Perfect Blue consegue ter uma boa ideia do que se trata. Dois nomes que não me saíram da cabeça enquanto eu avançava a leitura foram Philip K. Dick e Kafka. O pesadelo da paranoia. O maior mérito da autora foi saber dosar momentos de ação, o drama dos personagens sendo exposto, por meio de descrições e diálogos, e momentos de digressão, principalmente, de Frank, o narrador. Ela faz essa dobradinha com muita fluidez e uma poesia dura, de impacto. Além de lançar ideias sobre a vida e o mundo bem consistentes, iluminadas.

4) Binti, de Nnedi Okorafor, 96 págs., Tor

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Binti é uma garota muito curiosa, matemática brilhante e filha de um fabricante de astrolábios. Ela faz parte do povo Himba. Um povo que dá valor ao conhecimento, mas muito fechado em si, bastante apegado às tradições. Quando a jovem decide viajar para outro planeta, onde se encontra a universidade mais prestigiosa da galáxia, gera-se uma crise familiar. Na viagem, o contato com uma raça alienígena será revelador para Binti. A força da prosa da autora está em elaborar um texto simples, fluido, muito gostoso de ler, que levanta ideias pouco convencionais sobre os papéis da mulher, sede de conhecimento, poder do estado, tradição, modernidade e negritude. É uma história principalmente sobre a identidade que escolhemos para nós mesmos, a partir de nossa cultura e da relação com culturas diferentes. É um texto ora brutal, ora cheio de amor. Okorafor subverte as convenções da ficção científica para tornar o gênero mais vibrante. A novela ganhou os prêmios Nebula e Hugo deste ano.

3) Max Perkins – um Editor de Gênios, de A. Scott Berg, 544 págs., Intrínseca

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Perkins se tornou uma lenda no mundo editorial dos EUA no início do século 20. Ele mudou a literatura americana ao descobrir autores como F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Perkins respeitava os autores do passado, mas sua vontade era trabalhar com novas ideias, novas abordagens da vida americana. Mas ele teve que insistir muito na editora onde trabalhava, a tradicional Scribner, para publicar autores talentosos, mas erráticos. A biografia de A. Scott Berg foca nos três mais famosos e encrenqueiros: Fitzgerald, Hemingway e Thomas Wolfe. O caso mais interessante do livro é a relação entre Perkins e Wolfe. Serve principalmente para percebemos como opera um editor dedicado. Claro que o exemplo de Perkins é bastante particular, mas, de maneira geral, todos os mecanismos da função estão presentes. Chegando ao extremo com Wolfe, autor talentoso, indisciplinado e de temperamento difícil. Ele não ligava muito para a coesão de sua escrita. Terminava manuscritos de milhares de páginas e cabia a Perkins achar um livro ali dentro. O editor lia tudo minuciosamente, sugerindo mudança de ordem de capítulos, supressão de outros, desenvolvimento de personagens e cenas, e mais clareza em certas ideias. Mas Perkins sempre afirmava que qualquer livro era fruto do talento do autor, que a discrição do editor era a coisa mais importante do ofício. Ele chegou a dizer: “Gostaria de ser um anãozinho no ombro de um grande general, aconselhando-o sobre o que fazer e o que não fazer, sem que ninguém percebesse”. O livro foi originalmente publicado em 1978. Deve haver novos dados sobre Perkins por aí, mas a biografia não parece datada. Leitura obrigatória para quem deseja conhecer mais sobre um importante episódio da história do mercado editorial e da cultura americana.

2) A Desobediência Civil, de Henry David Thoreau, 150 págs., Companhia das Letras.

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Thoreau foi um dos pensadores mais fascinantes do século 19. Os EUA de sua época eram um país que utilizava o trabalho escravo e a conquista de territórios em nome do progresso. Thoreau era totalmente contra a escravidão e o pagamento de impostos para financiar um estado bélico que se apropriava de porções do México e massacrava povos indígenas. Para ele, a desobediência civil era legítima quando o governo não representasse mais as prioridades de uma sociedade justa. Como o próprio Throreau diz, um governo só é eficiente quando valoriza a vida. Portanto, é dever de cada um fazer algo concreto para tornar as autoridades cientes disso. Ou seja, não corroborar com as normas sociais que fortalecem o estado e rebaixam o ser humano. Quando uma lei é injusta ou imoral, ela deve ser desacatada. Esta edição da Companhia das Letras traz o famoso ensaio e outros textos de Throreau. Um autor de ideias poderosas e estilo sedutor. O livro está repleto de trechos que podem ser destacados, tornar-se máximas afiadas. A leitura não é completamente empolgante. Há passagens descritivas demais ou reflexões menos inspiradas. Porém grande parte do material é cheio de insights também sobre as prioridades na vida individual e em sociedade, as vantagens da solidão e de um cotidiano mais simples para descobrir a si mesmo e a valorização da natureza. Thoreau era um idealista com os pés no chão. Sabia como o mundo funcionava. E, por isso, queria transformá-lo. Em vida, o reconhecimento de sua obra foi restrito. Mas, no século 20, sua influência foi enorme na política, literatura e filosofia, na voz dos descontentes.

1)Kindred, de Octavia E. Butler, 264 págs., Beacon Press

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Acompanhamos a história de Dana, uma jovem escritora negra, na Los Angeles de 1976 (o romance foi publicado em 1979). Recém-casada, ao se mudar para a nova casa com o marido, Kevin, um escritor branco, inexplicavelmente, Dana é transportada no tempo e no espaço para a zona rural de Maryland, em 1815, antes da Guerra Civil Americana. A narração em primeira pessoa emula os relatos de ex-escravos que se tornaram marcantes na literatura americana pós-Abolição. O recurso da viagem no tempo permite um contraste poderoso. A voz de uma mulher negra contemporânea contando sua experiência como escrava. É um discurso articulado, cheio de insights sobre uma variedade de temas (racismo, poder, sexualidade, dominação, escolha…), sempre fazendo conexão com o que acontece com a mulher negra no passado e no presente. O texto é fluido, direto e imersivo. Butler soube muito bem equilibrar pesquisa e invenção. A voz de Dana nos passa toda a verossimilhança daqueles EUA do século 19, de como aquela sociedade funcionava, com seu cheiros, gostos e costumes. Principalmente, tomamos conhecimento da mentalidade de posse sobre a população negra. O elenco de personagens mostra pessoas negras e brancas de maneira complexa, no contexto brutal da escravidão. A relação entre mestres e escravos não é feita entre monstros e pessoas subservientes. E sim entre gente branca comum, que detém o poder sobre os corpos de suas propriedades, apoiada por toda uma sociedade escravocrata, e gente negra aviltada, que detém apenas o poder de cometer suicídio ou tentar uma difícil fuga para a liberdade. Este romance é um triunfo, tanto como peça de ficção quanto de reflexão. Butler flerta com a polêmica ao tratar da escravidão nos EUA de maneira complexa, sem ceder a maniqueísmos. Ganha a autora, por elaborar uma narrativa tão madura. Ganha o leitor, ao se deparar com um texto cheio de nuances e ideias desafiadoras.

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