AS 6 MELHORES SÉRIES QUE VI EM 2016

Já faz algum tempo que as séries de TV (e agora também dos serviços de streaming) superaram o cinema (principalmente, o americano) em termos de maturidade narrativa. Hoje em dia, não tenho mais saco nem tempo para assistir séries com temporadas longas, com vinte e tantos episódios; produto típico da TV aberta. Canais fechados geralmente produzem séries mais curtas, com tramas mais amarradas. Com o surgimento da Netflix e outros serviços semelhantes, o formato se transformou de vez, adequando-se mais à história que quer se contar e não o contrário.

6) Sherlock Holmes: A Noiva Abominável

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É uma delícia ver Cumberbatch e Freeman numa adaptação de época de Sherlock. O roteiro de Mark Gattis, que também interpreta Mycroft, conteve as pirotecnias narrativas de Steven Mofatt. A ciranda de reviravoltas está lá, porém é mais eficiente, orgânica e com propósito, sem deus ex machina. Há soluções para a trama bastante criativas, algumas realmente impressionantes. O clima de terror funciona. Outro elemento intrigante é a brincadeira metalinguística com o próprio ato de pensar, de escrever ficção, com acontecimentos dos episódios anteriores e com a vida e obra de Conan Doyle. Há problemas (principalmente, uma visão equivocada do feminismo). Mas, no fim, deixou o gostinho de que a série pode voltar a ser divertida.

5) Master of None

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Aziz Ansari foi inteligente em criar e estrelar uma série cômica que não fosse estúpida, como The Big Bang Theory, nem escrota, como South Park. Ele calibrou os riscos da empreitada, entregando uma produção diferente, mas que não deixasse de ser fofa, de criar empatia. O que Ansari traz de novo à comédia romântica é a visão de um protagonista que não é branco. É muito interessante ver um cara, descendente de indianos, tentando viver uma vida normal. Claro que temas importantes como racismo, misoginia, feminismo e estereótipos culturais estão presentes na série, em destaque. Porém esses temas são trabalhados de maneira orgânica no roteiro, sem parecer forçado e sem perder sua urgência. A série tem uma pegada pop, com uma pitada hipster, cheia de ótimas músicas. É uma atração leve. Alguns diriam leve demais para um mundo em explosão, considerando a intolerância a minorias e culturas não brancas. Mas a série não é desonesta. Entrega o que propõe, sem ser esquecer o contexto diverso e complicado em que vivemos.

4) Stranger Things

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A série sensação de 2016 foi uma surpresa que ninguém tinha previsto. Depois do lançamento na Netflix, o boca-a-boca incendiou a internet. Os criadores, os irmãos Duffer, fizeram direitinho o dever de casa. É uma nostalgia da cultura pop dos anos 80 que eles não vivenciaram, por serem mais novos, mas que convence. A trilha sonora original é ótima, lembrando as de John Carpenter, assim como as músicas de artistas da época. Destaque também para os efeitos sonoros e a edição de som. Há problemas de roteiro, o horror não assusta tanto, porém o mistério estimula a gente a ir logo para o episódio seguinte. E os personagens mirins arrasam. É uma produção que tem o passado como conteúdo, mas que, em termos de formato, mostra os novos rumos da TV.

3) Luke Cage

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O verdadeiro poder da série é mostrar como a cultura pop pode abordar temas relevantes de uma maneira acessível. O foco aqui está na questão da negritude, de como é ser negro num mundo racista. O criador da série, Cheo Hodari Coker, teve a benção da Marvel para mostrar sua visão, mas seguindo certas regras. Mesmo assim, ele conseguiu realizar a produção mais adulta da Casa das Ideias até agora. A série empolga mais do que decepciona. É vibrante e autêntica. A ação pode não ser tão coreografada como na série do Demolidor. Mas acompanhamos alguns dos diálogos mais afiados da TV ou do cinema americano recente. Outro destaque são as personagens femininas. Mulheres negras em posições de poder, sejam heroínas ou vilãs, com atitudes que desafiam estereótipos. Luke Cage é um poderoso manifesto pop. Como um rap que diz a real entre uma batida e outra.

2) Mr. Robot

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A primeira temporada expõe as vísceras das megacorporações, a razão de ser do capitalismo. A série tem um clima cyberpunk, tantos pelas ideias anti-establishment como pela estética soturna. É um retrato realista da cultura hacker (na medida do possível, segundo especialistas). É a série pop mais tensa dos últimos tempos. A trilha sonora eletrônica retrô de Mac Quayle é decisiva para causar esse efeito. E as músicas de artistas de décadas anteriores, como Echo and The Bunnymen, Pixies, Tangerine Dream e Neil Diamond, contribui para reforçar o tom de ironia nervosa, de desconforto com os tempos atuais. Os roteiros possuem diálogos perturbadores e a trama se desenvolve fugindo de clichês, com reviravoltas convincentes e que deixa o espectador sem chão. Eliott, o hacker protagonista, vivido por Rami Malek, incorpora monstruosamente bem a atmosfera de desesperança e paranoia da série. À medida que os episódios avançam, você reconhece referências de filmes que todo mundo já viu. Mas o criador, Sam Esmail, também se inspirou no mundo real, no Movimento Occuppy, na Primavera Árabe, na era pós-Snowden. Em termos de produção e narrativa, a série é praticamente perfeita. Mas há uma contradição de fundo, no mínimo, estranha: como considerar a autenticidade de uma série sobre derrubar o sistema que é financiada por um canal de TV pertencente a uma corporação de mídia?

1) Westworld

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Apesar das incertezas do público e da própria HBO antes do lançamento, Westworld se tornou a melhor série do ano. A produção foi interrompida, a data de estreia adiada. Geralmente, atrasos são sinônimos de problemas. Mas, agora sabemos, a pausa serviu principalmente para aprimorar os rumos da série. Os criadores Lisa Joy e Jonathan Nolan conseguiram superar expectativas. Westworld é o ápice da TV, em termos de produção e proposta. E mostra que a HBO não está morta, mesmo com a perda de espaço para serviços de streaming como a Netflix. E que o formato do episódio semanal ainda funciona, criando um buzz potente.

Os criadores da série conseguiram tirar leite de pedra de uma premissa muito básica (a interação de humanos e robôs num parque temático do velho oeste no futuro). As possibilidades narrativas eram inúmeras. Ao invés de se perder, o casal Joy/Nolan fez escolhas interessantes e corajosas. Souberam misturar, na medida certa, discussões filosóficas, antropológicas e sociais com uma trama envolvente.

O sucesso de Westworld se deve também ao alto nível da produção. Fotografia, direção de arte, figurinos, locações, trilha sonora, efeitos especiais e sonoros transformaram a atmosfera da série em algo complexo e excitante. E as atuações foram o que ganharam de vez o espectador. Personagens muito bem desenvolvidos e interpretados. Anthony Hopkins deu um show, provando que ainda está em forma. Outros atores tiveram as performances de suas vidas, como Jeffrey Wright , Thandie Newton e Evan Rachel Wood. E eu nunca vi Rodrigo Santoro tão bem! Westworld veio para ficar e explodir nossas cabeças.

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