A COR DA JUSTIÇA É NEGRA

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Participei de um concurso de textos em prosa e verso, em celebração ao dia da Consciência Negra, com um tema envolvendo negritude e Justiça. O resultado saiu hoje. Não ganhei, mas fiquei feliz pelas vencedoras. Elas mandaram bem. Leiam abaixo meu conto.

1.

Coloco a cara de adolescente ou de homem fora de casa, de manhã cedo, para ir trabalhar, para ir estudar, carregando comigo certa ansiedade. O que será desta vez? Vão me deixar em paz hoje? Vão deixar eu tocar minha vida como qualquer outra pessoa? Vão me enxergar além da minha pele?

2.

Meu dever de professora é ensinar aos meus alunos o seguinte: no Brasil, é a polícia quem decide se você é negro ou não. Branco sai, preto fica. Branco vive, preto morre. O preconceito não é apenas social, não é apenas contra quem é pobre e se chama Silva, Santos ou Conceição.

3.

Minha família é bastante miscigenada, com toda uma variação de cores. Há gente de pele clara e de pele escura, com cabelo crespo e cabelo liso, com narizes e bocas e rostos de todos os formatos, gente que mora nos subúrbios e em bairros de classe média. Dizem que sou pardo (odeio essa expressão). Então me pergunto: eu sou negro? Não sofro o mesmo preconceito que alguém de pele mais escura. Porém em ambientes onde eu sou o mais escuro, o não-branco, o cara de lábios grossos e cabelo crespo, o racismo acontece, o mais velado possível, principalmente, nos olhares.

4.

Quanto mais escura for minha pele, pior será o julgamento. Triste dizer, mas é simples assim. Não importa se sou rico ou pobre. A cor da minha pele sempre será assunto de debate. Discutir meu caráter? Não me faça gargalhar. Vamos deixar isso pra depois.

5.

Não pense, cidadão, não pensem, autoridades, que já nasci bandido só porque minha pele é preta. Pensem nos meus ancestrais (que talvez sejam seus também, mesmo que não façamos ideia de quem eles eram), trazidos contra a vontade para o Brasil. Durante a travessia infernal, não morreram de escorbuto, de fome, de tantos açoites, de epidemias, não cometeram suicídio, não foram jogados ao mar, ainda com vida, acorrentados a outros iguais por se tornarem um estorvo. Chegaram aqui como mercadoria: força braçal e moeda de troca. Sofreram todo tipo de violência para gerar riqueza. Depois foram libertados, a mando das potências industriais, para virar mão de obra barata. Os negros libertos fundaram as periferias, subúrbios e favelas. Segregados pelos muros do racismo institucional. O Estado, a iniciativa privada, os detentores do poder sempre viram a população negra como um mal necessário. Empregadas domésticas, babás, motoristas particulares, de ônibus, limpadores de banheiro, garis, operários da construção civil, policiais, soldados, eleitores, consumidores. Que não se atrevessem a sair de suas posições demarcadas. Mesmo que houvesse uma grande revolta pela carência de tudo. Sem saneamento para todos, sem boa educação, sem saúde eficaz, sem emprego decente. Mas as forças de segurança, os tribunais, as cadeias sempre estiveram aí para quem ousasse abalar a ordem das coisas, para quem discordasse dessa pax social.

6.

Atravesso a rua às pressas. Estou de chinelo, boné, camiseta e atrasado para encontrar com minha namorada. Uma senhora me olha apreensiva. Ela acha que vou assaltá-la? Minha filhinha vai sozinha ao caixa da lanchonete comprar um sorvete. Funcionários se aproximam. Pensam que ela está ali para pedir comida, importunar os clientes. Ocupamos uma sala de aula na universidade para falar sobre os casos de racismo na instituição, cometidos por alunos e professores, já que aqueles estudantes brancos nunca vão aos debates marcados para ouvir e discutir sobre o tema. Somos chamados de vitimistas. Numa noite fria, cubro a cabeça com o gorro do meu casaco. Ando sozinho pelo meu bairro. Uma viatura encosta, policiais me abordam. Não sei se voltarei para casa com minha dignidade intacta ou a vida.

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