8 LIVROS PARA O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Este ano, o dia da Consciência Negra cai num domingo.  Amanhã será uma ótima oportunidade para pegar um livro, conhecer diversas realidades negras e refletir sobre o passado, o presente e o futuro. A proposta é indicar romances, novelas e um livro de contos que podem ser lidos em um dia. Na verdade, são sete regras e uma exceção. Os autores são nacionais e estrangeiros, homens e mulheres. Quatro mestras e quatro mestres, de antes e de hoje. Porque o racismo sempre deve ser combatido junto a todos os outros preconceitos. E enaltecer a cultura negra é uma forma de exigir respeito e igualdade de condições.

AUTORES ESTRANGEIROS

O MUNDO SE DESPEDAÇA, de Chinua Achebe, 240 págs., Cia das Letras.

mundo

Publicado em 1958, fala sobre os conflitos da cultura tribal nigeriana com a cultura missionária europeia. Historicamente, o livro tem uma importância enorme. Tornou-se a maior referência da literatura africana dentro e fora do continente.

O romance não é politicamente correto. Não é panfletário. Acima de tudo, é uma competente obra de ficção. Seu maior mérito foi ter sido escrito com a intenção de ser lido, principalmente, pelo povo nigeriano. É um livro curto, escrito numa linguagem clara. Chinua Achebe poderia ter escrito um livro mais ambicioso, em tamanho e experimentação narrativa, para agradar acadêmicos e intelectuais estrangeiros. Mas ele preferiu escrever um livro acessível. Mas sem facilidades. Sua visão é bastante crítica, tanto em relação aos nigerianos quanto aos europeus.

BINTI, de Nnedi Okorafor, 96 págs., Tor.

binti

Binti é uma garota muito curiosa, matemática brilhante e filha de um fabricante de astrolábios. Ela faz parte do povo Himba. Um povo que dá valor ao conhecimento, mas muito fechado em si, bastante apegado às tradições. Quando a jovem decide viajar para outro planeta, onde se encontra a universidade mais prestigiosa da galáxia, gera-se uma crise familiar. Na viagem, o contato com uma raça alienígena será revelador para Binti.

A força da prosa da autora está em elaborar um texto simples, fluido, muito gostoso de ler, que levanta ideias pouco convencionais sobre os papéis da mulher, sede de conhecimento, poder do estado, tradição, modernidade e negritude. É uma história principalmente sobre a identidade que escolhemos para nós mesmos, a partir de nossa cultura e da relação com culturas diferentes. É um texto ora brutal, ora cheio de amor. Okorafor subverte as convenções da ficção científica para tornar o gênero mais vibrante.

UM JEITO TRANQUILO DE MATAR, de Chester Himes, 200 páginas, L&PM.

himes

Ao mesmo tempo brutal e delicado, mostra a comunidade negra do Harlem, nos anos 50, como um universo à parte, com suas próprias regras. Um cenário que é um misto de afirmação de identidade e consequência do racismo praticado pelas autoridades, pela sociedade em geral.

O talento de Himes está em mostrar esse universo por dentro, indo além das páginas policiais. A trama começa da forma mais violenta possível para terminar com um sopro de esperança. Essa virada radical é construída ao longo do livro sem ser forçada ou inverossímil, com a habilidade de um mestre.

KINDRED, de Octavia E. Butler, 264 págs., Beacon Press.

kindred

Acompanhamos a história de Dana, uma jovem escritora negra, na Los Angeles de 1976 (o romance foi publicado em 1979). Recém-casada, ao se mudar para a nova casa com o marido, Kevin, um escritor branco, inexplicavelmente, Dana é transportada no tempo e no espaço para a zona rural de Maryland, em 1815, antes da Guerra Civil Americana.

Este romance é um triunfo, tanto como peça de ficção quanto de reflexão. Butler flerta com a polêmica ao tratar da escravidão nos EUA de maneira complexa, sem ceder a maniqueísmos. Ganha a autora, por elaborar uma narrativa tão madura. Ganha o leitor, ao se deparar com um texto cheio de nuances e ideias desafiadoras.

AUTORES NACIONAIS

CLARA DOS ANJOS, de Lima Barreto, 304 págs., selo Penguin (Cia das Letras).

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Lima Barreto é obrigatório nesta lista. Em Clara dos Anjos, ele consegue a proeza de aliar o registro jornalístico, em sua descrição e opinião do Brasil da República Velha, modernizador, mas negligente, e o apuro literário, na construção de personagens cativantes pelo o que são, malandros, iludidos ou éticos.

Lima Barreto era um apaixonado pelo subúrbio carioca, a terra dos desassistidos. Mas, como disse um especialista, era uma paixão crítica, porque ele criticava todo mundo, os poderosos e o povo. É espantosa a atualidade de um texto escrito há quase cem anos, em sua percepção de mazelas que ainda persistem com um engajamento refinado contra o racismo. A novela é curta, mas essa edição da Penguin traz valiosos ensaios sobre a obra e muitas notas de rodapé.

OLHOS D´ÁGUA, de Conceição Evaristo, 116 págs., Pallas.

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Um livrinho poderoso. Os contos desta coletânea são como tapas na cara. A autora dá voz àquelas que sofrem tanto com o racismo e o machismo da sociedade: as mulheres negras em situações de risco. São empregadas domésticas, prostitutas, parceiras de bandidos, moradoras de rua, meninas, filhas, mães, avós, esposas, amantes.

Mas não pensem que o tom aqui é de lamento barato. São histórias fortes, violentas, menos convencionais, surpreendentes, contadas numa prosa de cheia lucidez e fúria. O contraste entre a forma poética e o conteúdo brutal é muito interessante.

RIO NEGRO, 50, de Nei Lopes, 288 págs., Record.

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Ficção com cara de crônica escrita por uma autoridade da cultura afro-brasileira. O polivalente Nei Lopes mistura pesquisa histórica e invenção, personagens reais e fictícios, para mostrar o protagonismo negro na criação da cultura popular do país, a partir do Rio de Janeiro dos anos 50.

Vemos o cotidiano rico e problemático de gente negra e suburbana. Gente que influenciou a identidade de toda uma nação, mas quase sempre invisível para a classe média e a elite. Em meio à adversidade, ao descaso social, nasceram o samba, o carnaval, a dança folclórica, o teatro negro, as artes plásticas negras, as expressões das religiões afro-brasileiras, os intelectuais da negritude.

UM DEFEITO DE COR, de Ana Maria Gonçalves, 952 págs., Record.

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A exceção da lista é um romance que já se tornou um clássico contemporâneo da literatura brasileira. Afinal, é complicado ler um tijolo de quase mil páginas em um dia! Mas podemos ler as primeiras 100, 200, 300 páginas desse épico tão íntimo.

O texto é fluido e os capítulos são divididos por subtítulos, o que torna a leitura bem ágil. É o relato de uma mulher negra no fim da vida, que viveu todas as violências possíveis, mas também ricas experiências, na África e no Brasil, no século 19. O mais fascinante da obra é acompanharmos tudo muito de perto, junto com a narradora, dentro de sua cabeça. Uma História viva, desmitificadora, muito além dos livros didáticos.

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