LUKE CAGE É UM MANIFESTO NEGRO E POP

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O verdadeiro poder da série Luke Cage é mostrar como a cultura pop pode abordar temas relevantes de uma maneira acessível. Muitas vezes, uma metáfora pode quebrar barreiras e estimular o debate com uma eficácia impressionante. A ficção pode mostrar um contexto mais coerente e articulado sobre a realidade, questionando mitos e preconceitos, levando as pessoas a refletir sobre o que realmente importa. A série faz isso, sem ser leviana nem pesar a mão.

Vemos aqui uma celebração da cultura negra num formato de série de super-herói. É a técnica do contrabando de que fala Martin Scorsese sobre os filmes noir dos anos 40 e 50. Filmes policiais e de suspense na superfície, mas que continham um rico subtexto sobre a natureza humana. Era um recurso que diretores subversivos usavam para escapar da censura e conquistar uma maior audiência. O mesmo foi feito nas séries do Demolidor, ao discutir os limites da justiça, e em Jessica Jones, sobre os papéis da mulher numa sociedade patriarcal. Em Luke Cage, a abordagem foca na questão da negritude, de como é ser negro num mundo racista.

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O criador da série, Cheo Hodari Coker, teve a benção da Marvel para mostrar sua visão, mas seguindo certas regras. Mesmo assim, ele conseguiu realizar a produção mais adulta da Marvel até agora. Usou sua experiência de ex-jornalista musical, roteirista e produtor de séries como Southland e Ray Donovan para tornar Luke Cage em algo vibrante e autêntico. O cara é negro e sabe do que está falando. Música, literatura, esportes, História, tudo isso faz do Harlem um personagem tão importante quanto o resto do elenco. Um personagem que merece que alguém lute por ele, o defenda.

Luke Cage tem um nível de produção que empolga mais do que decepciona. A ação pode não ser tão coreografada como na série do Demolidor. Mas, em seus melhores momentos, vemos lutas com energia, divertidas e brutais. O recurso do flashback é utilizado de uma maneira mais orgânica do que em Demolidor e Jessica Jones. O ponto alto é o quarto episódio, no qual conhecemos a origem do herói. É uma das melhores coisas que a Marvel já fez.

A série tem alguns dos diálogos mais afiados da TV ou do cinema americano recente. Por outro lado, o roteiro peca por sua falta de foco, conduzindo uma trama mínima por um tempo além do necessário. O que só deixa mais evidente os furos, as incoerências e as coincidências forçadas. Poderiam muito bem ter resumido a série em dez episódios, amarrando melhor as motivações dos personagens, sem prejudicar o desenvolvimento deles.

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E justamente os personagens são a grande atração. Temos atrizes e atores em excelentes performances. Mike Colter se estabeleceu de vez como um herói carismático, alternando vulnerabilidade e força. Os vilões são convincentes, charmosos e ameaçadores, algo muito raro no MCU. Mas a atenção mesmo vai para as personagens femininas. Aliadas ou adversárias, em papéis menores ou maiores, mostram como é um mundo comandado por mulheres negras. Mulheres tantas vezes vistas em Hollywood como figuras de terceira, quarta categoria. Destaque especial para a Misty Knight de Simone Missick, em sua determinação e fúria, e a Mariah Dillard de Alfre Woodard, com sua vilania em camadas, tão reconhecível em nosso cotidiano.

A Marvel está de parabéns por bancar uma série tão cheia de atitude, em colocar o dedo numa ferida tão dolorosa. Luke Cage é um poderoso manifesto pop. Como um rap que diz a real entre uma batida e outra.

Luke Cage, criada por Cheo Hodari Coker, 13 episódios (disponível na Netflix), Marvel Television/ABC Studios.

AVALIAÇÃO: RUIM, REGULAR, BOM, MUITO BOM, EXCELENTE

 

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