SOCO NO CÉREBRO, 4 CONTOS DE FC, FANTASIA E TERROR

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Eu sou um entusiasmado leitor de histórias curtas de FC, terror e fantasia: contos, noveletas e novelas. Muitos leitores só querem saber de romances, alegando que um conto, por exemplo, não é suficiente para satisfazê-los. A carga de envolvimento emocional é muito pouca, mal dá para o gasto. Muito melhor se dedicar a personagens e tramas que estimulem sua imaginação por páginas e páginas. Isso é pura besteira. Adoro ler romances, mas as histórias curtas têm uma sedução bastante particular. Os melhores escritores usam textos mais breves para contar histórias com muita intensidade, exigindo tanto comprometimento do leitor, que é impossível largá-las até chegarmos à última linha. Após a leitura, ficamos com uma sensação de fadiga, tentando colocar a cabeça no lugar, maravilhados, tocados, ou horrorizados. Mais do que um soco no estômago, como geralmente dizem sobre o conto tradicional, no caso do conto de FC, terror e fantasia, está mais para um soco no cérebro, com seus efeitos bastante ampliados na mente do leitor. Além do mais, o conto é ótimo para experimentações narrativas, formais. Por isso, adoro ler antologias e revistas de contos, seja em papel ou na internet, como a Trasgo e a Fantasy & Science Fiction. Acompanho sites como Clarkesworld, Lightspeed e Apex. Além de procurar contos que podem ser lidos nos sites de vários autores. A Amazon também está cheia de ótimas histórias curtas. Como estímulo para que mais pessoas se dediquem a ler contos, apresento quatro que são excelentes, escritos por autores nacionais e estrangeiros, renovadores da FC, da fantasia e do terror. E todas as histórias podem ser lidas de graça, apenas clicando nos títulos.

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A Noiva Diminuta, de Clara Madrigano, é um conto com clima de fábula, mas com uma pegada bem contemporânea. Texto gostoso de ler, fluido, elegante. Publicado na revista Trasgo n°8, conta a história de uma pixie, ser que cabe na palma da mão (metáfora bem sacada pela autora), e que acaba sendo disputada por dois sujeitos, um camponês humano e o rei dos pixies. Existem as reviravoltas cheias de emoção das fábulas. Contudo, a trama foge dos clichês e das soluções fáceis com muita habilidade. E o final é matador, sem nenhum ensinamento moral besta. É uma bela história, com um subtexto empoderador e maravilhoso.

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The Paper Menagerie, de Ken Liu, é uma das coisas mais triste que já li. Durante a leitura, não consegui parar de pensar em Calvin & Haroldo, as tirinhas de Bill Waterson, sobre um menino e seu tigre de pelúcia, transformado pela imaginação infantil num parceiro de aventuras. Algo semelhante acontece neste conto, envolvendo bichinhos de papel, de origami. Na verdade, a história é uma melancólica reflexão sobre família, em que a cultura chinesa tem importância central. Mas nada é apelativo, piegas. A história incomoda pela sinceridade do narrador, pela crueldade dele, que bem poderia ser a nossa crueldade no relacionamento com os pais. Por Paper Menagerie, Ken Liu ganhou os prêmios Hugo, Nebula e World Fantasy, os mais importantes de FC e fantasia americanos, em 2011.

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Lenda Urbana, de A. Z. Cordenonsi, é bastante criativo no uso da linguagem da internet para contar uma história de terror. Conversas em redes sociais são reproduzidas com todos os ícones, abreviações e jeito de teclar próprios dos ambientes virtuais. Paralelamente, num arquivo de Word, alguém escreve as primeiras linhas de um conto misterioso. A técnica narrativa funciona muito bem. O autor conseguiu desenvolver uma trama consistente e tensa a partir da interação entre os internautas. O clima lembra muito o de filmes de terror tipo found footage. Publicado originalmente na revista Somnium n° 107, o conto foi finalista do prêmio Argos, o mais importante de FC e fantasia nacional, em 2014.

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Lacrimosa, de Silvia Moreno-Garcia, é um conto que mistura, perfeitamente, o apuro textual, característico da chamada alta literatura, e a tensão dramática do melhor terror. É aquele tipo de terror psicológico, em que a perturbação e o medo surgem daquilo que é sugerido, no que está nas sombras. Acompanhamos o protagonista, que mora no Canadá, e seu interesse por uma estranha figura, uma moradora de rua. Ele acaba associando a mulher, em estado lastimável, a uma lenda urbana do México, sua terra natal. Isso o faz se recordar da difícil relação com a família, que não vê há muitos anos. É uma história forte, acima de tudo, pela alta carga emocional, que fala sobre preconceito, memórias e escolhas, os horrores do dia a dia.

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2 comentários

  1. Bruno Leandro · junho 16, 2016

    Graças a você conheci esses contos maravilhosos. Todos mexeram comigo de alguma forma. Confesso que o experimental de A. Z. Cordenonsi menos, mas ainda consigo reconhecer a qualidade da escrita.
    Só tenho a agradecê-lo pela apresentação.

    Curtido por 1 pessoa

    • ricardoescreve · junho 16, 2016

      A intenção era que as pessoas vissem contos não como algo menor, no sentido de menos importante, mas como algo diferente, que vale a dedicação na leitura tanto quanto romances.

      Curtido por 1 pessoa

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