NOVELETA “RAÇAS”: LEIAM UM TRECHO

raças

Inspirada em autores como Philip K. Dick, Isaac Asimov e John Scalzi, a noveleta Raças, integrante da antologia Estranha Bahia, mistura ficção científica e trama policial. Numa Salvador do futuro, humanos convivem abertamente com uma raça alienígena. Um policial humano, que faz bicos como investigador particular, é contratado para descobrir quem matou um criminoso alien. Diferenças culturais, preconceito, corrupção. Ninguém é inocente, até que se prove o contrário. Leiam um trecho:

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Início da gravação 8-B, 23 de outubro de 20… 01:19 AM

Fiquei de me encontrar com Lupo na Avenida Sete, na Praça da Piedade. Era um dia quente dos infernos, doutora. Eu rezava pro infeliz não se atrasar demais. Eu corria contra o relógio.

Gosto de ser pontual em meus compromissos. O pessoal do DP diz que essa é mais uma das minhas esquisitices. Falam coisas sobre mim, na minha cara. Mas as ofensas de verdade só pelas minhas costas. Fico sabendo de algo, mais cedo ou mais tarde. Carlão é o único que fala o que realmente pensa, olhando no meu olho. Ele me odeia. Qualquer dia desses, ele pode armar uma pro meu lado. Talvez até armar uma treta fortíssima e me dar um tiro na nuca… Que porra fiz ao cara? Não faço ideia, sério…

Bateu a sede.

Fui até um carrinho de água de coco, perto do gradil que cerca a praça.

“O que vai ser, chefe?”, disse o vendedor. Um sujeito franzino com uma expressão esperta, mas cauteloso.

“Um copinho bem gelado.”

Ele tinha sacado que eu era polícia?

Eu não usava óculos escuros. Vestia uma camisa de flanela folgada e calça jeans. Minha arma estava escondida na cintura.

Não costumo passar pela região a pé.

O vendedor me entregou um copo plástico gelado.

Uma garota de traços orientais, talvez coreana, talvez chinesa, passou por mim, me encarou. Parecia uma bonequinha de marmanjo. Daquelas, doutora, que os caras pagam não sei quantas prestações para adquirir as esposas mais obedientes e taradas do mercado.

Seus olhos eram púrpuros.

Ela não usava lentes de contato… Ou seria mais um daqueles idiotas que imitam os eladianos, usando lentes púrpuras?

Eu ainda não tinha bebido uma gota da minha água de coco.

Virei o copo de vez.

Amassei o copo e o joguei no cesto de lixo acoplado no carrinho.

Uma senhora se aproximou.

“Eu quero uma garrafinha.”

O vendedor a atendeu.

Tirei meu smarty do bolso da calça. Conferi as horas pela segunda vez desde que tinha chegado.

Lupo estava atrasado nove minutos.

Eu me sentia um alvo fácil. De pé, em silêncio, apenas observando. Enquanto a maioria das pessoas se movimentava pra lá e pra cá, na lerdeza ou às pressas. Até quem estava parado fazia algo útil, como vender suas mercadorias ou jogar conversa fora.

Chequei minhas mensagens. Nenhuma era de Lupo. Aquele filho da puta. Desculpe, doutora… Ele sabia que estava me devendo. Ele não era maluco de furar comigo.

O vendedor atendeu um casal de estudantes.

Reparei que o garoto e a garota usavam aqueles aparelhos em forma de pulseira, em que a tela é projetada no braço da pessoa, um holograma. Sumaya, minha filha, já quis me dar um desses. Eu disse não, obrigado. Seria pedir demais da minha rabugice.

Então meu smarty vibrou.

Era uma mensagem de Lupo: taxi corolla vidro preto.

Coloquei o smarty de volta no bolso, saquei minha carteira e paguei o vendedor.

“Fique com o troco”, eu disse, meio apressado.

“Valeu, chefe.”

O vendedor não pareceu surpreso com meu gesto.

Se ele soubesse que eu era polícia, não esperaria pagamento nenhum. A água de coco seria uma cortesia forçada.

Fui pra ponta do passeio. Tentei avistar o tal táxi.

Foi naquele ponto da praça que combinamos de nos encontrar.

O trânsito estava pesado, lento, mas não a ponto de travar tudo.

Era por volta das dez da manhã.

Passei a mão na testa pra limpar o suor em excesso.

Estava atento à movimentação dos carros. Então percebi quando um Corolla, todo laranja, com listras laterais em vermelho e azul, saiu da faixa do meio, ágio, indo pra faixa da direita. Acompanhou o fluxo mais livre, parou, seguiu devagar, depois acelerou o que pôde, ganhando terreno em segundos. Até parar quase ao meu lado, só um pouco mais na frente.

Os vidros eram completamente escuros, inclusive o para-brisa.

Dei alguns passos pra ficar lado a lado com o táxi.

A calçada tinha um passeio alto.

Não dava pra ver ninguém dentro do táxi.

Senti um friozinho na barriga. Paranoia de policial.

O vidro do carona desceu. Não reconheci o homem que apareceu na janela. Mas, no momento seguinte, fiquei mais tranquilo ao perceber que Lupo estava ao volante.

Ele também me encarou, avançando a cabeça, fazendo um esforço pra ser visto por mim.

“Entra aí, doido”, ele disse, em sua voz gasta de fumante.

Desci na pista e abri a porta traseira. Entrei no táxi.

Senti o friozinho do ar-condicionado.

E a pressão da minha arma nas costas contra o banco.

O rádio estava sintonizado numa emissora qualquer, o locutor falando sobre as notícias do dia.

“Não vai estourar comigo, vai?”, Lupo disse, olhando pra mim pelo retrovisor interno. Depois olhou pro seu retrovisor, aguardando uma brecha no trânsito pra ir embora.

“Relaxe, cara. Você tá me fazendo um favor, não tá?”

Nossos olhares se encontraram no retrovisor interno. Parecia que tudo estava resolvido entre a gente.

“Esse aqui é meu irmão”, Lupo disse, checando mais uma vez o trânsito pelo seu retrovisor.

O tal irmão virou a cabeça.

“E aí?”, ele disse.

“Tudo certo”, respondi.

Lupo arrancou com o táxi.

“Detetive, você sabe que seu smarty foi provisoriamente desativado.”

O tom de Lupo era de pura ironia.

Paguei a ironia com um sorriso de canto de boca.

Era o lance da possibilidade de rastreamento, doutora.

Sim, eu sabia que o táxi tinha algum dispositivo que bloqueava o sinal de qualquer smarty. Na verdade, de qualquer aparelho invasor. Mesmo desligado, meu smarty não podia ser rastreado.

Provavelmente, o rádio funcionando era a chave do mistério.

Mexi o corpo, fui sentar bem no meio do banco. Assim eu teria uma melhor visão dos meus companheiros de viagem.

“Depois dessa, você vai ficar um bom tempo sem me pedir um favor, detetive.”

Lupo tentava dar atenção ao trânsito e, pelo retrovisor interno, a mim.

“Fique tranquilo. Sei muito bem qual é o preço do meu favor.”

“Cara, isso envolve os transparentes, os turistas, vocês da cana. É muita coisa numa confusão só.”

Lupo conseguiu espaço pra entrar na faixa da esquerda.

O barulho e a luminosidade da rua praticamente ficaram do lado de fora. Estávamos quase em outro mundo. Uma bolha de conforto e segurança.

O táxi era o escritório de Lupo. Na verdade, ele tem dois ou três carros adaptados como aquele. Que eu saiba. Um bem diferente do outro.

“Eu quero ouvir a história. Só isso.”

O irmão de Lupo se mexeu no assento. Senti que estava nervoso.

Ele era mais jovem. Não tinha a mesma fisionomia de Lupo. Provavelmente eram meios-irmãos. Filhos de algum bicho solto no mundo.

Três caras negros dentro de um carro. Motivo suficiente para qualquer blitz da PM mandar encostar. Mesmo sendo um táxi.

Só não era pior do que três eladianos dentro de um carro.

Lupo parou na entrada de uma ruela. Esperou alguns pedestres passarem. Então se enfiou naquele lugar estreito, meio em declive. Fomos dar na Avenida Carlos Gomes.

Na minha opinião, doutora, o Centro de Salvador é um museu bizarro a céu aberto. Mistura de decadência com uma modernidade de plástico, de péssimo gosto.

Avançamos na avenida sem qualquer problema. Naquele instante, naquela faixa, o trânsito estava livre. Até nos misturarmos ao resto dos carros, ônibus e motos que vinham na retaguarda.

“O que vocês têm pra mim?”

O irmão de Lupo olhou pra ele. Lupo fingia só estar interessado no trânsito.

“Conta”, Lupo soltou, finalmente.

O irmão pigarreou.

Enquanto contava a história, ora ele se virava pra trás, na minha direção, ora voltava pra encarar o para-brisa escuro.

A programação do rádio, um misto de músicas, notícias e propagandas, não aborrecia, não atrapalhava.

“Cara, isso eu ouvi de um cliente meu, ontem. Ele mora num condomínio de mansões no Caminho das Árvores.”

“Qual o nome do seu cliente?”

“Pra que dizer o nome do cara? Você vai mexer com ele?”

O irmão me encarou com uma expressão de poucos amigos.

“Deixa pra lá.”

“Como eu tava dizendo… esse meu cliente viu uma movimentação estranha no condomínio, durante a madrugada da segunda-feira. Por coincidência, ele não tava chapado naquela noite. Tava bêbado, mas deu pra ver o que acontecia do lado de fora. Parece que mais ninguém notou o que tava rolando.”

“Ou alguém mais também viu e não quer abrir a boca.”

“Não interessa. Você quer ouvir a história, certo?”

O irmão me encarou.

“Prossiga.”

Fechei a cara. Aquela figura começava a me irritar, doutora.

A expressão de Lupo estava tensa. Ele tentava, ao mesmo tempo, ser um ouvinte e um motorista atento.

Ele entrou no Largo dos Aflitos. Iríamos pra Cidade Baixa, pensei na hora. Eu queria saber que zorra íamos fazer por lá. Mas deixei o assunto quieto.

“Meu cliente tava com uma prima. Ele é engenheiro. Na hora, ele não tava chapado. Senão não dava pra comer a menina direito.”

“Não enrola.”

Lupo encarou o irmão, esquecendo por dois segundos a ladeira íngreme que descíamos.

Também por dois segundos fiquei apreensivo, com medo de acontecer um acidente.

Os dois idiotas travaram uma rápida batalha de nervos, um encarando o outro.

“Tá bom”, disse o irmão, aborrecido.

Lupo voltou a prestar atenção à ladeira.

O irmão continuou:

“Teve uma hora que meu cliente foi até a parede envidraça da sala da mansão, que fica no primeiro andar. A parede dá pra rua de acesso do condomínio. As cortinas tavam abertas, mas a casa tava às escuras. Ele tava bêbado, pensando não sei o que da vida, talvez como ele era um merda, privilegiado, mas um merda, quando ouviu um som medonho e agudo… ele me disse exatamente isso: medonho e agudo… Algo que ele nunca tinha ouvido antes…”

Lupo alcançou a Avenida Contorno. Mesmo interessado na história, eu tive que virar a cabeça e dar uma checada no mar brilhando lá embaixo, a perder de vista. Nunca me canso de apreciar aquele marzão.

“Ele não soube sacar de onde exatamente tinha surgido o grito. Olhou pra um lado e pro outro pela vizinhança, mas nada. A rua de acesso do condomínio tava deserta. Apenas três ou quatro casas tavam com as luzes acesas, mas não dava pra ver ninguém. Nenhuma casa ali tem muro na frente…

“Ele poderia ter voltado correndo pro quarto pra junto da prima, mas a curiosidade foi mais forte. Quase acendeu um cigarro, mas acabou se tocando que seria puro vacilo. Ele não tinha muita noção do tempo, afinal tava bêbado. Ele não sabia direito quanto tempo levou até perceber uma movimentação três casas à sua esquerda, do outro lado da rua…

“A casa tinha um largo portão na garagem. O portão se levantou. Lá dentro, uma Mercedes com os vidros completamente escuros deu a partida, acendeu os faróis e saiu, meio às pressas… Não deu pra ver quem era o motorista, ou se tinha mais alguém junto… Ele percebeu que as luzes da casa continuaram acesas. Achou até que viu uma movimentação lá dentro… Ele esperou, esperou, esperou pra ver se acontecia mais alguma coisa… Aí meu cliente perdeu o interesse e voltou pro quarto pra continuar bebendo e trepar…”

“Esse seu cliente viu a Mercedes de novo?”, perguntei.

“Não, nunca mais.”

“Placa do carro?”

“Tá viajando, cara.”

“Mas seu cliente sabe quem é o dono da casa.”

O irmão deu um sorrisinho.

“Um tal de Bruno Villa Corrêa, um advogado.”

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