RAÇAS

reign

Elogiar a si mesmo tem um pouco ou muito de babaquice. Mas acabo de terminar a versão final de uma noveleta para a antologia Estranha BAHIA​. Cerca 12 mil palavras, 23 páginas no word, espaço simples. Depois de anos e anos de muita leitura, muitos textos jogados fora ou engavetados e alguns poucos publicados, começo a perceber uma maior consistência no meu trabalho. Essa noveleta é um divisor de águas pra mim. Na minha opinião, totalmente comprometida, é superior ao meu primeiro romance ou a qualquer outra coisa que já publiquei. Chama-se Raças. É um história que mistura FC e policial, com uma pitada, principalmente, de K. Dick, Asimov, John Scalzi, Kameron Hurley, Hammett, Chester Himes, Patricia Highsmith, C.J. Cherryh, Ursula K. Le Guin e Kristine Kathryn Rusch. O cenário é uma Salvador do futuro, em que humanos convivem abertamente com uma raça alienígena, com intercâmbio de culturas, mas muita tensão também, muito preconceito de ambos os lados. O protagonista é um policial negro que divide seu tempo entre o serviço na Força e os casos que investiga, como detetive particular, para quem possa pagar seu preço. É um anti-herói num mundo corrompido. Confiram um trecho:

Confesso que, mesmo como um policial veterano, senti um frio na espinha. Eu não sou como Carlão, metido em esquemas fortes, de grana alta. Sempre me vi como peixe pequeno. Talvez por isso ninguém nunca mexeu comigo. Ou foi pura sorte mesmo. Se algum dia Carlão meter uma bala na minha nuca, apenas minha filha vai chorar por mim. Carlão me odeia de graça, mas ele mesmo já me disse que me respeita mais do que os filhos da puta metidos a padre da Força. Ele me considera um cara estranho, mas alguém do mesmo time. Mesmo time o caralho! Desculpe, doutora… É que eu não fico tocando o terror, barbarizando.

“Boa noite, doutor Camargo.”

Nem percebi o garçom chegar com minha bebida.

Ele também tinha olhos púrpuros.

Colocou o copo na mesa.

Agradeci.

Ele se retirou.

Observei o copo. As folhas de hortelã flutuando no líquido transparente chegavam a brilhar naquele ambiente de luz azulada.

Tomei um gole modesto. Tive certa dificuldade pra mexer o rosto.

A melhor vodka que tomei na vida.

As folhas de hortelã tocaram meus lábios. Senti um frescor intenso.

Minha vontade era de continuar bebendo, mas segurei a onda. Precisava me concentrar na missão.

Coloquei o copo na mesa.

Tentei reconhecer alguém famoso. Afinal, estava no lugar mais badalado e exclusivo da cidade.

E precisava ser alguém realmente famoso. Não acompanho muito internet nem cinema. O rosto da figura tinha que estar em todos os lugares pela mídia.

Olhei pro lado e percebi um grupo de quatro ou cinco, mulheres e homens, relativamente próximos de mim. Todos estavam animados, conversando, rindo, bebendo. Pareciam todos humanos. Não davam bandeira, mas com certeza estavam sob o efeito de alguma droga, além do álcool. Nada tão forte como cristais de elad ou de hazrt, mas com certeza alguma outra droga alien mais leve.

Eu podia jurar que a garota de pele clara e cabelo escuro com mechas prateadas era apresentadora de algum programa no mytube, sobre games, moda, filmes… assuntos ligados aos jovens.

Eu jurava que tinha visto Sumaya, minha filha, vendo esse programa algumas vezes, quando ainda tinha seu smarty e não aquele porqueira de pulseira holográfica. E também jurava que já tinha visto o rosto daquela garota em algum cartaz de propaganda por Salvador.

Deixei o grupo pra lá.

Peguei o copo da bebida. Desta vez, o gole foi mais generoso.

Por um instante, fiquei meio aéreo, a mente longe, observando as pessoas dançando na pista central.

De início, eu não estava focando em ninguém. Mas uma mulher acabou chamando minha atenção. Ela era negra, cabelo black power, o vestido deixava as costas nuas. Estava na cara que adorava dançar e fazia aquilo muito bem. Já o cara que estava com ela estragava o cenário. Não que ele fosse péssimo. Mas ela dançava como uma profissional, e ele não passava de um esforçado amador.

Então, doutora, não acreditei no que via.

Era ele. O dançarino era a porra do advogado!

Me ajeitei no sofá.

Não estava vendo coisas. Não estava confundindo ninguém. Era ele mesmo.

Era o mesmo cara das fotos e vídeos que Mânica tinha me mostrado. Não era só a fisionomia. Era o jeito dele também. A maneira como se movimentava, expansivo, elétrico.

Bruninho pros amigos. Doutor Villa Corrêa pros clientes. E os inimigos o chamavam de quê? Cara, vou fazer você falar, pensei na hora.

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