MENTIRA BRANCA PESADA

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Rachel Dolezal atualmente e na adolescência

Nos últimos dias, a imprensa americana e a de outros países noticiaram e analisaram um caso curioso envolvendo raça e identidade. Rachel Dolezal, uma ativista dos direitos dos negros na pequena cidade americana de Spokane, estado de Washington, que sempre se apresentou como negra, foi acusada pelos pais biológicos de, na verdade, ser branca.

Questões de raça, etnia e preconceito nos EUA são muito bem definidas. Lá um americano é alguém que geralmente se reconhece e é reconhecido por pertencer a um determinado grupo étnico, herança de tantas levas de imigrantes de todo o mundo que foram fazer a América. Caso à parte são as pessoas oriundas da África, levadas à força pela escravidão, e dos nativos americanos, que tiveram suas terras invadidas.

Então mesmo que a pessoa não tenha características físicas típicas de determinado grupo étnico, ao se conhecer sua família e seu passado, esta pessoa, nos EUA, sempre será identificada como irlandês, paquistanês, italiano, latino, ou negro.

Fisicamente, a pessoa pode até ter a pele clara e um cabelo que não seja exatamente crespo. Mas ela será considerada uma pessoa de cor, quando se conhece sua herança étnica e cultural. Muitas vezes, a vida de quem é birracial nos EUA não é fácil, tendo que sofrer com o preconceito não apenas dos brancos, mas também de seu próprio povo.

O significado popular do termo raça só traz mais confusão para o entendimento de casos como esse. Dividir a humanidade em raças a partir da cor da pele é um erro. A Ciência mostra que geneticamente todos nós somos muito parecidos, sendo as variações físicas adaptações evolutivas a cada ambiente ao redor do planeta. Do ponto de vista social, o termo raça tanto está relacionado a justificativas para propagar o preconceito e violência como estimular à afirmação, a busca por direitos. Portanto, raça só existe uma, a humana. Mas enquanto o racismo existir, a cor da pele ainda será tema para debate.

Por isso, o caso de Rachel Dolezal gerou tanta polêmica, entre negros e brancos.

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Os pais biológicos de Rachel Dolezal

Tudo começou com a publicação de uma reportagem num jornal local, questionando a identidade racial de Dolezal. Na reportagem, seus pais biológicos, que moram no estado de Montana, afirmaram que Dolezal era branca.

Os pais afirmaram que a filha tem ascendência alemã e tcheca, com algum traço de nativos americanos. Mostraram a certidão de nascimento e fotos antigas. Depois que a reportagem foi publicada, o caso explodiu na imprensa americana e na internet.

Em resumo, a trajetória de Dolezal vai de uma família branca religiosa conservadora (ela não fala com os pais há anos), com uma longa temporada no Alabama, convivendo com muitas pessoas negras, chegando a Spokane, uma cidade com 2% de população negra. O ex-marido de Dolezal é negro.

O que torna a história dela bizarra são as várias mentiras para sustentar sua negritude. Ela sempre apresentava um homem negro como seu pai nas redes sociais. O filho negro adotado por ela, na verdade, é seu irmão adotivo. Ela se considerou negra para receber uma bolsa de estudo numa universidade importante e para presidir a comissão de ombudsman da polícia de Spokane.

O triste de tudo é que, conforme os relatos da impressa e de gente que a conhece, afirmam que ela é um membro ativo da comunidade de Spokane (como os arquivos on line do The Spokesman-Review podem mostrar desde 2005), uma professora universitária que ensina Cultura Afro-Americana e presidente local da NAACP (National Association for the Advancement of Colored People), uma das mais importantes entidades do movimento negro nos EUA. Ou seja, ela é uma pessoa que está nas trincheiras na luta pelos direitos dos negros, como disseram. Mas o problema é que os fins não justificam os meios.

As tentativas de Dolezal de se defender não foram muitos convincentes. Após o escândalo, ela deu uma entrevista sustentando sua posição.

Em artigo no The Guardian, Alicia Walters, ativista pelos direitos das mulheres negras, se mostra insultada com a farsa de Dolezal. Walters nasceu e cresceu em Spokane. Filha de mãe branca e pai negro, ela é mulata, de cabelos crespos. Em seu relato, ela diz que, quando criança e adolescente, sempre sofreu a rejeição dos outros por ser negra. Até mesmo de garotos negros, que preferiam namorar meninas brancas. Ela foi tão afetada pelo preconceito que tentava alisar o cabelo para ser mais aceita. Apenas depois que ela assumiu sua negritude e seu cabelo natural foi que percebeu como sua tentativa de branqueamento era absurda. Segundo ela, ser negro, ser uma mulher negra não tem a ver apenas com cabelo, mas sim com o histórico pessoal e daqueles que o cercam em sua vivência como negros, com todos os traumas, rejeições, estereótipos e violência.

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Dolezal também é famosa por seus penteados afro

Acusaram Dolezal de praticar blackface.

O que me levou a pensar sobre a apropriação da cultura negra como produto de consumo.

Durante décadas, pessoas negras têm influenciado a cultura americana, principalmente na indústria do entretenimento (as influências na Ciência e em outras áreas sempre foram menos visíveis). Na música, no cinema, na televisão. E durante décadas, houve as versões de artistas mais palatáveis ao gosto do público médio branco. Pelo menos, desde os anos 1940, vemos artistas americanos brancos agindo como se fossem negros. Esse foi e continua sendo uma forma menos óbvia de blackface. Por mais que apreciemos alguns desses artistas brancos essa é a verdade.

Aqui no Brasil, isso também acontece. Sou de Salvador. E uma coisa que sempre me irritou foi o título de Daniela Mercury como “a branquinha mais neguinha da Bahia”. A expressão saindo inclusive da boca da própria artista. É muito fácil se apropriar da cultura negra e não levar o racismo a tiracolo.

O problema do caso Dolezal não é uma mulher branca lutar pelos direitos dos negros. Mas ter criado uma farsa para atingir seu objetivo, por mais nobre que seja (e eu tenho minhas dúvidas de que seus motivos sejam tão nobres). Sua atitude é uma ofensa, principalmente, às mulheres negras americanas. A maioria carrega um histórico de abuso, preconceito e violências sofridos, num país declaradamente racista.

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